Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura Portuguesa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura Portuguesa. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Café com letras: revista de literatura

Sempre atrasada, só agora consegui ler o primeiro número da revista Café com letras: revista de literatura (abril, 2016), surpreendente e oportuna publicação mensal. Estão de parabéns a sua diretora, Maria João Cantinho, e a equipa que com ela colabora. A revista não segue o Acordo Ortográfico de 1990.
Como o título e o subtítulo indicam, dedica-se às letras, à literatura, à crítica literária e à filosofia, incluindo nas suas páginas entrevistas, ensaios / recensões  e crónicas. O «dossier» do mês de abril é dedicado à «Literatura portuguesa e resistência». De todos os textos, destaco o excelente ensaio de Vítor Viçoso, «Ler hoje o neo-realismo português» e a entrevista a Manuel Gusmão (por Maria João Cantinho e João Oliveira Duarte). Relevo desta última o carácter dialógico da poesia e a sua inscrição no mundo: «Nós nascemos como um diálogo, ou seja, a capacidade da linguagem é em nós inata, estamos preparados para a linguagem e, por isso, a linguagem faz-nos e, ao fazer-nos, nada impede que aquilo que eu faço seja partilhável. E, nesse aspecto, se nós existimos nesta dupla condição de esperados sobre esta terra e de preparados para uma linguagem, como diz Benjamin, está encontrado o quadro para pensar a relação da poesia com o mundo.».


O número dois, de maio, já está nas bancas. 


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Laços de família

Os escritores, de vez em quando, esboçam as suas "árvores bibliográficas", as suas genealogias literárias. Na Visão online (03.12.2015), foi a vez de António Lobo Antunes, em mais uma das suas belíssimas crónicas: 

http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/2015-12-03-E-no-entanto-vendo.

Gosto muito destas indicações, de reconhecer ligações, laços de família entre textos, palavras, autores... Cheguei a iniciar uma lista dos nomes referidos por Luísa Dacosta, procurando seguir as vozes daqueles poetas e prosadores portugueses e o seu eco na maravilhosa obra da escritora.

Aqui fica o princípio desse colar de afetos: Fernão Lopes, Gil Vicente, Sá de Miranda, Luís de Camões, Fernão Mendes Pinto, Diogo do Couto, Samuel Usque, Frei Luís de Sousa, António Ferreira, António José da Silva, António Vieira, Nicolau Tolentino, Bocage, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, António Nobre, Camilo Pessanha, Raúl Brandão. Aquilino Ribeiro, Tomaz de Figueiredo, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Cassiano Ricardo, Irene Lisboa, Vitorino Nemésio, Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Saúl Dias, Renata Pallotini ... (cont)

A propósito da árvore bibliográfica que Pedro Mexia delineou para si, na revista Ler*, também esta leitora quis encontrar a sua:

http://amateriadoslivros.blogspot.pt/2013/01/arvore-bibliografica.html

*Pedro Mexia, "Ler é Maçada: Árvore bibliográfica", Ler, Janeiro de 2013.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

"Intertextos 10" - Novo manual de Português



Ana Eustáquio, Gisela Peixoto, Paulo Simões Mendes.
Intertextos 10. Lisboa: Plátano Editora, 2015.

Alguns pontos fortes:

1. Criatividade, autonomia e partilha de conhecimentos.
2. Autoavaliação e avaliação formativa.
3. Níveis de aprendizagem diferenciados, trabalhados segundo uma ordem escalar de complexidade.
4. Coerência entre os vários componentes do projeto.
5. Seleção de textos criteriosa e coerente, com inúmeras ligações entre si, entre domínios, e a outras expressões artísticas e temas da atualidade.
6. Trabalho extenso e diversificado sobre os géneros formais do oral e da escrita, bem como sobre os domínios da leitura e da educação literária.
7. Propostas inovadoras de atividades criativas, em várias modalidades: antologia de poesia, trabalhos de grupo, criação de um Calepino... e muitas outras.
8. Anexos informativas e outros instrumentos de apoio ao estudo.
9. Orientações precisas para todas as obras do projeto de leitura.
10. Grafismo atrativo, motivador e adequado ao público-alvo.
11. Exploração pedagógica das tecnologias de informação e comunicação.
12. Rigor científico, conceptual, linguístico e gráfico.
13. Aprendizagem integrada, assente no papel ativo do aluno, combinando «reflexão e fruição».
14. Valorização das dimensões cultural, literária e linguística da língua portuguesa.

