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sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Carta de um homem livre ao seu antigo senhor


 É conhecido o apreço da leitora por correspondência, pelo que foi uma boa surpresa encontrar a citação desta carta no blogue Âncoras e Nefelibatas e a referência a outro blogue dedicado, precisamente, à divulgação de cartas "merecedoras de uma audiência mais vasta" - Letters of Note -, do qual se transcreveu esta resposta de um homem livre ao seu antigo senhor.
 
 
 
In August of 1865, a Colonel P.H. Anderson of Big Spring, Tennessee, wrote to his former slave, Jourdon Anderson, and requested that he come back to work on his farm. Jourdon — who, since being emancipated, had moved to Ohio, found paid work, and was now supporting his family — responded spectacularly by way of the letter seen below (a letter which, according to newspapers at the time, he dictated).

Rather than quote the numerous highlights in this letter, I'll simply leave you to enjoy it. Do make sure you read to the end.

UPDATE: Head over to Kottke for a brief but lovely little update about the later years of Jourdon and family.

(Source: The Freedmen's Book; Image: A group of escaped slaves in Virginia in 1862, courtesy of the Library of Congress.)
Dayton, Ohio,

August 7, 1865

To My Old Master, Colonel P.H. Anderson, Big Spring, Tennessee

Sir: I got your letter, and was glad to find that you had not forgotten Jourdon, and that you wanted me to come back and live with you again, promising to do better for me than anybody else can. I have often felt uneasy about you. I thought the Yankees would have hung you long before this, for harboring Rebs they found at your house. I suppose they never heard about your going to Colonel Martin's to kill the Union soldier that was left by his company in their stable. Although you shot at me twice before I left you, I did not want to hear of your being hurt, and am glad you are still living. It would do me good to go back to the dear old home again, and see Miss Mary and Miss Martha and Allen, Esther, Green, and Lee. Give my love to them all, and tell them I hope we will meet in the better world, if not in this. I would have gone back to see you all when I was working in the Nashville Hospital, but one of the neighbors told me that Henry intended to shoot me if he ever got a chance.

I want to know particularly what the good chance is you propose to give me. I am doing tolerably well here. I get twenty-five dollars a month, with victuals and clothing; have a comfortable home for Mandy,—the folks call her Mrs. Anderson,—and the children—Milly, Jane, and Grundy—go to school and are learning well. The teacher says Grundy has a head for a preacher. They go to Sunday school, and Mandy and me attend church regularly. We are kindly treated. Sometimes we overhear others saying, "Them colored people were slaves" down in Tennessee. The children feel hurt when they hear such remarks; but I tell them it was no disgrace in Tennessee to belong to Colonel Anderson. Many darkeys would have been proud, as I used to be, to call you master. Now if you will write and say what wages you will give me, I will be better able to decide whether it would be to my advantage to move back again.

As to my freedom, which you say I can have, there is nothing to be gained on that score, as I got my free papers in 1864 from the Provost-Marshal-General of the Department of Nashville. Mandy says she would be afraid to go back without some proof that you were disposed to treat us justly and kindly; and we have concluded to test your sincerity by asking you to send us our wages for the time we served you. This will make us forget and forgive old scores, and rely on your justice and friendship in the future. I served you faithfully for thirty-two years, and Mandy twenty years. At twenty-five dollars a month for me, and two dollars a week for Mandy, our earnings would amount to eleven thousand six hundred and eighty dollars. Add to this the interest for the time our wages have been kept back, and deduct what you paid for our clothing, and three doctor's visits to me, and pulling a tooth for Mandy, and the balance will show what we are in justice entitled to. Please send the money by Adams's Express, in care of V. Winters, Esq., Dayton, Ohio. If you fail to pay us for faithful labors in the past, we can have little faith in your promises in the future. We trust the good Maker has opened your eyes to the wrongs which you and your fathers have done to me and my fathers, in making us toil for you for generations without recompense. Here I draw my wages every Saturday night; but in Tennessee there was never any pay-day for the negroes any more than for the horses and cows. Surely there will be a day of reckoning for those who defraud the laborer of his hire.

In answering this letter, please state if there would be any safety for my Milly and Jane, who are now grown up, and both good-looking girls. You know how it was with poor Matilda and Catherine. I would rather stay here and starve—and die, if it come to that—than have my girls brought to shame by the violence and wickedness of their young masters. You will also please state if there has been any schools opened for the colored children in your neighborhood. The great desire of my life now is to give my children an education, and have them form virtuous habits.

Say howdy to George Carter, and thank him for taking the pistol from you when you were shooting at me.

From your old servant,

Jourdon Anderson.
 

sábado, 26 de maio de 2012

A subordinação e a coordenação

Ainda ontem, à beira da piscina onde decorria a aula de natação, se falava da escrita e do uso excessivo de "e"s. Observou-se que os presentes recorriam à hipotaxe quando escreviam textos argumentativos, tendo consciência técnica desse facto ou não; por outro lado, também era evidente que só na comunicação mais imediata, ou em casos de inaptidão, predominavam as construções paratácticas. 

