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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A propósito de "selfies" e autorrepresentação online


Rubens. A Cabeça de Medusa. 1617.
"Haverá melhor auto-retrato do que aquilo que se vai publicando, bom ou mau, muito ou pouco, já que escrever é sempre uma forma imprudente de identificação e autobiografia?"
Marcello Duarte Mathias . "Auto-retrato" In A Memória dos Outros: Ensaios e Crónicas. Lisboa: Gótica, 2001. p. 325.

Andava esta leitora a pensar em selfies, após leitura de uma publicação de V. G. no Facebook / no blogue Enfermaria 6, sem chegar a conclusões, até porque não pratica a "modalidade", quando é surpreendida pela última página do Jornal de Letras (05 a 18 de agosto de 2015). Aqui, na secção de "Diário", o escritor Mário Cláudio publica "16 entradas do Facebook"! Surpresa! Surpresa! Então a escrita na famosa rede social também pode ser vista como escrita diarística?
As relações entre o blogue e o diário há muito que são óbvias, como já se pensou nestas páginas, verificando-se mesmo a transformação de alguns blogues em livros, como acontece com outros diários clássicos que chegam às livrarias, todos com qualidade literária variável, digamos. Já a assunção das publicações rápidas no Facebook como "entradas" diarísticas parece menos óbvia, parece que lhe falta o trabalho de representação do Eu que se evidencia no diário ou em blogues tão conhecidos como, por exemplo, o ana de amesterdam, também ele já com um duplo em livro. De facto, o imediatismo e a brevidade da escrita nas redes sociais parecem contrários ao labor e ao rigor da escrita que busca conhecer e conhecer-se e... revelar-se através da representação desse Eu enigmático e movente que atrai e atormenta o diarista. Acresce que a massificação característica das redes sociais parece mais propícia à reflexão sociológica sobre as formas de comunicar do homem desenvolvido (tecnológico) do que à reflexão literária ou ontológica. Ainda mais que lhes falta tempo, i.e., nem as publicações requerem grandes demoras, bastando, por vezes, um mero clique, quando se trata de "partilhar" vídeos, fotografias ou "posts" alheios, nem a sua visualização permite atrasos, uma vez que são constantemente sobrepostas ou substituídas por outras; podem voltar, é certo, mas, nesse caso, vêm desprovidas de cronologia pois o tempo das redes sociais é o eterno presente, não obstante as tentativas da rede de lembrar o que o utilizador publicou "há cinco anos". O efémero e o perene entrelaçam-se desta maneira, anulando essa dimensão essencial do humano que é o tempo. Que Eu, então, se vislumbra? Um ser liberto do mal de Cronos ou um ser prisioneiro do presente sem fim nem princípio?
A estranheza das selfies e a dificuldade em entendê-las como sucedâneos do autorretrato resultam precisamente destas duas dimensões: a massificação e o imediatismo. A falta. Falta de quê? De tempo, claro. E da terrível face da Medusa. Mais do que de Narciso, arquétipo do sujeito autobiográfico ou do utilizador da rede, apaixonado pela sua belíssima imagem, admitindo que estas representações de si, tão iguais e repetitivas, sejam percorridas pelo amor, mesmo que louco. E o amor, não é feito de tempo e imaginação?
[E a leitora não conseguiu fugir ao juízo moral, pois não? Está mal.]

segunda-feira, 25 de março de 2013

A política, em Portugal!

(...)

Já quase em desespero, Galvão Telles [Ministro da Educação] convida Ulisses Cortês [Ministro das Finanças] para um almoço a dois - num bom restaurante do Chiado - e defende de viva voz o seu projecto, com toda a verve e poder argumentativo de alguém que, além de professor de Direito, é um excelente advogado.
O seu colega das Finanças, já na sobremesa, diz-lhe que não é possível: a guerra do Ultramar é a prioridade da política financeira, e não se lhe pode cortar uma fatia tão importante.
Já durante o café, o Prof. Galvão Telles tem então a chamada «inspiração divina», e diz ao seu colega:
- Ó Ulisses, esqueça por uns instantes que somos Ministros. O que lhe peço é um gesto pessoal, de amigo a amigo. Faça-me lá esse favor!
Resposta imediata de Ulisses Cortês:
- Ó meu caro Amigo: mas isso muda o caso de figura. Se me põe o problema dessa forma, o seu projecto será imediatamente aprovado!
 
Parafraseando Júlio Dantas, como é diferente a política, em Portugal!
 
 
Diogo Freitas do Amaral, Ao correr da memória: Pequenas histórias da minha vida, Lisboa, Bertrand, 2003.
 
