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sábado, 27 de setembro de 2014

Os Maias (João Botelho)


Hoje foi dia de «Os Maias», de Eça de Queirós, lido e realizado por João Botelho. Recomendo, é um belíssimo filme. Porém, quem for ao cinema tenha em conta que o livro e as imagens que criou quando leu o romance não estão no ecrã. É outra coisa. Mesmo que o texto seja dito, filmado, recriado, nunca é o nosso livro, especialmente quando é um dos preferidos, lido e relido, por gosto e/ou por dever de ofício. Mas vale a pena. Em família, para além de uma reflexão sobre a «portugalidade», pode proporcionar uma revisitação da adolescência e a descoberta de que alguém faltou a algumas aulas de Português!





Fotografias retiradas de Ar de Filmes.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Testes (pobre Eça)

Revista in Expresso (2000)


“Somente Afonso sentia que sua mulher não era feliz. Pensativa e triste, tossia sempre pelas salas. À noite sentava-se ao fogão, suspirava e ficava calada…

Pobre senhora! A nostalgia do País, da parentela, das igrejas, ia-a minando. Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e sorrindo palidamente, tinha vivido desde que chegara num ódio surdo àquela terra de hereges e ao seu idioma bárbaro: sempre arrepiada, abafada em peles, olhando com pavor os céus fuscos ou a neve nas árvores, o seu coração não estivera nunca ali, mas longe, em Lisboa, nos adros, nos bairros batidos do sol. A sua devoção (a devoção dos Runas!) sempre grande, exaltara-se, exacerbara-se àquela hostilidade ambiente que ela sentia em redor contra “os papistas”. E só se satisfazia à noite, indo refugiar-se no sótão com as criadas portuguesas, para rezar o terço agachada numa esteira – gozando ali, nesse murmúrio de ave-marias em país protestante, o encanto de uma conjuração católica!

Odiando tudo o que era inglês, não consentira que o seu filho, o Pedrinho, fosse estudar ao colégio de Richmond. Debalde Afonso lhe provou que era um colégio católico. Não queria: aquele catolicismo sem romarias, sem fogueiras pelo S. João, sem imagens do Senhor dos Passos, sem frades nas ruas – não lhe parecia a religião. A alma do seu Pedrinho não abandonaria ela à heresia; – e para o educar mandou vir de Lisboa o padre Vasques, capelão do conde de Runa.

O Vasques ensinava-lhe as declinações latinas, sobretudo a cartilha: e a face de Afonso da Maia cobria-se de tristeza, quando ao voltar de alguma caçada ou das ruas de Londres, de entre o forte rumor da vida livre – ouvia no quarto dos estudos a voz dormente do reverendo, perguntando como do fundo de uma treva:

- Quantos são os inimigos da alma?

E o pequeno, mais dormente, lá ia murmurando:

- Três. Mundo, Diabo e Carne…

Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma só havia ali o reverendo Vasques, obeso e sórdido, arrotando do fundo da sua poltrona, com o lenço de rapé sobre o joelho…

Às vezes Afonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia a doutrina, agarrava a mão do Pedrinho – para o levar, correr com ele sob as árvores do Tamisa, dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume crasso da cartilha. Mas a mamã acudia de dentro, em terror, a abafá-lo numa grande manta: depois, lá fora, o menino, acostumado ao colo das criadas e aos recantos estofados, tinha medo do vento e das árvores: e pouco a pouco, num passo desconsolado, os dois iam pisando em silêncio as folhas secas – o filho todo acobardado das sombras do bosque vivo, o pai vergando os ombros, pensativo, triste daquela fraqueza do filho…

Mas o menor esforço dele para arrancar o rapaz àqueles braços da mãe que o amoleciam, àquela cartilha mortal do padre Vasques – trazia logo à delicada senhora acessos de febre. E Afonso não se atrevia já a contrariar a pobre doente, tão virtuosa, e que o amava tanto! Ia então lamentar-se para o pé da tia Fanny: a sábia irlandesa metia os óculos entre as folhas do seu livro, tratado de Adison ou poema de Pope, e encolhia melancolicamente os ombros. Que podia ela fazer!...” (…)

