sábado, 11 de fevereiro de 2017

Literacia mediática e redes sociais

O que é a literacia mediática?

A Comissão Europeia apresenta-nos esta definição de literacia mediática:

«Em geral, define-se literacia mediática como a capacidade de aceder aos media, de compreender e avaliar de modo crítico os diferentes aspectos dos media e dos seus conteúdos e de criar comunicações em diversos contextos. […] As mensagens dos media são conteúdos informativos e criativos incluídos em textos, sons e imagens transmitidos mediante diferentes tipos de comunicação, nomeadamente televisão, cinema, vídeo, sítios Web, rádio, jogos vídeo e comunidades virtuais.» (Comunicação da  Comissão ao Parlamento Europeu, ao Conselho, ao Comité económico e Social Europeu e ao Comité das Regiões - Uma abordagem europeu da literacia mediática no ambiente digital, 2007.)

Na mesma comunicação, incluem-se nesta literacia os meios de comunicação social, as mensagens dos media (conteúdos informativos e criativos, sob a forma de texto, som ou imagem), os canais de distribuição (televisão, cinema, vídeo, sítios da Web, rádio, jogos vídeo, comunidades virtuais), a comunicação comercial (publicidade), obras audiovisuais (cujo acesso é facilitado pelas tecnologias digitais) e ambientes em linha. De tudo, destaco as comunidades virtuais e, por exemplo, o Facebook. Esta rede social potencia a comunicação, tanto pessoal como de trabalho, sendo, portanto, uma mais-valia em termos informativos, comerciais e de acesso a informação e ligação a outras pessoas; mas quem se dará conta da quantidade de dados pessoais de que dispõe e que pode usar, e usa, para fins comerciais da empresa, de segurança ou outros, sempre em detrimento da privacidade?

Segundo Timothy Garton Ash (2017)*, as questões da privacidade e da liberdade nas redes sociais são muito relevantes. Refere a este propósito:

«Se acreditamos que diferentes níveis de privacidade e de exposição pública são essenciais para a riqueza da liberdade de expressão, e quando já tiver sido feito tudo o que é possível pela lei, pela regulamentação e pelas normas tecnológicas e industriais, iremos portanto ter de considerar ainda como é que nessas condições drasticamente alteradas escolhemos falar. [...] [P]odemos refletir sobre como usamos o Facebook e as outras plataformas. Se dominarmos suficientemente as configurações de privacidade para limitarmos com quem partilhamos as coisas, e formos capazes de as remover mais tarde - porventura com a ajuda de algo como os prazos de validade incorporados de Mayer-Schönberger - podemos começar a restaurar as tradicionais limitações de tempo e de espaço que a internet pulverizou. Isso deixa-nos livres para utilizarmos a capacidade que a internet para transcender tempo e espaço quando realmente quisermos [...].» (p. 98)

Têm os utilizadores das mencionadas redes sociais consciência destas questões e literacia mediática e digital suficiente para "escolherem"?


* Timothy Garton Ash. O firme princípio da liberdade. Ler. Inverno de 2016/2017. nº 144.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

A morte é de todos e virá

O debate sobre a eutanásia incomoda, ainda mais quando os argumentos se revestem de tom de autoridade e de abstrações sobre eventuais livres arbítrios, envolvidos em julgamentos morais. É tão triste que a resposta ao sofrimento seja a morte e a ideia, por vezes implícita, de que não há dignidade nem amor na dor de quem está de partida ou de quem se despede.
Todavia, não me parece negativo que se discutam estas matérias, se incluídas numa reflexão mais vasta sobre a condição humana (... a certeza da mortalidade, tão íntima e pessoal e, simultaneamente, de todos) e sobre o que as pessoas e a sociedade têm para ajudar e confortar aqueles que sofrem e que estão no fim do seu caminho.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Calisto Elói - um homem de todos os tempo

V

ESTREIA PARLAMENTAR DE CALISTO


Antes de apresentar-se na sala das sessões, Calisto Elói de Barbuda leu o Regimento Interno da Camara dos Deputados, juntamente com um colega transmontano, o abade Estevães, sujeito de anos e doutrinas monárquico-absolutas.
O morgado de Agra embicou logo na forma do juramento, e disse que não jurava sem aspar as palavras que o obrigavam a ser inviolavelmente fiel à carta constitucional. O abade quis amaciar-lhe a rigidez de espíritos, absolvendo-o do perjúrio, que não era sério, porque já de si o juramento era irrisório e mera brincadeira de nenhum peso na balança da justiça divina.
E alegava o clérigo esclarecido que os representantes da nação, conquanto jurassem fidelidade à religião católica-apostólica-romana, eram aliás ateus; jurando fidelidade ao rei, injuriavam-no nas gazetas; jurando fidelidade à nação, avexavam-na de tribunos, e alguns a queriam fundir na Espanha. [...]

Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo, Editores Reunidos/RBA/Público, 1995.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Cultura pop

Leio uma entrevista a António Araújo, na revista Ler (Inverno 2016/2017, nº 144) - "Esquerda e direita já não são o que eram - nem voltarão a ser", por Filipa Melo, e deparo-me com esta tese interessante:

«A minha única "tese", que pode ser considerada um lugar comum, mas que procurei ilustrar até à saciedade, é a de que a grande clivagem não é tanto entre esquerda e direita, mas entre elites e não-elites.» (António Araújo)

O meu pensamento divergiu para outros dizeres e áreas, notando que a ideia que cada um de nós faz de uma época (anos 80...) é muito limitada à experiência individual ou de um grupo restrito, a um meio social, a um espaço geralmente urbano, com os seus ícones de consumo.

Nem todos frequentaram o Frágil, dançaram ao som dos Duran Duran ou comeram Tulicreme! Nem todos partilharam a cultura pop em todo o seu esplendor ou frequentaram os lugares da moda da Lisboa bem-pensante e gira dos anos 80.

A clivagem em Portugal, e noutros pontos do globo, é, de facto, entre elites e não-elites? Parece-me evidente que ela existe e que é factor de grande incompreensão e preconceitos.

(Imagens do Google Images)