 
 
 
Aí está a biografia de Mário Soares, em 851 páginas, da autoria do jornalista Joaquim Vieira, da esfera dos livros (2013). Depois do ensaio autobiográfico do político português, algures pelas estantes familiares, é um bom livro para a compreensão da figura e da época histórica que viveu e marcou.
Da leitura de memórias, autobiografias, entrevistas, biografias ou outros textos deste género, constrói-se uma imagem de um tempo já passado muito interessante, em que sobressai a componente humana e, até, casual dos acontecimentos que ganharam lugar nos registos da História. Outro aspecto, para já evidente, em casos tão diversos como os de Adriano Moreira ou Mário Soares, por exemplo, para além da qualidade intelectual, é a importância das ligações pessoais para a acção política.
Pergunto: será mesmo essa a natureza da política ou é uma particularidade da situação portuguesa? Nas leituras em curso, ressalta uma certa coerência de classe, isto é, não obstante as diferenças ideológicas e as singulares histórias de vida, em que os vários protagonistas estiveram tantas vezes em lados opostos da barricada, parece evidenciar-se uma certa linguagem e maneiras que designaria como sendo próprias da classe média, ou melhor, da burguesia. As formas de tratamento, aquilo que se dizia e o modo como se dizia, o que se calava, as solidariedades estabelecidas, as incompreensões, as concepções de vida, as circunstâncias das amizades e dos contactos criados no liceu, na universidade e noutras instituições, até mesmo, em alguns casos, as referências, ou ausência delas, a figuras populares ou pequenos episódios vividos com as massas, todos estes aspectos parecem constituir sinais de uma certa identidade de classe.



quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Testes, textos e os bordados das avós

Numa passagem rápida pelos blogues habituais, lê-se o que no Um jeito manso se escreveu sobre o enxoval e os bordados da mãe e das avós, feitos com carinho e esperança. Práticas de outro tempo, que a leitora também recorda, ainda que o contexto e a "época" fossem diversos, eventualmente (o final dos anos 80 não era propício a estas delicadezas). Hoje tais formas de partilhar os afectos ou de construir o futuro parecem muito distantes. Este facto não impede que a memória dessas vivências passadas seja importante para o crescimento afectivo, pelo que os testemunhos ou os textos literários que as revelam devem ser partilhados. Foi o que a leitora fez há uns anos, no curso nocturno. No teste do Módulo I, sobre os textos autobiográficos, usou um excerto do diário de Luísa Dacosta. Foi muito apreciado.
 
Aqui fica.

"1980

Janeiro, Matosinhos

 Os malmequeres tinham os olhinhos abertos a furador e as pétalas de um cheio alto, minuciosamente, pespontado à volta. As rosas? De um coração de crivo, muito trabalhado, partia um recorte fino e sinuoso, preenchido a barras de cheio baixo que um ponto arrastado sublinhava. Nas folhas de pé cheio e bainhas assimétricas, o bordado era ainda mais requintado: uma trama axadrezada e ziguezagueante de pontos sobrepostos. Malmequeres e rosas formavam duas hastes entrelaçadas, como mãos que quisessem colher um rosto, e rodeavam um L – de Letícia? De Luz? De Luísa? A letra era almofadada e o crivo entalhava-se-lhe no corpo e na volta, que terminava em volutas, texturadas e nosinhos minúsculos. Uma bainha aberta, larga, geometrizada a bastidor, e quase musical, fazia-lhe uma moldura, nos cantos rematada por um florescer de pétalas, como que colhidas em frágil teia de aranha.
Quando aquele bordado passasse para uma gaveta das filhas, sentiriam quanto era cheio de lágrimas represadas, de frustrações e anseios pisados? Talvez invejassem apenas aquele tempo de ritmo lento, não estilhaçado por empregos e transportes, em que havia tempo para bordar. Mas a ela, que tinha tentado preencher uma grande parte da vida, vazia e solitária, com palavras, o bordado tinha-a comovido sempre. Por causa daquele L premonitório? Por toda aquela beleza, quase clandestina, destinada a passar de gaveta em gaveta? Por todo aquele trabalho que tinha enchido dias vazios?
Qual das mulheres da família o teria bordado? Tinha sido uma daquelas mulheres educadas na resignação, disso tinha a certeza. Mas qual? Todas sem força de arrostar sozinhas o julgamento de uma sociedade que as condenaria. Sem a coragem de abandonar os filhos a mãos mercenárias e sem o furor, ciumento, de Medeia para os matar, porque só isso seria capaz de ferir o coração que as abandonava e lhes traía o leito vazio, onde tinham dado à luz, bordavam. Longamente, bordavam a solidão. Com agulhas, minuciosas, que passavam lentas de um para o outro lado do bastidor, e pontos miúdos, rebatidos e afeiçoados com a unha e o dedal, na clausura provinciana de longos dias e longas noites sem aconteceres, bordavam as horas, a ausência, a longa espera, o abandono, a traição, o desespero – o pensamento a oscilar entre o folhetim e o livro de orações. Mudamente, os lábios cerrados, bordavam a solidão com arte branca que mais encegueia o linho fresco do enxoval, onde tinham deixado a chaga rubra da sua virgindade, entregue. Durante horas, dias, noites, tinham feito surgir aquela beleza no linho, que haviam sonhado toalha para o rosto amado, mesa florida de festa e lhes era sudário, em vida. Queridas vovós!"


