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quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Ler

Sem grande convicção, comecei a ler um livro sobre leitura: The reading zone. Foi uma surpresa; estou a gostar e a aprender. O livro apresenta um projeto escolar centrado na leitura e na formação de leitores "apaixonados, competentes, habituais e críticos". Claro está que, nesta escola, as práticas de leitura usuais se afastam do método analítico e do "New Criticism" ou do Estruturalismo. Em vez de responderem a questionários, os jovens escrevem cartas-ensaio, breves recensões, discutem, classificam, fundamentam, contextualizam e aprofundam as suas leituras e as ideias sugeridas pelos livros lidos. Inspirador.

Atwell & Atwell, The reading zone, New York, scholastic, 2016.


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Biblioteca

Por razões profissionais, preparava uma atividade na biblioteca, quando a atenção se desviou para dois títulos: Pedro Mexia, Biblioteca, Lisboa, Tinta da China, 2016 e Libório Manuel Silva, Bibliotecas: Maravilhas de Portugal, Famalicão, Centro Altântico, 2013, ambos com prefácio de Eduardo Lourenço.

São livros diferentes, é claro; o primeiro reúne crónicas que Pedro Mexia publicou no Público e no Expresso de março de 2008 a março de 2015, o segundo fotografias do autor de 22 bibliotecas históricas de Portugal. O que têm em comum, então, para que a memória os tenha convocado ao mesmo tempo? O fascínio pela leitura, pelo saber e pelo livro. 

O fascínio pelo livro, pela sua arrumação nas estantes, forrando paredes, sublimando os lugares, não tem medida. Nem essa estranha sedução dos dicionários, das listas, dos compêndios, das enciclopédias, das coleções... O que faz o encanto dos objetos e da sua acumulação? Será o sentido da permanência? Será a materialidade do conhecimento, do prazer da leitura? A matéria dos livros?...
Pedro Mexia refere o sentimento de orfandade ligado ao fim das enciclopédias antigas: "O fim da Britannica, e das enciclopédias à moda antiga, é para mim quase uma orfandade." (p. 20) De facto, por mais louvável e democrático que seja esse expoente de enciclopédia viva que é a Wikipédia, não escapa à falta. Falta de quê? Falta de especialistas, sim, mas principalmente de um corpo, matéria palpável, pronta a desfazer-se em pó e, simultaneamente, prometendo escapar a Cronos. Parece-me... qualquer coisa... se não é de amor que se fala, do que será, então?...

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Férias (fim)

Últimas leituras?

É o reencontro com a literatura norte-americana (gosto tanto, tanto), a revisitação de Adriano Moreira e do seu lúcido pensamento, que transporta esperança, por fim, uma passagem por Herman Hesse. Por agora, fico com  Philip Roth, A Mancha Humana.




quinta-feira, 17 de julho de 2014

E com o calor vêm excelentes leituras

Belíssimo Livro!
(1ª edição francesa: 2010;
 edição portuguesa de 2013)

"O teu braço é duro. O teu corpo é duro. A tua alma é dura. É claro que estás a dormir. Sei que estavas à minha espera. Há pouco reparei nos teus olhares. Sabias que eu ia chegar. Tudo acaba sempre por acontecer. Desejaste a minha presença, e aqui estou. Muitos, deitados no escuro, desejariam ter-me junto deles; tu viras-me as costas. Sinto os teus músculos tensos, os teus músculos de bárbaro ou de guerreiro. Só com o manejo da espada se conseguem braços tão fortes. Da espada ou da foice. No entanto, não te imagino camponês, nem soldado, senão não estarias aqui. És áspero demais para seres poeta como o teu amigo turco. Serás então marinheiro, capitão, mercador? Não sei. Não me olhavas como coisa que se pode comprar ou possuir." (p.29)

Mathias Énard, Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes, Lisboa, D. Quixote, 2013.






Artemisia Gentileschi, Judite decapitando Holofernes
 
(google Images)


"Deseja-se muitas vezes a repetição das coisas; deseja-se reviver um momento fugaz, voltar a um gesto falhado ou a uma palavra não pronunciada; esforçamo-nos por recuperar os sons que ficaram na garganta, a carícia que não ousámos fazer, o aperto no peito para sempre desaparecido
Deitado de lado no escuro, Miguel Ângelo sente-se perturbado pela sua própria frieza, como se a beleza o evitasse sempre. [...]" (p. 126)

