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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Afrontamento

Paulo Nazolino in http://cineteratura.blogs.sapo.pt/fotografia-9-9004

Partia de Cesário Verde para refletir sobre a estesia da cidade, que preferia à do campo. Mas uma passagem do blogue Horas Extraordinárias impôs-se. Conta Maria do Rosário Pedreira sobre Einstein:

"Interrogado sobre se achava mais importante a imaginação ou o conhecimento, o genial cientista respondeu que, sem qualquer dúvida, a imaginação. E, quando o entrevistador quis saber porquê, explicou esta maravilha: «É que o conhecimento leva-nos de A para B, mas a imaginação leva-nos de A para todo o lado.»"

Vem muito a propósito este relevo dado à imaginação, não só por causa do Poeta em estudo, mas também devido aos tempos correntes, pois é ela que permite a liberdade e a fuga aos grilhões do real, tão necessárias. Se a razão diz que A conduz a B, inexoravelmente, a vitalidade precisa de saber que o caminho é constituído por múltiplas possibilidades, sob pena de definhamento. 

Assim, nas horas velozes do dever, uma mulher pode evadir-se numa qualquer paisagem citadina pela imaginação, pela leitura, pela beleza fulgurante destes versos:


Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

(...)

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés de fel como um sinistro mar!


Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde e poesias dispersas, Lisboa, Europa-América, s.d.
(primeira e última estrofe do poema "O Sentimento dum Ocidental", constituído por quatro secções)




quarta-feira, 18 de maio de 2011

Homenagem a Cesário Verde

(Porque há dias assim, em que o dever se cumpre com deleite, em que um poeta chama outro poeta e a leitura prossegue com prazer...)


homenagem a cesário verde

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cosidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda poetas cá no país!

Mario Cesariny, pena capital, Lisboa, Assírio e Alvim, 1982.


De Tarde

Naquele piquenique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão de ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.


Cesário Verde

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sentada, uma mulher olha

Sentada, uma mulher olha o movimento dos carros que se vão na Avenida de Roma, envoltos numa chuvinha miúda, para nunca mais. Nunca mais regressar à cidade amada... só a voz dos poetas ou um ocasional bilhete postal para embalar a saudade:

"Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras,o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer."

Cesário Verde, "O Sentimento dum Ocidental"


Sérgio Godinho e Caetano Veloso