   Luísa Dacosta, Na Água do Tempo: Diário, Porto, Asa, 2005.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Apologia do fracasso

T. e os seus títulos sugestivos - "Apologia do fracasso" -, a partir de José Castello, no blogue Literatura na Poltrona. Num balanço da vida, o que se destacaria: a correnteza dos êxitos ou o rosário dos fracassos? É chegada a hora do dito balanço? Stendhal sugere os cinquenta, idade a que ainda não chegou, mas a década caminha para essa fronteira...
 
Até lá, fiquemos na companhia do escritor francês:
 
" Sentei-me nos degraus de San Pietro e aí me deixei ficar uma ou duas horas com esta ideia a trabalhar-me: «Vou fazer cinquenta anos, já era tempo de me conhecer. Quem fui, quem sou eu, na verdade muito embaraçado me sinto em dizê-lo. "
 
"Quem fui eu, então? Não o sei dizer. A que amigo, por mais esclarecido que seja, me será dado perguntá-lo? Nem mesmo o senhor Fior(i) me poderia dar um parecer. A que amigo terei eu dito uma palavra sequer sobre os meus desgostos de amor?
E, dizia eu para comigo nessa manhã, o que há de singular e triste em tudo isto é que o prazer que fruí das minhas vitórias (como eu então, com a cabeça cheia de coisas militares, as designava) não equivale nem a metade do profundo infortúnio que colhi das minhas derrotas."
 
"À noite, ao regressar, bastante entediado, do serão em casa do embaixador, disse para comigo: devia começar a escrever a minha vida, talvez que quando, daqui a uns dois ou três anos, chegar ao fim, consiga saber o que fui, se alegre se triste, se um homem de espírito se um parvo, se um homem de coragem ou um medroso, e, finalmente, feliz ou infeliz, e talvez possa dar o manuscrito a ler a di Fiori.
Sorriu-me essa ideia. Pois sim, mas aquela horrível profusão de Eu e de Mim! Chega para pôr de mau humor o mais benévolo dos leitores. O Eu e o Mim acabariam por ser, com as devidas distâncias, como M. de Chateaubriand, esse rei dos egotistas.
De je mis avec mois tu fais la récidive... (1)
lembro-me deste verso todas as vezes que leio uma página sua.
É verdade que também se pode escrever, usando a terceira pessoa, ele fez, ele disse. Mas então como se há-de testemunhar o que se passa no íntimo, na alma de cada um? É sobretudo a este respeito que gostaria de saber a opinião de di Fiori."
 
 
Stendhal, Vida de Henry Brulard, Porto, Inova, s.d. (tradução de Luiza Neto Jorge e António Ramos Rosa)

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

da identidade e outras aproximações


Jean Sibelius

O calor abrasa, a letargia reflexiva instala-se. No regaço do Verão, manifesta-se uma nova ordem mental e uma vontade de mergulhar nas mais diversas águas: no mar, nos livros, nas vozes de ontem e de sempre, nos ritmos naturais, em toda a matéria que nos constitui, a nós e à natureza. As elevadas temperaturas parece que fundem os contrários, apaziguando a percepção da identidade.
Quem sou eu? - essa pergunta essencial - já não origina a fragmentação, mas sim a reunião do diverso: sou a voz da poesia, da manselinha voz, à voz viúva, grácil, que se exila na escuridão tranquila; sou a voz do vento que desfolha mágoas; sou a arrebatadora voz do mar que me leva para os longes; sou o eco sedutor, sou a respiração da terra. Sou a serenata que embala. Sou esta que aqui vem regularmente e sou a outra, a do corpo de afectos e de sangue, sou um nó rítmico, ponto de confluência do cosmos e da ínfima célula, e também de bits, já agora.


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Coisas que fazem mal aos olhos


"Coisas que fazem mal aos olhos

O seguinte faz mal aos olhos. Choro, fome, jejum, vinho velho, cerveja nova, turva, especialmente de centeio, demasiado macerada. Toda a embriaguez e excesso. Todo o legume, leite, queijo, e tudo o que for salgado, em fumigação ou estupefaciente, como a papoila, etc. Sono demasiado depois das refeições e vigílias imoderadas. Canto em demasia e coito frequente. Olhar em demasia para objectos brancos e luminosos. Também faz mal a flebotomia frequente e ilícita."


