Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Livros. Mostrar todas as mensagens

domingo, 17 de dezembro de 2017

Livros, livrarias e leitores

Jorge Carrión, Livrarias: uma história de paixão, comércio e melancolia,
Lisboa: Quetzal, 2017.
James Lackington, livreiro londrino do século XVIII, citado por Jorge Carrión, recusava-se a destruir os livros que não vendia, preferindo pô-los em saldo, pois tinha um sentido, diria eu, democrático da leitura; escreveu: «Os livros são a chave do conhecimento, da razão e da felicidade, e toda a gente deve ter acesso a eles a preços acessíveis, independentemente do nível económico, classe social ou sexo.» (Carrión, 2017: 62).

No nosso século, há vários mecanismos económicos para baixar o preço dos livros e, assim, facilitar o acesso a este bem cultural: o IVA a 6%, os descontos habituais das editoras e livrarias, as feiras que reforçam aquele desconto... As funções que venho a desempenhar implicam a consideração do livro também como produto comercial, o que é uma perspetiva nova (seminova, vá) e até interessante. Talvez não seja má ideia considerar, igualmente, o circuito do livro usado, seja enquanto objeto de leitura, seja como produto transacionável ou partilhável; nesta dimensão, para além das editoras, livrarias e distribuidoras, há a considerar as bibliotecas, os alfarrabistas e, é claro, o leitor e as suas relações sociais e, especialmente, a sua relação com os livros, a leitura e os outros leitores...

Para já, olho para os livros enquanto leitora, com poucos hábitos de requisições em bibliotecas, tendo privilegiado sempre a compra, salvo situações de estudo e trabalho, obviamente. Assim sendo, as livrarias ocupam um lugar importante no meu imaginário; este facto não será alheio ao gosto da leitura do livro de Carrión supracitado - Livrarias: uma história de paixão, comércio e melancolia. O autor refere três livrarias portuguesas: a Bertrand (do Chiado, não a rede com pontos de venda em qualquer centro comercial), a Lello e a Ler Devagar. Conheço as duas primeiras; gosto da Bertrand; quando visitei a Lello não me senti numa livraria, senti-me numa feira barulhenta onde se compram livros para abater o preço do bilhete e bugigangas para levar para casa e oferecer aos amigos como lembrança da "livraria mais bela do mundo". 


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Barómetro

 


Não entendo a razão para a polémica que se diz andar por aí. O barómetro é o da crítica e do ruído à volta dos livros e dos seus autores, por isso é tanta a vozearia; comentam-se e indignam-se uns aos outros, é o que é. Para o público mais leitor de jornais que de livros tem interesse. Também é sempre gratificante relembrar Alexandre O'Neill, Carlos de Oliveira, Knopfli, Ferreira de Castro, ficar com vontade de procurar as narrativas de Teresa Veiga. Considero injusta a desvalorização de Torga, muito lido, e merecidamente; nem entendo a menção a certo jornalista autor. Enfim, também esta leitora tem os seus gostos e antipatias. Onde estão Luísa Dacosta, Maria Gabriela Llansol ou Rui Nunes? Onde Vergílio Ferreira, Aquilino, Luiza Neto Jorge e outros?
Seja como for, não nego a importância da crítica literária jornalística para a divulgação dos livros, para a promoção da leitura e para a criação de novos leitores, para sacudir o pó a alguns nomes há muito adormecidos nas estantes dos armazéns ou de recuadas bibliotecas. Os livros, de poesia ou prosa, precisam igualmente destas vozes para chegarem às mãos dos muitos que os poderão resgatar ao tempo devorador. De facto, não vivem só de estudos académicos, de eruditos e de criadores (outros poetas, outros escritores), de leitores amadores, ainda que todos estes sejam muito importantes. O que cansa é a algazarra, a vida social reunida à volta dos "encontros", das "tertúlias", dos lançamentos, dos suplementos dos jornais, das revistas, a intriga e a maledicência. São os lobbies, dizem, as influências, é a moda. Mas alguém desconhecia a existência de acantonamentos revisteiros, de redes, de estrelas de plástico...? Basta andar por aí, ter olhos e ver, e ler, ter ouvidos e ouvir...
(...de qualquer modo, não faz mal dar o nome às coisas dos "bastidores" e publicá-las, dá-las a conhecer, pois há sempre alguém distraído.)
 

