Mostrar mensagens com a etiqueta Luminosidades. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Luminosidades. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Prémio "Best Blog"


Para grande surpresa de quem escreve, foi este blogue distinguido com o Prémio "Best Blog"! Ouvem-se ecos da infância, dos jogos "passa a outro e não ao mesmo" (que agora degeneraram em "correntes"); regressemos, então, ao tempo antigo e, ao som dos risos infantis, continuemos a brincadeira, passando a outro a alegria recebida, sem esquecer as três regras, mas com uns desviozinhos.


Regra nº 1
Revelar quem me atribuiu o Prémio


O Prémio foi atribuído pela Autora do blogue Um jeito manso. É autora de quatro blogues: Um jeito manso, Ginjal e Lisboa, a love affair, Street Photo & Co. e Historinhas da Tá. Como se pode ver, desde logo pelo número, é uma mulher multifacetada e cheia de energia; é um prazer enorme ler o que escreve, pela inteligência, pela sensibilidade, pela viveza e pela "boa onda"! Por outro lado, é a leitora mais expressiva deste "A Matéria dos Livros" e constituiu um encontro inesperado na blogosfera, muito gratificante. Muito obrigada, pelo prémio, pelas leituras, pelo que oferece!


Regra nº 2
Compartilhar sete factos pessoais


Aqui a dificuldade!  Quem sou eu? - a pergunta mais custosa desde os tempos antigos. O que escolher? Como escolher? Como apresentar? Qual o melhor espelho e qual a pose certa?
Experimentar:
- Sapatos? Também, apesar de não se equilibrar nos de salto alto; não pode ser.
- Sentido de orientação? É-lhe igualmente estranho: perdeu-se entre o Rossio e a Praça da Figueira, quando foi estudar para "Lisboa, a bela"; perdeu-se ainda em Campo de Ourique, quando iniciou a sua actividade profissional; vive com medo de se perder, pois não percebe de mapas nem tem GPS... 

Para responder ao desafio com confiança, decidiu consultar o oráculo e a Sibila, no seu habitat natural, na distante Grécia (a imagem que lhe devolve aqui ao lado é bonita...):

Oráculo de Delfos

Eis os factos encontrados:

- Inspirada nos melhores modelos, procura a pose certa para:

1- Vasculhar os saldos, em busca das melhores peças;
2- Cair, aqui tanto aprende com o poema, como com a vida, florescente;
3- Fazer as compras do lar e assim;
4- Parecer uma dama gentil, que permite que outros a auxiliem, que sejam bons;
5- Descansar enquanto aguarda transporte, público;
6- Estar em lugares de convívio; na verdade, dá-lhe grande prazer conversar à mesa, de um restaurante, de uma esplana, de "um café devasso".
7- Enfim, o que lhe ocupa a maior parte do tempo é a leitura, a literatura, a poesia, ofício e vício; prazer antigo, pois já antes de saber ler gostava de ouvir as histórias, rimas e lengalengas que as mulheres da família lhe contavam, com destaque para a Mãe e a Avó. Queridas!

Considerando aquelas orientações para escrita de blogues (a importância da imagem e afins, etc.), ficam os factos ilustrados e desenvolvidos no vídeo e na fotografia abaixo:





(O toque pessoal...)


Regra nº 3
Atribuir o Prémio "Best Blog" a outros Autores


Aqui, o maior desvio à regra, por dois motivos: não conhece assim tantos blogues, ou bloggers, a quem passar a brincadeira; não levem a mal, não leve a mal, Margarida, mas o monocromático rosa cansa-a um bocadinho, gosta de cores, é um facto. Assim, escolheu três blogues muito interessantes e muito diferentes; os Autores, queridos amigos, uns, outros que o poderiam ser, estimados todos. (Pretende fazer-lhes uma pequena homenagem, se não acharem graça, que lhe perdoem!)

Ei-los, por ordem alfabética:




terça-feira, 16 de agosto de 2011

A cada um a sua





A Minha Amante

"....................... a dor
só lhe perco o som e a cor
em orgias de morfina!"

