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sábado, 19 de janeiro de 2019

Por onde andas?

Blogues de livros, blogues de pessoas amigas ou conhecidas... olho para esta matéria dos livros, e reparo na quase ausência em 2018. Por onde andei? Por que se esgotou ou adormeceu a veia diarística? Será a vida vivida, a dispersão por outras plataformas online? 
No campo profissional, multiplicam-se os sites, plataformas, redes, etc.; em casa, as plataformas continuam... 
Há uma saturação da imagem.
No outro dia, notava que, nos tempos de não trabalho, o afastamento de música gravada ou de imagens em ecrãs cada vez se acentua mais.
O ar dos tempos?...

sábado, 16 de dezembro de 2017

Leixa-pren

Tinha dado por findas as publicações neste blogue, dando forma a uma inércia que se manifestava na escassez de publicações, mas as mãos regressam às teclas, agora movidas por ideias para a nova função. Uma mesa de trocas será uma boa ideia? Acordará os livros? Passarão de mão em mão? Que olhos se deliciarão?

Uma mala "vintage" com dois livros que saltaram da estante
e quatro livros comprados numa feira num centro comercial.
Em vez de roupa, bibelots e outros que tais, livros, livros...
(A Tinta da China é irresistível!)
Chamar-se-á vício!?

Como um romance, de Daniel Pennac - livro imprescindível na biblioteca de um professor de Português formado nos inícios de '90. Bom ou mau? Nem bom nem mau, a ler e a levar para casa, pensando que há muitas formas de amar os livros.

O corsário dos sete mares: Fernão Mendes Pinto, de Deana Barroqueiro - um romance sobre esse homem aventureiro e cativante dos descobrimentos portugueses. A capa é bonita, com aquele fragmento de Biombo Namban, mas, quando chegamos a Fernão Mendes Pinto, prefiro sempre a sua própria voz em Peregrinação. Outros olhos navegarão nestas 675 páginas.

Os outros... saltam da mala-caixa para a estante desta leitora, até um dia.

Caixa +
Vai crescendo, o conteúdo da mala-caixa, transita pela casa...
Agora está entre a lareira e a Árvore de Natal.
São presentes, são livros para a mesa das trocas?


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Helena

S. F.

Recebi hoje, inesperadamente, a notícia de resoluções e mudança de uma colega que não vejo há anos, mas que recordo com enorme simpatia e saudade. Agora, acresce uma profunda admiração pela coragem e frontalidade. FORÇA, HELENA!

domingo, 8 de maio de 2016

She walks in poetry


She Walks in Beauty

Related Poem Content Details

She walks in beauty, like the night 
Of cloudless climes and starry skies; 
And all that’s best of dark and bright 
Meet in her aspect and her eyes; 
Thus mellowed to that tender light 
Which heaven to gaudy day denies. 

One shade the more, one ray the less, 
Had half impaired the nameless grace 
Which waves in every raven tress, 
Or softly lightens o’er her face; 
Where thoughts serenely sweet express, 
How pure, how dear their dwelling-place. 

And on that cheek, and o’er that brow, 
So soft, so calm, yet eloquent, 
The smiles that win, the tints that glow, 
But tell of days in goodness spent, 
A mind at peace with all below, 
A heart whose love is innocent!

Lord Byron

terça-feira, 12 de abril de 2016

"história da literatura com caracóis e uma imperial"

O título desta entrada é de J.D, a propósito de uma fotografia no Facebook, de uma história da literatura antiga e de Ana Hatherly, autora do poema citado:


os caracóis e as carpas têm cornos

os caracóis e as carpas têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carpas e os caracóis não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracoias e os carpos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os carapoicos e os parcos não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carapaias e os porcos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracoicos e as parras não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carassaias e os parcas têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracorpos e as praias não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracaias e os poicos têm
vês

Ana Hatherly
um calculador de improbabilidades
Quimera
1ª edição 2001

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Laços de família

Os escritores, de vez em quando, esboçam as suas "árvores bibliográficas", as suas genealogias literárias. Na Visão online (03.12.2015), foi a vez de António Lobo Antunes, em mais uma das suas belíssimas crónicas: 

http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/2015-12-03-E-no-entanto-vendo.

