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domingo, 27 de abril de 2014

"A liberdade até pode ser uma coisa boa, eu é que não tenho serventia para ela." ("Melhor que falecer" - Ricardo Araújo Pereira - TVI)

Maria Helena Vieira da Silva (cartaz)
Sophia de Mello Breyner Andresen (frase)
Esta foi talvez a frase mais triste que ouvi nos últimos tempos. Será humor negro; seja o que for, é genial. Foi o 10º episódio de "Melhor que falecer", programa de Ricardo Araújo Pereira na TVI, que passou no dia 25 de Abril. Excelente Maria do Céu Guerra. Este Portugal continua aí, está no meio de nós, está dentro de nós. 

Ainda a propósito dos 40 anos do 25 de Abril, assinalo a edição especial do Jornal de Letras e dois artigos: "A Revolução revisitada", de Eduardo Lourenço, e "Lembrar o momento perfeito", de Lídia Jorge. 

Cito, do primeiro, o final, que vem ao encontro de algumas leituras sobre a identidade nacional realizadas noutro contexto:

"A grande questão, a que merece ainda ser colocada, hoje em dia, em tempo de crise, nacional e europeia, é esta: adquirimos, para além das aparências, esse rosto novo que a memorável Revolução nos teria dado? Durante séculos, ser português significava implicitamente sentir-se filho de um país colonizador e, por essa razão, dotado de uma espécie de identidade universal imaginária. Agora, que com excelentes motivos, não nos podemos prevalecer deste rosto imaginário, em que é que nos convertemos? Estamos na Europa, mas custa-nos, a nível simbólico, definir-nos como europeus. O "europeísmo" não acrescenta nada - por enquanto - àquilo que nos sentimos ser. Sobretudo, não substituiu a inscrição no espaço, ao mesmo tempo onírico e real, que nos fez sonhar durante 500 anos.
E isto leva, para terminar, ao único tipo de carência que, ao fim destes 40 anos de pós-revolução de Abril, se pode assimilar a uma certa desilusão que toca o coração mesmo da Revolução e da histórica Revolução. A democracia foi legitimada; os seus efeitos na vida política e quotidiana dos cidadãos são inegáveis, por mais que a crise atual o ensombre. Vivemos num país livre e só aqueles que não conheceram nunca o custo de ter passado largos anos - ou toda uma vida - numa não-democracia, podem considerar estas regalias como formais ou desprezíveis. Todavia, de certo modo, a nossa democracia é ainda ao cabo de 40 anos uma espécie de regime sem nome.
Queremos dizer com isto que a Revolução - a de todos nós que ela restituiu ao gozo de uma cidadania adulta e, naturalmente, aqueles que historicamente foram os seus atores por a terem desejado e sonhado - não suscitou ainda um verdadeiro imaginário, como outrora o da primeira República e, mesmo, o Estado Novo.
Só o seu momento inaugural permanece vivo e recebeu na véspera da sua celebração, a primeira das suas evocações fictícias apta a converter, ou ser já, uma memória viva e realmente "memorável" [Eduardo Lourenço refere-se ao romance Os Memoráveis, de Lídia Jorge, conforme é indicado em nota de rodapé.]. Esperamos que esse retrato mitificado desse momento, para nós sempre presente, nos abra a porta para esse imaginário ausente que até hoje nos faltava para enterrarmos dignamente o imaginário de séculos que a mesma Revolução, em nome de exigências agora universais, sepultou para sempre."

Eduardo Lourenço, "A Revolução revisitada", Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1136, de 16 a 29 de abril de 2014.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Interrogar o riso


Ainda a propósito do riso, cito, do catálogo da exposição "Riso", que decorreu no Museu da Eletricidade, em Lisboa, de 19 de outubro de 2012 a 17 de março de 2013:
 
"Rimos de quê? De nós e dos outros, da vida e da morte, do bem e do mal, da felicidade e da desgraça, da autoridade e da anarquia, dos deuses e dos demónios, da terra e do céu.
Rimos como? Com a mente e com o corpo, com o som e com o silêncio, com alegria e com tristeza, com generosidade e com agressão, com compreensão e com intolerância, com inteligência e com estupidez, com bondade e com maldade, com subtileza e com grosseria, com oportunidade e sem ela.
Rimos porquê? Porque queremos ser superiores àquilo de que rimos, porque queremos que a nossa inferioridade resista à superioridade dos outros, porque queremos vingar-nos do que nos fizeram, porque queremos afirmar poder e saber, porque queremos mostrar indiferença ao que não nos é indiferente, porque queremos que reparem em nós, porque queremos criticar, porque queremos castigar o que achamos mal, porque queremos disfarçar, porque queremos esconder, porque não temos palavras para dizer o que queremos dizer, porque nos fazem cócegas, porque estamos nervosos, porque estamos carentes, porque temos medo, porque temos vergonha, porque queremos mudar de assunto, porque achamos graça, porque queremos ter graça, porque somos loucos, porque estamos felizes." 
 