Mathias Énard, Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes, Lisboa, D. Quixote, 2013.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

assim é difícil

Quatro horas da tarde, uma leitora sai de casa, entra no carro e faz-se ao asfalto; sai da vila, entra na cidade mais próxima, procura dois livros necessários para o  trabalho que está a realizar. Eis que, chegada à porta da biblioteca, fica a saber que esta está fechada até setembro, devido a mudanças de espaço; eis que, ao chegar à porta da livraria, se depara com o aviso de que esta mudou de sítio. No dito, em vez de livraria lia-se papelaria, nas ruas em redor, que a cidade não é grande, também só papelarias e tabacarias. Regresso a casa, sem livros, só cansaço e calor, e ainda uma terrível dor de garganta por causa do ar condicionado. Seis horas da tarde.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A literatura ensina a viver


A literatura ensina  a viver.
A textualidade faz-se de representações e de olhares que se adensam, ora pela vida vivida, ora pelas leituras e reflexões que abrem as palavras e espalham sementes. Assim, compreende-se facilmente que um livro possa ser fonte de riso em todas as idades, mas que só à luz da maturidade seja claro.

Giorgia O'Keeffe (Google Imges)

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Alfabetos

Claudio Magris, Alfabetos: Ensaios de Literatura,
Lisboa, Quetzal, 2013 (trad. António Sabler)

Terminados que estão os trabalhos burocráticos, por agora, é possível o regresso à leitura: Claudio Magris, Alfabetos: Ensaios de Literatura (recolha de vários textos publicados, maioritariamente, no Corriere della Sera). Há bastante tempo que não lia um livro tão interessante e que, a cada página, tanto ensina. A volúpia da leitura impele à escrita ou ao amor, em múltiplos sentidos. São diálogos possíveis, hipótese de transcendência das tarefas e do seu linguajar exceliano-doméstico. Felicidade e melancolia.

Felicidade e melancolia, temas contemplados, a propósito dos quais cito estas passagens:

"A deusa faz morrer Cléobis e Bíton porque, depois de um dia absoluto, teriam sofrido demasiado a viver dias diversos daquele, mas também porque não teriam sequer podido suportar muitos dias como aquele. Na verdade, naquele dia não ocorreu nada de excepcional, nenhuma extraordinária aventura, nenhum êxtase particular; só horas serenas, jogos, amizade, alegre abandono. Mas Sólon - ou Heródoto por ele - sabe que nessas coisas aparentemente pequenas e banais é que consiste a felicidade [...]"

"Para Sólon, no entanto, Cléobis e Bíton ficam em segundo lugar: o primeiro cabe a Telo, ou seja, a quem é capaz de inserir na continuidade da vida também todas as mortes, as separações, as perdas, as desagregações, que a desfazem incessantemente."

"Felicidade" (Corriere della Sera, 15 de agosto de 1999), pp. 46 e 47.

"A melancolia não é só depressão psíquica ou tristeza tortuosa e morbidamente acalentada. [...] Nenhuma vida e nenhuma poesia de vida podem ignorar a melancolia, a caducidade do tempo que passa, aquilo que sempre falta em toda a felicidade e em todo o amor, mesmo feliz, o corromper das coisas e dos sentimentos, mesmo os mais puros, o desencanto, o incessante alterar-se e esvanecer-se."

"Melancolia e Modernidade" (Corriere della Sera, 22 de maio de 2007), p. 71.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Leituras - janelas de liberdade


A situação das bibliotecas escolares em Portugal é muito diversa. Algumas ainda estão à procura das condições físicas e de recursos, outras, apesar de constrangimentos específicos, já procuram ser mais ativas. Ao professor bibliotecário, elemento crucial neste espaço, muito é pedido: "competências em biblioteconomia, tecnologias e em gestão da informação, outros conhecimentos muito diversificados nas áreas da pedagogia, psicologia, economia, sociologia, ética", e, acrescentaria, política, lato sensu.

Se considerarmos que o conhecimento, hoje, já não está fechado em recônditos edifícios acessíveis só a alguns e que a sociedade exige que os cidadãos interajam e acedam rapidamente a informação relevante para resolverem problemas, parece evidente que as escolas têm de responder às necessidades emergentes. Neste sentido, é muito pertinente que integrem as potencialidades das tecnologias da informação e comunicação e da web 2.0, desde logo adaptando as suas bibliotecas a esta realidade. Como? O artigo de Natividade Santos, Angélica Monteiro e Paula Carqueja apresenta exemplos do uso das ferramentas disponíveis: blogues, wikis, RSS, FEEDS, Bookmarking Social, partilha de imagem, som e vídeo em sites grátis de fácil gestão, redes sociais, ambientes virtuis, QR Code. É um mundo fascinante! Creio que o futuro passa por aqui, que é irrecusável e desafiante, que as escolas serão muito mais interessantes e eficazes quando conseguirem mover-se fluentemente nesta forma de comunicação, nesta linguagem.
 
