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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Tristitia


Sou o silêncio que ficou
uma cidade igual às outras
onde os gritos se esvaem
 e a tua morte se tornou minha.

Em tuas asas
quebradas
tudo se desintegra
menos a memória.

Ana Marques Gastão, Terra sem Mãe, Lisboa, Gótica, 2001.

domingo, 12 de junho de 2011

Melancolia, mal do Eu

Em dias assim...

Matéria lírica, a dor
e o amor. Amados
sofremos porque
não o somos bastante.
Melancolia, mal do Eu.

Ana Marques Gastão, Nocturnos, Lisboa, Gótica, 2002.  


Erik Satie, Nocturnes


Frédéric Chopin, Nocturnes

terça-feira, 10 de maio de 2011

Ekphrasis II

Ainda Ana Marques Gastão e Paula Rego

Paula Rego, Come to me, 2002


     Come to me

Hoje vejo-me inteira
poiso os pés
na fenda do mundo
a mão
regressa ao corpo
e chama-te
para dentro do prazer.

hoje vejo-me rápida
triunfante
quando falamos
não do que é grave
e a lassidão invade,
suave, a pele
atónita     feroz.

Deixemos as leituras
residuais
a luta esquiva
e mortal
nos algarismos da fala.
Sejamos
animais cintilantes.

Ficaremos
então
no espaço mínimo
da pele
e eu ver-me-ei
uma só vez
liberta de palavras.


Ana Marques Gastão, Noeuds, éditions fédérop, Guardonne, 2007 (edição bilingue).

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Ekphrasis

A pintura e a poesia: Ana Marques Gastão e Paula Rego

Paula Rego, Looking Out, 1997


À Janela

A casa range por entre a espessura das lajes que lhe guardam
o segredo. Estou de fora no matizado verde das folhas em terra
cavada. No interior racionaliza-se o medo, no exterior bate o
vento no buraco de quem vai mas fica. Passa-se a minha vida
na descrição da mudez. Não precisarás mais de mim na inocência
intocada. Não te deixo, agora que sou especiaria tão mais quente
quanto o nosso viver descalço quer pisar. E escrevo na mutação
do punho, em toalha de linho espesso, na fracção do caos esfriado
sobre a mesa. Se eu soubesse qual a natureza do declive entre nós
morreria menos desta morte. Mal me movo no saibro breve de meu
contento. Sou a cela e sou o mundo, um devaneio mais ou menos
desenhado, corpo-claro doído no sentir de tua mão. Fico;
só porque se demora escasso teu amor ante mim. No jardim, de bico
urgente e obstinado, a ave despedaça-se, inerte, na solidão da tarde.

Ana Marques Gastão, Noeuds, éditions fédérop, Guardonne, 2007 (edição bilingue).