Afinal, cá em casa havia um livro de Clarice Lispector – Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de 1999. Estava ali, com outros, em trânsito de estante. Quando chegou? Nesse ano da edição portuguesa ou em 2000? A data é imprecisa, mas terá sido antes do fim da adolescência, que ocorreu precisamente naquele dia, naquela hora em que a dermatologista sentenciou que aquele remédio seria bom, sim, se tivesse dezoito anos! Essa idade perdera-se há muito na poeira da estrada; seriam trinta, trinta e dois, quem o saberá? A verdade é que não estava pronta para Clarice.
Só agora chegara, ali, face a face com a matéria branca da barata exteriorizada, lia, lia, sem conseguir parar, em estado de arrebatamento, como o crítico que ficara doente com a leitura de A paixão segundo G. H.? Foram longos e penosos os caminhos, tão áridos, mas, ainda assim, percorridos com alegria e intensidade. Seria uma leitora “de alma já formada” como desejara a escritora, na nota de abertura daquele livro?
Esta:
A possíveis leitores
Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G. H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria.
C. L.
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G. H., Lisboa, Relógio d’Água, 2013.
Era uma mulher pronta --------------