Em suma,

O projeto Intertextos 10

- Apresenta rigor científico, linguístico, conceptual e gráfico.
- Está plenamente de acordo com o Programa e as Metas Curriculares de Português do Ensino Secundário.
- Tem qualidade didático-pedagógica, sendo a informação, a organização e as imagens adequadas e adaptadas ao nível etário dos alunos.
- Não faz publicidade ou propaganda, nem veicula valores contrários àqueles que estão consagrados na Constituição.
- Promove a reutilização do manual.
- Tem um preço justo e um peso equilibrado.
- É um projeto completo e coerente que não requer "fotocópias futuras".

domingo, 12 de abril de 2015

Intertextos 10


Ana Eustáquio, Gisela Peixoto, Paulo Mendes.
Intertextos 10. Lisboa: Plátano, 2015.

Para C. / Dio., «desasado».




MAR

Bebo-o a colherinhas de olhos
na taça da manhã.
E nem ele se esgota,
nem eu me sacio.


Luísa Dacosta. A Maresia e o Sargaço dos Dias
(uma das epígrafes do manual)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

T.P.C. - A representação da natureza e a experiência amorosa num soneto de Camões

Giorgione
Concerto Pastoral
c. 1509-1510
(pormenor)

A fermosura desta fresca serra
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;

enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos of'rece,
me está, se não te vejo, magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me avorrece;
sem ti, perpetuamente estou passando, 
nas mores alegrias, mór tristeza.

Luís de Camões. Lírica Completa II. Prefácio e notas de Maria de Lourdes Saraiva. Lisboa: INCM, 1994.

Tópicos de análise:

Natureza: brandura; idealização.

Experiência amorosa: dureza; mágoa.

Sugestões bucólicas 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Escárnio e maldizer


Procurava uma cantiga de escárnio e maldizer apresentável, isto é, que pudesse ser dita em qualquer salão requintado, mas as dificuldades foram grandes, pois as obscenidades, a virulência e até a violência são frequentes. Encontrei duas: uma paródia ao amor cortês e "um malicioso quadro de amores campestres" (Graça Videira Lopes, p. 446). De qualquer modo, são lindas, estas e as outras, cuja leitura recomendo.


Quer-mi a mi ũa dona mal
como se lhi quisess'eu bem, 
por que houvesse por mi mal 
ou eu por ela algum bem; 
pois lh'eu nom quero mal nem bem, 
por que mi há ela querer mal? 

Colheu comigo desamor 
como se lh'houvess'amor eu, 
por que houvesse desamor 
d'alguém por mi ou amor eu; 
Non'a desamo nem am'eu; 
ela por que mi há desamor?


Gil Peres Conde 

Esta cantiga é o que poderemos designar por escárnio de amor, paródia ao universo do amor cortês, a partir de alguns dos seus clichés. Aqui a tradicional má-vontade da senhor em relação ao trovador não passa de um equívoco, uma vez que ela, neste caso, lhe é totalmente indiferente. [...]
3 per que - como se. 6 = há-de. 9-10 Os versos não são totalmente claros. Deverão ser, de qualquer forma, paralelos aos vv. 3-4 e o seu sentido será: como se, por causa de mm, alguém não gostasse dela, ou como se eu a amasse.



- Maria Genta, Maria Genta da saia cintada, 
u masestes esta noit'ou quem pôs cevada?
Alva, abríades-m'alá!

- Albergámos eu e outra [e]na carreira,
e rapazes com amores furtam ceveira.
Alva, abríades-m'alá! 

