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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Cultura pop

Leio uma entrevista a António Araújo, na revista Ler (Inverno 2016/2017, nº 144) - "Esquerda e direita já não são o que eram - nem voltarão a ser", por Filipa Melo, e deparo-me com esta tese interessante:

«A minha única "tese", que pode ser considerada um lugar comum, mas que procurei ilustrar até à saciedade, é a de que a grande clivagem não é tanto entre esquerda e direita, mas entre elites e não-elites.» (António Araújo)

O meu pensamento divergiu para outros dizeres e áreas, notando que a ideia que cada um de nós faz de uma época (anos 80...) é muito limitada à experiência individual ou de um grupo restrito, a um meio social, a um espaço geralmente urbano, com os seus ícones de consumo.

Nem todos frequentaram o Frágil, dançaram ao som dos Duran Duran ou comeram Tulicreme! Nem todos partilharam a cultura pop em todo o seu esplendor ou frequentaram os lugares da moda da Lisboa bem-pensante e gira dos anos 80.

A clivagem em Portugal, e noutros pontos do globo, é, de facto, entre elites e não-elites? Parece-me evidente que ela existe e que é factor de grande incompreensão e preconceitos.

(Imagens do Google Images) 

sábado, 21 de novembro de 2015

Lisboa, a Bela

Regresso à cidade uma vez por outra. Compro sapatos, um ou outro livro. Reencontro ou descubro lugares, iluminados. As conversas, a vida, acompanham os passos, os temperos suaves e a luz. É tão bom haver sol.


Chez De Groote
O mesmo lugar, outro ângulo

Príncipe Real 

Para além da praça

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Em Lisboa ouvem-se todas as línguas

Para DClem, ausente no paraíso

Está cada vez mais bela esta nossa cidade! Diversa, cheia de gente de várias proveniências, com as suas línguas, ritmos e cores. Moderniza-se, retoma universalidade.

Muitos dirigiam-se às margens do Tejo, convidativas, cada vez mais um espaço para os lisboetas e os seus visitantes.

Terreiro do Paço
Praça do Comércio

Cais das Colunas

Ribeira das Naus
E este barquito? O que é, de onde vem, para onde vai? Uma falua não é, e uma caravela não repousa assim...

"Trafaria Praia", de Joana Vasconcelos


quinta-feira, 20 de março de 2014

A Primavera chega hoje às 16:57, dizem.

Dirk Stoop, Terreiro do Paço no Século XVII - 1662 
(Museu da Cidade)

A esta hora entre os blocos de prédios enevoados
          a bela mancha diurna dos calceteiros na praça
e os dois amantes que hoje não dormiram vão partir nos
          braços da sua estrela
à beira do caminho ladeado de sebes de espinheiro
uma carta
uma letra muito fina             extremamente caligráfica
onde a aventura do homem que devolve as palavras que
          lhe são remetidas
deixou a sua marca
e o duque da terceira levanta o braço
comentado de seguida pelas aves que acordam a duzentos e
          mais metros de altura
o que não é ainda grande altura
sim sim
                        não não
                                                     quem sabe

[...]

Mário Cesariny, o primeiro livro de Mário Cesariny - Corpo Visível: Poema - Assírio e Alvim e Fundação Cupertino de Miranda, 2010.


Intervenção de Cruzeiro Seixas no seu exemplar dedicado de Corpo Visível.
Este postal foi publicado por ocasião de:
Mário Cesariny - Encontros IV
Fundação Cupertino de Miranda, Famalicão, 25 a 27 de Novembro de 2010.

quinta-feira, 21 de março de 2013

alguém para a matar em cada minuto da vida dela


Ontem foi o dia da Primavera, dizem, e a leitora que sempre acreditou que a estação se iniciava a 21 de Março, dia da Primavera e da Poesia!
 
Hoje, então, é o Dia da Poesia, mas nenhum livro de poemas foi lido ou folheado por ela. Em vez disso, Flannery O'Connor num café lisboeta. Lisboa estava formosa, como é da sua condição, especialmente com a luz primaveril que invadia a sala decorada ao gosto austríaco ou português ou simplesmente urbano. Os transeuntes flanavam pelas mesas, pelas ruas, nesta época repletas de turistas e de portugueses de vários estilos, eram anónimos e ela também. É gostoso o anonimato à mesa de um café citadino, sobre a qual esperam bandeja com bule e chávena e livros acabados de adquirir.
 
