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terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Últimas leituras de 2017, releituras em 2018

Conversas entre Umberto Eco e Jean-Claude Carrière conduzidas por Jean-Philippe de Tonnac: 

«As variações em torno do objecto livro não lhe modificaram a função, nem a sintaxe, há mais de quinhentos anos. O livro é como a colher, o martelo, a roda ou a tesoura. Uma vez inventados, não se pode fazer melhor.» (Umberto Eco)

Umberto Eco e Jean-Claude Carrière. Não contem com o fim dos livros. Gradiva, 2017


João Lobo Antunes, "Ouvir com Outros Olhos":
"De todas as experiências que marcam a nossa jornada por este mundo, é a experiência da doença que nos ameaça a vida que grava incisão mais profunda na essência do que somos, na «fraternelle jointure» da alma e do corpo de que fala Montaigne. Não o faz com o gume de uma lâmina, mas como se um monstruoso insecto de múltiplos ferrões injectasse em nós, por cada um deles, um veneno diferente que ataca uma parte específica do todo."
João Lobo Antunes, "O consolo das Humanidades" In Ouvir com Outros Olhos, Lisboa, Gradiva, 2015, p. 35.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

João Lobo Antunes

Ler os ensaios de João Lobo Antunes, um prazer e uma aprendizagem.

João Lobo Antunes, Ouvir com Outros Olhos,
Lisboa, Gradiva, 2015.

De todas as experiências que marcam a nossa jornada por este mundo, é a experiência da doença que nos ameaça a vida que grava incisão mais profunda na essência do que somos, na «fraternelle jointure» da alma e do corpo de que fala Montaigne. Não o faz com o gume de uma lâmina, mas como se um monstruoso insecto de múltiplos ferrões injectasse em nós, por cada um deles, um veneno diferente que ataca uma parte específica do todo.

João Lobo Antunes, "O consolo das Humanidades" In Ouvir com Outros Olhos, Lisboa, Gradiva, 2015, p. 35.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Homens cultos

As mulheres, e a voz das mulheres, ocuparam o primeiro plano deste blogue, na pausa carnavalesca. Hoje a atenção vai para dois homens cultos, cujos textos e/ou intervenções públicas são exemplares, enquanto reveladores de um pensamento denso e esclarecido, cada um a seu modo, sobre questões diversas, o que é um bálsamo em tempos tão exíguos e baços como os actuais.

Miguel Veiga



"Cada um é o que imagina ser.
Reivindico as contradições: o direito de ser outro de mim próprio e até estranho à minha própria imagem ou à definição que faço de mim mesmo. E mais reivindico o direito de não ter de me explicar sobre isso, ao abrigo do exercício da minha liberdade a quem, sobretudo, apaixonadamente quero." (p. 22)

"A amizade é o essencial, o sal, o sol da vida. É ela que nos funda e se nos entretece nesse acerto de olhares, nesse consenso de linguagens, nessa comunhão de gostos e contragostos, de repulsas, de preconceitos, de reflexos e, sobretudo, dos afectos das nossas águas mais silenciadas. É o lugar onde mais gosto de viver como escreveu o meu fraterno José Domingos da Cruz Santos. Embora «a verdadeira pátria dos homens seja o desejo», embora «o vício não seja a posse, mas o desejo».
A verdade do desejo é a única que não mente. Prosseguir a decifração desse mistério, desse enigma que se instaura, quanto mais real, mais oculto, nos segredos encantatórios do corpo da mulher, amado território em que o homem se perde, se encontra e se salva. Dessa eterna esfinge que a mulher encerra, invisível, indizível, inviolável. O desejo é a distância tornada sensível e o jogo de sedução é fascinante, atrai-me. Umas vezes no papel de sedutor, outras no de seduzido, não guardo a esse respeito qualquer preconceito. O que importa é que o jogo se jogue de uma forma solta, deslumbrada, desejada e com armas iguais. A sedução tem a estratégia da aparência, é uma forma encantada de representação, não é uma simulação e, muito menos, uma mentira ou uma falsificação, embora possa ser um fingimento verdadeiro. É que a sedução representa  a maîtrise do universo simbólico. Que não é da ordem da natureza, mas, sim, «cosa mentale» do prodigioso artifício criativo da mente. E, representado ou mesmo fingido, não mente." (pp. 26-7)


Miguel Veiga, "Auto-retrato" in O meu único infinito é a curiosidade, Lisboa, Portugália Editora, 2008.

João Lobo Antunes




"Percebi há muito que a medicina tem um travo diferente quando é praticada por médicos cultos não só porque apreendem mais facilmente a complexidade do que é estar doente - e Virginia Woolf tratou o tema num pequeno e admirável ensaio que intitulou precisamente On being ill - , mas também porque desenvolvem aptidões como empatia, curiosidade, sentido de humor, imaginação, disponibilidade, que lhes permitem saborear  melhor a profissão que abraçaram. Como nota Saul Bellow, «You have to be learned to capture modernity in its full complexity and to assess its human cost».
Richard Selzer, um cirurgião-escritor, chamou a atenção para o facto de que muitas dessas capacidades pessoais estão contidas no que se pode chamar conhecimento narrativo, ou seja, a capacidade de contar e ouvir histórias, de seguir o fio da narrativa, reflectir sobre a nossa própria história, imaginar a perspectiva do outro, ser levado a agir pelo seu sofrimento. Afinal, como observou George Simenon, «le romancier et le médicien sont les seules personnes qui approchent l'homme de tout près».
No fundo, avaliar um doente exige as mesmas aptidões que o exercício cuidado de qualquer leitura. Entre aquelas, eu citaria o respeito pela linguagem - e aqui apetece de novo citar Montaigne: «la parole est à moité à celui qui parle, moité à celui que l'écoute» -, a capacidade de adoptar os pontos de vista do outro, de ligar fenómenos isolados, sejam eles os dados clínicos ou simples metáforas, num tecido coerente que nos revela um novo sentido e, finalmente, alinhar os dados numa sequência lógica que liberta uma conclusão." (pp.92-93)

João Lobo Antunes, "5 - «Umana cosa é»" in Sobre a mão e outros ensaios, Lisboa, Gradiva, 2005.