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sábado, 26 de novembro de 2016

A equipa e os atacadores novos

"É claro que a equipa dos «pára-quedistas» nem tinha hipótese de combinar a mínima jogada antes de o torneio principiar. O que saísse, saía. Mas a esperança tarda em murchar nos peitos de oito anos e essa mesma tarde lavei muito bem lavadas as minhas sapatilhas, às quais juntei atacadores novos.
[...]
Chegara, enfim, o momento de mostrar aos tutti quanti que o craque não nascera para figuras tristes. Equipados os Rochas de camisas e os pára-quedistas com o peito à mostra, o Zé Costa Grilo agarrou o apito de madeira, rectificou a distância entre os postes (calhaus grossos) das balizas e deu início ao prélio. Durante toda a primeira parte estudámo-nos mutuamente, o Rocha mais velho a marcar-me o homem a homem, o mais novo bruto com o Camané, que o pisava a torto e a direito e nem pedia desculpa. Zero a zero ao intervalo. Foi, pois, na segunda parte que o craque exibiu à luz do sol a sua última habilidade: o chuto à Correia Dias, homenagem muito séria ao avançado-centro do Futebol Clube do Porto. O chuto à Correia Dias constituía apenas em caçar a bola de qualquer maneira e dar-lhe com toda a força, tipo coice (o Correia Dias que me desculpe). O um a zero consegui-o assim, deixando boquiabertos Rochas, Grilos, primos e penduras. Aos dez minutos papei o Rocha mais novo em corrida, fintei o mais velho por fora e bumba, coice para a baliza. Viria ainda o três a zero, já com os Rochas sem saber se eu era o miúdo da Rua Guerra Junqueiro, o jeitoso do quintal do Luís Marques, ou se por debaixo da minha pele se escondia um internacional inglês." (pp. 25-26)

Fernando Assis Pacheco, Memórias de um Craque, Lisboa, Assírio e Alvim, 2005.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Trabalho colaborativo













Este é o conceito do momento. Mas como pode o dito passar à prática quando as sensibilidades se ressentem se uma vírgula se altera sem consentimento prévio, solicitado e dado através de meios indiretos, metáforas e outras cornucópias estilísticas? Tomamos chá ou seguimos em frente? A vida está lá fora à minha espera. Tardo.

terça-feira, 12 de abril de 2016

"história da literatura com caracóis e uma imperial"

O título desta entrada é de J.D, a propósito de uma fotografia no Facebook, de uma história da literatura antiga e de Ana Hatherly, autora do poema citado:


os caracóis e as carpas têm cornos

os caracóis e as carpas têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carpas e os caracóis não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracoias e os carpos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os carapoicos e os parcos não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carapaias e os porcos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracoicos e as parras não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carassaias e os parcas têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracorpos e as praias não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracaias e os poicos têm
vês

Ana Hatherly
um calculador de improbabilidades
Quimera
1ª edição 2001

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

endless

Nem apetece chamar-lhes envelopes.  Está frio, não há liquido que aquente, mesmo que em dose reforçada. Talvez um agasalho de caxemira, talvez uma bebida mais espirituosa. Ainda assim...

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

domingo, 27 de outubro de 2013

Onde estais, D. Ricardo, O Coração de Leão?

 
 
An illustration of the Sheriff of Nottingham from
 Bold Robin Hood and His Outlaw Band:
Their Famous Exploits in Sherwood Forest. Louis Rhead.
New York: Blue Ribbon Books, 1912.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Interrogar o riso


Ainda a propósito do riso, cito, do catálogo da exposição "Riso", que decorreu no Museu da Eletricidade, em Lisboa, de 19 de outubro de 2012 a 17 de março de 2013:
 
"Rimos de quê? De nós e dos outros, da vida e da morte, do bem e do mal, da felicidade e da desgraça, da autoridade e da anarquia, dos deuses e dos demónios, da terra e do céu.
Rimos como? Com a mente e com o corpo, com o som e com o silêncio, com alegria e com tristeza, com generosidade e com agressão, com compreensão e com intolerância, com inteligência e com estupidez, com bondade e com maldade, com subtileza e com grosseria, com oportunidade e sem ela.
Rimos porquê? Porque queremos ser superiores àquilo de que rimos, porque queremos que a nossa inferioridade resista à superioridade dos outros, porque queremos vingar-nos do que nos fizeram, porque queremos afirmar poder e saber, porque queremos mostrar indiferença ao que não nos é indiferente, porque queremos que reparem em nós, porque queremos criticar, porque queremos castigar o que achamos mal, porque queremos disfarçar, porque queremos esconder, porque não temos palavras para dizer o que queremos dizer, porque nos fazem cócegas, porque estamos nervosos, porque estamos carentes, porque temos medo, porque temos vergonha, porque queremos mudar de assunto, porque achamos graça, porque queremos ter graça, porque somos loucos, porque estamos felizes." 
 