- U eu maj'aquesta noite, houv'i gram cea,
e rapazes com amores furtam avea.
Alva, abríades-m'alá! 


Rui Pais de Ribela

Notável cantiga dialogada que transforma subtilmente uma alba num malicioso quadro de amores campestres. É muito provável que se tratasse novamnete de uma cantiga de seguir. Repare-se que o lindíssimo refrâo («abria-se-me a alva ao longe»), na sequência do corpo das estrofes que descrevem a orgia nocturna, ganha um sentido irónico (e erótico), totalmente diferente do que teria na cantiga original.
1 É possível que Genta não seja um apelido, mas esteja no sentido de «gentil», como aparece, por exemplo, no Lais de Leonoreta Senhor genta...»). 2 masestes - pernoitaste. 2 ou quem pôs cevada - a expressão não é evidente. A cevada era um alimento para os criados e os animais. O sentido talvez seja, pois, «quem pagou a festa?», vindo a resposta na segunda estrofe (foram os rapazes com os seus roubos). Sigo a interpretação de Barbieri, o editor mais recente do trovador. 4 carreira - caminho. 5 ceveira - espécie de cevada para a alimentação do gado.

Os textos e as notas foram retirados do seguinte livro:

Graça Videira Lopes (ed.), Cantigas de Escárnio e Maldizer dos Trovadores e Jograis Galego-Portugueses, Lisboa, Editorial Estampa, 2002.


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Ei-las, que estão de volta

 
A Poesia Trovadoresca regressou ao Programa de Português. Ainda bem, pois a sua falta constitui um empobrecimento dos jovens, desde 2004 privados do convívio com esta preciosidade. Aqui fica um registo de uma das mais belas cantigas de amigo - "Ondas do mar de Vigo", de Martim Codax, jogral galego, provavelmente de Vigo. Para além do texto, indicam-se versões musicais e uma fotografia da folha do Pergaminho Vindel* em que se encontra. 
 

Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo?
       e ai Deus, se verrá cedo?
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado?
       e ai Deus, se verrá cedo?
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro?
       e ai Deus, se verrá cedo?
Se vistes meu amado,
o por que hei gram coidado?
       e ai Deus, se verrá cedo?

Martim Codax
 
 
 
 
 
As fotografias foram retiradas da base de dados Cantigas Medievais Galego Portugueses, que é um excelente recurso para trabalho, estudo ou, tão-só, tomada de conhecimento deste tesouro nacional.
 (Lopes, Graça Videira; Ferreira, Manuel Pedro et al. (2011-), Cantigas Medievais Galego Portuguesas [base de dados online]. Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, FCSH/NOVA. [Consulta em (indicar data da consulta)] Disponível em: http://cantigas.fcsh.unl.pt. )
 
*Conjunto de folhas volantes manuscritas com cantigas, incluindo a respetiva notação musical.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O novo Programa de Português

Foi uma surpresa. Parece que o Ministro da Educação e Ciência o apresentou ontem, mas a leitora, afogada em "envelopes", não vê televisão e só deu pelo acontecimento numa fuga pelo facebook. O que pode dizer, depois de uma leitura rápida? Que foi uma boa surpresa. É um Programa breve (61 páginas contra cento e tantas do outro), claro nos seus pressupostos teóricos e na apresentação dos domínios e conteúdos, objetivos, metodologias, avaliação e metas. Há uma evidente redução da "metalinguagem", vulgo jargão, por exemplo, desaparecem designações como "funcionamento da língua" ou "conhecimento explícito da língua", para se optar pelo despretensioso nome de "gramática". As competências desaparecem, dando lugar a "domínios": oralidade, leitura, escrita, educação literária e gramática. Claros.
 