 
Nuno Crespo et alii, "Riso, modos de usar" in Riso, Lisboa, Fundação EDP e Tinta da China Edições, 2012, pp. 26 e 27.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Comemorar a liberdade

Luísa Alvim publica hoje, no Facebook, um trabalho que fez sobre livros: Os livros portugueses proibidos no regime fascista: Bibliografia. São estes estudos que nos permitem ver o que ganhámos com a revolução e o fim da censura. Ganhámos liberdade de conhecer e, consequentemente, de escolha, o que não é pouco. A seguir transcrevo um poema de Natália Correia incluído numa famosa antologia poética organizada pela poetisa - Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica (dos cancioneiros medievais à actualidade) . Escusado será dizer que a obra, editada pela Afrodite* (Lisboa) em 1965, foi proibida e a sua autora alvo de perseguição, tendo mesmo respondido em tribunal pelo feito**. O poema, para além de mostrar a coragem e espírito subversivo da grande mulher que foi Natália, revela, também, a possibilidade de libertação erótica e da palavra, talvez a mais difícil, mormente se colocada no feminino.
 
Ei-lo:
 
COSMOCÓPULA
 
I
 
Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras.
 
II
 
O corpo é praia a boca é nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso de água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.
 
 
 
Natália Correia
 
 
Natália Correia (selecção, prefácio e notas), Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica (dos cancioneiros medievais à actualidade), Lisboa, Antígona e Frenesi, 1999.

 
*Esta editora - Edições Afrodite - foi criada em 1965, por Fernando Ribeiro Bento de Mello, tendo provocado escândalo com a publicação de obras polémicas e proibidas, que originaram processos judiciais por ultraje aos bons costumes. Mais informações podem ser consultadas no blogue sobre a editora Aqui.

**Leio que Natália Correia foi condenada a três anos de prisão com pena suspensa. Trsite Portugal.



sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Carta de um homem livre ao seu antigo senhor


 É conhecido o apreço da leitora por correspondência, pelo que foi uma boa surpresa encontrar a citação desta carta no blogue Âncoras e Nefelibatas e a referência a outro blogue dedicado, precisamente, à divulgação de cartas "merecedoras de uma audiência mais vasta" - Letters of Note -, do qual se transcreveu esta resposta de um homem livre ao seu antigo senhor.
 
 
 
In August of 1865, a Colonel P.H. Anderson of Big Spring, Tennessee, wrote to his former slave, Jourdon Anderson, and requested that he come back to work on his farm. Jourdon — who, since being emancipated, had moved to Ohio, found paid work, and was now supporting his family — responded spectacularly by way of the letter seen below (a letter which, according to newspapers at the time, he dictated).

Rather than quote the numerous highlights in this letter, I'll simply leave you to enjoy it. Do make sure you read to the end.

UPDATE: Head over to Kottke for a brief but lovely little update about the later years of Jourdon and family.

(Source: The Freedmen's Book; Image: A group of escaped slaves in Virginia in 1862, courtesy of the Library of Congress.)
Dayton, Ohio,

August 7, 1865

To My Old Master, Colonel P.H. Anderson, Big Spring, Tennessee

Sir: I got your letter, and was glad to find that you had not forgotten Jourdon, and that you wanted me to come back and live with you again, promising to do better for me than anybody else can. I have often felt uneasy about you. I thought the Yankees would have hung you long before this, for harboring Rebs they found at your house. I suppose they never heard about your going to Colonel Martin's to kill the Union soldier that was left by his company in their stable. Although you shot at me twice before I left you, I did not want to hear of your being hurt, and am glad you are still living. It would do me good to go back to the dear old home again, and see Miss Mary and Miss Martha and Allen, Esther, Green, and Lee. Give my love to them all, and tell them I hope we will meet in the better world, if not in this. I would have gone back to see you all when I was working in the Nashville Hospital, but one of the neighbors told me that Henry intended to shoot me if he ever got a chance.