Gosto muito destas indicações, de reconhecer ligações, laços de família entre textos, palavras, autores... Cheguei a iniciar uma lista dos nomes referidos por Luísa Dacosta, procurando seguir as vozes daqueles poetas e prosadores portugueses e o seu eco na maravilhosa obra da escritora.

Aqui fica o princípio desse colar de afetos: Fernão Lopes, Gil Vicente, Sá de Miranda, Luís de Camões, Fernão Mendes Pinto, Diogo do Couto, Samuel Usque, Frei Luís de Sousa, António Ferreira, António José da Silva, António Vieira, Nicolau Tolentino, Bocage, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, António Nobre, Camilo Pessanha, Raúl Brandão. Aquilino Ribeiro, Tomaz de Figueiredo, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Cassiano Ricardo, Irene Lisboa, Vitorino Nemésio, Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Saúl Dias, Renata Pallotini ... (cont)

A propósito da árvore bibliográfica que Pedro Mexia delineou para si, na revista Ler*, também esta leitora quis encontrar a sua:

http://amateriadoslivros.blogspot.pt/2013/01/arvore-bibliografica.html

*Pedro Mexia, "Ler é Maçada: Árvore bibliográfica", Ler, Janeiro de 2013.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A propósito de "selfies" e autorrepresentação online


Rubens. A Cabeça de Medusa. 1617.
"Haverá melhor auto-retrato do que aquilo que se vai publicando, bom ou mau, muito ou pouco, já que escrever é sempre uma forma imprudente de identificação e autobiografia?"
Marcello Duarte Mathias . "Auto-retrato" In A Memória dos Outros: Ensaios e Crónicas. Lisboa: Gótica, 2001. p. 325.

Andava esta leitora a pensar em selfies, após leitura de uma publicação de V. G. no Facebook / no blogue Enfermaria 6, sem chegar a conclusões, até porque não pratica a "modalidade", quando é surpreendida pela última página do Jornal de Letras (05 a 18 de agosto de 2015). Aqui, na secção de "Diário", o escritor Mário Cláudio publica "16 entradas do Facebook"! Surpresa! Surpresa! Então a escrita na famosa rede social também pode ser vista como escrita diarística?
As relações entre o blogue e o diário há muito que são óbvias, como já se pensou nestas páginas, verificando-se mesmo a transformação de alguns blogues em livros, como acontece com outros diários clássicos que chegam às livrarias, todos com qualidade literária variável, digamos. Já a assunção das publicações rápidas no Facebook como "entradas" diarísticas parece menos óbvia, parece que lhe falta o trabalho de representação do Eu que se evidencia no diário ou em blogues tão conhecidos como, por exemplo, o ana de amesterdam, também ele já com um duplo em livro. De facto, o imediatismo e a brevidade da escrita nas redes sociais parecem contrários ao labor e ao rigor da escrita que busca conhecer e conhecer-se e... revelar-se através da representação desse Eu enigmático e movente que atrai e atormenta o diarista. Acresce que a massificação característica das redes sociais parece mais propícia à reflexão sociológica sobre as formas de comunicar do homem desenvolvido (tecnológico) do que à reflexão literária ou ontológica. Ainda mais que lhes falta tempo, i.e., nem as publicações requerem grandes demoras, bastando, por vezes, um mero clique, quando se trata de "partilhar" vídeos, fotografias ou "posts" alheios, nem a sua visualização permite atrasos, uma vez que são constantemente sobrepostas ou substituídas por outras; podem voltar, é certo, mas, nesse caso, vêm desprovidas de cronologia pois o tempo das redes sociais é o eterno presente, não obstante as tentativas da rede de lembrar o que o utilizador publicou "há cinco anos". O efémero e o perene entrelaçam-se desta maneira, anulando essa dimensão essencial do humano que é o tempo. Que Eu, então, se vislumbra? Um ser liberto do mal de Cronos ou um ser prisioneiro do presente sem fim nem princípio?
A estranheza das selfies e a dificuldade em entendê-las como sucedâneos do autorretrato resultam precisamente destas duas dimensões: a massificação e o imediatismo. A falta. Falta de quê? De tempo, claro. E da terrível face da Medusa. Mais do que de Narciso, arquétipo do sujeito autobiográfico ou do utilizador da rede, apaixonado pela sua belíssima imagem, admitindo que estas representações de si, tão iguais e repetitivas, sejam percorridas pelo amor, mesmo que louco. E o amor, não é feito de tempo e imaginação?
[E a leitora não conseguiu fugir ao juízo moral, pois não? Está mal.]

