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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Da necessidade da literatura

Italo Calvino deixou-nos seis (cinco) propostas para o próximo milénio, lidas pela primeira vez em 1992. Muitas das ideias então acolhidas afluem ao pensamento da leitora nas mais variadas ocasiões. Hoje lembrou-se insistentemente de duas passagens da conferência intitulada "Exactidão":

"Às vezes parece-me que uma epidemia pestífera atingiu a humanidade na faculdade que mais a caracteriza, ou seja, o uso da palavra, uma peste da linguagem que se manifesta como perda de força cognitiva e de imediatismo, como um automatismo com a tendência para nivelar a expressão nas fórmulas mais genéricas, anónimas e abstractas, para diluir os significados, para embotar os pontos expressivos, para apagar toda a centelha que crepite do encontro das palavras com novas circunstâncias.
Não me interessa aqui interrogar-me se as origens desta epidemia se devem procurar na política, na ideologia, na uniformidade burocrática, na homogeneização dos mass-media, na difusão académica da cultura média. O que me interessa são as possibilidades de salvação. A literatura (e talvez apenas a literatura) pode criar anticorpos que combatam a expansão da peste da linguagem."  (p. 74)

"[...] penso que andamos sempre à caça de alguma coisa oculta ou pelo menos potencial ou hipotética, de que seguimos as marcas que afloram à superfície do solo. Creio que os nossos mecanismos mentais elementares se repetem desde o Paleolítico dos nossos antepassados que caçavam e apanhavam frutos através de todas as culturas da história humana. A palavra liga a marca visível à coisa invisível, à coisa ausente, à coisa desejada ou temida, como uma frágil ponte improvidada sobre o abismo.
Por isso o uso correcto da linguagem para mim é o que permite aproximar-nos das coisas (presentes ou ausentes) com discrição, atenção e cautela, respeitando o que as coisas (presentes ou ausentes) comunicam entre si. (p. 94) 


Italo Calvino, Seis Propostas para o Próximo Milénio, Lisboa, Teorema, s.d.

sábado, 10 de dezembro de 2011

out of Elsinore


Odilon Redon, Ophelie



"Queen: There is a willow grows askant the brook,
That shows his hoar leaves in the glassy stream,
Therewith fantastic garlands did she make
Of crow-flowers, nettles, daisies, and long purples
That liberal shepherds give a grosser name,
But our cold maids do dead men's fingers call them,
There on the pendent boughs her crownet weeds
Clamb'ring to hang, an envious sliver broke,
When down her weedy trophies and herself
Fell in the weeping brook. Her clothes spread wide,
And mermaid-like awhile they bore her up,
Which time she chanted snatches of old lauds,
As one incapable of her own distress,
Or like a creature native and indued
Unto that element. But long it could not be
Till that her garments, heavy with their drink,
Pulled the poor wretch from her melodious lay
To muddy death."


William Shakespeare, Hamlet: The Tragedy of Hamlet, Pince of Denmark, Cambridge, Cambridge University Press, 1980 (ed. John Dover Wilson).

sábado, 12 de novembro de 2011

Olhai e vede como se estivésseis presentes

Hipotipose

Uma das mais belas figuras de estilo, ontem relembrada. O E-Dicionário de Termos Literários (Carlos Ceia) define-a assim:

"Descrição entusiástica, dinâmica e animada de uma pessoa, coisa ou acção, em regra ausente no momento da descrição, mas cuja presença é assumida de forma fantástica. Quintiliano prefere designar esta figura como ilustração vívida (Institutio Oratoria, IX, ii, 40-44), atribuindo a Celso a designação grega, que traduziria qualquer representação enérgica de factos, de tal forma que se criaria uma ilusão óptica de realidade. [...]"

Sonho

Com confiança na linguagem e na sua capacidade de nos tornar presentes mundos oníricos, voemos para lá da noite, na companhia de um belo pássaro lunar e destas palavras mágicas:

"Magicamente, o pássaro transformou-se. Deviam ser assim  as aves do paraíso. Eram com certeza. O corpo lunar recolhia, agora, todos os reflexos da luz da manhã clara e devolvia-os numa brita lantejoulada, de arco-íris. E a menina pôs-se a amá-lo tanto que sempre que o seu coração anoitecia entrava no corpo luarento e espelhado e voava pela janela.

Que estranhas eram as noites! E que bom era voar! Não havia limites: tudo era amplo, liberto, sem fim. Espaços ora sombrios e nevoentos, ora floridos de estrelas, sucediam-se num deslumbramento. Aos pontos luminosos da noite, respondiam outros pontos, luminosos, na Terra. Eram as casas, os navios, as cidades dos homens que, vistas assim de cima, pareciam enormes teias de aranha, preciosamente orvalhadas. Os faróis dos carros, os comboios riscando as trevas, semelhavam estrelas cadentes. E a menina aventurava-se cada vez mais e mais. Subia e respirava aquela liberdade única: a do sonho."


Luísa Dacosta, Menina Coração de Pássaro, Porto, Asa, 2002.

sábado, 30 de julho de 2011

Frutos e gentilezas

Para Ujm, in heaven


Melão
no orvalho da manhã
fresco de lama



Matsuo Bashô, O Gosto Solitário do Orvalho, Lisboa, Assírio & Alvim, 1986 (versões de Jorge Sousa Braga). 


sábado, 23 de julho de 2011

Os livros da vida de cada um

Encontro com as palavras de Maria Teresa Horta. É bom ouvir falar dos poetas e escritores de uma vida: Virginia Woolf, Emily Dickinson, Rainer Maria Rilke...





"A minha poesia interfere em tudo"

Maria Teresa Horta fala da sua escrita:


http://youtu.be/pf0PEXtcuaY