Referências bibliográficas:
Natividade Santos et alii., "A Integração da Web 2.0 nas Bibliotecas Escolares" in MOREIRA, J. A. & MONTEIRO, A. (Orgs.) (2012). Ensinar e Aprender Online com Tecnologias Digitais: Abordagens Teóricas e Metodológicas. Porto: Porto Editora.


Do que acima se escreveu, não se infira que a leitora abandonou o pó dos livros, para se entregar aos tácteis ecrãs! O amor aos livros nunca acaba e não é incompatível com outras tecnologias; simplesmente as maneiras de ler são diversas, assim como diversas são as intenções de quem se acerca da palavra escrita. De facto, se a leitura online se adequa à rapidez do trabalho, que requer informação imediata ou consulta digital de obras guardadas em bibliotecas distantes (não raro, fisicamente inacessíveis aos comuns dos mortais), já a reflexão ou o prazer requerem outras demoras, mais compatíveis com a materialidade do livro e do movimento das suas folhas. 

terça-feira, 22 de outubro de 2013

A menina ri; ri de quê?

 
No início do ano letivo, uma professora que estava a dar aulas à noite há vários anos e que, pelas contingências de horário, se via remetida ao ensino diurno, lamentava-se:
- O quê? A sério? É preciso isso? O ensino tornou-se tão chato!
 
Tinha razão, a colega, e não só por causa das inúmeras "grelhas". De facto, a burocracia não se traduz apenas em muita "papelada" - grelhas de avaliação, relatórios, critérios, parâmetros, listas e etc. -, mais grave que toda esta inutilidade é o fechamento do espírito. Criou-se o hábito das receitas, dos textos conformes a modelos, propícios  a uma abordagem estruturalista, segura e conducente a leituras consensuais. Está bem amarrado, o professor, como estão atados, de pés e mãos, os alunos. Talvez por isso o cinzentismo impere: os Meninos não gostam de ler, os Mestres não têm prazer em ler-lhes; o famigerado Programa insiste nos textos dos media e do domínio transacional; a poesia, de preferência épica ou lírica, vá lá, ainda se aceita, mesmo se for para dizer que não se percebe nada;  já o humor... Oh, não! C'horror! Então, essas coisas na sala de aula?
 
Fui reparando, ao longo dos anos, que a adolescência é muito mais conservadora do que aquilo que se pensa, a diferença é que, em tempos, a confiança no professor, no seu saber e na sua seriedade, era maior. Por outo lado, a pressão das "notas" e das "médias" era, talvez, menor. Agora, nas turmas do ensino regular, ditas "normais", constituídas por alunos que querem tirar cursos superiores e ocupar cargos de responsabilidade, quiçá de chefia, é preciso medir o que se diz com a bitola do politicamente correto, não vá alguma alma ficar chocada por qualquer murmúrio não previsto no breviário da tacanhez. Ainda assim, há oásis de liberdade. Em nome da liberdade, chamo à sala Cesariny, Alexandre O'Neill, Natália Correia, Nuno Artur Silva, Inês Fonseca Santos, Ricardo Araújo Pereira, António Lobo Antunes, Fernando Ribeiro de Mello e tantos outros, até O meu Pipi* (Ai! Agora é que resvalou.)

 
   *Aqui um exercício de autocensura: "Este foi só de raspão, por engano..."
 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Barómetro

 


Não entendo a razão para a polémica que se diz andar por aí. O barómetro é o da crítica e do ruído à volta dos livros e dos seus autores, por isso é tanta a vozearia; comentam-se e indignam-se uns aos outros, é o que é. Para o público mais leitor de jornais que de livros tem interesse. Também é sempre gratificante relembrar Alexandre O'Neill, Carlos de Oliveira, Knopfli, Ferreira de Castro, ficar com vontade de procurar as narrativas de Teresa Veiga. Considero injusta a desvalorização de Torga, muito lido, e merecidamente; nem entendo a menção a certo jornalista autor. Enfim, também esta leitora tem os seus gostos e antipatias. Onde estão Luísa Dacosta, Maria Gabriela Llansol ou Rui Nunes? Onde Vergílio Ferreira, Aquilino, Luiza Neto Jorge e outros?
Seja como for, não nego a importância da crítica literária jornalística para a divulgação dos livros, para a promoção da leitura e para a criação de novos leitores, para sacudir o pó a alguns nomes há muito adormecidos nas estantes dos armazéns ou de recuadas bibliotecas. Os livros, de poesia ou prosa, precisam igualmente destas vozes para chegarem às mãos dos muitos que os poderão resgatar ao tempo devorador. De facto, não vivem só de estudos académicos, de eruditos e de criadores (outros poetas, outros escritores), de leitores amadores, ainda que todos estes sejam muito importantes. O que cansa é a algazarra, a vida social reunida à volta dos "encontros", das "tertúlias", dos lançamentos, dos suplementos dos jornais, das revistas, a intriga e a maledicência. São os lobbies, dizem, as influências, é a moda. Mas alguém desconhecia a existência de acantonamentos revisteiros, de redes, de estrelas de plástico...? Basta andar por aí, ter olhos e ver, e ler, ter ouvidos e ouvir...
(...de qualquer modo, não faz mal dar o nome às coisas dos "bastidores" e publicá-las, dá-las a conhecer, pois há sempre alguém distraído.)
 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Novas leituras

