domingo, 25 de dezembro de 2016

Noite de Natal

«Pai, dizem que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono – a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas da
morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome – porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.»

Maria do Rosário Pedreira, Nenhum nome depois, Lisboa, Gótica, 2004.


Um jeito manso

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O homem da cidade, camponês

"Na arrecadação das obras havia um telheiro e no telheiro um homem sentado à sombra, a comer. Esse homem, embora trabalhasse há muitos anos na cidade e a tivesse ajudado a construir, era no fundo um camponês. Tinha a pele escura dos cavadores de sol a sol e, como veremos, a voz demorada de quem foi criado longe de máquinas e confusões.
[...] 
Comia lentamente, sem gosto, apenas para sustentar o corpo, e também nisso se parecia com os camponeses, que se alimentam, não comem. Um cavador mastigando em pleno descampado comeria decerto assim - com aquela mesma solidão; talhando à navalha na palma da mão, poupando o conduto, bebendo pela garrafa em goladas pensativas."

José Cardoso Pires, "O conto dos chineses" In O Burro-em-pé, Lisboa, D. Quixote, 1999.

Deste livro fazem parte cinco contos: "Os reis mandados", "O conto dos chineses", "Nós, aqui por entre o fumo", "Dinossauro excelentíssimo", e "Celeste e Làlinha: Por cima de toda a folha". A primeira edição é da Morais, de 1979, com ilustrações de Júlio Pomar; a segunda é da D. Quixote.




segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Outono e melancolia II












"A peça", explicou [Edward Albee, a propósito da sua peça Equilíbrio invisível] , "trata (...) da rigidez e da paralisia que aflige aqueles que (...) um dia acordam e descobrem que todas as escolhas que evitaram já não lhes dão liberdade de escolha e que as escolhas que ainda estão disponíveis são irrelevantes."

Edward Albee citado por Pedro Mexia na sua crónica do Expresso desta semana - "Fraco consolo: o tempo acontece", E - a revista do Expresso, 3/12/2016.