Melhor há de mil anos que me grita
Um voz, que me diz: És pó da terra!
Melhor há de mil anos que me desterra
Um sono, que esta voz desacredita.
Diz-me o pó que sou pó, e a crer me incita
Que é vento quanto nesse pó se encerra;
Diz-me outro vento que esse pó vil erra.
Qual destes a verdade solicita?
Pois, se mente este pó, que foi do mundo?
Que é do gosto? que é do ócio? que é da idade?
Que é do vigor constante e amor jocundo?
Que é da velhice? que é da mocidade?
Tragou-me a vida inteira o mar profundo!
Ora quem diz sou pó, falou verdade.
D. Francisco Manuel de Melo
In Natália Correia, Antologia da poesia do período barroco, Lisboa, Morais Editores, 1982.