I want to know particularly what the good chance is you propose to give me. I am doing tolerably well here. I get twenty-five dollars a month, with victuals and clothing; have a comfortable home for Mandy,—the folks call her Mrs. Anderson,—and the children—Milly, Jane, and Grundy—go to school and are learning well. The teacher says Grundy has a head for a preacher. They go to Sunday school, and Mandy and me attend church regularly. We are kindly treated. Sometimes we overhear others saying, "Them colored people were slaves" down in Tennessee. The children feel hurt when they hear such remarks; but I tell them it was no disgrace in Tennessee to belong to Colonel Anderson. Many darkeys would have been proud, as I used to be, to call you master. Now if you will write and say what wages you will give me, I will be better able to decide whether it would be to my advantage to move back again.

As to my freedom, which you say I can have, there is nothing to be gained on that score, as I got my free papers in 1864 from the Provost-Marshal-General of the Department of Nashville. Mandy says she would be afraid to go back without some proof that you were disposed to treat us justly and kindly; and we have concluded to test your sincerity by asking you to send us our wages for the time we served you. This will make us forget and forgive old scores, and rely on your justice and friendship in the future. I served you faithfully for thirty-two years, and Mandy twenty years. At twenty-five dollars a month for me, and two dollars a week for Mandy, our earnings would amount to eleven thousand six hundred and eighty dollars. Add to this the interest for the time our wages have been kept back, and deduct what you paid for our clothing, and three doctor's visits to me, and pulling a tooth for Mandy, and the balance will show what we are in justice entitled to. Please send the money by Adams's Express, in care of V. Winters, Esq., Dayton, Ohio. If you fail to pay us for faithful labors in the past, we can have little faith in your promises in the future. We trust the good Maker has opened your eyes to the wrongs which you and your fathers have done to me and my fathers, in making us toil for you for generations without recompense. Here I draw my wages every Saturday night; but in Tennessee there was never any pay-day for the negroes any more than for the horses and cows. Surely there will be a day of reckoning for those who defraud the laborer of his hire.

In answering this letter, please state if there would be any safety for my Milly and Jane, who are now grown up, and both good-looking girls. You know how it was with poor Matilda and Catherine. I would rather stay here and starve—and die, if it come to that—than have my girls brought to shame by the violence and wickedness of their young masters. You will also please state if there has been any schools opened for the colored children in your neighborhood. The great desire of my life now is to give my children an education, and have them form virtuous habits.

Say howdy to George Carter, and thank him for taking the pistol from you when you were shooting at me.

From your old servant,

Jourdon Anderson.
 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Leituras transversais


Nem a propósito, saiu este mês um estudo muito interessante sobre as criadas:
 
Inês Brasão, O tempo das criadas: a condição servil em portugal (1940-1970), Lisboa, Tinta da China, 2012.
 
Lê-se na introdução: "Rica em metáforas políticas sobre a definição do valor de um indivíduo a partir do seu lugar de nascimento, a criada da casa era julgada pela desobediência, preguiça, sujidade e mania, para referir apenas os atributos mais incisivos. Com uma violência simbólica acrescida, dois exemplos negativos de mulheres apareciam associados com frequência: o da mulher "tolerada" e o da "criada de servir"."
 
(Lembrei-me de um romance autobiográfico lido no início do verão. Estão lá. Falava-se delas, mas com tal distância e desconhecimento, que impressionava.)

domingo, 26 de agosto de 2012

Nova Iorque


 Fritz Lang, Metropolis (1927)
 
 
New York, New York
(versão da famosa canção de Frank Sinatra, no filme de Steve McQueen, Shame - 2011) 
 
 
 
Lê-se no Púlico 2, de hoje, na crónica de Paulo Varela Gomes:
 
"Poucos portugueses da chamada classe média têm hoje oportunidade de viajar até Nova Iorque e as pinturas de que me ocupo aqui, embora amplamente ilustradas na internet, ganham em ser vistas no local porque são obras de grande dimensão. Paciência." (PVG, "Cartas de Ver: O fim da História")
 
Sem paciência, só impotência, lemos estas verdades, tanto mais incomodativas quanto Nova Iorque não é apenas uma cidade onde estão museus e obras de arte fantásticas. Nova Iorque é a cidade, símbolo da realização humana, da diversidade, e lugar onde toda a imaginação é possível.
Os espaços urbanos, a metrópole em particular, sempre foram lugares de liberdade e de amplificação do convívio e das potencialidades do homem, apesar das suas misérias e contradições; agora esta expansão está vedada a um número crescente de pessoas. Involuímos. Aqui estamos, condenados à tacanhez, à pequenez, a sermos "pobretes e alegretes", a regressarmos à velha casa de família, lá, "na aldeia mais portuguesa de portugal".
 
