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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Cafés

Com este tempo frio, e depois de um breve período em casa, como compete em pausa lectiva, apetece um café, mas não um café qualquer - um café de Steiner. Este maître à penser considera estes espaços um dos traços identitários da Europa, e apresenta-os de tal forma, que cria o desejo de sair da clausura doméstica e entrar nesse sedutor cronótopo. Leiamos, então, o que escreve:

"A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa».
O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flâneur e o poeta ou metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática. Uma chávena de café, um copo de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia. É o clube dos espirituosos e a poste-restante dos sem-abrigo. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Três cafés principais da Viena imperial e entre as guerras forneceram a agora, o locus da eloquência e da rivalidade, a escolas adversárias de estética e economia política, de psicanálise e filosofia. Quem desejasse conhecer Freud ou Karl Kraus, Musil ou Carnap, sabia precisamente em que café procurar, a que Stammtisch tomar lugar. Danton e Robespierre encontraram-se uma última vez no Procope. Quando as luzes se apagaram na Europa, em Agosto de 1914, Jaurès foi assassinado num café. Num café de Genebra, Lenine escreveu o seu tratado sobre empiriocriticismo e jogou xadrez com Trotsky."

George Steiner, A Ideia de Europa, Lisboa, Gradiva, 2007, pp. 26-27.

Textos com esta densidade e clareza de ideias despertam a vontade de agir, de pegar nos livros dos autores citados e passar horas e horas em cafés estético-literários. Mas o que temos não é bem a mesma coisa, nem o tempo, nem o modo de vida...

Resta imaginar.

domingo, 24 de julho de 2011

Uma ideia de Europa

A leitora diria antes "um sentimento de Europa", que se intensifica num país estranho, à mesa de um café, quando o olhar se perde nas ruas, no rasto de transeuntes vários, outros europeus levados pelas suas diversas urgências ou simples prazeres deambulatórios. As vozes... Nós. 


George Steiner sobre a Ideia de Europa:


"Cinco axiomas para definir a Europa: o café; a paisagem humana que possibilita a sua travessia; as ruas e praças nomeadas segundo estadistas, cientistas, artistas e escritores do passado - em Dublin, até nos terminais rodoviários se indica o caminho para as casas de poetas; a nossa descendência de Atenas e Jerusalém; e, por fim, a apreensão de um capítulo derradeiro, daquele famoso ocaso hegeliano que ensombra a ideia e a substância da Europa mesmo nas suas horas mais luminosas"


George Steiner, A Ideia de Europa, Lisboa, Gradiva, 2004 (trad. Maria de Fátima St. Aubyn).



Rememorações: os grandes trágicos - Eurípides, Ifigénia em Áulide



Michael Cocoyannis, Iphigeneia at Aulis