quarta-feira, 16 de julho de 2014

assim é difícil

Quatro horas da tarde, uma leitora sai de casa, entra no carro e faz-se ao asfalto; sai da vila, entra na cidade mais próxima, procura dois livros necessários para o  trabalho que está a realizar. Eis que, chegada à porta da biblioteca, fica a saber que esta está fechada até setembro, devido a mudanças de espaço; eis que, ao chegar à porta da livraria, se depara com o aviso de que esta mudou de sítio. No dito, em vez de livraria lia-se papelaria, nas ruas em redor, que a cidade não é grande, também só papelarias e tabacarias. Regresso a casa, sem livros, só cansaço e calor, e ainda uma terrível dor de garganta por causa do ar condicionado. Seis horas da tarde.

sábado, 31 de maio de 2014

Casas

 O livro que está em cima da mesinha é a Granta: Portugal, nº 3, dedicado ao tema Casa. A revista é muito boa, e este número é especialmente interessante. Os textos são óptimos e as fotografias também, até a fotonovela seduz. Este género é, para mim, uma reminiscência da infância e das misteriosas leituras de primas e vizinhas mais velhas, que suspiravam com heróis chamados Dário, Sérgio ou outros que tais. Só a Simplesmente Maria (radionovela) suplantava estes melodramas em espanto.

As recordações do passado não se ficaram por aqui, pois o tema é propício à interrogação sobre a identidade e às buscas pelo "sótão da casa de família", ou por outros cómodos igualmente depositários dos objectos memoráveis. Neste canto, por exemplo, está a mesinha do tio E., sobre a qual costumava estar a televisão, na casa do avô e da tia; a cadeira é de desconhecida proveniência, mas foi restaurada pelo marido da prima M. A., que talvez lesse Corin Tellado, quando jovem.

Gosto de objectos com história, minha ou de outros, não só de móveis antigos, como também de elementos de decoração que transportem memórias de pequenas alegrias. É o caso dos ovos que fotografei para este blogue, comprados na Hungria, numa cidade cujo nome esqueci há muito, só me lembro de ser uma cidade de artistas, onde se vendiam muitas peças de artesanato. Os ovos pintados ou esculpidos estavam por todo o lado e eram muito bonitos. Trouxe vários, mas só estes sobreviveram, talvez porque tivessem ficado guardados numa caixa durante alguns anos, até agora, quando uma prateleira de uma nova estante pediu a sua presença. Ficam bem. Conferem ao espaço um tom de alegria e delicadeza apaziguadoras, para além de incitarem à viagem. Aliás, as viagens estão bem assinaladas nessa estante, com diversos guias e livros alusivos, adquiridos ao longo do tempo e que um dia lerei. Convites à evasão, seja no espaço, seja no tempo.

Na Granta, diferentes autores procuram ou mostram (as suas) casas, todavia a fugacidade dessa imagem identitária e de intimidade é o traço que me parece mais constante. Também eu busco a minha casa. Já vivi em vários lugares, mas aquele que aparece como A Minha Casa é essa casa da infância da qual não guardo qualquer objecto. 

Cada lembrança é um  memento mori.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Paisagem matinal

O Jardim do Museu Nacional de Arte Antiga é um lugar lindíssimo. Hoje, de manhã, estava resplandecente; este sol primaveril, súbito, inundava-o de luz e convidava a estar, apreciar e fotografar. 


Não era só o restrito espaço do Jardim que agradava. A paisagem, com o porto, o Tejo e a Outra Banda, estava deslumbrante, está sempre, mas hoje especialmente.


A exposição - Rubens, Brueghel, Lorrain: A Paisagem Nórdica do Museu do Prado - completou-se com a vista lisboeta, linda e luminosa. Se procurasse um traço unificador destas diferentes paisagens que, simultaneamente, as distinguisse, escolhia a luz, sim, a luz. 