“O Pedrinho no entanto estava quase um homem. Ficara pequenino e nervoso como Maria Eduarda, tendo pouco da raça, da força dos Maias; a sua linda face oval de um trigueiro cálido, dois olhos maravilhosos e irresistíveis, prontos sempre a humedecer-se, faziam-no assemelhar a um belo árabe. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades, indiferente a brinquedos, a animais, a flores, a livros. Nenhum desejo forte parecera jamais vibrar naquela alma meio adormecida e passiva: só às vezes dizia que gostaria muito de voltar para a Itália. Tomara birra ao padre Vasques, mas não ousava desobedecer-lhe. Era em tudo um fraco; e esse abatimento contínuo de todo o seu ser revolvia-se a espaços em crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo, murcho, amarelo, com as olheiras fundas e já velho. O seu único sentimento vivo, intenso, até aí, fora a paixão pela mãe.”
Eça de Queirós, Os Maias, Lisboa, Livros de Brasil, s.d. 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

... continuarei a buscar, a escutar e a esperar...*

 
O Natal começa no início de Dezembro, quando se enfeita a Árvore e se alinda a casa com os ornamentos próprios da época; termina em Janeiro, no dia de Reis, quando as casas amanhecem com corações pintados nas paredes (amanheciam...). Era assim; ainda é um pouco, que as tradições não se vão completamente, ficam sempre restos, sinais de afectos e ligações.
 
Este ano, três contos de natal estiveram sempre presentes, através da leitura ou da reflexão:
 
- Eça de Queirós, "Suave milagre" in Contos (Anagrama);
- Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente", in Contos Exemplares (Figueirinhas);
- Luísa Dacosta, "Os magos que não chegaram a Belém", in Natal com Aleluia (Asa).


 




O que nos dizem estes textos?
 
O primeiro não nos fala do mistério do nascimento, revela-nos, sim, o deslumbramento da palavra e da obra de Jesus, tão procurado, mas só visto por "aqueles ditosos que o seu desejo escolhia"; neste conto, surpreendentemente, um desses escolhidos é uma frágil criança, acompanhada só de sua mãe, da dor e da esperança.
 
O segundo, segue a tradição dos Reis Magos - Gaspar, Melchior, Baltasar - para nos propor a redenção, a fraternidade e a busca de um deus que a todos proteja, pois todos, a um tempo, somos "humilhados e oprimidos":
 
"- Dizei-me onde está o altar do deus que protege os humilhados e os oprimidos, para que eu o implore e adore.
Ao cabo de um longo silêncio, os sacerdotes responderam:
- Desse deus nada sabemos.
*
Naquela noite, o rei Baltasar, depois de a Lua ter desaparecido atrás das montanhas, subiu ao cimo dos seus terraços e disse:
- Senhor, eu vi. Vi  a carne e o sofrimento, o rosto da humilhação, o olhar da paciência. E como pode aquele que viu estas coisas não te ver? E como poderei suportar o que vi se não te vir?"
 
O terceiro conto liberta os Magos do peso do ouro, das ricas oferendas, do poder e da fama e mostra-nos três homens bons, "magos, sacerdotes que estudavam o céu e os seus astros". Três homens, entre muitos, que não chegaram a Belém e que não figuram no presépio: "Há sempre os que conseguem e os outros. Os que ficam pelo caminho." Estes magos regressaram à sua terra, a fim de protegerem um menino abandonado que encontraram numa escura gruta, escolhendo o difícil caminho da desistência de objectivos traçados, ainda que pelos melhores motivos, os que se enraizam no amor. Todavia, não o fizeram sem protestação:
 
"- Regressar?! E a Luz que vínhamos a seguir? - protestou o mais novo, para quem era doloroso, depois de tantos trabalhos e canseiras, não levar a cabo o que se tinha proposto. - Desistimos assim da Luz que nos guiou até aqui? Desistimos, agora, quando estávamos tão perto?
- Compreendo o que sentes, irmão, também já fui novo... Mas há a criança. Como poderemos abandoná-la?"
 
Boas leituras a fechar o Natal...
 
(* do conto de Sophia supracitado)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

É Natal


A todos os leitores deste blogue, um Feliz Natal e um Ano Novo cheinho de Alegria!



John Melhuish Strudwick,
Madonna and Child with attendant Angels


"- Oh mãe! Jesus ama todos os pequeninos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!
E a mãe em soluços:
- Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia e curta é a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.
De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança mumurou:
- Mãe, eu queria ver Jesus...
E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
- Aqui estou."

Eça de Queirós, "Suave milagre" in Contos, Porto, Anagrama, s.d. (colecção Clássicos Anagrama- 22)