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Livros

Ainda agora, um daqueles dizeres lapidares do Facebook:

Autor desconhecido


(O que é isto? A voz do além a resistir teimosamente às notícias de lapsos e contradições discursivas, todas coerentes na míngua dos muitos? Os livros não serão mera saudade.)

domingo, 18 de março de 2012

Cá em casa, domingo também é dia de envelopes


Entre a pausa e a fuga, deslocação à estante envidraçada para descansar os olhos. Um livro de Eugénio de Andrade, poeta de primeiríssima água, estranhamente ausente deste blogue, um poema muito bonito, e sugestivo:


A Estante (pormenor)



VER CLARO

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.


Eugénio de Andrade, Os sulcos da sede, Vila Nova de Famalicão, Quasi/Fundação Eugénio de Andrade, 2007. 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Oferecer livros



Vista aérea da Biblioteca de Alexandria 
(fotografia retirada do site oficial)

Em qualquer momento se oferecem livros, mas a época natalícia é especialmente indicada para se presentarem os amigos com estes fantásticos objectos. Todos os leitores o fazem.

Há leitores, todavia, que vão mais longe, e decidem dar os volumes que já não cabem nas suas estantes também às bibliotecas escolares. É um gesto de cultura e de amor aos livros que deve ser reconhecido, pois enriquece aquelas bibliotecas e os seus frequentadores, jovens leitores, a crescer, a abrir horizontes, a aprofundar raízes...

Hoje a generosa oferta foi de G.

Amanhã? Quem os lerá? Quem os multiplicará?

sábado, 10 de setembro de 2011

Amar os livros

Hoje lê-se um ensaio luminoso e esclarecedor de Paula Morão: "A leitura - Cidadãos e peso, obrigação e prazer". Um excerto:

"[...]
Na mesma direcção se situa o primeiro fragmento d' "O livro", a abrir A Invenção do dia claro, que Almada Negreiros publicou m 1921; sigamo-lo:

Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.
Deve certamente haver outras formas de se salvar uma pessoa, senão estou perdido.
No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas muito bem vestidas de quem precisa salvar-se.

Anote-se o carácter salvífico do livro e da leitura, espécie de condenação feliz, tarefa jubilosa de uma vida inteira. A livraria - e a biblioteca (acrescentamos nós) - configura-se como um limbo a caminho do paraíso: a multidão de livros salva ou condena, mas seja como for ocupa toda a duração de uma vida, como uma actividade constante. Para além da ironia deste fragmento, podemos vislumbrar aqui uma concepção de leitor, como aquele cujo percurso vital é marginado por livros da mais variada índole e de variegadas funções, desde a companhia à aprendizagem de um qualquer saber, desde a descoberta do Outro à confirmação do mundo que já se conhece e à abertura a mundos imaginários, ou a mundos outros, utópicos, com os quais os escritores e os artistas constroem alternativas ao real, sonhando-o diferente e melhor. Por isso são tão atraentes os livros de ficção que falam de mundos muito diversos daquele que nos é familiar - pense-se por exemplo no encanto das epopeias, dos heróis carismáticos com que sonhamos por neles nos reconhecermos; ou pense-se nos romances de aventuras passadas em cenários que temos de inventar e modelar diante dos nossos olhos universos que ultrapassam o que nos é familiar. Eis aqui, precisamente, uma das principais funções do livro e em especial da literatura (mas também do livro científico), a de estimular a imaginação, criando cada leitor, em suplemento ao que lê, figuras e cenários. Daí que muitas vezes seja decepcionante ver, em adaptações para cinema ou outras formas artísticas, as nossas personagens incarnadas por actores muito diferentes do que tínhamos imaginado - é este o Rei Artur?, é este o rosto de Heathcliff, de Orlando, de Camões, de D'Artagnan, de Guinevere, de Natacha Rostova, de Tadzio? É esta a figura de Carlos da Maia, é este o inspector Elias com seu lagarto Lizardo, é este Aquiles, é este Ulisses? É este o vulto de Pessoa, é esta a sua voz?
Cada um multiplicará os exemplos em função da sua enciclopédia e da sua memória pessoal. O que quero sugerir é que personagens e cenários como os que aqui evoco são parte do que o leitor-pessoa que eu sou se foi fazendo, ao longo dos anos que cada sujeito leva de amador de livros, neles criando mundo e se constituindo como ser pensante e como cidadão do mundo. Falo de um leitor que incorpora e faz seu um conjunto de personagens que vive como suas, que decorrem naturalmente da sua vida, a moldam e lhe dão sentido, surgindo nas suas frases como entes familiares. Falo de um leitor espesso, de um leitor com uma memória tecida de seres de papel e "das emoções linguísticas" (como lhes chama Gastão Cruz), falo, em suma, daquele leitor que nem tem consciência de carregar consigo e dentro de si uma tradição, uma linhagem que lhe definem o retrato bem desenhado. [...]"

[Nesta citação, omitiram-se as notas presentes no texto]

Paula Morão, "A Leitura - Cidadãos e pessoas, obrigação e prazer" in O Secreto e o Real: Ensaios sobre Literatura Portuguesa, Lisboa, Campo da Comunicação, 2011.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Dos diários e assim

"Este diário da Índia, embora a ela evidentemente se refira por diversas vezes e de diversas formas, foi, na altura em que lá vivia, um modo de me evadir do meu dia-a-dia indiano tantas vezes penoso, e de procurar enraizar-me através de leituras, livros e recordações, noutras paisagens e gentes. Uma forma avulsa de me reencontrar.
Quantas vezes a elaboração de um diário não nos oferece a possibilidade de embarcarmos para outras paragens...?"

Marcello Duarte Mathias, Diário de Paris: 2001-2003, Lisboa, Oceanos, 2006.


Por que se escrevem diários? Porquê manter este diário de leituras? Qual a origem da compulsão da escrita diarística?

Estas perguntas são de difícil resposta e requerem leituras, pois que de um género de escrita complexo se trata. No entanto, fiquemo-nos por uma reflexão impressionista, mais ajustada à canícula recém-chegada.
Se atendermos às palavras de Marcello Duarte Mathias, um diário é uma forma de evasão - "possibilidade de embarcarmos para outras paragens" - e de enraizamento noutra paisagem - "outras paisagens e gentes"-,  através de "leituras, livros e recordações". Recorremos, então, ao papel ou ao rectângulo branco para nos libertarmos do mal-estar quotidiano ("um modo de me evadir do meu dia-a-dia indiano tantas vezes penoso"), achando morada no território dos afectos, novo e antigo. Assim, recolhemos fragmentos vários, palavras, imagens, sons, com a intenção de criarmos uma paisagem a habitar, por nós e por outros. Sim, por outros, pois que os diários aqui lembrados não se escondem na gaveta, antes se oferecem aos mais diversos e incertos olhares.
Nesta terra oscilante, somos o espelho, o rosto e o retratista, que move a cabeça com as mãos, buscando a melhor pose: com inclinação, sem inclinação, de perfil mais ou menos pronunciado, à medida da velatura desejada... A nomeação faz-se por meio de perífrases, palavras compostas, pronomes vários, muitas vezes na terceira pessoa, também há quem recorra a letras maiúsculas seguidas de pontinho. Não raro, convocam-se máscaras sugestivas da face oculta. Estratégias para esconder e revelar a identidade. Quem escreve, afinal, é e não é aquele que se toma por autor. O diarista, afinal, quer criar o novo feliz, mas reunindo o vivido (lido). O diarista, afinal, é um colector, que quer voar, mas levando nas asas todo o mundo conhecido. Quem escreve, afinal, procura-se a si e ao outro...
... Afinal?
E, então, quando o diarista tem a compulsão de APAGAR tudo (quase tudo...) o que escreve/coloca no blogue, no diário? Vê-se que o diálogo é constante, não só com o mundo das palavras, mas também com os leitores do dito blogue-apagando-se, que, nota-se, comentam de viva voz o que vai surgindo e servem tanto de interlocutores como de inspiradores. Talvez seja isso: o centramento no presente! Mas... Todos os diários se centram no presente, ou não?
A verdade é que esta leitora, armada em diarista, não sabe o que é um diário, não sabe por que razão mantém este blogue ( não quererá saber bem...), o que sabe é que gosta de escrever estas entradas e das respostas que lhe vão chegando. Descobriu sobre si que é uma colectora, por isso não entende Jocardo / Peribiblio, com a sua ânsia de apagar!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Para meditar:

O professor de Português e a leitura

Chegou hoje um livro fundamental sobre a leitura e a literatura portuguesa, a ler demoradamente, nos dias quentes que se aguardam. Aqui fica um apontamento para meditação:


"A responsabilidade do professor de Português exige que ele seja um profissional informado (quer dizer, que sabe muito mais do que aquilo que utiliza e mostra no seu trabalho quotidiano de docência) e entusiasmado (quer dizer, desenvolvendo em si próprio e nos seus alunos a capacidade de aprender com alma, com alegria). Por isso mesmo, o professor de Português não pode limitar-se a glosar os manuais e os livros do professor que os acompanham, nem a transmitir aos seus alunos, mas em versão reduzida, conhecimentos adquiridos ao longo do seu processo de formação. Lendo os ensaístas e os críticos como Eduardo Lourenço, e continuando a lê-los ao longo do nosso percurso de professores, tornar-se-á evidente que o saber que da leitura nos vem constitui uma actividade vital. E que ler poesia é estar apto a pensar-nos no mundo, é, em suma, viver melhor - porque, como aprendemos com Eduardo Lourenço, a poesia é a realidade, enigmática e luminescente como a Esfinge ou como a face de um antigo deus."


Paula Morão, "A Poesia como Realidade - Eduardo Lourenço e o Ensino do Português" in O Secreto e o Real: Ensaios sobre Literatura Portuguesa; Lisboa, Campo da Comunicação, 2011, p. 40.

Das leituras escolares obrigatórias

A propósito da ausência de Camilo no currículo escolar  (de Camilo Castelo Branco, entenda-se, que do outro, Camilo Pessanha, quase todos se esquecem), escreveu esta leitora:


 Todos temos crenças sobre as leituras escolares e as consequências das obrigações implicadas. Diz-se que o dever impede a criação de leitores daquele autor clássico lido a contragosto, muitas vezes sob a forma de resumo...
Ora, se esta ideia será visível em certos casos, noutros é exactamente ao contrário. Há quem tenha gostado muito de Herculano, nos seus dezasseis, dezassete anos, e não tenha gostado nada de Cesário, por exemplo, e que, mais tarde, se tenha tornado leitora de ambos, especialmente do último. Na minha perspectiva, o que condiciona indelevelmente o futuro é a ignorância e a insistência nela, em nome do prazer (na sua dimensão lúdica, apenas) ou do útil. Assim, ainda mais chocante que a ausência de Camilo nos programas de Português é a rasura da poesia trovadoresca, de muitos dos clássicos da nossa literatura e a indefinição quanto à poesia do século XX, a que alguns chamaram o século de ouro da poesia portuguesa. E todo este silenciamento para quê? Para se introduzirem os textos utilitários, tais como requerimentos, regulamentos e quejandos?
[...]

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Discussões inúteis ou não


Fala-se, diz-se, ouve-se discutir o fim dos livros, ora com o calor de quem perde uma confortável poltrona antiga, ora com a bonomia de quem se sabe já contemporâneo do futuro. Esta disputa provoca-me sempre algum enfado, não obstante a actualidade e a pertinência do tema; nesses momentos ocorrem-me ecos de encaloradas discussões sobre a qualidade do golo ou do passe do Ronaldo, sobre a frescura da couve ou do repolho, sobre o preenchimento exacto do modelo 31. Palavras soltas, que tão pouco dizem.
Afigura-se-me que o fim do livro não é uma realidade que possa vir a existir. Haverá lugar para o ipad e quejandos, mas também para outras formas de acedermos à palavra, mais corpóreas. Qual será a metamorfose da leitura, não o sei dizer; a minha certeza é apenas esta: a palavra continuará a interpelar-nos, corpo e alma, espírito e matéria, e será, por vezes terá de ser, irrecusável.

sábado, 23 de abril de 2011

Dia Mundial do Livro

Recordaram-me que dia de Páscoa era dia de ofertar. Sendo hoje dia mundial do livro, fiz dois embrulhos: o primeiro recheado com um livro da minha vida, de tão doce memória - O Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro - e com a peça Falar Verdade a Mentir, de Almeida Garrett, esta para que a menina espante colegas; o segundo, para a outra menina, cuja maioridade pede subtilezas, leva O Conde de Abranhos, do grande Eça de Queirós. Vai bem servida a cesta pascal, na expectativa  de que a beleza das histórias e o esplendor da língua adocem os recalcitrantes corações adolescentes.