Desde já, destacam-se como aspetos positivos os seguintes: a centralidade do texto complexo, especialmente o literário; a recuperação do conceito de género; o privilégio dos grandes textos e obras da literatura portuguesa e da historicidade que os percorre, justificativa de uma organização diacrónica do seu estudo. Leiamos, a este propósito, um excerto da introdução:


"O presente Programa valoriza o texto literário no ensino do Português, dada a forma diversificada como nele se oferece a complexidade textual. A literatura é um domínio decisivo na aquisição da compreensão do texto complexo e da linguagem conceptual, sendo, além disso, um repositório essencial da memória diversificada de uma comunidade, além de um inestimável património que deve ser conhecido e estudado.
Embora literatura e cânone não sejam realidades totalmente coincidentes, importa sublinhar a dimensão prospetiva e o potencial de criação que significa a leitura dos clássicos, enquanto corpus seleto de textos que nunca estão lidos, na sua dialética entre memória e reinvenção.
Dentro do leque dos textos complexos, o texto literário ocupa um lugar relevante porque nele convergem todas as hipóteses discursivas de realização da língua. Ao contemplar um conjunto de fatores que implicam a sedimentação da compreensão histórica, cultural e estética, o texto literário permite o estudo da rede de relações (semânticas, poéticas e simbólicas), da riqueza conceptual e formal, da estrutura, do estilo, do vocabulário e dos objetivos que definem um texto complexo (cf. ACT, 2006). Para tal, pressupõe o Programa também uma adequada contextualização das obras a estudar, no respeito pela sua historicidade, de modo a que elas não surjam aos olhos dos alunos "como ilhas sonâmbulas num lago preguiçoso; ou como acidentes num percurso de lógica dificilmente apreensível", como afirma Manuel Gusmão (2011, 188)."
 
 
É de salientar e louvar a reintrodução da poesia trovadoresca no Programa de Português (mas, por que motivo se excluem as cantigas de escárnio e maldizer?), a chamada de Fernão Lopes, Gil Vicente, Fernão Mendes Pinto, da História Trágico-Marítima, de Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco e Antero, de Camilo Pessanha, de Mário de Sá-Carneiro ou Maria Judite de Carvalho, de José Régio, com a obra Três Máscaras - Fantasia Dramática; não se compreendem, todavia, as ausências de Sophia ou de Eugénio de Andrade, na lista dos poetas do século XX, sem desmerecimento dos cinco nomes selecionados, obviamente.

 Uma palavra ainda para o Projeto de Leitura: indicação de uma lista de obras e autores da literatura de língua portuguesa ou universal, distribuídos pelo ciclo de estudos, para serem lidos pelos alunos, um ou dois por ano, em articulação com os domínios e conteúdos programáticos. Parece-me bem, pois, se a listagem pode ser redutora, será também muito útil para a criação de um património literário comum e para a desmistificação da ideia de que as leituras não contempladas nos conteúdos restritos devem seguir a espuma dos dias, digo, as modas, os escritores e títulos da moda.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

A menina ri; ri de quê?

 
No início do ano letivo, uma professora que estava a dar aulas à noite há vários anos e que, pelas contingências de horário, se via remetida ao ensino diurno, lamentava-se:
- O quê? A sério? É preciso isso? O ensino tornou-se tão chato!
 
Tinha razão, a colega, e não só por causa das inúmeras "grelhas". De facto, a burocracia não se traduz apenas em muita "papelada" - grelhas de avaliação, relatórios, critérios, parâmetros, listas e etc. -, mais grave que toda esta inutilidade é o fechamento do espírito. Criou-se o hábito das receitas, dos textos conformes a modelos, propícios  a uma abordagem estruturalista, segura e conducente a leituras consensuais. Está bem amarrado, o professor, como estão atados, de pés e mãos, os alunos. Talvez por isso o cinzentismo impere: os Meninos não gostam de ler, os Mestres não têm prazer em ler-lhes; o famigerado Programa insiste nos textos dos media e do domínio transacional; a poesia, de preferência épica ou lírica, vá lá, ainda se aceita, mesmo se for para dizer que não se percebe nada;  já o humor... Oh, não! C'horror! Então, essas coisas na sala de aula?
 
