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quinta-feira, 3 de maio de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

Passeio à beira-rio, depois de manjares excelentes

Depois de alegre e abundante repasto, rematado  a chocolate e coloridas chávenas de Joana Vasconcelos, foi tempo de um passeio à beira-rio. Para lá do centro da vila, até há poucos anos matizado a lilás, encontra-se um novo jardim, riscado a traço moderno, mas ainda com restos bravios.

(Flanemos.)


Neste passo, uma garça descansava dos seus elegantes voos.




Neste, uma velha nora restaurada conservava a sua alva beleza.




Pouco depois, um casal de patos primaveris deixou-se fotografar.


Ele


Ela


Aqui, uma panorâmica do que restou de indústria têxtil: um centro de eventos camarários, rodeado por velhos armazéns e novas vivendas, com o rio em baixo.




Em tempos, esta foi uma zona de cheias e, por isso, desabitada. Actualmente, após o emparedamento do rio e a consequente domesticação do caudal, crê-se que o terreno não voltará a ser fustigado pelas águas, pelo que a construção foi autorizada e a vila expande-se nesta direcção. Parece-me bem. O desenvolvimento é uma necessidade das populações e permite a respiração dos lugares, que se querem vivos. O problema será outro, relacionado com a lenta alteração do centro, mas hoje não falarei dessas dificuldades que afectam os centros urbanos, tanto de cidades grandes, como de pequenas vilas.

domingo, 18 de março de 2012

Cá em casa, domingo também é dia de envelopes


Entre a pausa e a fuga, deslocação à estante envidraçada para descansar os olhos. Um livro de Eugénio de Andrade, poeta de primeiríssima água, estranhamente ausente deste blogue, um poema muito bonito, e sugestivo:


A Estante (pormenor)



VER CLARO

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.


Eugénio de Andrade, Os sulcos da sede, Vila Nova de Famalicão, Quasi/Fundação Eugénio de Andrade, 2007. 

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Vozes e Paisagens

Assim, a modos que recolhida, ouve vozes: dos poetas e prosadores, das gentes que cruzam as ruas do quotidiano, dos vizinhos, da televisão (desligada em nome da sanidade mental), vocalizações de agora e de outrora, ecos das profundezas ou de ailleures; tudo desenhando paisagens abertas às letras e ao sonho.


Paisagem onírica

Paisagem exótica, com flash

Não termina esta entrada sem a erudição de umas palavras francesas, inspiradoras deste cenário tão catita:

"Il y a donc, d'après nous, dans l'activité poétique une sorte de réflexe conditionné, réflexe étrange, car il a trois racine: il réunit les impressions visuelles, les impressions auditives et les impressions vocales."

Gaston Bachelard, L'eau et les rêves: essai sur l'imagination de la matière, Paris, José Corti, 1997 (1ª ed. 1942).

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Diário de Maria Amélia III

Chianca de Garcia, Aldeia da Roupa Branca


Dedicava-se ao ofício de lavadeira. Com pouco gosto, diga-se, mas cumprindo as tarefas esperadas e conformes: cantarolava vagas insinuações brejeiras, esborrachava o sabão azul e branco nos alvos panos, esfregava com zelo, batia as fronhas na pedra e enxaguava, diligentemente enxaguava a sua trouxa nas águas comuns; de vez em quando, também subia a voz, para chamar outra camarada de tanque ou, então, para fazer valer a sua opinião, que, assim, se destacava em expressividade. Estes dizeres guinchados, todavia, não lhe saíam com naturalidade, era preciso acordar os músculos do aparelho fonador, arranhar as cordas vocais, inspirar com convicção e, de seguida, com toda a força, lançar a palavra mole. Com tanto esforço, nem sempre conseguia entrar no bulício no momento certo, tropeçava, demorava-se, desarmonizava-se; enfim, estava sempre um pouco fora do ritmo. Era estranha, ou melhor, deste modo a poderia considerar o gaiteiro rancho. Por isso, acautelava-se. Estava sempre vigilante, recompunha o traje e a cantoria logo à mínima desafinação, de maneira a passar despercebida. Sabia que o seu destino dependia da invisibilidade e que o equilíbrio estava por um fio.
Só as noites eram suas. Entregava os trapos ao luar, recolhia-se e partia na sua barca. Buscava a cidade, demandava sonhos, procurava a palavra, a de sílabas de luz. Sim, só essa palavra mágica a poderia libertar, sabia-o bem, agora e desde menina. Sempre fora sensível ao seu chamado, sempre o seu eco fizera ninho no seu coração. Deslizava na sua corrente sanguínea, caldeava-se com os seus fluxos mais íntimos, era parte de si. Mas, ultimamente, sentia-se exangue, ensurdecida. As noites transmudavam-se em frio e sobressalto, em arrecadação de trouxas de alienígena freguesia. Qualquer coisa tinha tomado conta do sono e impedia a viagem. Perto, perto ainda um murmurinho de alegria, resistente. 



quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Um espelho no caminho

"A conversa recai sobre algumas figuras nacionais muito em voga. Num país como o nosso - rico de sentimentos, escasso de convicções -, todo aquele ou aquela que afirme opiniões de forma peremptória passa logo ao estatuto superior de personalidade. Invejável condição que confere, a quem dela beneficie, consideração e impunidade.
Quanto às ditas opiniões, pouco interessa averiguar do seu bom fundamento, tudo está no tom com que se enunciam. É quanto basta.
De facto, entre nós, o elogio ou, o seu contrário, a maledicência, raras vezes exprimem espírito crítico."


Marcello Duarte Mathias, Diário de Paris: 2001-2003, Lisboa, Oceanos, 2006, p. 261.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Cafés

Com este tempo frio, e depois de um breve período em casa, como compete em pausa lectiva, apetece um café, mas não um café qualquer - um café de Steiner. Este maître à penser considera estes espaços um dos traços identitários da Europa, e apresenta-os de tal forma, que cria o desejo de sair da clausura doméstica e entrar nesse sedutor cronótopo. Leiamos, então, o que escreve:

"A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa».
O café é um local de entrevistas e conspirações, de debates intelectuais e mexericos, para o flâneur e o poeta ou metafísico debruçado sobre o bloco de apontamentos. Aberto a todos, é todavia um clube, uma franco-maçonaria de reconhecimento político ou artístico-literário e presença programática. Uma chávena de café, um copo de vinho, um chá com rum assegura um local onde trabalhar, sonhar, jogar xadrez ou simplesmente permanecer aquecido durante todo o dia. É o clube dos espirituosos e a poste-restante dos sem-abrigo. Na Milão de Stendhal, na Veneza de Casanova, na Paris de Baudelaire, o café albergava o que existia de oposição política, de liberalismo clandestino. Três cafés principais da Viena imperial e entre as guerras forneceram a agora, o locus da eloquência e da rivalidade, a escolas adversárias de estética e economia política, de psicanálise e filosofia. Quem desejasse conhecer Freud ou Karl Kraus, Musil ou Carnap, sabia precisamente em que café procurar, a que Stammtisch tomar lugar. Danton e Robespierre encontraram-se uma última vez no Procope. Quando as luzes se apagaram na Europa, em Agosto de 1914, Jaurès foi assassinado num café. Num café de Genebra, Lenine escreveu o seu tratado sobre empiriocriticismo e jogou xadrez com Trotsky."

George Steiner, A Ideia de Europa, Lisboa, Gradiva, 2007, pp. 26-27.

Textos com esta densidade e clareza de ideias despertam a vontade de agir, de pegar nos livros dos autores citados e passar horas e horas em cafés estético-literários. Mas o que temos não é bem a mesma coisa, nem o tempo, nem o modo de vida...

Resta imaginar.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Diário de Maria Amélia II



Jacek Yerka, Boudoir


Vêm chegando, uma a uma, em pequenos grupos, todas envoltas nos seus cachecóis de lã, ora lisos, ora de múltiplas cores, nos seus sobretudos aprumados, nas suas calças de mulher ou saias de andar. Vêm chegando, na sua nuvem de perfume e cinzentismo. Vêm chegando e sentam-se a esmo, trocando dizeres, até que o burburinho se desvie para a sala combinada.
Aí, perfilam-se, canetas em riste, cadernos abertos, a prontidão para o apontamento, para a palavra conveniente. Como perder a necessária orientação para o movimento do espanador? Limpar o pó é uma tarefa assaz complexa e importante. Dela depende a harmonia da casa, o uniforme semear de ácaros, o competente brilho, o justo entendimento da escrita na areia, frases em letra de imprensa a duas colunas, o mistério a abrir-se. Mas nem só de poeira se faz a lida. É preciso compor as jarras com as flores que cada uma trará do seu jardim, assegurar que condizem com o lavrado do tapete, garantir que a natureza está no seu devido lugar e na medida certa, q.b. Ah! e as cores, não esquecer o cromatismo e o jogo de contrastes! E o ritmo? Como marcar o ritmo? Foi muito pertinente a intervenção. Máquina de costura, máquina de lavar, passos de chinelo, o crepitar das chamas, nada é esquecido, nada será deixado ao acaso. Até o cantar de galo e o carrinho de linhas têm o seu sítio exacto.
Só a pequena trupe esquipática destoa de tão concertado ambiente. Querem almofadas para espalhar suas cabeleiras, águas horizontais para licenciosos banhos, querem espelhos de fixar medusas e outras excentricidades. No entanto, seja qual for a sua vontade, a tarefa futura já lhes está destinada - contar os espinhos do cacto.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Queixa

Não é o frio do Inverno, não é o cansaço;
são os meus braços vazios, as veias exangues...

domingo, 6 de novembro de 2011

Fugas

Enquanto ela se entrega a árdua tarefa, deixemos a leitora com os seus pequenos prazeres: Música.