Dizem que eu tenho amores contigo!
Deixa-os dizer!...
Eles sabem lá o que há de sublime,
nos meus sonhos de prazer...

De madrugada, logo ao despertar,
há quem me tenha ouvido gritar
pelo teu nome...

Dizem - e eu não protesto -
que seja qual for
o meu aspecto
tu estás
na minha fisionomia
e no meu gesto!

Dizem que eu me embriago toda em cores
para te esquecer...
E que de noite pelos corredores
quando vou passando para te ir buscar,
levo risos de louca, no olhar!

Não entendem dos meus amores contigo -
não entendem deste luar de beijos...
- Há quem lhe chame tara perversa,
dum ser destrambelhado e sensual!
Chamam-te o génio do mal -
o meu castigo...
E eu em sombras alheio-me dispersa...

E ninguém sabe que é de ti que eu vivo...
Que és tu que doiras ainda,
o meu castelo em ruína...
Que fazes da hora má, a hora linda
dos meus sonhos voluptuosos -
Não faltes aos meus apelos dolorosos...
- Adormenta esta dor que me domina!

Junho - Poente
1922

Judith Teixeira, Poemas: Decadência, Castelo de Sombras, NVA, Conferência DE MIM, Lisboa, & etc, 1996.


terça-feira, 9 de agosto de 2011

Três poemas de amor para Lisboa


CANTIGA DE AMIGO

JOAN ZORRO


   En Lixboa, sobre lo mar
barcas novas mandei lavrar,
   Ai mia senhor velida!

   En Lixboa, sobre lo ler,
barcas novas mandei fazer,
   ai mia senhor velida!

   [B]arcas novas mandei lavrar
e no mar as mandei deitar,
   ai mia senhor velida!

   [B]arcas novas madei fazer
e no mar as mandei meter,
   ai mia senhor velida!




LISBOA

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver




POENTES DE LISBOA

MANUEL ALEGRE


Os poentes de Lisboa sabem a
Ocidente
há neles um barco antigo a partir para
o reino ausente.

Os poentes de Lisboa trazem um
sentimento de grande nostalgia
há neles alguém que vem de mar nenhum
carregado de Tejo e de melancolia.

Os poentes de Lisboa são quer se
queira quer não
uma canção partindo-se partindo-se.

Os poentes de Lisboa intensamente
são
o Ocidente.




Mário Cláudio, Nas Nossas Ruas, Ao Anoitecer: Antologia de Poesia sobre Lisboa com um pormenor de uma pintura de Carlos Botelho, Porto, Edições Asa, 2002.

sábado, 6 de agosto de 2011

Leitora-Colectora / O encanto das ruínas

"Colector /ô/ adj.s.m. (1375 cf. IVPM) 1 que ou aquele que colecta, que reúne. que faz compilação [...]  ETIM lat. collector, oris, do rad. de collectum, supn. de colligere 'reunir, juntar, apanhar" - Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (Círculo de Leitores: 2007)

No blogue de Ana Vidigal, aqui ao lado, recolheu a leitora o vídeo que abaixo apresenta. O blogue e a obra da artista constiuem um lugar a visitar regularmente. Descoberta tardia, só aquando da exposição na Gulbenkian, o conjunto da obra foi uma espaço de acolhimento para Ela. Um dia gostaria de ler e escrever sobre a colcha feita de cartas, sobre as colagens, sobre a reunião de tantos objectos e fragmentos tão significativos e inquietantes, pela banalidade de que parecem provir e antes pelo contrário... O reconhecimento e a estranheza. O impacto foi grande e continua a ser. 