 
(yeaak)*
 
 
 
* trad.: vómito
 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Amanhã [...]


Animal Library Oaxaca Mexico



[Finda a tarefa colossal, poderá a leitora dedicar-se agora aos livros? Não, ainda faltam as artes críticas. O resto. Só no limiar do Verão haverá tempo e espaço mental para o deleite.]

quarta-feira, 16 de maio de 2012

As mulheres na aldeia (ou na vila, já agora)


Luísa Dacosta - A-Ver-O-Mar : Morrer a Ocidente. Póvoa de Varzim : Câmara Municipal : Edições Asa, 2001.
Notas: Com um ensaio de Maria Alzira Seixo: "Eu fui ao mar às laranjas"
Direcção gráfica de Armando Alves
Desenhos Armando Alves e Jorge Pinheiro
Caixa com 3 livros

As Crónicas de Luísa Dacosta, A-Ver-o-Mar e Morrer a Ocidente, bem como o livro de poemas A Maresia e o Sargaço dos Dias, mostram-nos a comunidade piscatória de A-Ver-o-Mar, no concelho da Póvoa do Varzim, que a narradora visita sazonalmente, ao longo de vários anos, até ao doloroso adeus. Esta mulher, culta e solitária, estabelece laços de amizade com vários habitantes daquele lugar, especialmente com as mulheres, as crianças e os velhos, aos quais dá voz, conforme esclarece numa longa entrevista dada a Isabel Ferreira:

"- Uma das coisas mais gratificantes para mim foi poder dar voz a essas mulheres, que não a teriam tido, se alguém não estivesse disposto a registá-la. Claro que não foram só as vozes das mulheres, há outras vozes importantes, algumas masculinas, como o caso do Serrinha, e até do Gueral, que era um homem mais letrado: tinha Garrett na peniqueira... Foi igualmente gratificante (e talvez por isso pense que não tem importância escrever muitos livros) escrever A-Ver-o-Mar, Morrer a Ocidente e Maresia e o Sargaço dos Dias. Ainda que tivesse só escrito essas três obras, isso bastava. Não quer dizer que bastasse para que ficasse nas letras, mas bastava-me a mim como consolação, por ter sido capaz (não quer dizer que eu tenha conseguido inteiramente) de dar maior vivaciadde, maior veracidade também, à vida daquelas mulheres. E acho que é um conhecimento que não se perde, porque quando se quiser fazer a história das mulheres portuguesas, mesmo ainda no final do século XX, as mulheres de A-Ver-o-Mar têm qualquer coisa a dizer." (Isabel A. Ferreira, Luísa Dacosta: "no sonho a liberdade", 2006)

Ainda a propósito desta relação com aquelas gentes marítimas, a escritora refere, noutro lugar, os "tabus sexuais" impeditivos de prolongadas conversas com os homens, com excepção dos velhos, que, pela sua condição, "ganhavam um estatuto, quase mulheril, fazendo mesmo certos trabalhos, geralmente reservados às mulheres"  (Luísa Dacosta, "Autobiografia: Ego, alter-egos e outras alteridades na minha obra" in Escrever a vida, verdade e ficção - Act 16 -, 2008).

A obra desta escritora e os livros mencionados, em particular, são excelentes do ponto de vista literário e, naturalmente, não tratam apenas de questões de género (como as citações recorrentes neste blogue o evidenciam),  e mesmo estas têm uma representação mais complexa do que este breve apontamento sugere. Todavia, estas leituras são hoje um ponto de partida para uma reflexão sobre os papéis das mulheres nas comunidades rurais e para a recepção que uma forasteira pode ter nesse espaço social. A mulher que visita a aldeia nortenha cria ninho entre as gentes, pese embora a diferença socio-cultural, isto porque o respeito e a estima mútuos são uma constante, não sendo indiferente para esta convivência o reconhecimento e a aceitação das restrições sexuais locais.
Que condicionamentos são estes? Que papéis estão reservados às mulheres? Naquela comunidade, ou noutras marcadas pela ordem patriarcal, comum a toda a sociedade portuguesa, mas muito acentuada nos meios pequenos, mesmo no século XXI, são os mais conhecidos: mãe, esposa, filha, monja, meretriz. Estará esta leitora a olhar preconceituosamente para a realidade? Estará a ler Luísa Dacosta de forma pouco rigorosa, é certo, mas não crê tresler a rusticidade lusa. De facto, basta ler, ver, ouvir, estar atenta, que logo as palavras e as histórias brotam, sem freio. O trabalho feminino é ainda menosprezado, o poder que eventualmente algumas senhoras adquiram tem ainda de se mascarar, a palavra feminil é ainda recebida com escárnio ou condescendência, o comportamento sexual é ainda marcante para o respeito que uma mulher possa ter ou deixar de ter. Talvez, excepcionalmente, a sua presença e a sua voz sejam aceites na ágora; porém, nesse caso, exigem-lhe a evidência da castidade. Se ela for uma forasteira, investida de poder, usufruirá de alguma tolerância: perdoar-lhe-ão a visitação de um seu semelhante, igualmente extra-terrestre, quiçá uma representação do santo espírito, um terráqueo é que nunca, e muito menos se for ave de capoeira local. São regras, são excepções, o código é que é sempre o mesmo. "É a vida.", assim dizia o homem das boas palavras.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Leituras obrigatórias