Johann Sebastian Bach


[É tão antiquada, a nossa escola. Ainda e sempre as mesmas provas, quaisquer que sejam as mudanças. Como há décadas, desconsiderando continuamente a vertente artística, esquecendo o tempo...]

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Diário íntimo - diário pessoal

Escrever no ecrã ou escrever no caderno...

A incumbência era a escrita do diário, com regularidade, em qualquer suporte, mas hoje foram introduzidas restrições: distinguir e problematizar a dicotomia público / privado e... escrever à mão!
Que estranheza! Enquanto as vozes soavam, a leitora reparou que há muito não escreve à mão. Antigamente, até ao ano de 2002, o mais íntimo, diário e cartas, pedia uma caneta ou um lápis e seguia o movimento da mão sobre a folha de papel, desenhava-se uma caligrafia ora trémula e hesitante, ora corrida e urgente... Significa esta alteração menos autenticidade? Por que aderiu a leitora tão facilmente à escrita no ecrã, com a sua formatação pré-definida? Talvez isso se deva àquela característica que José Cardoso Pires reconheceu ao computador: é uma máquina de apagar. O lápis, tão seu preferido, tem como correlato estas sombras que facilmente se emendam, se rasuram, se movem; mudaram os instrumentos, não se alterou a pulsão correctora. E depois, que bom é olhar para o escrito, limpinho, certinho, tão acabado e tão simples (na aparência), sem vestígios de dificuldade, essas cicatrizes que o grafite, por mais macio, sempre deixava.
Quanto ao secretismo e à sua oposta exposição, esta última característica do blogue, muito há a analisar. Desde logo, duvida-se que a oposição seja assim tão evidente. De facto, se o acesso público ao ecrã é inegável, isso não significa que não haja segredo. A leitora que aqui se mostra é uma representação, constituída por diversos fragmentos que a aproximam e, simultaneamente, a afastam daquela que manipula as teclas.
Não existem nomes próprios, dela ou dos seus conhecidos corpóreos? Não existem referências concretas ao curso dos dias, às suas horas e aos seus afazeres? Só uma parte da vida aqui se espelha? Mas se é a melhor parte! É o lado do sonho, da evasão, das amadas palavras, aquele que aqui se regista e procura. Não cabem neste lugar maledicências, notas mesquinhas ou desabafos verrinosos, tentativas vãs de escapar ao mal dos dias. Não quer conspurcar o seu diário com a usura do quotidiano e a náusea, com o medo, o maior veneno, ainda que aqui e ali toda a pequenez e toda a dor se manifestem, tingindo de escuro os fundos dos separadores...
Apesar de tudo, é evidente que o facto de a criatura saber que pode ser vista por qualquer um influencia a escrita. Será este diário menos íntimo do que outro que ficasse fechado na gaveta ou no ficheiro pessoal? Sim, por certo. A possibilidade de público também motiva a divulgação de textos de diferentes géneros, versando temas e motivos que, crê-se, poderão interessar a terceiros. O diálogo, concretizado através de comentários escritos ou de viva voz, institui outra diferença em relação a essas folhas escondidas no compartimento secreto, inacessíveis.
O blogue perde em intimidade, mas continua a ser pessoal. Há uma autoria, há uma identidade (já não diz um estilo; isso é que seria o supremo encanto!)

[A reflectir: diferença entre os conceitos de diário pessoal e diário íntimo]


terça-feira, 4 de outubro de 2011

o melhor, enfim

Porque o melhor, enfim,
É não ouvir nem ver...
Passarem sobre mim
E nada me doer!

[...]

Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.

[...]

E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada,
Muito quietinho. A rir-me
De não me doer nada.

Camilo Pessanha, Clepsydra, Lisboa, Relógio d'Água, 1995 (edição crítica de Paulo Franchetti).

Calor de Outono

A disciplina trouxe-a aqui, mas hoje nem leituras nem meditações, só calor, calor, calor! Outonal torpor!