Fui reparando, ao longo dos anos, que a adolescência é muito mais conservadora do que aquilo que se pensa, a diferença é que, em tempos, a confiança no professor, no seu saber e na sua seriedade, era maior. Por outo lado, a pressão das "notas" e das "médias" era, talvez, menor. Agora, nas turmas do ensino regular, ditas "normais", constituídas por alunos que querem tirar cursos superiores e ocupar cargos de responsabilidade, quiçá de chefia, é preciso medir o que se diz com a bitola do politicamente correto, não vá alguma alma ficar chocada por qualquer murmúrio não previsto no breviário da tacanhez. Ainda assim, há oásis de liberdade. Em nome da liberdade, chamo à sala Cesariny, Alexandre O'Neill, Natália Correia, Nuno Artur Silva, Inês Fonseca Santos, Ricardo Araújo Pereira, António Lobo Antunes, Fernando Ribeiro de Mello e tantos outros, até O meu Pipi* (Ai! Agora é que resvalou.)

 
   *Aqui um exercício de autocensura: "Este foi só de raspão, por engano..."
 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Barómetro

 


Não entendo a razão para a polémica que se diz andar por aí. O barómetro é o da crítica e do ruído à volta dos livros e dos seus autores, por isso é tanta a vozearia; comentam-se e indignam-se uns aos outros, é o que é. Para o público mais leitor de jornais que de livros tem interesse. Também é sempre gratificante relembrar Alexandre O'Neill, Carlos de Oliveira, Knopfli, Ferreira de Castro, ficar com vontade de procurar as narrativas de Teresa Veiga. Considero injusta a desvalorização de Torga, muito lido, e merecidamente; nem entendo a menção a certo jornalista autor. Enfim, também esta leitora tem os seus gostos e antipatias. Onde estão Luísa Dacosta, Maria Gabriela Llansol ou Rui Nunes? Onde Vergílio Ferreira, Aquilino, Luiza Neto Jorge e outros?
Seja como for, não nego a importância da crítica literária jornalística para a divulgação dos livros, para a promoção da leitura e para a criação de novos leitores, para sacudir o pó a alguns nomes há muito adormecidos nas estantes dos armazéns ou de recuadas bibliotecas. Os livros, de poesia ou prosa, precisam igualmente destas vozes para chegarem às mãos dos muitos que os poderão resgatar ao tempo devorador. De facto, não vivem só de estudos académicos, de eruditos e de criadores (outros poetas, outros escritores), de leitores amadores, ainda que todos estes sejam muito importantes. O que cansa é a algazarra, a vida social reunida à volta dos "encontros", das "tertúlias", dos lançamentos, dos suplementos dos jornais, das revistas, a intriga e a maledicência. São os lobbies, dizem, as influências, é a moda. Mas alguém desconhecia a existência de acantonamentos revisteiros, de redes, de estrelas de plástico...? Basta andar por aí, ter olhos e ver, e ler, ter ouvidos e ouvir...
(...de qualquer modo, não faz mal dar o nome às coisas dos "bastidores" e publicá-las, dá-las a conhecer, pois há sempre alguém distraído.)
 

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Comemorar a liberdade

Luísa Alvim publica hoje, no Facebook, um trabalho que fez sobre livros: Os livros portugueses proibidos no regime fascista: Bibliografia. São estes estudos que nos permitem ver o que ganhámos com a revolução e o fim da censura. Ganhámos liberdade de conhecer e, consequentemente, de escolha, o que não é pouco. A seguir transcrevo um poema de Natália Correia incluído numa famosa antologia poética organizada pela poetisa - Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica (dos cancioneiros medievais à actualidade) . Escusado será dizer que a obra, editada pela Afrodite* (Lisboa) em 1965, foi proibida e a sua autora alvo de perseguição, tendo mesmo respondido em tribunal pelo feito**. O poema, para além de mostrar a coragem e espírito subversivo da grande mulher que foi Natália, revela, também, a possibilidade de libertação erótica e da palavra, talvez a mais difícil, mormente se colocada no feminino.
 