"Pedro Hispano" in Clara Crabbé Rocha, A caneta que escreve e a que prescreve: Doença e medicina na literatura portuguesa, Lisboa, Verbo (Babel), 2011.


[A espinhosa tarefa também não ajuda.]

quinta-feira, 24 de maio de 2012

O Corpo Plural


"O corpo plural

«Que corpo? Temos vários.» (PIT, 39) Tenho um corpo digestivo, um corpo nauseável, um terceiro susceptível de enxaquecas, e assim por diante: sensual, muscular (a mão do escritor), secretivo e, principalmente, emotivo: que é emocionado, movido, ou calcado, ou exaltado, ou atemorizado sem que isso se note. Por outro lado, sinto-me cativado até ao fascínio pelo corpo socializado, o corpo mitológico, o corpo artificial (o dos «travestis» japoneses) e o corpo prostituído (do actor). E além desses corpos públicos (literários, escritos) tenho, se assim poderei dizer, dois corpos locais: um corpo parisiense (desperto, cansado) e um corpo campesino (repousado, pesado)."


Roland Barthes, Roland Barthes por Roland Barthes, Lisboa, Edições 70, 1976.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Leituras em tempos contrários

De regresso aos bons livros

Início da leitura de um livro interessante e consolador, nestes tempos tão contrários a qualquer esperança, consolador pela inteligência, pela cultura e pela coerência de uma vida conturbada.

Mário Soares, Um político assume-se: ensaio autobiográfico, político e ideológico, Lisboa, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2011.

Do Prefácio:

"De momento, e no seguimento do último livro que publiquei, Elogio da Política, vou apenas descrever-vos o meu itinerário político e ideológico - que vale o que vale; pouco, provavelmente - sujeito às circunstâncias do lugar e do tempo, nesta terra que sempre amei apaixonadamente, Portugal. O mar, a terra, a História, as pessoas, nas suas qualidades e defeitos, a luz e as paisagens, tudo isso me influenciou. Para além dos grandes eventos nacionais e mundiais, que segui com atenção - e em alguns participei - e me marcaram, a língua portuguesa, a única que falo corretamente, e a importância da Lusofonia."

"É uma reflexão sobre esse longo e conturbado caminho, com altos e baixos, acertos e desacertos, vitórias e derrotas, ao serviço do Povo Português, a que me honro de pertencer, que vos ofereço neste livro: uma espécie de autobiografia política e ideológica, orientada por valores humanistas e princípios éticos e políticos, que nunca abandonei." 

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Escrever no ecrã III

Acabada a leitura de:

Philippe Lejeune, «Cher Écran...»: Journal personnel, ordinateur, Internet, Paris, Seuil, 2000.

"Épilogue: 1999-2000"

Algumas ideias:

- A recepção na Web é, pode ser, íntima;
- O diário online levanta questões legais, nomeadamente de citação e de autoria;
- Estas questões são não apenas de direito, mas também morais, podendo justificar a autocensura, provocada tanto por timidez, como por respeito pelo outro; a autocensura também pode ocorrer no diário em papel, todavia, nessa forma de escrita a liberdade é maior;
- A escita no computador perde o traço, enquanto a escrita na Web perde a solidão;
- Contudo, na internet o grafismo e a personalização recuperam a singularidade de outro modo atribuída ao traço;
- Tanto a escrita no caderno como a escrita no ecrã revelam um ritmo interior;
- Conceito de intimidade em rede;
- Esta escrita liga-se, por vezes à doença; nesse caso, não se escreve a dor, mas sim a resistência à dor;
- Coexistência do gosto do secreto, ligado à vontade de autenticidade, e do desejo de ser lido por outrem;
- Hipertexto, índice [arquivo]: a releitura é un gesto natural do diarista, quer a escrita se faça em papel ou no ecrã;
- Manter um diário é construir-se na duração, mas demasiado diário pode "ossificar" a personalidade; são necessárias paragens;
- Diário - dialéctica do espaço e do tempo;
- Diário - libertação;
- Nome - questão importante: nome próprio, nome de família (menos), ocultação do nome, substituído por apelidos fantasiosos ou outras designações, que são como máscaras; criação de uma nova identidade;
- Desejo de popularidade, e não de celebridade - "le rêve est de se recruter un petit cercle d'amis, d'avoir son fan-club." (p. 411).