Até 2004, os professores do ensino secundário podiam escolher o romance do século XX que leriam com os seus alunos; esta escolha não era completamente livre, uma vez que tinha de ser consensual na escola, para além de estar limitada às obras indicados no programa, mas, ainda assim, havia alguma abertura. Não me lembro de todos os títulos, somente daquele que leccionei mais vezes - Aparição, de Vergílio Ferreira - e daquele que muitas escolas preferiam e que agora é de leitura obrigatória para todos. O Prémio Nobel atribuído a um escritor português veio, afinal, impor o elogio do mesmo, em vez de promover o gosto do diverso.

Deixo aqui uma passagem desse grande romance que é Aparição, cujo protagonista é Alberto, um jovem professor que se conhece a si mesmo, na nova cidade onde foi "colocado", Évora, através do convívio com as pessoas com as quais se cruza, especialmente as irmãs Moura: Ana, Sofia e Cristina. De todas, destaco a primeira, porque é a minha preferida  e porque o "folhetim" que ainda agora começou em Um jeito manso tem como protagonista uma outra misteriosa Ana.


"E contou, contou largamente, mas como um estranho, os silêncios de Ana, as horas sem fim à janela da pensão, suspensa dos horizontes de neve, os passeios solitários pela estrada entre pinheiros (não queria que o marido a acompanhasse «e eu, é claro, submeto-me sempre às suas ordens»). Depois foram para a Rocha, mas sem passarem por Lisboa nem por Évora. Aí recomeçou a sua meditação. Vagueava pela praia, às vezes mesmo de noite, sentava-se nas falésias, ouvindo o mar. «Eu dizia-lhe: - Aninhas, não precisas de nada? Sentes-te doente? E ela só me respondia: - Deixa-me.»
- Até que apareceu o Chico. Tinha ido ao Algarve em serviço e passou pela Rocha. Mas desta vez achou-se ao engano: a Aninhas mandou-o bugiar.
Olhei o bom Alfredo: ria largamente com o seu riso oco, como de um desdentado, a bochechinha vermelha. Tenho a certeza de que jamais Chico interessou a Ana. Alfredo sabia-o possivelmente também. Mas uma hipótese contrária parecia dar-lhe prazer - o velho prazer da humilhação. Mas teria Chico ilusões? Talvez: Alfredo era um convite a isso, até porque parecia admiti-lo e quase aceitá-lo. Mas tu, Ana, eras tão grande, tão bela na tua vigorosa afirmação, que é estranho ter Chico imaginado sobre ti o que não eras. Chico? Não o terei eu imaginado, não bem, embora, sob a forma de «traição» da tua parte, mas de uma forma clara e humana de «comunhão» comigo?
Era evidente que Ana sofria de uma «crise». Gostava de estar com ela, Ana sabe as palavras do abismo..."


Vergílio Ferreira, Aparição, Lisboa, Bertrand, 1996 (1ª ed. 1959).