Ei-lo:
 
COSMOCÓPULA
 
I
 
Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras.
 
II
 
O corpo é praia a boca é nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso de água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.
 
 
 
Natália Correia
 
 
Natália Correia (selecção, prefácio e notas), Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica (dos cancioneiros medievais à actualidade), Lisboa, Antígona e Frenesi, 1999.

 
*Esta editora - Edições Afrodite - foi criada em 1965, por Fernando Ribeiro Bento de Mello, tendo provocado escândalo com a publicação de obras polémicas e proibidas, que originaram processos judiciais por ultraje aos bons costumes. Mais informações podem ser consultadas no blogue sobre a editora Aqui.

**Leio que Natália Correia foi condenada a três anos de prisão com pena suspensa. Trsite Portugal.



quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Palavra-corpo-magia

"O corpo; o amor do visível e do tangível; a conversão do subjectivo em objectivo; o apetite, a voracidade de e na própria criação: tudo isto se patenteia nas obras dos melhores poetas e narradores da língua portuguesa.
Em semelhante perspectiva, não deixará de inquietar - ou pelo menos de parecer estranha - a tão positiva aura de  que actualmente goza no estrangeiro uma obra como a de Fernando Pessoa: ela pode afigurar-se a grande, a genial excepção à regra. O certo, porém, é que Pessoa, a despeito da insensibilidade ou desconfiança diante dos valores do corpo, não cessa de sucumbir, sob variados aspectos, às múltiplas seduções da palavra-corpo: não falo dos seus jogos ornamentais de «em horas inda louras, lindas/Clarindas e Belindas brandas» e outros afins, característicos da primeira fase do poeta ortónimo; falo sobretudo do suporte «carnal» de muitos daqueles «oxímoros dialécticos» oportunamente postos em relevo pela crítica mais especializada; e também, particularmente em Álvaro de Campos, da concreta substancialidade inerente ao seu modo de exprimir e comunicar o abstracto."
 
David Mourão-Ferreira, Magia, Palavra, Corpo, Lisboa, Cotovia, 1993.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Coisas que fazem mal aos olhos


"Coisas que fazem mal aos olhos

O seguinte faz mal aos olhos. Choro, fome, jejum, vinho velho, cerveja nova, turva, especialmente de centeio, demasiado macerada. Toda a embriaguez e excesso. Todo o legume, leite, queijo, e tudo o que for salgado, em fumigação ou estupefaciente, como a papoila, etc. Sono demasiado depois das refeições e vigílias imoderadas. Canto em demasia e coito frequente. Olhar em demasia para objectos brancos e luminosos. Também faz mal a flebotomia frequente e ilícita."


"Pedro Hispano" in Clara Crabbé Rocha, A caneta que escreve e a que prescreve: Doença e medicina na literatura portuguesa, Lisboa, Verbo (Babel), 2011.


[A espinhosa tarefa também não ajuda.]

quarta-feira, 7 de março de 2012

"Sentada no seu último lugar deste mundo"

"Sentada no seu último lugar deste mundo, ela, cada vez mais invertebrada e esquecida, pensou Samarcanda."

internet [?]

(A citação é de Maria Judite de Carvalho, "Aeroporto" in Além do Quadro, Lisboa, Projornal, 1983. - Maria Judite de Carvalho, ou a tragédia do quotidiano, "latente triste".)

segunda-feira, 5 de março de 2012

Uma chávena de chá?

Uma pausa nas letras...