Algumas citações:

- "[...] il n'est pas naturel d'écrire sur un cahier. Du cahier à l'ordinateur, on perd l'écriture et la trace personnelle. Du cahier ou de l'ordinateur à Internet, on pert la solitude. En revanche, je ne l'ai pas assez remarqué, on récupère, à defaut de l'écriture, la trace personelle. Pas un journal que ressemble à un autre, sur Internet, chacun veut se singulariser par sa «charte graphique», ce qui m'a d'ailleurs agacé. Mais par ce biais revient quelque chose qui est de l'orde du corps... ou de la toilette..." (p. 384)

- "Ce souci de l'enchaînement des entrées entre elles, et de leurs modulations internes, je l'ai aussi quand j'écris mon journal intime. Ce n'est pas un artifice, ça se fait tout seul. C'est simplement écrire en se sentant accordé à un rythme intérieur." (p. 385)

- "Sur Internet, le journal enfin respire, il s'étend sur une chair longue, il reprend ses aises. Le fichier, comme la feuille volante, se prête à merveille à l'écriture du fragment. Le dossier, mieux que le cahier, à l'accumulation indéfinie. Et le site est un jardin avec allées, ronds-points et perspectives, qui transpose, sans le réduire, le temps dans l'espace." (p. 422)


domingo, 16 de outubro de 2011

Escrever no ecrã II

Continuação da leitura de:

Philippe Lejeune, «Cher Écran...»: Journal personnel, ordinateur, Internet, Paris, Seuil, 2000.

Já na segunda parte, "Voyage, 1999" Lejeune apresenta a sua experiência na Web - um diário de aprendizagem, em linha durante um mês. Deste, destaque para a entrada "samedi 30 octobre", em que se sistematizam algumas ideias e se iniciam as conclusões. Aqui, discutem-se duas tendências destes diários - crónica ou diário -, como se pode observar nos seguintes excertos:

1- "En gros il y a deux tendances opposées (mais parfois associées): la chronique d'humeur et le journal intime." (p. 233)

2- "La chronique d'humeur puise souvent dans les petits faits de la vie quotidienne, mais ce n'est qu'un prétexte. Cela tient du billet journalistique et de l'atelier d'écriture. Un se trouve un petit sujet chaque jour. Tendance générale plutôt libertaire. Ça va rebondir avec les courriers qu'on reçoit, opinions discutées, expériences partagées, etc." (p. 233)

3- "le journal intime, lui, est en géneral du genre factuel et systématique (emploi du temps) et parfois impudique ou indiscret" (p. 233)

4- "La chronique provoque a la discussion. Elle suppose un effort de composition, et très souvent la recherche d'un "ton" [...] On se fait une voix reconnaissable, un style plus ou moins marqué, on pousse sa personne au personnage." (p. 234)

5- "Le journal quête la sympathie. Il repose sur le laisser-aller, prenez-moi comme je suis, on veut intéresser par une peinture fidèle et détaillée de sa vie, et non séduire par le charme de sa conversation. La composition est plus lâche." (p. 234)

6- La chronique est souvent une sorte de flirt avec le journal intime, elle le frôle, elle le taquine, mais finalement l'évite, ou plutôt c'est lui qui se dérobe." (p. 234)

7- "Difficile de généraliser sur des chiffres si faibles, mais les chroniques semblent mieux survivre que les journaux intimes." (p. 235)

[Para outro dia, a leitura de "Épilogue, 1999-2000". Fica a interrogação: Que tendência segue este blogue? Crónica ou Diário?]

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Escrever no ecrã

Primeiras leituras de:

Philippe Lejeune, «Cher Écran...»: Journal personnel, ordinateur, Internet, Paris, Seuil, 2000.

Até agora, parece interessante e com matéria para reflexão, mas já datado. Realmente, é inegável que os meios informáticos  e a Web, em particular, se desenvolvem a uma velocidade vertiginosa e que os estudos de ontem se apresentam já com atraso. Neste estudo, a  manutenção de um diário online parece ser uma coisa ainda rara, nomeadamente em França. Que distância!

Todavia, registem-se algumas questões levantadas a propósito da escrita no ecrã:

- Traço;
- Distância;
- Correcção;
- Confidencialidade;
- Releitura;
- Virtualidade;
- Comunicação.

Na primeira parte do livro, Lejeune analisa as ligações entre o caderno (escrito à mão, em papel) e o ficheiro digital; só na segunda parte reflecte sobre a escrita online, considerando que, em muitos casos, esta escrita "intimista" evoluiu do caderno e da caneta ou lápis para o ecrã, primeiro guardado em ficheiros, depois publicado, o que não impede que, por vezes, ocorra em vários suportes e registos...

Qual terá sido o percurso dos leitores deste espaço? Primeiro o caderno, depois o ficheiro secreto, e só recentemente o blogue?...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Leituras partilhadas

G. reagiu à última entrada. Tão amáveis as suas palavras, e tão evocativas!
Foram tempos intensos, a vários andamentos; por vezes, o caos. Houve fios a marcar o caminho - as mensagens, as chamadas...

São mais leves as leituras partilhadas.

[Esperemos que, ao invés, não se reabram feridas não cicatrizadas.]

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Diário íntimo - diário pessoal

Escrever no ecrã ou escrever no caderno...