A paisagem nórdica ou a paisagem ao modo italiano (última sala, à parte) apresentam uma luminosidade muito diversa: os últimos quadros, tons mais intensos, marcados pela luz mediterrânica; as paisagens dos Países Baixos, uma luz fininha, que só se pode entender naquelas paragens. Recordo-me, a este propósito, da emoção que senti a primeira vez que visitei a Holanda, via, ou sentia, nem sei, como nunca, as cores e a luz de Vermeer, pintor da minha predilecção. Aqui, para além desta diferença, entre a luz nórdica e a mediterrânica, evidenciava-se, também, a singularidade da luz de Lisboa, tão atlântica, tão acolhedora, tão bela.


Não é o lugar ideal para um café e um queque de maçã? Fica o convite.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Má raça

Tiro os brincos, dispo as vestes pudicas e burras, fico com as botas altas. E leio livros negros.




escrevo-te em vidro
por assim achar que
desenho
o cálculo efémero das possíveis transparências mas
o pé descalço sobre a linha sofre
as cócegas das hastes cegas da
palavra
correndo destinos que desaguam no
soalho atapetado pelos jornais
do dia pudico e burro


João Paulo Cotrim (poemas) e Alex Gozblau (ilustrações, design e logótipo convidado), má raça: 22 canções, Lisboa, Abysmo, 2012.

Na fotografia vê-se parte da capa do livro: João Paulo Cotrim e António Cabrita, O branco das sombras chinesas: divertimento, Lisboa, Abysmo, 2011 (ilustracões de João Fazenda).


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Surpresas

Vinha a caminho de casa a olhar para anteontem, quando a caixa do correio resolveu surpreender-me: em vez das cartas circunstanciais do costume, promessas de "Grande Aventura" e "Super Fim de Semana", au Lidle. Nem mais!
 
 
 
Nem mais, disse? Havia mais: a oferta de um exemplar da revista Visão (nº 1076 - 17 a 23 de outubro de 2013), com uma belíssima crónica de António Lobo Antunes - "Olhar para ontem".
 
Cito:
 
"[...] tanto tédio, tanto ressentimento, tanto cansaço, se mudasses de penteado, se comprasses uns vestidos novos, se usasses saltos mais altos, se me surpreendesses, tornámo-nos tão quotidianos, meu Deus, tão monótonos, não dizes nenhuma coisa que me interesse, não digo nenhuma coisa que te interesse e não é possível não dizermos nunca seja o que for que não interesse o outro havendo pessoas que nos acham divertidos, cultos, se calhar fascinantes [...]"
 
(O possível é vasto, e a esperança também, diz a vozinha intrometida.)
 
Li pouco Lobo Antunes; as crónicas leio, com um prazer sempre renovado, já os romances esquivam-se, desde aquele dia, nos verdes anos da adolescência, em que não consegui continuar o Caminho do Inferno. A intensidade, o susto, o medo, ou lá o que era, obrigou-me a fechar o livro. Esta reação intempestiva, irracional, só me aconteceu com outro escritor, Mishima, não me lembro do título do romance. A força narrativa e expressiva destes textos, um dia, longe, obrigaram-me a desviar o olhar. Não me esqueci.
 
As coisas novas e velhas vêm e vão, vão e vêm, nunca nos deixam sós nem deixam de nos surpreender. Hoje, também a antiga mesa de estudo, restaurada, mas com uma leve folga no tecido a lembrar o tempo passado, me saudou. Convidava-me para uma bisca lambida ou para cair nas profundezas dos calhamaços sábios?
 
 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Reencontros


"'It must have been fifteen - no, twenty years ago - that I last saw her' [...] And was Carrie still living at Marlow, and was everything still the same? Oh she could remember it as if it was yesterday [...] And it was still going on, Mrs Ramsay mused, gliding like a ghost among the chairs and tables of that drawing-room on the banKs of Thames where she had been so very, very cold twenty years ago; but now she went among them like a ghost; and it fascinated her, as if, while she had changed, that particular day, now become very still and beautiful, had remained there, all these years."
 
"For it was extraordinary to think that they had been capable of going on living all these years when she had not thought of them more than once all that time. How eventful her own life had been, during those same years. Yet perhaps Carrie Manning had not thought about her either. The thought was very strange and distasteful."
  