Hiroshige



Wenceslau de Morais (1854-1929)

"O chá japonês, servido invariavelmente sem leite e sem açucar, que lhe prejudicariam o aroma, é a bebida mais suavemente agradável que possa oferecer-se ao nosso paladar (não de todos porém, mas um paladar sentimental, um tanto sonhador... que nisto dos nossos órgãos de sentir há temperamentos, aptidões, afectivas características...). O guyokuró, por exemplo, que é o mais celebrado chá de Uji e de todo o Japão, instila tais subtilezas balsâmicas de sabor, que mais parece um perfume; poderia dizer-se que uma maravilhosa alquimia conseguiu liquefazer os aromas das flores - flores dos jardins, flores silvestres -, transferindo o olfacto ao paladar a impressão do gozo. Assim é o guyokuró; claro está que as palavras não podem traduzir senão por comparação as emoções sentidas; e esta, a do agridoce deliciosíssimo que nos fica nos lábios, persistindo, como na memória persiste uma reminiscência, uma saudade, é incomparável...
O chá japonês tem a virtude de mitigar a sede. Assim se explica o hábito dos japoneses não beberem água; mesmo na força dos calores de Agosto, a chávena de chá, saboreada a goles, lhes dá pleno consolo. Aponta-se-lhe mais outros condões: excita ligeiramente o organismo, combate o cansaço das vigílias, predispõe ao bem-estar, infiltra no cérebro não sei que subtil embriaguez, lúcida todavia, que nos torna mais afectivos às sensações de agrado e mais aptos às elaborações do pensamento."


Wenceslau de Morais, O Culto do Chá, Lisboa, Relógio d'Água, 2008.

[Só tenho Gorreana, pode ser?]

sábado, 3 de março de 2012

Estudar Fernando Pessoa


A Arca, no Arquivo Pessoa


Os alunos têm muitos meios para estudarem as matérias leccionadas na escola. O Portal MultiPessoa e o Arquivo Pessoa (base de dados), por exemplo, são óptimos para quem está a trabalhar a obra de Fernando Pessoa.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Esconjuro - Contra os maridos transviados


Deus te salve, Sol divino!
Tu corres o mundo inteiro;
Viste lá o meu marido,
Viste lá o meu marido?

Se tu o viste, não mo negues,
Não mo negues, não negues, não.

Esses raios que vens deitando,
Ao teu nascimento,
Sejam dores e facadas
Que atravessem o seu coração.

Que ele por mim endoideça,
Que ele não possa comer, nem beber,
Nem andar, nem amar,
Nem com outra mulher falar,
Nem em casa particular!

Todas as mulheres que ele veja
Lhe pareçam cabras negras
E bichas feias.

Só eu lhe pareça bem no meio delas,
Só eu lhe pareça bem no meio delas.

Cancioneiro Popular Português
[folha volante, encontrada por acaso entre papéis]

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Uma faquinha amarela


Uma quarta de sabão
pra lavar o coração.
Uma faquinha amarela
para cortar a goela.


[Quadra popular citada por Luísa Dacosta, em O Planeta desconhecido e romance da que fui antes de mim, Lisboa, Quimera, 2000.]

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A palavra aos clássicos

Aos Meninos e Meninas do Presente
Palavras doloridas e um herói


Lidas as estâncias finais de Os Lusíadas, ficam estes versos tão contemporâneos:

Nô mais, Musa, nô mais que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
D'ua austera, apagada e vil tristeza.

(Canto X, est. 145)


Outro tempo, a mesma crise, um retrato de um príncipe do passado: O Infante D. Henrique:

"A simpatia e a grandeza dos homens, como foi o infante D. Henrique, não está propriamente, pois, no carácter ou na individualidade: está na empresa a que se devotaram. E como o plano do infante era verdadeiro e fecundo; como a sua ideia de um Portugal novo, destacando-se da Espanha e estendendo-se, pelos confins de Marrocos, África em fora, a limites indeterminados nas regiões desconhecidas do mundo, provou afinal ser uma realidade, devemos-lhe, nós portugueses, uma segunda pátria; e deve-lhe a civilização europeia uma das suas três ou quatro conquistas fundamentais. É isso o que faz dele um herói, na mais nobre acepção da palavra, apesar das sombras que por vezes lhe escurecem a vida, e de não se lhe encontrar beleza, nem o encanto humano que distinguem outros filhos de D. João I." (p. 114-115)

Oliveira Martins, Os Filhos de D. João I, Lisboa, Verbo Clássicos, 2006.