 
 

... arrumam-se estantes, e são mais os livros que ficaram por ler do que aqueles que alegraram os dias. Este, por exemplo. Belíssimo primeiro parágrafo (já está sobre a mesa de leitura):

"As palavras, como os seres vivos, nascem de vocábulos anteriores, desenvolvem-se e fatalmente morrem. As mais afortunadas reproduzem-se. Há-as de índole agreste, cuja simples presença fere e degrada, e outras que de tão amoráveis tudo à sua volta suavizam. Estas iluminam, aquelas confundem. Umas são selvagens, irascíveis, cheiram mal dos pés, fungam e cospem no chão. Outras, logo ao lado, parecem altivas e delicadas orquídeas."

José Eduardo Agualusa, Milagrário Pessoal: romance, Lisboa, D. Quixote, 2010.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Sábado à tarde



 
Sábado à tarde, depois das compras e das visitas, a secretária prepara-se para a leitura ou para a escrita, com o barulho da máquina de lavar ao fundo. Folheei já o livro de João Luís Barreto Guimarães, as Cartas de Casanova (António Mega Ferreira), enquanto os outros esperam. Temo, porém, que o caos já se esteja a instalar e que a cabeça comece a rodar entre a poesia, a prosa, os livros de "apoio ao professor", a fotocópia e, até, a carta da ars, sem esquecer o bloco de apontamentos e o dário (fora da fotografia, "os envelopes").
 
Quase me parece uma instalação surrealista, daquelas que poderiam soar a qualquer coisa e dar bastante que falar nos escritórios e nas salas de jantar. [Aqui, cito, ainda que mal, Alberto Pimenta. Grande poeta, de sempre, mas óptimo para os tempos que correm; refiro-me ao seu último livro, al Face-book, cuja leitura, pelo próprio, já apresentei neste blogue.]
 
Foram boas as compras, a secretária também não é má, espaçosa...
 


quinta-feira, 4 de outubro de 2012

na biblioteca

 
(da net, algures, fica pelo insólito e pela oportunidade da imagem)

Leitora caída? Não, numa sessão de Pilates na Biblioteca.
...vários noticiários depois...

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Leituras para Meninos sensíveis e imaginativos


O vídeo The fying books of Mr. Morris Lessmore foi retirado do Youtube devido a direitos de autor.

 

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Leitura - Maria Gabriela Llansol


Na edição de 22 de Agosto do Jornal de Letras, João Barrento escreve um texto de divulgação das Quartas Jornadas Llansolianas, em que reflecte sobre a publicitação da obra da escitora. Das ideias explanadas no artigo, destaco esta: todo o texto carece de interpretação, sendo que, como afirma João Barrento, "interpretar é aqui um gesto instável e aberto, e sempre à espera de ser refeito, que vê este texto como construção textual e ideativa contínua e única, numa Obra que é um rio de escrita em que cada texto abre para outros, os prolonga e se prolonga neles."
 
Quanto à forma de ler esta Obra, o ensaísta dá-nos orientações que também nos ajudam a interpretar outros textos literários:
 
"A simples leitura "minha" não basta, todo o texto pede o complemento da interpretação, porque nenhum texto está para além dela - pela simples razão de que é isso que o faz viver no(s) tempo(s), e porque nenhum texto humano é sagrado, muito menos o de Llansol, que se queria, e era, humana, demasiado humana, também nas suas fraquezas e nos seus excessos."
 
"Neste caso, a interpretação não pode pretender fugir àquilo a que alguns chamam "ranço académico" para cair na prática ainda pior, e insuportável, de produzir textos críticos pretensamente "poéticos", ecoando o texto primeiro, repetindo-o à exaustão, como tantas vezes vem acontecendo."
 