terça-feira, 1 de maio de 2012

Dever de ofício


Hoje a leitura é por dever de ofício. Preparam-se as aulas de amanhã, especialmente o episódio chamado "A epopeia da pedra", do Memorial do Convento, obra de estudo obrigatório no 12º ano, ou não fora o seu autor o único nobel da literatura português.
Não deixa de ser irónico que, no dia do trabalhador, se trabalhe arduamente um romance e um capítulo em que os operários, construtores do convento de Mafra, são os protagonistas. A estes, pelo menos, já foi feita justiça, se justiça é a narrativa das suas vidas inventadas, à qual nem faltam os nomes próprios.  Fica assim reconhecido o valor do seu labor, trezentos anos depois, ou quase, e assegurado o seu futuro, pois que, desta forma, são os homens arrancados à escuridão das eras e lançados nos assentos da História. Só aquela que lê e elabora fichas de trabalho, guiões e outros instrumentos didácticos de alto calibre não verá a justa recompensa das suas horas esforçadas; já são menos 23%, repostos nunca, talvez no ano de 2018, dizem, ou será 2050? O pecúlio é uma miragem, o reconhecimento é nulo, o futuro será um charco de lamentações, sem nomes próprios de culpados, talvez só um nome comum se aponte - professores. Ainda por cima. Será por o trabalho não ser braçal, só dos dedos ligeiros, que o resto do corpo, exceptuando os olhos, se entrega à imobilidade?

terça-feira, 3 de abril de 2012

Passeio à beira-rio, depois de manjares excelentes

Depois de alegre e abundante repasto, rematado  a chocolate e coloridas chávenas de Joana Vasconcelos, foi tempo de um passeio à beira-rio. Para lá do centro da vila, até há poucos anos matizado a lilás, encontra-se um novo jardim, riscado a traço moderno, mas ainda com restos bravios.

(Flanemos.)


Neste passo, uma garça descansava dos seus elegantes voos.




Neste, uma velha nora restaurada conservava a sua alva beleza.




Pouco depois, um casal de patos primaveris deixou-se fotografar.


Ele


Ela


Aqui, uma panorâmica do que restou de indústria têxtil: um centro de eventos camarários, rodeado por velhos armazéns e novas vivendas, com o rio em baixo.




Em tempos, esta foi uma zona de cheias e, por isso, desabitada. Actualmente, após o emparedamento do rio e a consequente domesticação do caudal, crê-se que o terreno não voltará a ser fustigado pelas águas, pelo que a construção foi autorizada e a vila expande-se nesta direcção. Parece-me bem. O desenvolvimento é uma necessidade das populações e permite a respiração dos lugares, que se querem vivos. O problema será outro, relacionado com a lenta alteração do centro, mas hoje não falarei dessas dificuldades que afectam os centros urbanos, tanto de cidades grandes, como de pequenas vilas.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Caminhada à beira-rio, com saudades dos jacarandás

Nem tinha pensado nos jacarandás, só agora, quando procurava um título para esta entrada, se lembrou dessas árvores belas, que outrora davam um certo encanto à vila. Foram decepadas, arrancadas pela raiz, em nome da arquitectura paisagista e da modernidade. No seu lugar, rasgou-se uma pista vermelha para bicicletas, mas não se vêem ciclistas, só caminhantes vários: adolescentes em férias, senhoras e cavalheiros de passo cadenciado, por indicação médica ou seguindo as últimas tendências. A caminhada parece agradável, embora lhe falte qualquer coisa. Talvez o anonimato e a surpresa do diverso. Caminha-se, não se deambula; é isso.

domingo, 1 de abril de 2012

Leituras de fim-de-semana

Courrier internacional, Abril de 2012, nº 194

Não é uma leitura habitual, mas passará a sê-lo. De facto, os diversos assuntos são tratados de forma inteligente, pertinente e esclarecedora, não contribuindo para o abatimento psicológico do leitor, antes promovendo a reflexão e a lucidez. Da edição de Abril, salientem-se os artigos sobre: a crise da "Zona Euro"; a ameaça aos direitos das mulheres nos E.U.A., na presente campanha eleitoral; a gravíssima crise do emprego na Europa, as suas causas, contornos e eventuais soluções; o problema dos alimentos a nível mundial; a catástrofe de Fukushima;  a democratização do conhecimento, com a criação da maior bibioteca virtual do mundo - a DPLA -, projecto de Robert Darnton, director da Biblioteca de Harvard. A entrevista a este historiador americano é muito interessante, destacando-se o sentido de serviço público que está subjacente ao projecto, no que se distingue do Google Books, que constitui um "monopólio cheio de boas intenções, provavelmente; mas não necessariamente ao serviço do bem público, pois o Google deve, antes do mais, prestar contas aos seus acionistas" (p. 71).
A Biblioteca Pública Digital dos Estados Unidos (DPLA), online em Abril de 2013, e a Wikipedia parecem-me projectos de elevadíssimo interesse público, devido ao contributo ímpar para a democratização do conhecimento e, consequentemente, para o desenvolvimento humano e da cidadania.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Espelho meu

Não termina esta reflexão sobre a mulher e o mundo sem uma referência a um livro que conquistou o seu lugar na bibliografia dos estudos femininos, nomeadamente à sua optimista exortação final. Eis o livro e a citação:

Naomi Wolf, The Beauty Myth: how images of beauty are used against women, New York, Perennial, 2002 (1st ed. 1991).