Virginia Woolf, To the Lighthouse, Grafton Books, London, 1988.
 
 

As primeiras leituras de Virginia Woolf constituíram um deslumbramento. Foi precisamente o livro citado o que primeiro cativou o seu olhar, pela beleza e elegância da linguagem, pela inesperada forma de construção de personagens e da sua relação com o espaço e o tempo. Mrs Ramsay destacou-se desde logo. Hoje ainda lhe ensina muito.
 
A passagem transcrita ocorreu-lhe recentemente. Esta espelha uma forma de egocentrismo (egoísmo), que consiste na impossibilidade de concebermos o mundo para além de nós mesmos, impossibilidade esta que pode existir em estados mais agravados ou mais atenuados, conforme e inteligência de cada um. O tempo torna ainda mais nítido este facto. Na verdade, quantas vezes nos deixamos enganar pelos fantasmas do passado, crendo que os conhecidos de outrora são, hoje, aqueles de quem nos lembramos, os mesmos que se sentaram connosco à mesa de distantes cafés ou em pretéritas salas de estar? Também somos confundidos com a imagem que outros criaram das nossas pessoas. E, assim, damos por nós estupefactos perante o desacerto entre a face adolescente há muito perdida e a cara da medusa, ali, plasmada à nossa frente.
 
(Aqui um parêntesis para dizer que "cara de medusa" é, talvez, uma forma pretensamente erudita de nomear aquilo que A. P. defende em termos mais claros: as pessoas pioram com a idade; o que eram características peculiares na adolescência são defeitos e vícios aos quarenta e mais além. A primeira vez que ouvi esta tese, ri-me; hoje já não me apetece tanto, pois começo a pensar que há nela verdade. )

sábado, 15 de junho de 2013

quarta-feira, 5 de junho de 2013

estes míseros ofícios

Ainda há pouco, a A.G. citava Herberto Helder. Que palavras tão lindas e tão conformes:

e com estes míseros ofícios
morrerei do meu muito terror e da nenhuma salvação da minha vida


Herberto Helder, Servidões, Lisboa, Assírio, 2013.


 
uma pausa nos tristes ofícios

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A barata exteriorizada

Afinal, cá em casa havia um livro de Clarice Lispector – Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de 1999. Estava ali, com outros, em trânsito de estante. Quando chegou? Nesse ano da edição portuguesa ou em 2000? A data é imprecisa, mas terá sido antes do fim da adolescência, que ocorreu precisamente naquele dia, naquela hora em que a dermatologista sentenciou que aquele remédio seria bom, sim, se tivesse dezoito anos! Essa idade perdera-se há muito na poeira da estrada; seriam trinta, trinta e dois, quem o saberá? A verdade é que não estava pronta para Clarice.
Só agora chegara, ali, face a face com a matéria branca da barata exteriorizada, lia, lia, sem conseguir parar, em estado de arrebatamento, como o crítico que ficara doente com a leitura de A paixão segundo G. H.? Foram longos e penosos os caminhos, tão áridos, mas, ainda assim, percorridos com alegria e intensidade. Seria uma leitora “de alma já formada” como desejara a escritora, na nota de abertura daquele livro? 
 
Esta:
A possíveis leitores
 

Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo de que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G. H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria. 
 

C. L.

Clarice Lispector, A Paixão Segundo G. H., Lisboa, Relógio d’Água, 2013.
 
 
Era uma mulher pronta --------------
 

terça-feira, 23 de abril de 2013

Dia Mundial do Livro

O texto que se publica foi escrito por esta leitora em 2010, no âmbito de uma acção de formação de professores de Português. Lembrei-me dele neste dia em que, por aqui, não se comemorou o Dia Mundial do Livro.