A incumbência era a escrita do diário, com regularidade, em qualquer suporte, mas hoje foram introduzidas restrições: distinguir e problematizar a dicotomia público / privado e... escrever à mão!
Que estranheza! Enquanto as vozes soavam, a leitora reparou que há muito não escreve à mão. Antigamente, até ao ano de 2002, o mais íntimo, diário e cartas, pedia uma caneta ou um lápis e seguia o movimento da mão sobre a folha de papel, desenhava-se uma caligrafia ora trémula e hesitante, ora corrida e urgente... Significa esta alteração menos autenticidade? Por que aderiu a leitora tão facilmente à escrita no ecrã, com a sua formatação pré-definida? Talvez isso se deva àquela característica que José Cardoso Pires reconheceu ao computador: é uma máquina de apagar. O lápis, tão seu preferido, tem como correlato estas sombras que facilmente se emendam, se rasuram, se movem; mudaram os instrumentos, não se alterou a pulsão correctora. E depois, que bom é olhar para o escrito, limpinho, certinho, tão acabado e tão simples (na aparência), sem vestígios de dificuldade, essas cicatrizes que o grafite, por mais macio, sempre deixava.
Quanto ao secretismo e à sua oposta exposição, esta última característica do blogue, muito há a analisar. Desde logo, duvida-se que a oposição seja assim tão evidente. De facto, se o acesso público ao ecrã é inegável, isso não significa que não haja segredo. A leitora que aqui se mostra é uma representação, constituída por diversos fragmentos que a aproximam e, simultaneamente, a afastam daquela que manipula as teclas.
Não existem nomes próprios, dela ou dos seus conhecidos corpóreos? Não existem referências concretas ao curso dos dias, às suas horas e aos seus afazeres? Só uma parte da vida aqui se espelha? Mas se é a melhor parte! É o lado do sonho, da evasão, das amadas palavras, aquele que aqui se regista e procura. Não cabem neste lugar maledicências, notas mesquinhas ou desabafos verrinosos, tentativas vãs de escapar ao mal dos dias. Não quer conspurcar o seu diário com a usura do quotidiano e a náusea, com o medo, o maior veneno, ainda que aqui e ali toda a pequenez e toda a dor se manifestem, tingindo de escuro os fundos dos separadores...
Apesar de tudo, é evidente que o facto de a criatura saber que pode ser vista por qualquer um influencia a escrita. Será este diário menos íntimo do que outro que ficasse fechado na gaveta ou no ficheiro pessoal? Sim, por certo. A possibilidade de público também motiva a divulgação de textos de diferentes géneros, versando temas e motivos que, crê-se, poderão interessar a terceiros. O diálogo, concretizado através de comentários escritos ou de viva voz, institui outra diferença em relação a essas folhas escondidas no compartimento secreto, inacessíveis.
O blogue perde em intimidade, mas continua a ser pessoal. Há uma autoria, há uma identidade (já não diz um estilo; isso é que seria o supremo encanto!)

[A reflectir: diferença entre os conceitos de diário pessoal e diário íntimo]


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Jogos de lágrimas e neurastenia

Leituras de Manuel Laranjeira (1877-1912):

"1908
1ª Agenda

[...]

Terça, 18 de Agosto

A Augusta também tem a suas horas de desfalecimento e tédio. Hoje - seria impressão minha apenas? - falou-me como se fala a um estranho, a alguém que nos não compreende.
Isso amargou-me. Não pude conter-me e disse-lhe: - Augusta, não mates este amor. Deixa-o morrer...
Começou a suster as lágrimas, a sustê-las, a sustê-las, e rompeu a soluçar despedaçadamente. Saí e fui deitar-me encolhido, a sofrer, a sofrer geladamente...

[...]

Terça, 6 de Outubro

Chego a casa da Augusta muito tarde. Está acordada e a chorar...
- Por que choras?
- Tu vingas-te tão secamente, tão cruelmente!
- Vingo-me!
- Pois não estás zangado comigo?
- Eu não!
Afago-a muito: ela aperta-me muito, num choro nervoso, convulso, como querendo impregnar-me o corpo, a carne de carinho... E eu pergunto a mim mesmo, maravilhado, se não estarei em face duma criatura rara, daquelas que só desejam viver a vida com um pedaço de pão e muitas ilusões..."


Manuel Laranjeira, "Diário Íntimo", in Obras de Manuel Laranjeira, vol. I, Porto, Edições Asa, 1993 (organização, prefácio e notas introdutórias de José Carlos Seabra Pereira). 

