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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Ei-las, que estão de volta

 
A Poesia Trovadoresca regressou ao Programa de Português. Ainda bem, pois a sua falta constitui um empobrecimento dos jovens, desde 2004 privados do convívio com esta preciosidade. Aqui fica um registo de uma das mais belas cantigas de amigo - "Ondas do mar de Vigo", de Martim Codax, jogral galego, provavelmente de Vigo. Para além do texto, indicam-se versões musicais e uma fotografia da folha do Pergaminho Vindel* em que se encontra. 
 

Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo?
       e ai Deus, se verrá cedo?
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado?
       e ai Deus, se verrá cedo?
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro?
       e ai Deus, se verrá cedo?
Se vistes meu amado,
o por que hei gram coidado?
       e ai Deus, se verrá cedo?

Martim Codax
 
 
 
 
 
As fotografias foram retiradas da base de dados Cantigas Medievais Galego Portugueses, que é um excelente recurso para trabalho, estudo ou, tão-só, tomada de conhecimento deste tesouro nacional.
 (Lopes, Graça Videira; Ferreira, Manuel Pedro et al. (2011-), Cantigas Medievais Galego Portuguesas [base de dados online]. Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, FCSH/NOVA. [Consulta em (indicar data da consulta)] Disponível em: http://cantigas.fcsh.unl.pt. )
 
*Conjunto de folhas volantes manuscritas com cantigas, incluindo a respetiva notação musical.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Vozes amadas - da poesia trovadoresca aos cantares populares

O primeiro poema é uma cantiga de amigo, uma das mais belas; as quadras também cantam o amor e os seus perigos, e desafios, pois então!


Sedia-m'eu na ermida de San Simion
e cercaron-mi as ondas, que grandes son:
     eu atendend'o meu amigo,

     eu atendend'o meu amigo!

Estando na ermida ant'o altar,
(e) cercaron-mi as ondas grandes do mar:
      eu atendend'o meu amigo,

      eu atendend'o meu amigo!

E cercaron-mi as ondas, que grandes son,
non ei (i) barqueiro, nen remador:
      eu atendend'o meu amigo,

      eu atendend'o meu amigo!

E cercaron-mi as ondas do alto mar,
non ei (i) barqueiro, nen sei remar:
      eu atendend'o meu amigo,

      eu atendend'o meu amigo!

Non ei i barqueiro, nen remador,
morrerei fremosa no mar maior:

      eu atendend'o meu amigo,
      eu atendend'o meu amigo!
    
Non ei (i) barqueiro, nen sei remar,
morrerei fremosa no alto mar:

      eu atendend'o meu amigo,
      eu atendend'o meu amigo!

Mendinho

Alexandre PInheiro Torres, Antologia da Poesia Trovadoresca Galego-Portuguesa, Porto, Lello & Irmãos Editores, 1987.



Estimo e estimarei,
sentada numa almofada,
a fiar continhas de ouro,
salta cá, minha esposada!


Uma quarta de sabão
pra lavar o coração.
Uma faquinha amarela
para cortar a goela.


O meu amor é José
e eu queria um Joaquim.
Com tanto home no mundo
algum há-de ser pra mim.


(Luísa Dacosta)

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Três poemas de amor para Lisboa


CANTIGA DE AMIGO

JOAN ZORRO


   En Lixboa, sobre lo mar
barcas novas mandei lavrar,
   Ai mia senhor velida!

   En Lixboa, sobre lo ler,
barcas novas mandei fazer,
   ai mia senhor velida!

   [B]arcas novas mandei lavrar
e no mar as mandei deitar,
   ai mia senhor velida!

   [B]arcas novas madei fazer
e no mar as mandei meter,
   ai mia senhor velida!




LISBOA

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver




POENTES DE LISBOA

MANUEL ALEGRE


Os poentes de Lisboa sabem a
Ocidente
há neles um barco antigo a partir para
o reino ausente.

Os poentes de Lisboa trazem um
sentimento de grande nostalgia
há neles alguém que vem de mar nenhum
carregado de Tejo e de melancolia.

Os poentes de Lisboa são quer se
queira quer não
uma canção partindo-se partindo-se.

Os poentes de Lisboa intensamente
são
o Ocidente.




Mário Cláudio, Nas Nossas Ruas, Ao Anoitecer: Antologia de Poesia sobre Lisboa com um pormenor de uma pintura de Carlos Botelho, Porto, Edições Asa, 2002.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Cantigas de Amigo

A fechar a semana, esta poesia inicial:


Sedia la fremosa seu sirgo torcendo,
sa voz manselinha fremoso dizendo
       cantigas d'amigo.


Sedia la fremosa seu sirgo lavrando,
sa voz manselinha fremoso cantando
       cantigas d'amigo.


- Par Deus de Cruz, dona, sei eu que avedes
amor mui coitado que tan ben dizedes
        cantigas d'amigo.


- Par Deus de Cruz, dona, sei (eu) que andades
d'amor mui coitada que tan ben cantades       
       cantigas d'amigo.

- Avuitor comestes, qué adevinhades.


Estêvão Coelho


 in Alexandre Pinheiro Torres, Antologia da Poesia Trovadoresca Galego-Portuguesa, Porto, Lello & Irmão Editores, 1987 (o verso 5 tem a palavra "dizendo",  no original, em vez de cantando; por se considerar que houve uma gralha, registou-se o termo que respeitava a rima).