"How to begin? Let's be shameless. Be greedy. Pursue pleasure. Avoid pain. Wear and touch and eat and drink what we feel like. Tolerate other women's choices. Seek out the sex we want and fight fiercely against the sex we do not want. Choose our own causes. And once we break through and change the rules so our sense of our own beauty cannot be shaken, sing that beuaty and dress it up and flaunt it and revel in it: In a sensual politics, female is beautiful.
A woman-loving definition of beauty supplants desperation with play, narcissism with self-love, dismemberment with wholeness, absence with presence, stillness with animation. It admits radiance: light coming out of the face and the body, rather than a spotlight on the body, dimming the self. It is sexual, various, and surprising. We will be able to see it in others and not be frightened, and able at last to see it in ourselves.
A generation ago, Germaine Greer wondered about women: "What will you do?" What women did brought about a quarter century of cataclysmic social revolution. The next phase of our movement forward as individual women, as women together, and as tenants of our bodies and this planet, depends now on what we decide to see when we look in the mirror.
What will we see?" (p. 291)

Confluências e muitas queixas


Uma passagem muito interessante, do recente livro de Helena Vasconcelos, sobre a mulher portuguesa e a sua proverbial falta de tempo, sintoma, afirmo, do conflito insanável, pelo menos para uma geração nascida antes de 1974, entre uma organização social "tradicional" e um modo de vida mais moderno, origem de contraditórias e inconciliáveis exigências, de sofrimento, de sentimentos de culpa, de remorsos e ressentimentos vários, etc.

"Quando as mulheres se queixam - e com razão - de que acumulam tarefas e que a «falta de tempo» é um inimigo constante que contraria as suas legítimas ambições e desejos, é possível - e isto é apenas uma hipótese - que isso aconteça porque a dinâmica das suas vidas, que evoluiu e se modificou consideravelmente, não está em consonância com a estrutura de base, com as «fundações» da arquitetura familiar, onde se perpetuam rituais, hábitos e tiques que pertenceram a organizações sociais muito diferentes e distantes no tempo. Em Portugal ainda são muitas as mulheres que assumem um grande número de tarefas ao mesmo tempo e, diga-se a verdade, têm grande dificuldade em delegá-las. Há mulheres que acreditam piamente que elas e só elas podem - ou têm capacidade de - tomar conta das crianças, ir buscá-las e levá-las às atividades extracurriculares, ouvir-lhes as queixas e as confidências, para além de dar jantares em casa, tratar dos cozinhados e da cozinha, arranjarem-se bem para receber as pessoas, fazer compras para elas e para o resto da família, tratar dos pais ou familiares enfermos ou com problemas de toda a ordem e estarem nos seus escritórios ou outros postos de tarbalho com a cabeça fria e a funcionar em pleno. Na maior parte das vezes não conseguem manter uma agenda, chegar a horas a reuniões, atravessar as cidades de ponta a ponta para fazer face aos pedidos - e por vezes exigências - dos filhos e de outras pessoas, dizem não ter muitas vezes apetência para o sexo e, no geral, queixam-se muito.
Quando as mulheres se lamentam de falta de tempo é porque continuam a desempenhar, em termos estereotipados, os papéis de «esposas», de mães, de donas de casa (desesperadas, a maior parte delas) e, simultaneamente, assumem outras tarefas, trabalham, estudam, investigam, tomam parte na vida cívica e política, acumulam funções sem contar com o tempo de lazer e divertimento a que, obviamente, têm direito." (pp. 115-117)


Helena Vasconcelos, Humilhação e Glória, Lisboa, Quetzal, 2012.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Das mulheres e do mundo



Lidas cerca de 150 páginas de um livro muito interessante sobre as mulheres no Ocidente, com destaque para o espaço anglo-saxónico e Portugal:

Helena Vasconcelos, Humilhação e Glória: O acidentado percurso de algumas mulheres singulares, Lisboa, Quetzal, 2012.