Vem esta lembrança a propósito da entrevista do cardeal Gianfranco Ravasi ao Público, de hoje. Nela se reflecte sobre a relação da religião com a linguagem, nas suas múltiplas formas e possibilidades, principalmente no que respeita à arte. Todavia, o que se destaca agora são as referências à internet (Twitter e Blogue), sobre a qual o cardeal revela grande clarividência:

"É preciso coragem para entrar neste horizonte [sobre a sua conta no Twitter], que tem uma linguagem completamente diferente da tradicional, sobretudo por uma característica: a nossa linguagem religiosa, mas também a cultural ou a filosófica, usa a subordinada, ou seja, o raciocínio encadeado. Aqui, domina a coordenada: a frase breve, essencial, incisiva.
Podemos recusar esta aproximação, por simplificar as coisas. Mas sendo esta a linguagem que ocupa um espaço enorme na cultura contemporânea, sobretudo na juvenil, creio que devemos intervir, também ali, não esquecendo a nossa linguagem complexa, mas tentando esta via. Tentei fazê-lo através de dois modelos...
[...]
O blogue é já um discurso mais articulado."


Regressando às considerações iniciais, poderemos, então, pensar que um dos problemas da escrita, mormente escolar, mas não só, resulta de uma mudança no uso e na forma da linguagem, que, por sua vez, decorre de uma alteração do raciocínio lógico. É o efeito das novas tecnologias, diz-se, como antes se dizia que era o efeito dos meios audiovisuais. As razões serão diversas, o certo é que há um problema a nível da linguagem, logo a nível do entendimento do mundo e da vivência de cada dia.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Corpo e Palavra

A leitura é sedutora, e a escrita ainda mais. É exaltante. Mas não só a palavra escrita é criadora, também a voz cria mundo; ambas acendem a chama da vida e da esperança, avivam o corpo.
Neste dia tão cansativo, cinco testes depois, só estas imagens e palavras  inesperadas para lavar a alma:



Peter Greenaway



Jean-Luc Godard


(Este último vídeo estava em Escrever é Triste, excelente blogue, com um excelente título.)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Escrever no ecrã

Primeiras leituras de:

Philippe Lejeune, «Cher Écran...»: Journal personnel, ordinateur, Internet, Paris, Seuil, 2000.

Até agora, parece interessante e com matéria para reflexão, mas já datado. Realmente, é inegável que os meios informáticos  e a Web, em particular, se desenvolvem a uma velocidade vertiginosa e que os estudos de ontem se apresentam já com atraso. Neste estudo, a  manutenção de um diário online parece ser uma coisa ainda rara, nomeadamente em França. Que distância!

Todavia, registem-se algumas questões levantadas a propósito da escrita no ecrã:

- Traço;
- Distância;
- Correcção;
- Confidencialidade;
- Releitura;
- Virtualidade;
- Comunicação.

Na primeira parte do livro, Lejeune analisa as ligações entre o caderno (escrito à mão, em papel) e o ficheiro digital; só na segunda parte reflecte sobre a escrita online, considerando que, em muitos casos, esta escrita "intimista" evoluiu do caderno e da caneta ou lápis para o ecrã, primeiro guardado em ficheiros, depois publicado, o que não impede que, por vezes, ocorra em vários suportes e registos...

Qual terá sido o percurso dos leitores deste espaço? Primeiro o caderno, depois o ficheiro secreto, e só recentemente o blogue?...

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Diário íntimo - diário pessoal

Escrever no ecrã ou escrever no caderno...

A incumbência era a escrita do diário, com regularidade, em qualquer suporte, mas hoje foram introduzidas restrições: distinguir e problematizar a dicotomia público / privado e... escrever à mão!
Que estranheza! Enquanto as vozes soavam, a leitora reparou que há muito não escreve à mão. Antigamente, até ao ano de 2002, o mais íntimo, diário e cartas, pedia uma caneta ou um lápis e seguia o movimento da mão sobre a folha de papel, desenhava-se uma caligrafia ora trémula e hesitante, ora corrida e urgente... Significa esta alteração menos autenticidade? Por que aderiu a leitora tão facilmente à escrita no ecrã, com a sua formatação pré-definida? Talvez isso se deva àquela característica que José Cardoso Pires reconheceu ao computador: é uma máquina de apagar. O lápis, tão seu preferido, tem como correlato estas sombras que facilmente se emendam, se rasuram, se movem; mudaram os instrumentos, não se alterou a pulsão correctora. E depois, que bom é olhar para o escrito, limpinho, certinho, tão acabado e tão simples (na aparência), sem vestígios de dificuldade, essas cicatrizes que o grafite, por mais macio, sempre deixava.
Quanto ao secretismo e à sua oposta exposição, esta última característica do blogue, muito há a analisar. Desde logo, duvida-se que a oposição seja assim tão evidente. De facto, se o acesso público ao ecrã é inegável, isso não significa que não haja segredo. A leitora que aqui se mostra é uma representação, constituída por diversos fragmentos que a aproximam e, simultaneamente, a afastam daquela que manipula as teclas.
Não existem nomes próprios, dela ou dos seus conhecidos corpóreos? Não existem referências concretas ao curso dos dias, às suas horas e aos seus afazeres? Só uma parte da vida aqui se espelha? Mas se é a melhor parte! É o lado do sonho, da evasão, das amadas palavras, aquele que aqui se regista e procura. Não cabem neste lugar maledicências, notas mesquinhas ou desabafos verrinosos, tentativas vãs de escapar ao mal dos dias. Não quer conspurcar o seu diário com a usura do quotidiano e a náusea, com o medo, o maior veneno, ainda que aqui e ali toda a pequenez e toda a dor se manifestem, tingindo de escuro os fundos dos separadores...
Apesar de tudo, é evidente que o facto de a criatura saber que pode ser vista por qualquer um influencia a escrita. Será este diário menos íntimo do que outro que ficasse fechado na gaveta ou no ficheiro pessoal? Sim, por certo. A possibilidade de público também motiva a divulgação de textos de diferentes géneros, versando temas e motivos que, crê-se, poderão interessar a terceiros. O diálogo, concretizado através de comentários escritos ou de viva voz, institui outra diferença em relação a essas folhas escondidas no compartimento secreto, inacessíveis.
O blogue perde em intimidade, mas continua a ser pessoal. Há uma autoria, há uma identidade (já não diz um estilo; isso é que seria o supremo encanto!)