Porquê Flannery O'Connor? Porque a P. é sua leitora e referiu algumas vezes o seu gosto pelos contos desta escritora norte-americana e um livro seu estava em destaque na livraria - Um bom homem é difícil de encontrar. Só o primeiro conto, com o mesmo título, foi lido, mas, desde já, é evidente que é uma óptima escritora: a atenção ao detalhe, as comparações inesperadas, ao mesmo tempo suaves e demolidoras (veja-se, por exemplo, esta descrição da mãe: "uma mulher jovem de calças elegantes, cuja face era tão larga e inocente como uma couve, rodeada por um lenço verde com duas pontas atadas no alto da cabeça, como as orelhas de um coelho."), as relações familiares, banais e cruéis, o acaso fortuito que tudo destrói, inesperada e violentamente. É um conto aparentemente suave, centrado na avó manipuladora e tagarela, mas cheio de humor e de uma acutilância que chega a ser cruel, e, no final, a negação da bondade naquela figura do inadaptado, psicopata, cujos olhos, sem óculos, "eram pálidos e tinham uma expressão indefesa".
 
[Aqui, parênteses para aqueles que ouvem muitas vezes este vocabulário do campo semântico, agora lexical, do desgraçadinho: inadaptado, bom no fundo, especial, invulgar, etc. Este conto desmonta essa ideia que as pessoas nem boas nem más têm de que todos distinguem o bem do mal e que todos escolherão o bem, até os aparentemente maus, quando cairem em si; fá-lo oferecendo-nos uma personagem que se chamava a si mesma O Inadaptado, porque se esquecia dos seus crimes e não encontrava correspondência entre estes e os castigos que lhe aplicavam por causa deles. No final, depois da atrocidade cometida, diz, acerca da avó: "Teria sido uma boa mulher (...) se tivesse estado lá alguém para a matar em cada minuto da vida dela". Horrível, não é?]

Flannery O'Connor, Um bom homem é difícil de encontrar, Lisboa, Cavalo de Ferro, 2008 (tradução de Clara Pinto Correia).

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Século XVIII

Em Mafra, ficaram os Meninos surpreendidos com os amores freiráticos de D. João V, tão longamente íntimo da Madre Paula, abadessa do mosteiro de S. Dinis, em Odivelas. Não é fácil imaginar outras épocas, em que os papéis sociais e os afectos se distribuíam duma forma muito diversa da actual. Compreende-se a reacção.
 
Aconselha-se a leitura do novo livro de António Mega Ferreira e, a propósito do convento de Odivelas e das suas ligações, a "Carta Quinta: À condessa Coronini, dama da corte do Eleitor da Baviera".
 
 

Por exemplo, estas passagens:
 
"Neste convento, encerram-se umas seiscentas almas, mais ou menos devotas, das quais apenas metade tomaram votos definitivamente. Porém, se quiséssemos medir o pulso à nobreza de Portugal e aferir o seu quilate, não seria desaconselhável começar por aqui, onde se reúnem as filhas segundas de todas as casas nobres, as suas primas, as suas irmãs, as suas amigas. Umas por direito próprio ou prenda particular, outras por forte empenho de quem tem acesso aos corredores do poder, todas sonham com o dia em que passam a grade da entrada, aparentemente destinadas a uma vida de recolhimento e clausura, na verdade libertas da dura disciplina familiar, que as mantém fechadas nas suas casas, de onde apenas se ausentam para frequentar a igreja, e mesmo assim escoltadas por uma aia ou por um criado velho. O locutório destas discípulas de S. Bernardo, que o defunto rei João estragou com mimos, benesses e indulgências, é uma espécie de corte em formato reduzido, porque metade dos marqueses, condes e barões lá se encontram regularmente, menos para saber das suas familiares do que cortejar as amigas destas, quando não mesmo as suas rivais." (p. 152)
 
[O encontro no locutório]
 