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Narciso e outros espelhos

James Waterhouse, "Eco e Narciso" 

É conhecida a história de Narciso e da ninfa Eco, ambos perdidos por amores nefastos: ele apaixona-se pela própria imagem, reflectida nas águas límpidas; ela ama aquele que a repudia, ao reconhecer a alteridade da sua voz. O destino dos dois é a morte, pois se da jovem restará apenas os ossos e a voz (a voz intacta, os ossos transformados em rochedo), do belo filho de Liríope e de Cefiso restará tão somente uma flor branca de corola vermelha, conhecida como narciso ou como flor-de-lis.
Eco e Narciso representam, respectivamente, o paralelismo da imagem vocal e da imagem visual e a duplicidade que estas evocam. O mito congrega ainda o amor, a beleza e a morte, pois se a beleza suscita o desejo e afecta tanto rapazes como raparigas, é ela que seca e devora Eco, primeiro, e depois o próprio Narciso. É a beleza que, inflamando os jovens de desejo e amor, provoca a sua destruição.
O espelho das águas ou o seu similar espelho de vozes constituem lugares de perigo e perdição amorosa.

A propósito deste objecto, ressalve-se que para os gregos ele era um lugar de atracção, de fascínio e de captura. Por esta razão, o espelho estava interdito aos homens, havia que os salvaguardar do perigo de fechamento sobre si e da consequente alienação. Estava, então, reservado às mulheres, cuja condição se definia precisamente pelo fechamento e pela alienação, pois que era o outro por excelência.
Todavia, se o espelho separava, também unia, uma vez que era um elemento essencial nos preparativos nupciais, deste modo constituindo-se como um símbolo erótico. É ao espelho que a mulher se prepara para suscitar o desejo masculino, sendo que antes de ser vista ela deverá ver-se, reconhecer-se sujeito e objecto do olhar, do desejo, do amor. O espelho acompanhará a mulher até que, já velha e desistente de Eros, o deposite no templo, tal como antes fizera com a sua boneca, no adeus à infância.

Sobre esta relação dos gregos com o espelho, e da mulher em particular, escrevem Jean Pierre Vernant e Françoise Frontisi-Ducroux:

"[...] Le sentiment premier qui l'anime est le soucis de sa beauté. Son désir est tourné vers elle-même. D'où la fonction du miroir, précieuse prothése visuelle, troisième oeil artificiel. La chance de l'amant est de pouvoir prendre la place de se fidèle compagnon. Et, en se faisant miroir pour offrir à sa belle um reflet rassurant et conforme d'elle-même, de l'inciter à devenir à son tour un miroir qui lui retourne docilmente son amour... et qui, un peu plus tard, pourra le dupliquer en reproduisant les images qu'il aura imprimées en son sein.
Voilá pourquoi Écho est une femme. Vivant miroir vocal. Désir voué à n'être que réponse. Voilá pourquoi Narcisse est un garçon. Narcisse étranger au désir, qui refuse de se faire miroir d'autrui, et que les dieux condamnent, pour ce refus, au désir vain de soi, qui n'est erreur et faute que parce qu'il est un homme. Quelle femme d'ailleurs s'y serait laissé prendre?"

 Françoise Frontisi-Ducroux e Jean Pierre Vernant, Dans L'Oeil du Miroir, Paris, Editions Odile Jacob, 1997.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Contemplatio mortis

... um dos dias da semana recebe a felicidade, que vem de mansinho, senta-se e fica ali, muito quietinha, a embalar as horas do dizer e do calar. Trouxe uma prendinha. Vamos, então, desembrulhá-la e saboreá-la - um exercício:

Caravaggio, Medusa

"Escrever o quê? Pensar o quê?" (Vergílio Ferreira, Escrever)

Qualquer diarista, por menos reflexivo que seja, já se defrontou com estas interrogações. A introspecção é tanto mais inquietante quanto a matéria da escrita e do pensamento se revela ser o próprio "eu", desde logo pela dificuldade em dizer, ou "explicar", o que seja esse "eu". A linguagem oferece casas: eu, me, mim, comigo, pronomes que instituem a  pessoa como sujeito e objecto, em simultâneo.
A fragmentação, todavia, não se fica por aqui, também o tempo e o corpo, ou a sua percepção, desdobram esse incerto "eu". De facto, olhando-se no espelho das palavras, quem vê vê-se a ver-se e a ver-se outro, perdido nas curvas do tempo, descontínuo, retalhado! Confuso? Inquietante? Freud chamou-lhe "estranheza inquietante", especialmente despoletada pela contemplação do desmembramento do corpo, sistematizou o narcisismo; Jean Clair refere o mal do espelho, que oferece à Bela não o prazer da contemplação, mas o terror da visão da velhice e da morte, em suma, da petrificante Medusa.
Assim, da escrita do diário facilmente se ausenta a contemplatio voluptatis para se instalar a contemplatio mortis - Narciso transformado em Medusa!


Edward Burne-Jones, The Baleful Head


(Mas que as representações desta monstruosidade são belas, sedutoras, irresistíveis, é inegável! Atracção masoquista?)