 
Nuno Crespo et alii, "Riso, modos de usar" in Riso, Lisboa, Fundação EDP e Tinta da China Edições, 2012, pp. 26 e 27.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Diário de Maria Amélia X


- ... e não sei nomes de comprimidos.
- Mas vais saber.
- Vou?
- Sim, os nomes dos comprimidos que vais ter de tomar para os nervos.

quarta-feira, 20 de março de 2013

os olhos abertos

 
 
 
 
 

- Está óptima. Tem uma visão perfeitamente normal para a idade.
- Ah! (...)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

ia ali, mas vou ali e já venho

Dirigia-se para consultório especial, quando se lembrou da conversa desta tarde...

Recebera a carta, pelo que se dirigira aos serviços:
- ...
- Agora, volte no prazo de um ano.
- ?
- Sim, tem de registar pelo menos uma por ano.
- Mas... eu não tenho nada.
- Pois, mas se quiser continuar... tem de ser uma por ano.
- Mas...
- Então, e r... faz sentido?
- ?!?
- Pois, não a r...? Recebeu o que tinha a receber?
- !!...
- Pois. É assim que... (pip!)... é assim que tem de ser.

Decisão: não ir ao consultório sentimental, ir antes ao sns e ficar.

Santé!

 
Jamie Beck

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Pronomes e falácias

"Com efeito, é evidente que a unicidade e a subjectividade inerentes ao «eu» contradizem a possibilidade de uma pluralização. Se não pode haver vários «eu» concebidos pelo próprio «eu» que fala, é que «nós» é, não uma multiplicação de objectos idênticos, mas uma junção entre o «eu» e o «não-eu», seja qual for o conteúdo desse «não-eu»." (Émile Benveniste, O homem na Linguagem)
 
A primeira pessoa do plural é, de facto, uma entidade misteriosa. Quando alguém diz «nós», a quem se refere? Segundo Benveniste, na passagem supracitada, será a "uma junção entre o «eu» e o «não-eu»". Ora, quem será este «eu»? Quem será este «não-eu»? O enigma não se resolve teoricamente, que o cérebro da leitora está doente e cansado, não dá para mais. Tentemos antes uma aproximação prática, baseada na análise de frases, não dos tratados de linguística, mas sim dos mass media, mais modestos. Consideremos, por exemplo, este afirmação mil vezes repetida e ouvida ad nauseam:
 
Voltámos aos mercados.
 
Quem é que voltou aos mercados? «nós»? «eu»? «não-eu»? «eu» + «não-eu»? Este saco, aqui comigo, está vazio, e cada vez mais, pelo que posso inferir que não foi o meu «eu» que entrou em comércios. Ou este aqui é, ao invés, o lugar do «não-eu», o desprovido, o esvaziado, o expoliado de 30% do seu rendimento, enquanto lá é o lugar do «eu», o preenchido, o cheio, o receptáculo dos 30% que se foram de aqui?
 
Confirma-se, então, que a junção não é de partes idênticas, nem tem os mesmos efeitos nas instâncias assim reunidas. Veja-se o acontecido no concreto da parte que me coube: se antes era «eu» só, agora, na companhia de outro «eu», sou só «não-eu», casa vazia! Espanto.
 
 Benveniste descreve, deste modo, o fenómeno:

"Esta junção forma uma totalidade nova e de um tipo muito particular, cujos componentes não são equivalentes: em «nós», é sempre «eu» que predomina visto que não há «nós» senão a partir do «eu», e este «eu» subordina a si o elemento «não-eu» pela sua qualidade transcendente. A presença do «eu» é constitutiva do «nós»." (Émile Benveniste, O homem na Linguagem)

Pois.

domingo, 4 de novembro de 2012

Vox populi

Jeanloup Sieff, "Les petites dalles", 1984


- Até tens coisas giras, mas são muito velhas.
- O quê?!
- Sim. Quantos anos tem esse casaco?
- ...
- Ah! Compraste alguma coisa depois de eu nascer?
- ?!...

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

na biblioteca

 
(da net, algures, fica pelo insólito e pela oportunidade da imagem)

Leitora caída? Não, numa sessão de Pilates na Biblioteca.
...vários noticiários depois...

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Diário de Maria Amélia V

Acaba Maria Amélia de ler a última entrada, ou "post", da Leitora, reverberando ainda no seu cansado cérebro o eco das palavras citadas: ... respeito... fundamento da vida social e a salvaguarda contra a arbitrariedade e o uso discricionário da força... Maria Amélia, o alvo, Maria Amélia, a grande ameaçada, Maria Amélia, a rebelde visceral, Mariazinha, Mèlinha, o que for, o certo é que o pessimismo não virá, de mãos dadas com a estultícia, para estragar o jantar de logo à noite, para criar mau ambiente. Não secaram as fontes, apesar de a gatinha ter sido devorada pelo gatarrão da vizinha e as Friskies se revelarem inúteis. Maria Amélia, a dos bons ouvidos, escuta ainda um ténue miar felino [nada de hello kitty, garanto].