"O corpo; o amor do visível e do tangível; a conversão do subjectivo em objectivo; o apetite, a voracidade de e na própria criação: tudo isto se patenteia nas obras dos melhores poetas e narradores da língua portuguesa.
Em semelhante perspectiva, não deixará de inquietar - ou pelo menos de parecer estranha - a tão positiva aura de que actualmente goza no estrangeiro uma obra como a de Fernando Pessoa: ela pode afigurar-se a grande, a genial excepção à regra. O certo, porém, é que Pessoa, a despeito da insensibilidade ou desconfiança diante dos valores do corpo, não cessa de sucumbir, sob variados aspectos, às múltiplas seduções da palavra-corpo: não falo dos seus jogos ornamentais de «em horas inda louras, lindas/Clarindas e Belindas brandas» e outros afins, característicos da primeira fase do poeta ortónimo; falo sobretudo do suporte «carnal» de muitos daqueles «oxímoros dialécticos» oportunamente postos em relevo pela crítica mais especializada; e também, particularmente em Álvaro de Campos, da concreta substancialidade inerente ao seu modo de exprimir e comunicar o abstracto."
David Mourão-Ferreira, Magia, Palavra, Corpo, Lisboa, Cotovia, 1993.