O texto em discussão prossegue um debate originado pelos Novos Programas de Português do Ensino Secundário, defendendo a tese de que estes “representa[m] uma opção anti-canónica do ensino do Português.” Tal entendimento do documento legislativo vem ao encontro da percepção que fui desenvolvendo ao longo destes anos, seja a partir da prática pedagógica, seja a partir da audição de dispersas intervenções públicas, seja pela leitura dos próprios programas.
De facto, o emagrecimento da lista de nomes e épocas do cânone literário nacional é o sintoma maior daquilo que me parece ser uma tentativa de descentração do papel da literatura nas aulas de língua materna, a que se junta a organização do corpus de leituras em tipologias, e não nos tradicionais modos e géneros literários, postulando a separação clara e rígida entre textos literários e não literários, com o reforço da presença destes últimos; o “desprezo” pelo cânone é ainda sugerido pela ausência total de nomes de poetas ou prosadores no programa do décimo ano, excepção feita a Luís de Camões, cuja lírica aparece estranhamente incluída no conjunto dos textos autobiográficos. Esta aparição do poeta quinhentista vinda de nenhures, erradicada toda a espessura do espaço e do tempo, corre o sério risco de se converter num espectro difuso, que atormentará o aluno incauto em convívio com o “professor tecnocrata”. A maravilha desta poesia não seria muito mais perceptível para o jovem estudante se este já antes tivesse convivido com a delicadeza de uma cantiga de amigo, por exemplo? Parece-me que sim; aliás, não compreendo a ausência de, pelo menos, trezentos anos de literatura, assim como não compreendo outras omissões ou inclusões, que neste momento não é possível explanar. Apesar de tudo, apraz-me constatar a introdução explícita de outras artes (ou registos) nos programas, o que serve, creio, uma amplificação da cultura dos alunos e o aprofundamento das suas capacidades cognitivas e emocionais, da sua criatividade, em suma.
Regressando a Carlos Ceia, ressalvo a denúncia das más práticas de ensino de Português, responsáveis pelo descrédito da história e do cânone literários, cujo protagonista é o famigerado “professor tecnocrata”, seguidor de um método classificatório e ilustrativo. A esta figura docente contrapõe o “professor metódico”, aquele que não tem medo do cânone, porque o “interpreta”, porque o vive, porque “usa a história literária como arte de adestrar ou pôr em exercício a literatura.”
O “professor metódico”, ao contrário do seu triste alter-ego, é um homem livre e culto, que mobiliza vários campos do saber, como podemos inferir destas palavras de Ceia: “A aula do professor metódico é um acto do seu próprio pensamento […]. Simplesmente, o pensamento linguístico do professor metódico de Português é inseparável do pensamento literário, do pensamento cultural, do pensamento político, do pensamento ético, etc.”
Este é o professor de Português que todos nós quereríamos ser, diria eu. Gostaria que um professor assim pudesse crescer nas nossas escolas, pois acredito que a literatura é o meio mais completo para que um professor possa ajudar os seus alunos a serem cidadãos livres, racional e emocionalmente equilibrados, rigorosos e criativos. A propósito da importância desta arte no mundo contemporâneo, refere Italo Calvino, citado por David Mourão-Ferreira em Magia, Palavra, Corpo[2]: “ A literatura (e talvez apenas a literatura) é que pode criar anti-corpos capazes de se oporem à expansão da peste da linguagem”. Infelizmente, sou levada, mais uma vez, a concordar com Carlos Ceia, que vê, na escola portuguesa, o aparecimento do “professor-escrivão”: “Na escola portuguesa actual, só parece haver lugar para quem souber executar tarefas programadas por decreto-lei. Está a impor-se o burocrata das fichas, registos de faltas, grelhas, matrizes, relatórios, actas, planificações, projectos educativos, planos individuais, etc. O professor que tem o poder de pensar na matéria do seu ensino, reflectir sobre a melhor aprendizagem dos seus alunos e conduzir-se a um patamar de realização profissional de excelência académica está a ser suprimido por decreto” (Ceia: 2008[3]).
 
  
14 de Março de 2010


 
[1] "Considerações sobre o cânone e o professor de Português", Colóquio "Ensino do Português para o Século XXI", Faculdade de Letras de Lisboa, 25 de Março de 2004 (http://www.fcsh.unl.pt/docentes/cceia/images/stories/PDF/educare/consideracoes_canone.pdf).
 
[2] David Mourão-Ferreira, Magia, Palavra, Corpo, Lisboa, Cotovia, 1993.

[3] "O tempo do professor-escrivão" (2008). http://www.fcsh.unl.pt/docentes/cceia/images/stories/PDF/educare/professor-escriba.pdf