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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

[Água morrente]


Meus olhos apagados,
Vede a agua cahir.
Das beiras dos telhados,
Cahir, sempre cahir.

Das beiras dos telhados,
Cahir, quasi morrer...
Meus olhos apagados,
E cansados de ver.

Meus olhos, afogae-vos
Na vã tristeza ambiente.
Cahi e derramae-vos
Como a agua morrente.

 
Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Água, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).
 
 
[A beleza, um bálsamo para estes dias cansados.]

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

O Esplendor da Língua IX

O escuro, lá fora...


CREPUSCULAR

Ha no ambiente um murmurio de queixume,
De desejos d'amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madre-silvas murcham nos silvados
E o aroma que exhalam pelo espaço
Tem deliquios de goso e de cançaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se spasmos, agonias d'ave,
Inaprehensiveis, minimas, serenas...

Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d'anemia,
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
É este enlanguecer da natureza,
Este vago soffrer do fim do dia.


Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Água, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).

terça-feira, 4 de outubro de 2011

o melhor, enfim

Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!

[...]

Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.

[...]

E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.

Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Água, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).

sábado, 1 de outubro de 2011

O Esplendor da língua VIII

Liam um poema de Pessoa, "Ela canta, pobre ceifeira", quando aquela "voz, cheia/ De alegre e anónima viuvez" evocou uma outra, a do grande poeta Camilo Pessanha. De ecos e saberes se faz a leitura, por isso desviemos a nossa atenção para este poeta de primeiríssima água.



Camilo Pessanha


Gustavo Rubim, no verbete incluído no Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, inscreve Camilo Pessanha (1867-1926)  nos alvores do Modernismo nacional, salientando a "desintegração do sujeito da poesia", característica que Eduardo Lourenço destacou em Pessoa, bem como a poética do desaparecimento e do vestígio, como marcas da obra de Pessanha - Clepsydra. A questão é analisada com mais profundidade e complexidade do que este apontamento sugere, mas deixemos a hermenêutica e ouçamos a palavra poética em todo o seu esplendor: 


AO LONGE OS BARCOS DE FLORES

(A Ovídio de Alpoim)

 Só, incessante, um som de flauta chora,
Viuva, gracil, na escuridão tranquilla,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões scintilla
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viuva, gracil, na escuridão tranquilla.

E a orchestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flebil... Quem ha-de remil-a?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...


Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Agua, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).

quarta-feira, 18 de maio de 2011

O Esplendor da Língua V

Gustav Klimt
Camilo Pessanha

(Díptico recuperado, depois da avaria do blogger.)


VENUS

 (A Pires Avellanoso)

I

Á flor da vaga, o seu cabello verde,
Que o torvelinho enreda e desenreda...
O cheiro a carne que nos embebeda!
Em que desvios a razão se perde!

Putrido o ventre, azul e aglutinoso
Que a onda, crassa, n'um balanço alaga,
E reflue (um olfacto que se embriaga)
Como um sorvo, múrmura de gozo.

O seu esboço, na marinha turva...
De pé, fluctua, levemente curva,
Ficam-lhe os pés atraz, como voando...

E as ondas luctam como feras mugem,
A lia em que se desfazem disputando,
E arrastando-a na areia, co'a salsugem.


II

Singra o navio. Sob a agua clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
Impeccavel figura peregrina,
A distancia sem fim que nos separa!

Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente côr de rosa,
Na fria transparencia luminosa
Repousam, fundos, sob a agua plana.

E a vista sonda, reconstrue, compara.
Tantos naufragios, perdições, destroços!
Ó fulgida visão, linda mentira!

Roseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivem desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de osso...

Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Água, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).

quinta-feira, 12 de maio de 2011

O Esplendor da Língua IV

Camilo Pessanha

Desviando-se a atenção do enriçado quotidiano, ouvem-se os poetas.

Ao longe os barcos de flores

(A Ovídio de Alpoim)

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viuva, gracil, na escuridão tranquilla,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões scintilla
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viuva, gracil, na esuridão tranquilla.

E a orchestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detem. Só modulada trila
A flauta flebil... Quem há-de remil-a?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...

Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Água, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).