Deste artigo, não se pode depreender que se desprezam as leituras pessoais desta Obra ou de qualquer outra; elas têm o seu lugar na longa vida dos textos, mas o papel do crítico, ou de outros com responsabilidade, é de outra índole e exigência, pois que dele se espera um "serviço", como se lê no último parágrafo:
 
"É ingenuidade, e um mau serviço prerstado à literatura (e neste caso não tenho qualquer problema em falar de "serviço"), partir do princípio de que "as pessoas" descobrem por si o que vale a pena ler, e saberão escolher, esmagadas como estão pela propaganda, essa sim, do inútil. Elas simplesmente não "escolherão" se as obras não estiverem disponíveis, não poderão escolher o que ler se ninguém se esforçar por manter vivo um autor. É cómodo dizer "quem sentir falta que leia", e deixar apagar de vez a luzinha que mal se vê no meio de tanto fogo-de-artifício. Neste mundo implacável e insensível alguém tem de acender luzes de cores diferentes das dominantes, sob pena de nos deixarmos afundar num mar de fogos-fátuos e lantejoulas." 
 
 
[Estas palavras deveriam ser lidas várias vezes ao dia por autores de programas escolares, formadores de professores, professores e educadores em geral. ]

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

da identidade e outras aproximações


Jean Sibelius

O calor abrasa, a letargia reflexiva instala-se. No regaço do Verão, manifesta-se uma nova ordem mental e uma vontade de mergulhar nas mais diversas águas: no mar, nos livros, nas vozes de ontem e de sempre, nos ritmos naturais, em toda a matéria que nos constitui, a nós e à natureza. As elevadas temperaturas parece que fundem os contrários, apaziguando a percepção da identidade.
Quem sou eu? - essa pergunta essencial - já não origina a fragmentação, mas sim a reunião do diverso: sou a voz da poesia, da manselinha voz, à voz viúva, grácil, que se exila na escuridão tranquila; sou a voz do vento que desfolha mágoas; sou a arrebatadora voz do mar que me leva para os longes; sou o eco sedutor, sou a respiração da terra. Sou a serenata que embala. Sou esta que aqui vem regularmente e sou a outra, a do corpo de afectos e de sangue, sou um nó rítmico, ponto de confluência do cosmos e da ínfima célula, e também de bits, já agora.


terça-feira, 12 de junho de 2012

A Leitora em estado de harmonia

Entregue o último papel da série, a leitora imagina que a seguir virá a harmonia.


(da net)

[O prazer do texto, amanhã. Desejos, quem os não tem?]

sábado, 26 de maio de 2012

A subordinação e a coordenação

Ainda ontem, à beira da piscina onde decorria a aula de natação, se falava da escrita e do uso excessivo de "e"s. Observou-se que os presentes recorriam à hipotaxe quando escreviam textos argumentativos, tendo consciência técnica desse facto ou não; por outro lado, também era evidente que só na comunicação mais imediata, ou em casos de inaptidão, predominavam as construções paratácticas. 

Vem esta lembrança a propósito da entrevista do cardeal Gianfranco Ravasi ao Público, de hoje. Nela se reflecte sobre a relação da religião com a linguagem, nas suas múltiplas formas e possibilidades, principalmente no que respeita à arte. Todavia, o que se destaca agora são as referências à internet (Twitter e Blogue), sobre a qual o cardeal revela grande clarividência:

"É preciso coragem para entrar neste horizonte [sobre a sua conta no Twitter], que tem uma linguagem completamente diferente da tradicional, sobretudo por uma característica: a nossa linguagem religiosa, mas também a cultural ou a filosófica, usa a subordinada, ou seja, o raciocínio encadeado. Aqui, domina a coordenada: a frase breve, essencial, incisiva.
Podemos recusar esta aproximação, por simplificar as coisas. Mas sendo esta a linguagem que ocupa um espaço enorme na cultura contemporânea, sobretudo na juvenil, creio que devemos intervir, também ali, não esquecendo a nossa linguagem complexa, mas tentando esta via. Tentei fazê-lo através de dois modelos...
[...]
O blogue é já um discurso mais articulado."


Regressando às considerações iniciais, poderemos, então, pensar que um dos problemas da escrita, mormente escolar, mas não só, resulta de uma mudança no uso e na forma da linguagem, que, por sua vez, decorre de uma alteração do raciocínio lógico. É o efeito das novas tecnologias, diz-se, como antes se dizia que era o efeito dos meios audiovisuais. As razões serão diversas, o certo é que há um problema a nível da linguagem, logo a nível do entendimento do mundo e da vivência de cada dia.