quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Uma cantiga de Chico Buarque, os discursos delirantes e o machismo



Parece que esta cantiga de Chico Buarque está a ser alvo de críticas por causa do machismo da sua letra. A estupidez, de facto, não tem limites. Quanto a mim, é uma cantiga linda, linda, que dá voz ao amor, um amor ideal, é certo, mas a sublimação das perfeições imperfeitas da vida não tem sido uma das características da arte?
Neste verão, o politicamente correto e as abordagens superficiais e vazias das questões de género invadiram a comunicação social, incluindo as redes sociais. É para o menino, é para a menina, é para o género neutro? Enfim, admitindo que haverá argumentos justificativos da vontade de abolir a identidade de género e respeitando as opiniões alheias, não deixo de afirmar que, para mim, a ideia de um mundo neutro, assético, é repugnante e lembra-me desvios eugénicos de má memória, o que não significa que considere que o estatuto e a respeitabilidade das mulheres (meninas, raparigas, senhoras e assim-assim...) estejam adquiridos. De facto, quer a nível social, quer a nível familiar e pessoal há ainda um longo caminho a percorrer.
Neste sentido, talvez fosse mais proveitoso discutirmos os vestígios de velhas instituições como a de chefe de família, de dona de casa, de mãe de família, de filha e da outra, etc.; seria igualmente pertinente refletir sobre a (des) valorização do trabalho e do conhecimento das mulheres, tanto a nível remuneratório, como no seio da família e na sociedade, constatando-se que, não raro, esta continua a exigir às mulheres escolhas impossíveis: entre o trabalho e a participação na vida pública e a maternidade, a conjugalidade e a família; entre o sorriso brando e a afirmação de ideias próprias com entusiasmo e veemência...

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