[A reflectir: diferença entre os conceitos de diário pessoal e diário íntimo]


quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Memories

Cartas, que o tempo levou. Já não se escrevem nem se recebem. Ficou mais curta a intimidade.

Anders Wallace

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dos diários e assim

"Este diário da Índia, embora a ela evidentemente se refira por diversas vezes e de diversas formas, foi, na altura em que lá vivia, um modo de me evadir do meu dia-a-dia indiano tantas vezes penoso, e de procurar enraizar-me através de leituras, livros e recordações, noutras paisagens e gentes. Uma forma avulsa de me reencontrar.
Quantas vezes a elaboração de um diário não nos oferece a possibilidade de embarcarmos para outras paragens...?"

Marcello Duarte Mathias, Diário de Paris: 2001-2003, Lisboa, Oceanos, 2006.


Por que se escrevem diários? Porquê manter este diário de leituras? Qual a origem da compulsão da escrita diarística?

Estas perguntas são de difícil resposta e requerem leituras, pois que de um género de escrita complexo se trata. No entanto, fiquemo-nos por uma reflexão impressionista, mais ajustada à canícula recém-chegada.
Se atendermos às palavras de Marcello Duarte Mathias, um diário é uma forma de evasão - "possibilidade de embarcarmos para outras paragens" - e de enraizamento noutra paisagem - "outras paisagens e gentes"-,  através de "leituras, livros e recordações". Recorremos, então, ao papel ou ao rectângulo branco para nos libertarmos do mal-estar quotidiano ("um modo de me evadir do meu dia-a-dia indiano tantas vezes penoso"), achando morada no território dos afectos, novo e antigo. Assim, recolhemos fragmentos vários, palavras, imagens, sons, com a intenção de criarmos uma paisagem a habitar, por nós e por outros. Sim, por outros, pois que os diários aqui lembrados não se escondem na gaveta, antes se oferecem aos mais diversos e incertos olhares.
Nesta terra oscilante, somos o espelho, o rosto e o retratista, que move a cabeça com as mãos, buscando a melhor pose: com inclinação, sem inclinação, de perfil mais ou menos pronunciado, à medida da velatura desejada... A nomeação faz-se por meio de perífrases, palavras compostas, pronomes vários, muitas vezes na terceira pessoa, também há quem recorra a letras maiúsculas seguidas de pontinho. Não raro, convocam-se máscaras sugestivas da face oculta. Estratégias para esconder e revelar a identidade. Quem escreve, afinal, é e não é aquele que se toma por autor. O diarista, afinal, quer criar o novo feliz, mas reunindo o vivido (lido). O diarista, afinal, é um colector, que quer voar, mas levando nas asas todo o mundo conhecido. Quem escreve, afinal, procura-se a si e ao outro...
... Afinal?
E, então, quando o diarista tem a compulsão de APAGAR tudo (quase tudo...) o que escreve/coloca no blogue, no diário? Vê-se que o diálogo é constante, não só com o mundo das palavras, mas também com os leitores do dito blogue-apagando-se, que, nota-se, comentam de viva voz o que vai surgindo e servem tanto de interlocutores como de inspiradores. Talvez seja isso: o centramento no presente! Mas... Todos os diários se centram no presente, ou não?
A verdade é que esta leitora, armada em diarista, não sabe o que é um diário, não sabe por que razão mantém este blogue ( não quererá saber bem...), o que sabe é que gosta de escrever estas entradas e das respostas que lhe vão chegando. Descobriu sobre si que é uma colectora, por isso não entende Jocardo / Peribiblio, com a sua ânsia de apagar!