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dos diários e assim

"Este diário da Índia, embora a ela evidentemente se refira por diversas vezes e de diversas formas, foi, na altura em que lá vivia, um modo de me evadir do meu dia-a-dia indiano tantas vezes penoso, e de procurar enraizar-me através de leituras, livros e recordações, noutras paisagens e gentes. Uma forma avulsa de me reencontrar.
Quantas vezes a elaboração de um diário não nos oferece a possibilidade de embarcarmos para outras paragens...?"

Marcello Duarte Mathias, Diário de Paris: 2001-2003, Lisboa, Oceanos, 2006.


Por que se escrevem diários? Porquê manter este diário de leituras? Qual a origem da compulsão da escrita diarística?

Estas perguntas são de difícil resposta e requerem leituras, pois que de um género de escrita complexo se trata. No entanto, fiquemo-nos por uma reflexão impressionista, mais ajustada à canícula recém-chegada.
Se atendermos às palavras de Marcello Duarte Mathias, um diário é uma forma de evasão - "possibilidade de embarcarmos para outras paragens" - e de enraizamento noutra paisagem - "outras paisagens e gentes"-,  através de "leituras, livros e recordações". Recorremos, então, ao papel ou ao rectângulo branco para nos libertarmos do mal-estar quotidiano ("um modo de me evadir do meu dia-a-dia indiano tantas vezes penoso"), achando morada no território dos afectos, novo e antigo. Assim, recolhemos fragmentos vários, palavras, imagens, sons, com a intenção de criarmos uma paisagem a habitar, por nós e por outros. Sim, por outros, pois que os diários aqui lembrados não se escondem na gaveta, antes se oferecem aos mais diversos e incertos olhares.
Nesta terra oscilante, somos o espelho, o rosto e o retratista, que move a cabeça com as mãos, buscando a melhor pose: com inclinação, sem inclinação, de perfil mais ou menos pronunciado, à medida da velatura desejada... A nomeação faz-se por meio de perífrases, palavras compostas, pronomes vários, muitas vezes na terceira pessoa, também há quem recorra a letras maiúsculas seguidas de pontinho. Não raro, convocam-se máscaras sugestivas da face oculta. Estratégias para esconder e revelar a identidade. Quem escreve, afinal, é e não é aquele que se toma por autor. O diarista, afinal, quer criar o novo feliz, mas reunindo o vivido (lido). O diarista, afinal, é um colector, que quer voar, mas levando nas asas todo o mundo conhecido. Quem escreve, afinal, procura-se a si e ao outro...
... Afinal?
E, então, quando o diarista tem a compulsão de APAGAR tudo (quase tudo...) o que escreve/coloca no blogue, no diário? Vê-se que o diálogo é constante, não só com o mundo das palavras, mas também com os leitores do dito blogue-apagando-se, que, nota-se, comentam de viva voz o que vai surgindo e servem tanto de interlocutores como de inspiradores. Talvez seja isso: o centramento no presente! Mas... Todos os diários se centram no presente, ou não?
A verdade é que esta leitora, armada em diarista, não sabe o que é um diário, não sabe por que razão mantém este blogue ( não quererá saber bem...), o que sabe é que gosta de escrever estas entradas e das respostas que lhe vão chegando. Descobriu sobre si que é uma colectora, por isso não entende Jocardo / Peribiblio, com a sua ânsia de apagar!

sábado, 14 de maio de 2011

Poesia na Tarde

Pelo Jardim Gulbenkian: famílias, em passeio, adolescentes, crianças tranquilas, adultos novos, de meia-idade ou já velhos, jovens na relva, leitores no anfiteatro, em baixo, actores de improviso, turistas rosados, deambulando, os patos, tantos, sombras, bancos e mesas de pedra, água fresquinha e rumorosa. Ela passeia também, bebendo a placidez do lugar e saudando fauna e flora, a amizade. A poesia do dia.

Oferece ao tempo estas palavras luminosas de Luiza Neto Jorge:

Dos felinos

Nenhum vocábulo detém o gato
e o sublinha, lacónico,
no choro, no cio.

Completo gemido, curvatura, elo.
Despojado, num túnel,
da pele, do pêlo.

Só lhe ganha o homem
ganhando erecção, êxtase,
circulação do sangue
orientada.

Luiza Neto Jorge, poesia, Lisboa, Assírio e Alvim, 2001.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sentada, uma mulher olha

Sentada, uma mulher olha o movimento dos carros que se vão na Avenida de Roma, envoltos numa chuvinha miúda, para nunca mais. Nunca mais regressar à cidade amada... só a voz dos poetas ou um ocasional bilhete postal para embalar a saudade:

"Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras,o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer."

Cesário Verde, "O Sentimento dum Ocidental"


Sérgio Godinho e Caetano Veloso