sábado, 7 de abril de 2018

Tristeza

Depois dos doces pascais, Luísa Dacosta e o gume afiado das suas palavras, belas, luminosas, incandescentes, cortantes...
Luísa DacostaLuísa Dacosta

«Não quero comprar nada. Preciso do dinheiro.» Para aquilo. Se ao menos lhe tivesse pedido ajuda! Mas não. Sozinha. Abandonada. E se morresse? Tudo aquilo lhe doía como um segundo parto, doloroso, frustrado, inútil. Mas não conseguia chorar. 

[...]

No silêncio dos seus olhos fechados percebeu os passos da mãe a encaminharem-se para ali. Ficou ainda mais quieta, esforçando-se para não pestanejar, resistindo à faixa de luz que inundava o quarto. Depois abriu devagar o canto de um olho. A mãe, de joelhos, tirava de baixo da cama da Adelaide uma bacia de toalhas ensanguentadas. Esquecida de continuar a fingir, olhava aterrada todo aquele sangue, quando a mãe se voltou:
- Que estás a ver?
Virou-se para a parede e abafou os soluços debaixo da roupa. Queria dormir. Queria dormir depressa. E, para espantar o medo e chamar o sono, pôs-se a repetir a conjugação reflexa que a professora marcara para o dia seguinte: «Eu lavo-me, tu lavas-te, ele lava-se, nós lavamo-nos...»

Luísa Dacosta, Vovó Ana, bisavó Filomena e eu, Porto, Figueirinhas, 1983.

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