"Os nobres de Lisboa, habitualmente tão pouco cuidados na sua indumentária e no seu aspeto, tinham caprichado para a ocasião: reluziam as belas casacas e coletes de cetim, azul-ferrete, amarelo, cor-de-rosa, feriam a vista as meias de seda brancas e as fivelas de prata dos sapatos pretos, erguiam-se bem alto as perucas muito frisadas dos velhos, que com elas encobriam a calvice, enquanto os mais novos faziam gala em exibi-las curtas, bem empoadas, à maneira francesa." (pp. 156-57)
 
"A certo ponto, uma freira que fazia de mestre de cerimónias deu ordem para que a multidão, que quase enchia a sala, se aquietasse. Viraram-se todos os olhares para a grade e, lentamente, a cortina que corria por detrás começou a abrir-se, dando lugar a um espaço sabiamente iluminado. Pouco a pouco, foi fazendo a sua entrada uma revoada de meninas, vestidas de branco ou de azul pálido, de olhos no chão e dedos entrançados no crucifixo que traziam ao peito, aparentando uma timidez e uma reserva a que nenhum homem poderia ficar indiferente. Era um teatro do Céu numa alcova de freiras, una cosa stupenda, e o meu coração bateu mais forte, porque o quadro inspirava os mais desvairados anseios e mortificações. Sucederam-se as exclamações, os sussurros e os suspiros dos freiráticos. Eu não conseguia fixar o olhar em nenhuma delas, porque a impressão de conjunto era tão intensa que os meus sentidos mergulharam numa espécie de beatitude celestial. E depois, uma a uma, foram-se aproximando da grade, espreitando, por detrás do véu de gaze muito fina, para localizar o seu pretendente. Movimentou-se aquela vaga de homens deslumbrados, acenando com a ponta dos dedos dos quais pendia um lenço de cambraia, e, por momentos, deixámos de ver as freiras, porque o topete das cabeleiras ocupava toda a linha do nosso olhar. Minutos depois, no entanto, recomposta a organização que ali os levara, e encontrando o par por que juravam e arruinavam as bolsas, estabeleceu-se a assembleia. As meninas, esquecida a compostura do primeiro encontro, entregavam-se agora alegremente ao doce suplício dos arrufos e promessas, trocando prendas e entrelaçando os dedos, e, até, em alguns casos, ousando beijos trocados através da grade, prontamente reprimido pelas freiras mais velhas, mas já não a tempo de lhes anular o efeito." (pp. 158-59)
 
 
António Mega Ferreira, Cartas de Casanova: Lisboa, 1757, Lisboa, Sextante Editora, 2013.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Injustiça

Em vez de ficar em casa enredada em papéis ou deprimente/depressiva (des)arrumação, um passeio. Trânsito entre paisagens aparentemente incomunicáveis: uma, urbana, serena, com elegantes em cultural cafetaria; outra, movel, atormentada, atravessada por gente batida em busca de transporte para o subúrbio ou mais além. Uns, harmoniosos, dando bom nome ao estilo casual; outros, retorcidos, lembrando que até o traje pode ser um grito ou feio esgar.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Três poemas de amor para Lisboa


CANTIGA DE AMIGO

JOAN ZORRO


   En Lixboa, sobre lo mar
barcas novas mandei lavrar,
   Ai mia senhor velida!

   En Lixboa, sobre lo ler,
barcas novas mandei fazer,
   ai mia senhor velida!

   [B]arcas novas mandei lavrar
e no mar as mandei deitar,
   ai mia senhor velida!

   [B]arcas novas madei fazer
e no mar as mandei meter,
   ai mia senhor velida!




LISBOA

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver




POENTES DE LISBOA

MANUEL ALEGRE


Os poentes de Lisboa sabem a
Ocidente
há neles um barco antigo a partir para
o reino ausente.

Os poentes de Lisboa trazem um
sentimento de grande nostalgia
há neles alguém que vem de mar nenhum
carregado de Tejo e de melancolia.

Os poentes de Lisboa são quer se
queira quer não
uma canção partindo-se partindo-se.

Os poentes de Lisboa intensamente
são
o Ocidente.




Mário Cláudio, Nas Nossas Ruas, Ao Anoitecer: Antologia de Poesia sobre Lisboa com um pormenor de uma pintura de Carlos Botelho, Porto, Edições Asa, 2002.