Não termina esta entrada sem um conforto - estas palavras de Marcello Duarte Mathias:

"[O diário] Substituto ao mesmo tempo do divã do psicanalista e do confessionário, é o lugar do conflito e da reconciliação, da imobilidade e do desafio." (MDM, A Memória dos Outros: Ensaios e Crónicas, Lisboa, Gótica, 2001, p. 211.)

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dos diários e assim

"Este diário da Índia, embora a ela evidentemente se refira por diversas vezes e de diversas formas, foi, na altura em que lá vivia, um modo de me evadir do meu dia-a-dia indiano tantas vezes penoso, e de procurar enraizar-me através de leituras, livros e recordações, noutras paisagens e gentes. Uma forma avulsa de me reencontrar.
Quantas vezes a elaboração de um diário não nos oferece a possibilidade de embarcarmos para outras paragens...?"

Marcello Duarte Mathias, Diário de Paris: 2001-2003, Lisboa, Oceanos, 2006.


Por que se escrevem diários? Porquê manter este diário de leituras? Qual a origem da compulsão da escrita diarística?

Estas perguntas são de difícil resposta e requerem leituras, pois que de um género de escrita complexo se trata. No entanto, fiquemo-nos por uma reflexão impressionista, mais ajustada à canícula recém-chegada.
Se atendermos às palavras de Marcello Duarte Mathias, um diário é uma forma de evasão - "possibilidade de embarcarmos para outras paragens" - e de enraizamento noutra paisagem - "outras paisagens e gentes"-,  através de "leituras, livros e recordações". Recorremos, então, ao papel ou ao rectângulo branco para nos libertarmos do mal-estar quotidiano ("um modo de me evadir do meu dia-a-dia indiano tantas vezes penoso"), achando morada no território dos afectos, novo e antigo. Assim, recolhemos fragmentos vários, palavras, imagens, sons, com a intenção de criarmos uma paisagem a habitar, por nós e por outros. Sim, por outros, pois que os diários aqui lembrados não se escondem na gaveta, antes se oferecem aos mais diversos e incertos olhares.
Nesta terra oscilante, somos o espelho, o rosto e o retratista, que move a cabeça com as mãos, buscando a melhor pose: com inclinação, sem inclinação, de perfil mais ou menos pronunciado, à medida da velatura desejada... A nomeação faz-se por meio de perífrases, palavras compostas, pronomes vários, muitas vezes na terceira pessoa, também há quem recorra a letras maiúsculas seguidas de pontinho. Não raro, convocam-se máscaras sugestivas da face oculta. Estratégias para esconder e revelar a identidade. Quem escreve, afinal, é e não é aquele que se toma por autor. O diarista, afinal, quer criar o novo feliz, mas reunindo o vivido (lido). O diarista, afinal, é um colector, que quer voar, mas levando nas asas todo o mundo conhecido. Quem escreve, afinal, procura-se a si e ao outro...
... Afinal?
E, então, quando o diarista tem a compulsão de APAGAR tudo (quase tudo...) o que escreve/coloca no blogue, no diário? Vê-se que o diálogo é constante, não só com o mundo das palavras, mas também com os leitores do dito blogue-apagando-se, que, nota-se, comentam de viva voz o que vai surgindo e servem tanto de interlocutores como de inspiradores. Talvez seja isso: o centramento no presente! Mas... Todos os diários se centram no presente, ou não?
A verdade é que esta leitora, armada em diarista, não sabe o que é um diário, não sabe por que razão mantém este blogue ( não quererá saber bem...), o que sabe é que gosta de escrever estas entradas e das respostas que lhe vão chegando. Descobriu sobre si que é uma colectora, por isso não entende Jocardo / Peribiblio, com a sua ânsia de apagar!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Lendas da Índia

Nunca lera Luís Filipe Castro Mendes. O primeiro livro revelou-se numa visita guiada por estantes livreiras, manifestando-se a sua grande qualidade poética logo na primeira leitura, de viés, à sombra de uma simpática esplanada:

     Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia, Lisboa, D. Quixote, 2011.


Este livro pede uma leitura demorada, mas isso não impede que aqui se divulgue um poema, encontrado por acaso a páginas tantas, que glosa a escrita na "estratosfera", isto é, no "blog", estranho diário, que se quer simultaneamente público e privado, solidão partilhada e irredutível...


Ei-lo:


QUEM SE EU GRITAR...?


Fecho-me aqui:
um blog é uma estratosfera,
é uma maneira de não pertencer a nenhum mundo,
é uma forma mais de estar sozinho.

É certo que é suposto partilhar:
mas é como se uma mónada do Leibniz
lançasse palavras numa rede de ausências,
para o silêncio das esferas.

Nunca adiamos a solidão.


 Luís Filipe Castro Mendes, Lendas da Índia, Lisboa, D. Quixote, 2011.