É um ensaio a ler por várias razões: pela fluência da escrita, pela vivacidade da ensaísta, pela variedade e importância da informação, pela pertinência do tema, pois  a conquista de um espaço que seja seu não terminou ainda para muitas mulheres, para a larga maioria, creio. A autora, aliás, alerta para este facto, logo na introdução:

"Estamos a participar numa grandiosa mudança de comportamentos e hábitos, e as mulheres demonstram, com cada vez mais convicção, as suas capacidades e desejos, agarrando oportunidades com energia, inteligência e brilhantismo. Desde a segunda metade do século XX que se fala insistentemente do «Tempo das Mulheres», mas convém que não nos deixemos enganar: tudo o que se conquista não pode ser considerado como certo e perene e, a qualquer momento, forças poderosas - conservadoras, retrógradas - podem fazer reverter esta gloriosa e feliz tendência que dá às mulheres as mesmas hipóteses de escolha que, durante milénios, foram prerrogativa quase exclusiva dos homens." (p.13)


Destaco também, no capítulo sobre as «Mulheres de Letras» - "A ascensão segura das «Mulheres de Letras»" -, uma passagem sobre o Prémio Nobel da Literatura português e as contingências da sua atribuição, que desconsideraram nomes femininos, numa época em que as mulheres se destacam nas letras, seja como escritoras/poetas, seja como leitoras.

"Ao recordar a polémica que envolveu a atribuição do Prémio Nobel a José Saramago, creio bem que, se foi tempo de um português ser agraciado com o dito troféu, este deveria ter sido entregue, na altura, a Agustina Bessa-Luís ou a Sophia de Mello Breyner Andersen. Mas a primeira escreveu sobre a crueldade feminina e a segunda escreveu sobre o profundo e misterioso erotismo feminino, à luz de uma liberdade panteísta que certamente «assustou» a ala conservadora da nossa sociedade. (Recordo-me que a leitura de O Rapaz de Bronze, esse conto «infantil», foi, para mim, uma das chaves para o universo da sexualidade. Com a Sibila de Agustina aprendi o que era ser-se mulher de uma forma interessantemente poderosa e misteriosa.)
A escrira de ambas, cada uma à sua maneira muito particular, é profundamente pagã e nada disto poderia apelar ao julgamento positivo dos senhores da Academia Sueca." (p. 169) 

[Touché!]

É um livro a ler, com muito gosto e proveito. De facto, numa semana em que as mulheres portuguesas foram "aconselhadas" a retornar às lides domésticas e a (re)ocuparem, portanto, o tradicional papel de fadas do lar, é bom relembrar ou conhecer a história que nos trouxe aqui, os nomes e as vidas de muitas mulheres que se destacaram/destacam no seu tempo, dando voz aos anseios e sofrimento de muitas outras, às quais foram/são negados os meios fundamentais para pensarem e para serem livres, ou, simplesmente, contribuindo, com a sua inteligência, cultura e sensibilidade, para o bem-comum e para a melhoria da sociedade. Em qualquer época, e nos dias que correm, em particular, podemos menosprezar e votar ao ostracismo e clausura metade da humanidade? Não me parece. 

sábado, 3 de setembro de 2011

A Escola Pública

Esta leitora acredita na escola pública como um factor de integração e coesão social, de democracia. Reconhece-lhe um papel semelhante ao que MGLlansol atribui ao romance, uma vez que também aí a diferença se pode olhar nos olhos e descobrir-se igual no coração do humano.


No entanto, há que dizer que foi através do romance, assim como, e em paralelo, do voto universal, da instrução obrigatória e generalizada, e dos sistemas de Previdência,
que se fez a integração social da sociedade moderna,
baseada no primado da liberdade de consciência.
O romance trouxe uma visibilidade imaginária, mas verosímil, do "privado" de classes e castas que praticamente se degladiavam, na base de preconceitos mútuos. O romance pô-las em contacto entre si, e veículou o sonho da fraternidade universal dos homens,
porque todos os homens são iguais perante a existência enigmática.

Maria Gabriela Llansol, Lisboaleipzig 1: O encontro inesperado do diverso, Lisboa, Rolim, 1994.



Termina esta entrada com um registo mais popular, em defesa da liberdade e da escola:

 
"É certo que, na escola, ser marrão não será a característica que maior popularidade confere, mas afianço-vos que dará muito jeito mais tarde. Não há riqueza maior do que saber pensar de forma livre e crítica. É para isso que a escola serve. Por isso, aproveitem-na bem. Marrona dixit!"

Ana Bacalhau, "Ó Marrão, Marrão, que vida é a tua?", Revista Única: Expresso, 3/09/2011.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

25 de Abril

Comemorar tempos de acreditar

25 de Abril


Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas

Vieira da Silva

A Liberdade e a Memória: