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sábado, 7 de abril de 2018

Tristeza

Depois dos doces pascais, Luísa Dacosta e o gume afiado das suas palavras, belas, luminosas, incandescentes, cortantes...
Luísa DacostaLuísa Dacosta

«Não quero comprar nada. Preciso do dinheiro.» Para aquilo. Se ao menos lhe tivesse pedido ajuda! Mas não. Sozinha. Abandonada. E se morresse? Tudo aquilo lhe doía como um segundo parto, doloroso, frustrado, inútil. Mas não conseguia chorar. 

[...]

No silêncio dos seus olhos fechados percebeu os passos da mãe a encaminharem-se para ali. Ficou ainda mais quieta, esforçando-se para não pestanejar, resistindo à faixa de luz que inundava o quarto. Depois abriu devagar o canto de um olho. A mãe, de joelhos, tirava de baixo da cama da Adelaide uma bacia de toalhas ensanguentadas. Esquecida de continuar a fingir, olhava aterrada todo aquele sangue, quando a mãe se voltou:
- Que estás a ver?
Virou-se para a parede e abafou os soluços debaixo da roupa. Queria dormir. Queria dormir depressa. E, para espantar o medo e chamar o sono, pôs-se a repetir a conjugação reflexa que a professora marcara para o dia seguinte: «Eu lavo-me, tu lavas-te, ele lava-se, nós lavamo-nos...»

Luísa Dacosta, Vovó Ana, bisavó Filomena e eu, Porto, Figueirinhas, 1983.

domingo, 30 de abril de 2017

"Luísa Dacosta - Espelhos de Palavra: In Memoriam"

Decorreu ontem na Biblioteca 
Municipal da Póvoa do Varzim a apresentação do livro de homenagem a Luísa Dacosta Espelhos de Palavra, org. de Paula Morão. O volume contém seis textos, entre os quais três ensaios que focam três obras (com incursões por outros títulos): A-Ver-O-Mar, Morrer a Ocidente e Planeta desconhecido e romance da que fui antes de mim; constituem três leituras distintas, mas complementares, que evidenciam a representação do Eu na obra desta extraordinária escritora, bem como os seus mitos e espelhos.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Laços de família

Os escritores, de vez em quando, esboçam as suas "árvores bibliográficas", as suas genealogias literárias. Na Visão online (03.12.2015), foi a vez de António Lobo Antunes, em mais uma das suas belíssimas crónicas: 

http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/2015-12-03-E-no-entanto-vendo.

Gosto muito destas indicações, de reconhecer ligações, laços de família entre textos, palavras, autores... Cheguei a iniciar uma lista dos nomes referidos por Luísa Dacosta, procurando seguir as vozes daqueles poetas e prosadores portugueses e o seu eco na maravilhosa obra da escritora.

Aqui fica o princípio desse colar de afetos: Fernão Lopes, Gil Vicente, Sá de Miranda, Luís de Camões, Fernão Mendes Pinto, Diogo do Couto, Samuel Usque, Frei Luís de Sousa, António Ferreira, António José da Silva, António Vieira, Nicolau Tolentino, Bocage, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, António Nobre, Camilo Pessanha, Raúl Brandão. Aquilino Ribeiro, Tomaz de Figueiredo, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Cassiano Ricardo, Irene Lisboa, Vitorino Nemésio, Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Saúl Dias, Renata Pallotini ... (cont)

A propósito da árvore bibliográfica que Pedro Mexia delineou para si, na revista Ler*, também esta leitora quis encontrar a sua:

http://amateriadoslivros.blogspot.pt/2013/01/arvore-bibliografica.html

*Pedro Mexia, "Ler é Maçada: Árvore bibliográfica", Ler, Janeiro de 2013.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

na morte de Luísa Dacosta

Luísa Dacosta (16/02/1927 - 15/02/2015)

Nestes dias, que fazer senão folhear a obra esplendorosa de Luísa Dacosta e ler?

[Sem título]
Desenho de Tiago Manuel
incluído no início de Um Olhar Naufragado: Diário II. 2008

[...] a Língua foi a última mitologia que habitei, descrente já dos mitos que me tinham habitado: o de Tristão e Isolda, o de Narciso, um Narciso que não se procurou na sua própria imagem, mas na do outro, o de Penélope, o de Ceres, e os que tinha criado para «A-Ver-o-Mar» e «Morrer a Ocidente» a partir dos nomes das praias e da sereiazinha da igreja de Rates, o de Amor e Morte, que criei para o prefácio de «Corpo Recusado». A Língua foi, por razões várias, a minha última mitologia, graças a raízes longínquas. [...]

Que maior mitologia do que a Língua?
Corriam-se colinas de ilusão e realidade com ela, capaz de nos permitir jogar ao chinclimpé com o tempo. Tão depressa na eternidade do ser, onde tudo é e nada passa - «Era um pássaro e era uma menina.» - como no desgaste de estar (ex) fora do paraíso, onde o tempo foge e se esgota. Mas ainda (tão amigo!) devagar, devagarinho, onde não se fazia, mas se podia prolongar a acção com a perifrástica e estar-se a fazer ou ir-se fazendo. Depois havia os verbos incoativos, que também travavam o passo ao desgaste do tempo, porque só davam o começo da acção, como um «amanhecer» de esperança. E ainda os frequentativos, os da continuidade, sem fim, como se não estivesse em causa a vida, mas duma torneira mal vedada se tratasse. Podia ainda prolongar-se o tempo do desgaste com aquelas palavras, longas, os advérbios de modo - tão minhamente queridas! - e que tão bem serviram o traço, impressionista, de Cesário: «amareladamente, os cães parecem lobos». Língua com uma concepção agostiniana do tempo, já que o presente era capaz de dar, embora com bracinho, curto, o passado próximo, e o futuro próximo e longínquo, como se o desejo os tornasse presentes na nossa mão. Quando se recuava para o passado, logo com o imperfeito, podia-se não apenas trazê-lo de volta, mas torná-lo presente, enquanto quiséssemos, visto que a acção se suspendia. Ou recuar ainda mais com o mais-que perfeito, que tanto lhe servira, já que se «sonhara», desde sempre. Oh! Língua amada que até o particípio passado, quando regular, não estava morto, mas englobava o tempo, durativo, da acção, já que «emurchecido» era muito mais expressivo do que «murcho»! Língua mítica, mítica, mítica!
Capaz de englobar o tu na respiração do desejo e torná-lo posse do eu na forma mesoclítica do futuro:

(eu) amar-te(tu)-ei(eu)

E esse futuro nem sequer era inalcançável já a Língua admite (e deve ser a única) a conjugação pessoal no infinito, por definição fora do espaço, do tempo e da circunstancialidade. Que haverá de mais mitológico? Do que amar e ser amada, na passagem do estar ao ser. Tristão e Isolda eram, afinal, possíveis! A Língua era a certeza de uma utopia, que a vida lhe tinha negado: uma amor durativo, de sempre e para sempre, liberto do desgaste do tempo e da circunstancialidade. [...]

Luísa Dacosta. Um Olhar Naufragado: Diário II. Alfragide: Asa, 2008.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Penas (tantas)

 
"Sobre as ondas asas. Sobre o meu coração penas."

 
 
Luísa Dacosta, Morrer a Ocidente, Porto, Figueirinhas, 1990.

terça-feira, 23 de abril de 2013

A Pedagogia do deslumbramento, as abelhas e a agricultura


Em tempos de carência, a pequenez dos espíritos evidencia-se, a confiança e a alegria esgarçam-se. Neste contexto, aqueles que não aceitam a derrota tentam recorrer aos exemplos dos mestres que não se vergaram a modas ou ao fácil.

Luísa Dacosta pertence a este escol de professores inspiradores. A escritora defende a “pedagogia do deslumbramento”, que sintetiza assim: “Na minha infância, como não havia televisão, fui criada com histórias da tradição portuguesa. E empenhei-me em passar esse amor da palavra aos alunos, tentar deslumbrar os alunos pela palavra. A minha pedagogia pode não estar na moda, mas foi uma pedagogia do deslumbramento. A mim interessa-me deslumbrar os alunos.”[1] Destas afirmações, destaquemos o sentido dos afectos e do amor às palavras vivido pelo professor, assim avesso a burocracias e a qualquer aplicação de fórmulas autoritárias na sua arte, que não têm outro préstimo senão excluir os alunos, seres humanos, e substituí-los por autómatos. O que este método de ensino pretende é, ao invés, ajudar os jovens a serem livres, capazes de criar, ver e sonhar, de pensar por si. Isto nos ensina a escritora em Na Água do Tempo: Diário[2], nas páginas dedicadas ao seu estágio pedagógico, realizado em 1971/72, quando redacções habituais ainda estavam subordinadas a temas vazios como “Abelhas” e “Agricultura”, servindo a formação de cidadãos obedientes e conformes ao sistema – “Os «sim, senhor professor», «sim, senhor doutor», «sim, senhor inspector», sim… Os futuros adultos que não dão, nem põem, nem tiveram problemas, os que não sabem dizer «NÃO» Irra!”[3]

Às vezes tenho a impressão de que regressámos às abelhas e à agricultura, mesmo que travestidas de novas tecnologias ou de igualmente novíssimos temas ecológicos, sociais, panfletários… Parece que mudam os tempos, mas permanecem os atavismos.


[1] Luísa Dacosta, “Empenhei-me a deslumbrar os alunos pela palavra”, Jornal de Notícias, 25/06/1997 (entrevista de Fernando Basto).

[2] Luísa Dacosta, Na Água do Tempo: Diário, Porto, Asa, 2005, pp. 149-170. A escritora, em nota de rodapé, identifica estas páginas deste modo: “Esta Agenda Escolar «Folhas Soltas» é constituída pelos artigos publicados na Vida Mundial entre 29/10/71 e 12/05/72 e fez parte da minha tese de exame de estado”- p. 149.

[3] Idem, p. 170.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

... continuarei a buscar, a escutar e a esperar...*

 
O Natal começa no início de Dezembro, quando se enfeita a Árvore e se alinda a casa com os ornamentos próprios da época; termina em Janeiro, no dia de Reis, quando as casas amanhecem com corações pintados nas paredes (amanheciam...). Era assim; ainda é um pouco, que as tradições não se vão completamente, ficam sempre restos, sinais de afectos e ligações.
 
Este ano, três contos de natal estiveram sempre presentes, através da leitura ou da reflexão:
 
- Eça de Queirós, "Suave milagre" in Contos (Anagrama);
- Sophia de Mello Breyner Andresen, "Os três reis do Oriente", in Contos Exemplares (Figueirinhas);
- Luísa Dacosta, "Os magos que não chegaram a Belém", in Natal com Aleluia (Asa).


 




O que nos dizem estes textos?
 
O primeiro não nos fala do mistério do nascimento, revela-nos, sim, o deslumbramento da palavra e da obra de Jesus, tão procurado, mas só visto por "aqueles ditosos que o seu desejo escolhia"; neste conto, surpreendentemente, um desses escolhidos é uma frágil criança, acompanhada só de sua mãe, da dor e da esperança.
 
O segundo, segue a tradição dos Reis Magos - Gaspar, Melchior, Baltasar - para nos propor a redenção, a fraternidade e a busca de um deus que a todos proteja, pois todos, a um tempo, somos "humilhados e oprimidos":
 
"- Dizei-me onde está o altar do deus que protege os humilhados e os oprimidos, para que eu o implore e adore.
Ao cabo de um longo silêncio, os sacerdotes responderam:
- Desse deus nada sabemos.
*
Naquela noite, o rei Baltasar, depois de a Lua ter desaparecido atrás das montanhas, subiu ao cimo dos seus terraços e disse:
- Senhor, eu vi. Vi  a carne e o sofrimento, o rosto da humilhação, o olhar da paciência. E como pode aquele que viu estas coisas não te ver? E como poderei suportar o que vi se não te vir?"
 
O terceiro conto liberta os Magos do peso do ouro, das ricas oferendas, do poder e da fama e mostra-nos três homens bons, "magos, sacerdotes que estudavam o céu e os seus astros". Três homens, entre muitos, que não chegaram a Belém e que não figuram no presépio: "Há sempre os que conseguem e os outros. Os que ficam pelo caminho." Estes magos regressaram à sua terra, a fim de protegerem um menino abandonado que encontraram numa escura gruta, escolhendo o difícil caminho da desistência de objectivos traçados, ainda que pelos melhores motivos, os que se enraizam no amor. Todavia, não o fizeram sem protestação:
 
"- Regressar?! E a Luz que vínhamos a seguir? - protestou o mais novo, para quem era doloroso, depois de tantos trabalhos e canseiras, não levar a cabo o que se tinha proposto. - Desistimos assim da Luz que nos guiou até aqui? Desistimos, agora, quando estávamos tão perto?
- Compreendo o que sentes, irmão, também já fui novo... Mas há a criança. Como poderemos abandoná-la?"
 
Boas leituras a fechar o Natal...
 
(* do conto de Sophia supracitado)

domingo, 23 de dezembro de 2012

Feliz Natal!

 
A todos os Leitores d' A Matéria dos Livros desejo um Feliz Natal!
 
 
 
 "Os Magos que não chegaram a Belém", com ilustrações de Maria Mendes
in Luísa Dacosta, Natal com Aleluia

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Testes, textos e os bordados das avós

Numa passagem rápida pelos blogues habituais, lê-se o que no Um jeito manso se escreveu sobre o enxoval e os bordados da mãe e das avós, feitos com carinho e esperança. Práticas de outro tempo, que a leitora também recorda, ainda que o contexto e a "época" fossem diversos, eventualmente (o final dos anos 80 não era propício a estas delicadezas). Hoje tais formas de partilhar os afectos ou de construir o futuro parecem muito distantes. Este facto não impede que a memória dessas vivências passadas seja importante para o crescimento afectivo, pelo que os testemunhos ou os textos literários que as revelam devem ser partilhados. Foi o que a leitora fez há uns anos, no curso nocturno. No teste do Módulo I, sobre os textos autobiográficos, usou um excerto do diário de Luísa Dacosta. Foi muito apreciado.
 
Aqui fica.

"1980

Janeiro, Matosinhos

 Os malmequeres tinham os olhinhos abertos a furador e as pétalas de um cheio alto, minuciosamente, pespontado à volta. As rosas? De um coração de crivo, muito trabalhado, partia um recorte fino e sinuoso, preenchido a barras de cheio baixo que um ponto arrastado sublinhava. Nas folhas de pé cheio e bainhas assimétricas, o bordado era ainda mais requintado: uma trama axadrezada e ziguezagueante de pontos sobrepostos. Malmequeres e rosas formavam duas hastes entrelaçadas, como mãos que quisessem colher um rosto, e rodeavam um L – de Letícia? De Luz? De Luísa? A letra era almofadada e o crivo entalhava-se-lhe no corpo e na volta, que terminava em volutas, texturadas e nosinhos minúsculos. Uma bainha aberta, larga, geometrizada a bastidor, e quase musical, fazia-lhe uma moldura, nos cantos rematada por um florescer de pétalas, como que colhidas em frágil teia de aranha.
Quando aquele bordado passasse para uma gaveta das filhas, sentiriam quanto era cheio de lágrimas represadas, de frustrações e anseios pisados? Talvez invejassem apenas aquele tempo de ritmo lento, não estilhaçado por empregos e transportes, em que havia tempo para bordar. Mas a ela, que tinha tentado preencher uma grande parte da vida, vazia e solitária, com palavras, o bordado tinha-a comovido sempre. Por causa daquele L premonitório? Por toda aquela beleza, quase clandestina, destinada a passar de gaveta em gaveta? Por todo aquele trabalho que tinha enchido dias vazios?
Qual das mulheres da família o teria bordado? Tinha sido uma daquelas mulheres educadas na resignação, disso tinha a certeza. Mas qual? Todas sem força de arrostar sozinhas o julgamento de uma sociedade que as condenaria. Sem a coragem de abandonar os filhos a mãos mercenárias e sem o furor, ciumento, de Medeia para os matar, porque só isso seria capaz de ferir o coração que as abandonava e lhes traía o leito vazio, onde tinham dado à luz, bordavam. Longamente, bordavam a solidão. Com agulhas, minuciosas, que passavam lentas de um para o outro lado do bastidor, e pontos miúdos, rebatidos e afeiçoados com a unha e o dedal, na clausura provinciana de longos dias e longas noites sem aconteceres, bordavam as horas, a ausência, a longa espera, o abandono, a traição, o desespero – o pensamento a oscilar entre o folhetim e o livro de orações. Mudamente, os lábios cerrados, bordavam a solidão com arte branca que mais encegueia o linho fresco do enxoval, onde tinham deixado a chaga rubra da sua virgindade, entregue. Durante horas, dias, noites, tinham feito surgir aquela beleza no linho, que haviam sonhado toalha para o rosto amado, mesa florida de festa e lhes era sudário, em vida. Queridas vovós!"


   Luísa Dacosta, Na Água do Tempo: Diário, Porto, Asa, 2005.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A festa das visitas

 [Hoje foi dia de visitas ternas.]


As águas manselinhas e acarinhadas, anunciam marés de mar e beijinhos. Talvez eu acabe o meu colar.


Luísa Dacosta, Morrer a Ocidente, Porto, Figueirinhas, 1990.


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quinta-feira, 19 de julho de 2012

O esplendor do corpo



José Rodrigues
Desenho incluído no livro
Luísa Dacosta, Corpo Recusado, Porto, Figueirinhas, 1985.


[Ao olhar para este corpo, alguém pensaria em gânglios, quistos e outros que tais?]

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Anjo da guarda


Santo Anjo do Senhor,
meu zeloso guardador,
pois a ti me confiou
a piedade divina
sempre me rege,
guarda, governa e ilumina.


[Palavras antigas]

quarta-feira, 16 de maio de 2012

As mulheres na aldeia (ou na vila, já agora)


Luísa Dacosta - A-Ver-O-Mar : Morrer a Ocidente. Póvoa de Varzim : Câmara Municipal : Edições Asa, 2001.
Notas: Com um ensaio de Maria Alzira Seixo: "Eu fui ao mar às laranjas"
Direcção gráfica de Armando Alves
Desenhos Armando Alves e Jorge Pinheiro
Caixa com 3 livros

As Crónicas de Luísa Dacosta, A-Ver-o-Mar e Morrer a Ocidente, bem como o livro de poemas A Maresia e o Sargaço dos Dias, mostram-nos a comunidade piscatória de A-Ver-o-Mar, no concelho da Póvoa do Varzim, que a narradora visita sazonalmente, ao longo de vários anos, até ao doloroso adeus. Esta mulher, culta e solitária, estabelece laços de amizade com vários habitantes daquele lugar, especialmente com as mulheres, as crianças e os velhos, aos quais dá voz, conforme esclarece numa longa entrevista dada a Isabel Ferreira:

"- Uma das coisas mais gratificantes para mim foi poder dar voz a essas mulheres, que não a teriam tido, se alguém não estivesse disposto a registá-la. Claro que não foram só as vozes das mulheres, há outras vozes importantes, algumas masculinas, como o caso do Serrinha, e até do Gueral, que era um homem mais letrado: tinha Garrett na peniqueira... Foi igualmente gratificante (e talvez por isso pense que não tem importância escrever muitos livros) escrever A-Ver-o-Mar, Morrer a Ocidente e Maresia e o Sargaço dos Dias. Ainda que tivesse só escrito essas três obras, isso bastava. Não quer dizer que bastasse para que ficasse nas letras, mas bastava-me a mim como consolação, por ter sido capaz (não quer dizer que eu tenha conseguido inteiramente) de dar maior vivaciadde, maior veracidade também, à vida daquelas mulheres. E acho que é um conhecimento que não se perde, porque quando se quiser fazer a história das mulheres portuguesas, mesmo ainda no final do século XX, as mulheres de A-Ver-o-Mar têm qualquer coisa a dizer." (Isabel A. Ferreira, Luísa Dacosta: "no sonho a liberdade", 2006)

Ainda a propósito desta relação com aquelas gentes marítimas, a escritora refere, noutro lugar, os "tabus sexuais" impeditivos de prolongadas conversas com os homens, com excepção dos velhos, que, pela sua condição, "ganhavam um estatuto, quase mulheril, fazendo mesmo certos trabalhos, geralmente reservados às mulheres"  (Luísa Dacosta, "Autobiografia: Ego, alter-egos e outras alteridades na minha obra" in Escrever a vida, verdade e ficção - Act 16 -, 2008).

A obra desta escritora e os livros mencionados, em particular, são excelentes do ponto de vista literário e, naturalmente, não tratam apenas de questões de género (como as citações recorrentes neste blogue o evidenciam),  e mesmo estas têm uma representação mais complexa do que este breve apontamento sugere. Todavia, estas leituras são hoje um ponto de partida para uma reflexão sobre os papéis das mulheres nas comunidades rurais e para a recepção que uma forasteira pode ter nesse espaço social. A mulher que visita a aldeia nortenha cria ninho entre as gentes, pese embora a diferença socio-cultural, isto porque o respeito e a estima mútuos são uma constante, não sendo indiferente para esta convivência o reconhecimento e a aceitação das restrições sexuais locais.
Que condicionamentos são estes? Que papéis estão reservados às mulheres? Naquela comunidade, ou noutras marcadas pela ordem patriarcal, comum a toda a sociedade portuguesa, mas muito acentuada nos meios pequenos, mesmo no século XXI, são os mais conhecidos: mãe, esposa, filha, monja, meretriz. Estará esta leitora a olhar preconceituosamente para a realidade? Estará a ler Luísa Dacosta de forma pouco rigorosa, é certo, mas não crê tresler a rusticidade lusa. De facto, basta ler, ver, ouvir, estar atenta, que logo as palavras e as histórias brotam, sem freio. O trabalho feminino é ainda menosprezado, o poder que eventualmente algumas senhoras adquiram tem ainda de se mascarar, a palavra feminil é ainda recebida com escárnio ou condescendência, o comportamento sexual é ainda marcante para o respeito que uma mulher possa ter ou deixar de ter. Talvez, excepcionalmente, a sua presença e a sua voz sejam aceites na ágora; porém, nesse caso, exigem-lhe a evidência da castidade. Se ela for uma forasteira, investida de poder, usufruirá de alguma tolerância: perdoar-lhe-ão a visitação de um seu semelhante, igualmente extra-terrestre, quiçá uma representação do santo espírito, um terráqueo é que nunca, e muito menos se for ave de capoeira local. São regras, são excepções, o código é que é sempre o mesmo. "É a vida.", assim dizia o homem das boas palavras.

domingo, 8 de abril de 2012

Domingo de Páscoa


Hans Holbein, o Novo, Noli Me Tangere (1524)


" - A minha humanidade chegou ao seu termo, Maria. Vai dar a boa-nova a meus discípulos e diz-lhes que subi ao Pai, a meu Deus e vosso Deus. Vai, agora.

Quando se ergueu e levantou os olhos, já  a luz do seu Senhor se tinha dissolvido na luz da manhã, ensolarada, cheia de asas e de trilos. Também no seu coração a amargura se dulcificava e se tornava luz. Sossegou. Não sofria já nenhuma perturbação ou perplexidade. Tinham-se-lhe apagado a angústia, a orfandade, as dúvidas, enxugadas pelas palavras e pela aparição do Senhor. O espírito, livre como o vento, sopra onde quer, e inundava-a. Jesus respondera ao seu apelo mudo e sem voz. A sua palavra cumprira-se nela: «Pedi e ser-vos-á dado, procurai e achareis, batei e abrir-se-vos-á, porque quem pede recebe, quem procura encontra e a quem bate abrir-se-á.» Não mais estaria sozinha."


Luísa Dacosta, "Aleluia na Manhã" in Natal com Aleluia, Porto, Asa, 2002.



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Hoje, na sua crónica semanal no Público, também Frei Bento Domingues escreveu sobre o mistério da Ressureição e sobre o papel que as mulheres desempenharam na vida de Jesus e na Páscoa. Eis o que escreveu sobre Madalena:

"O espantoso capítulo 20 do Evangelho de S. João conta que uma mulher, Madalena, liberta e apaixonada, não largou Jesus nem na vida, nem na morte, nem no túmulo. Continuou a procurá-Lo. Não O encontrou, mas foi encontrada por Aquele que sabia o seu nome. A sua recompensa foram novos trabalhos, uma encomenda directa do Ressuscitado: «Vai a meus irmãos e diz-lhes: 'Subo a meu Pai e vosso Pai, a meu Deus e vosso Deus.'» Maria Madalena foi anunciar aos discípulos: «Vi o Senhor e as coisas que Ele lhe disse.»"

Frei Bento Domingues O.P., "As mulheres na Páscoa", Público, 08/04/2012.


Terminemos estas leituras com os versículos 11 a 18, do capítulo 20, do Evangelho de S. João :

"Aparição a Maria de Magdala

Entretanto, Maria estava junto ao sepulcro da parte de fora, a chorar. Enquanto chorava, debruçou-se para dentro do sepulcro e viu dois anjos vestidos de branco, sentados, um à cabeceira e outro aos pés, onde jazera o corpo de Jesus. Disseram-lhe eles: «Mulher, porque choras?» «Porque levaram o meu Senhor, respondeu, e não sei onde O puseram». Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus de pé, mas não sabia que era Jesus. Disse-lhe Ele: «Mulher, porque choras? A quem procuras?» Pensando que era o hortelão, ela disse-lhe: «Senhor, se tu O levaste, diz-me onde O puseste e eu irei buscá-Lo». Disse-lhe Jesus: «Maria»! Ela, voltando-se, disse-Lhe: «Rabboni»! - que quer dizer «Mestre». Jesus disse-lhe: «Não me detenhas, porque ainda não subi para Meu Pai; mas vai ter com os meus irmãos e diz-lhes que vou subir para Meu Pai e vosso Pai, Meu Deus e vosso Deus». Maria de Magdala foi dar a nova aos discípulos: «Vi o Senhor»! contando o que ele lhe dissera."


Bíblia Sagrada, Lisboa, Difusora Bíblica, 1981.

sábado, 7 de abril de 2012

Espera (com Madalena)


Leonardo DaVinci, Estudo para Cabeça de Madalena
Desenho 428 E., Galeria Uffizzi, Florença


À Madanela

À vossa verdadeira penitente
quam bem guardastes seus pontos devidos;
os Apóstolos eram já partidos,
ela não parte, vêde o que ali sente;

E assi mereceu ver primeiramente
Deus em terra em hábitos fingidos;
tudo Amor vence: altíssimos sentidos,
a quem tal ortelão se faz presente!

Gregório a põe por ua, outros Doutores
fazem as três; após Gregório vão
depois os mais, com todos os pintores.

Aqueles direu eu, Senhor, que são -
aqueles (outra vez!) que são Amores:
dos tais suspiros, um só nunca em vão!


Sá de Miranda

 in Helena Barbas, Madalena, História e Mito, Lisboa, Ésquilo, 2008.



Jorge Pinheiro, ilustração
 para o conto "Aleluia na Manhã", de Luísa Dacosta


...
Os Apóstolos eram já partidos,
ela não parte, vêde o que ali sente.*


"Pedro e João já tinham partido. E com eles Maria, mãe de Tiago, e Salomé. Só ela ficara e não podia desarredar-se daquele lugar de ausência e vazio, donde o Senhor fora arrebatado. Preparara bálsamos e perfumes, mas não mais lhe seria permitido venerar aquele corpo torturado, tocar aquelas mãos que lhe tinham dado a benção do perdão, rever, apagados, aqueles olhos de meiguice que dela tinham expulsado os sete demónios que lhe consumiam a carne e lhe tinham dados outras sedes mais profundas e mais exigentes que as do desejo. Sentia-se abandonada, órfã. Uma amargura vestia-a inteira. [...]"


Luísa Dacosta, "Aleluia na Manhã" in Natal com Aleluia, Porto, Asa, 2002.
(*Epígrafe do conto citado)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Uma faquinha amarela


Uma quarta de sabão
pra lavar o coração.
Uma faquinha amarela
para cortar a goela.


[Quadra popular citada por Luísa Dacosta, em O Planeta desconhecido e romance da que fui antes de mim, Lisboa, Quimera, 2000.]

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Infidelidades e Compensações

Corpo Recusado, de Luísa Dacosta é um livro belíssimo e terrível. Conta uma história de amor e morte, sob a égide de Tistão e Isolda. Não haverá demoras na descrição desta obra, apenas se dirá que a perpectiva é a de um sujeito feminino, que se olha num espelho múltiplo, cuja superfície reflecte rostos de muitas mulheres. Aqui se apresentam dois excertos do conto "Infidelidades, pulseiras e agências de viagens", que deixam perceber duas formas de "integrar" a traição de "maridos respeitáveis":




"__ ... Compreende-se, depois de todo aquele escândalo, a pobre senhora precisava de se refazer... nada mais justo. Sofreu muito, sim porque tudo transpira e se sabe, são coisas que custam muito a uma mulher séria e então para a compensar, para a ajudar ao perdão, o querido amigo teve este gesto... Soube com certeza que ele já de outra vez, e tinha sido uma aventurazinha sem importância, a levou a Fátima. Mas agora o casamento esteve por um triz e todo o bicho careta vai a Fátima, impunha-se o estrangeiro. Nada mais justo, nada mais justo. Uma bela viagem com estadia em Londres e Paris... Enfim, umas segundas núpcias! Entendo que o querido amigo fez o que devia, tanto mais que é uma reparação que lhe sai em conta. Ah! Não sabia que ele tem facilidades numa agência de viagens?! Pois tem, pois tem, nem de outra maneira podia ser, mas isso não importa, o que importa é o gesto, não acha?" (p. 74)

"[...] No fim da vida, gorda e flácida, era uma montra recheada de pérolas, brilhantes, safirazinhas, rubis, esmeraldas. Não, topázios, não, pois era supersticiosa e davam azar, conforme lhe assegurava a mulher de virtude que a dirigia. As infidelidades do marido encastoadas em ouro de lei ou platina, adornavam-lhe a papada, cobriam-lhe o peito farto e imponente, cingiam-lhe (o doce aperto!) os braços roliços e os dedos papudos. D. Quinhas exibia-as com brio, como medalhas ganhas em combate. Que desforra sair-lhe mais cara do que as amantes!" (p. 75).


Luísa Dacosta, Corpo Recusado, Porto, Figueirinhas, 1984.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Da necessidade da beleza e de uma nova imaginação

Bastam os títulos, para a náusea se instalar. São assim as folhas que nos trazem as notícias e as reflexões sobre o dia-a-dia. Precisamos de outra Europa, de outra ordem mundial e de novas formas de pensar e dizer. Precisamos de uma imaginação nova, de palavras novas, de palavras-antídoto. Como  estas de Luísa Dacosta, retiradas de um livro dito para a infância:


- Não sei... Só sei que invejo a tua sorte, estrelinha! – suspirou a menina. – Daqui vês a Terra apertada no anel, movente, das águas. Não há nada mais belo, nem mais vasto que o mar!
- Como te enganas! Estou aqui há milhares de anos e posso dizer-te que mais vasto que o oceano é o sofrimento dos homens...
- Como pode isso ser?! – perguntou, afligida, a menina.
- O egoísmo tornou-os tão alheios e isolados que um rosto se tornou uma parede para outro rosto. [...] Aqui, não me chegam os perfumes da Terra, nem a mutação, colorida das estações. Daqui, o teu planeta é habitado por gritos e banhado por um oceano de lágrimas...
- Com toda a beleza da Terra?!
- Com toda a beleza da Terra – confirmou a estrela. – A beleza é igualada pelo sofrimento e é ele que a torna tão necessária, frágil e preciosa.
- Porquê?! Porquê?! Explica-me, estrelinha, para ver se entendo!
- Os homens deixaram-se dominar pelas máquinas que inventaram. Tornaram-se peixes e pássaros monstruosos, criaram astros artificiais. Mas não aprenderam a viver, lado a lado. E o oceano das lágrimas cresce sem cessar.
- É terrível o que me dizes. Já chorei algumas vezes – confessou a menina – mas, agora é como habitar uma lágrima. Como poderão os homens reencontrar o caminho da felicidade?
- Quem me dera sabê-lo!... Talvez precisem de uma nova imaginação, uma imaginação que não seja mecânica como a que os tornou poderosos, mas lhes secou o coração, entendes?

Luísa Dacosta, A Menina Coração de Pássaro, Porto, Asa, 2002.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Linhagem

Lista de leituras para o tempo e os dias que virão:

Fernão Lopes
Gil Vicente
Sá de Miranda
Luís de Camões
Fernão Mendes Pinto
Diogo do Couto
Samuel Usque
Frei Luís de Sousa
António Ferreira
António José da Silva
António Vieira
Nicolau Tolentino
Bocage
Almeida Garrett
Camilo Castelo Branco
Eça de Queirós
António Nobre
Camilo Pessanha
Raúl Brandão
Aquilino Ribeiro
Tomaz de Figueiredo
Mário de Sá-Carneiro
Fernando Pessoa
Cassiano Ricardo
Irene Lisboa
Vitorino Nemésio
Sophia de Mello Breyner Andresen
Jorge de Sena
Saúl Dias
Renata Pallotini

Romanceiro tradicional

... e ainda mais. Caminho da felicidade.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A beleza nunca acaba

Continua a leitura de Luísa Dacosta. A beleza percorre estas páginas incandescentes. Nunca acaba. Todas as páginas são a ler e reler, sendo os Prefácios dos seus livros especialmente belos. Eis um exemplo:


(capa da 1ª edição, com um pormenor de um pastel de Maria Mendes)


"[...] O perfume dos lilases, atingido aquele limiar de dor, que não sabemos mais se é física se é mental, apunhalava-a na tarde, naquela casa, outra. Não já a de outrora, onde se mirara no espelho das aparências. Arrogante, segura, vestida apenas da nudez da sua grácil adolescência, sem precisar de asas-braços para cantar a vida. O espelho devolvia-lhe, então, o seu corpo-lira, as suas formas de fruto enxuto, onda e concha, libertas na luz nocturna, que envolvia a sua carne de lua, amassada com azeitona. Um corpo de hastes e ramagens, fonte e braço de água. Margem de seda - longuilínea e breve - tão apetecida! Como era simples o alfabeto do corpo e que fácil amá-lo: as formas, a textura, o odor secreto, o sabor salino e canela, o rumor latejante! Os cabelos, movimento na aragem da tarde ou algas de suor, nos ombros da noite. Mas como tocar e sentir, sob a mão, os soluços de sombra e a fragilidade nua e informe do ser? Tão fácil acalmar as sedes do corpo e tão difíceis as outras! O seu fogo estava para além do seu ventre, cavado, capaz de floração, as suas nascentes muito para lá das fissuras, labiais, do corpo. Havia nela sombras mais densas do que as do púbis ou mesmo que as do sol negro dos seus cabelos. Claridades mais luminosas do que a água batida pela luz. O rio das suas pernas era um curso limitado, mas a sua alma tinha caudais de sede, mais ansiedade e inquietação do que as do simples desejo. Coisas sem nome, que apelavam ao caldeamento e à fusão, mais ao êxtase do que ao orgasmo. O que era o amanhecer, lunar, das colinas do seio, comparado às profundidades, nocturnas, do que estava para além dos sentidos: as dormências do que não sabemos pelo olhar e pela metáfora e são tumultuar obscuro? E depois, como decidir, era a sede dela que ele bebia, ou a sua própria sede que acalmava e procurava estancar? O «outro» existe realmente ou somos ainda nós? [...]"


Luísa Dacosta, Na Água do Tempo: Diário, Porto, Asa, 2005 (1ª edição: Lisboa, Quimera, 1992).