O Encanto das Ruínas

Acompanhar a câmara através desta casa em ruínas é um passeio belíssimo! As paredes, com restos de tinta e de estuque, os azulejos, o ausente telhado, vestígios de uma vida, as pedras. O que não é, mas existe no movimento do olhar, que adivinha o possível e corre com a erva, plantada a esmo pelo tempo. Quartos esventrados, corredores ao abandono, salas de estar ocupadas pelo sol. Portas, arcadas, escadas para nenhures. Apetece mesmo correr para a praia aqui ao lado e voltar para casa!



sábado, 23 de julho de 2011

Norte/Sul

Não se pode ligar a televisão, não se pode abrir um jornal, que a oposição norte/sul aí aparece, desbragada, acintosa, a destilar xenofobias, preconceitos culturais e cromáticos q.b. Não se suporta. Auscultando memórias, folheando livros amados, a leitora procura outros olhares sobre o diverso. O livro eleito intitula-se As Magias, de Herberto Helder, mas o seu paradeiro é incerto. Apesar disso, foi possível recuperar o poema desejado, que aqui se apresenta, com o intuito de lembrar outras possibilidades da diferença entre o Norte e o Sul.


- Figos -

(D. H. Lawrence)

A maneira correcta de comer um figo à mesa
É parti-lo em quatro, pegando no pendúculo,
E abri-lo para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida, desabrochada em quatro espessas pétalas.

Depois põe-se de lado a casca
Que é como um cálice quadrissépalo,
E colhe-se a flor com os lábios.

Mas a maneira vulgar
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo sá aspirar toda a carne.

Cada fruta tem o seu segredo.

O figo é uma fruta muito secreta.
Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:
Parece masculino.
Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é uma fruta feminina.

Os italianos apelidam de figo os orgãos sexuais da fêmea:
A fenda,  o yoni,
Magnífica via húmida que conduz ao centro.
Enredada,
Inflectida,
Florescendo toda para dentro com suas fibras matriciais;
Com um orifício apenas.

O figo, a ferradura, a flor da abóbora.
Símbolos.

Era uma flor que brotava para dentro, para a matriz;
Agora é uma fruta, a matriz madura.

Foi sempre um segredo.
E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para sempre secreta.

Nunca foi evidente, expandida num galho
Como outras flores, numa revelação de pétalas;
Rosa-prateado das flores do pessegueiro, verde vidraria veneziana das flores da nespereira e da sorveira,
Taças de vinho pouco profundas em curtos caules húmidos,
Clara promessa do paraíso:
Ao espinheiro florido! À Revelação!
A corajosa, a aventurosa rosácea.

Dobrado sobre si mesmo, indizível segredo,
A seiva leitosa que coalha o leite quando se faz a ricotta,*
Seiva tão estranhamente impregnando os dedos que afugenta as próprias cabras;
Dobrado sobre si mesmo, velado como uma mulher muçulmana,
A nudez oculta, a floração para sempre invisível,
Apenas uma estreita via de acesso, cortinas corridas diante da luz;
Figo, fruta do mistério feminino, escondida e íntima,
Fruta do mediterrâneo com tua nudez coberta,
Onde tudo se passa no invisível, floração e fecundação, e maturação
Na intimidade mais profunda, que nenhuns olhos conseguem devassar
Antes que tudo acabe, e demasiado madura te abras entregando a alma.

Até que a gota da maturidade exsude,
E o ano chegue ao fim.

O figo guardou muito tempo o seu segredo.
Então abre-se e vê-se o escarlate através da fenda.
E o figo está completo, fechou-se o ano.

Assim morre o figo, revelando o carmesim através da fenda púrpura
Como uma  ferida, a exposição do segredo à luz do dia.
Como uma prostituta, a fruta aberta mostra o segredo.

Assim também morrem as mulheres.

Demasiado maduro, esgotou-se o ano,
O ano das nossas mulheres.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.
Foi desvendado o segredo.
E em breve tudo estará podre.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.

Quando no seu espírito Eva soube que estava nua
Coseu folhas de figueira para si e para o homem.
Sempre estivera nua,
Mas nunca se importara com isso antes da maçã da ciência.

Soube-o no seu espírito, e coseu folhas de figueira.
E desde então as mulheres não pararam de coser.
Agora bordam, não para esconder, mas para adornar o figo aberto.
Têm agora mais que nunca a sua nudez no espírito,
E não hão-de nunca deixar que o esqueçamos.

Agora, o segredo
Tornou-se uma afirmação através dos lábios húmidos e escarlates
Que riem perante a indignação do Senhor.

Pois quê, bom Deus! gritam as mulheres.
Muito tempo guardámos o nosso segredo.
Somos um figo maduro.
Deixa-nos abrir em afirmação.

Elas esquecem que os figos maduros não se ocultam.
Os figos maduros não se ocultam.

Figos branco-mel do Norte, negros figos de entranhas ecarlates do Sul.
Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.
Que fazer então quando todas as mulheres do mundo se abrirem na sua afirmação?
Quando os figos abertos se não ocultarem?

*Requeijão.

Herberto Helder, "As Magias", in Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Para meditar:

O professor de Português e a leitura

Chegou hoje um livro fundamental sobre a leitura e a literatura portuguesa, a ler demoradamente, nos dias quentes que se aguardam. Aqui fica um apontamento para meditação:


"A responsabilidade do professor de Português exige que ele seja um profissional informado (quer dizer, que sabe muito mais do que aquilo que utiliza e mostra no seu trabalho quotidiano de docência) e entusiasmado (quer dizer, desenvolvendo em si próprio e nos seus alunos a capacidade de aprender com alma, com alegria). Por isso mesmo, o professor de Português não pode limitar-se a glosar os manuais e os livros do professor que os acompanham, nem a transmitir aos seus alunos, mas em versão reduzida, conhecimentos adquiridos ao longo do seu processo de formação. Lendo os ensaístas e os críticos como Eduardo Lourenço, e continuando a lê-los ao longo do nosso percurso de professores, tornar-se-á evidente que o saber que da leitura nos vem constitui uma actividade vital. E que ler poesia é estar apto a pensar-nos no mundo, é, em suma, viver melhor - porque, como aprendemos com Eduardo Lourenço, a poesia é a realidade, enigmática e luminescente como a Esfinge ou como a face de um antigo deus."


Paula Morão, "A Poesia como Realidade - Eduardo Lourenço e o Ensino do Português" in O Secreto e o Real: Ensaios sobre Literatura Portuguesa; Lisboa, Campo da Comunicação, 2011, p. 40.

domingo, 26 de junho de 2011

Fúlgidas tentações



Ela não resiste, e dá uma trincadela na redonda lua. Tudo porque lhe chegou um livro dionisíaco, lunar, maldito, editado por uma casa também propícia a adjectivos - Judith Teixeira, Poemas, & etc.

Poetisa respeitável, foi no seu tempo, e nas décadas seguintes, vilipendiada, rasurada das antologias e afastada de qualquer lugar público. Nasceu em Viseu, em 1880, morreu em Lisboa, em 1959. Só, diz-se. Escreveu três livros de poemas (Decadência - 1923, Castelo de Sombras - 1923, Nua: Poemas de Bizâncio - 1926) e um de novelas (Satânia - 1927); é dela a conferência De Mim (1926); em 1925 funda e dirige Europa, luxuosa revista de arte.

Sobre a sua escrita, pronunciou-se Maria Lúcia Dal Farra:
 "Seus poemas contêm um fundo decadentista com décor próprio de sedas, coxins, flores, tapeçarias, quadros, espelhos, fausto oriental, estofos, painéis, mármores, vitrais, enfim, um espaço de alcova, de intimidade, de fechamento, de calidez artificial, de fuga à luz e à natureza. Imperam nesse espaço rarefeito fantasias eróticas, tédio, narcisismos, máscaras, sentimentos bizarros e uma população excêntrica de ciganas, anões, estátuas, sultões, génios do mal, perversões, desejos confusos, taras, labirintos, sonhos - em fragmentos e dispersões. Filtra essa esquisita atmosfera a imagem do outro, apontando para uma dubiedade de género e para a sensação de emparedamento, próxima de Mário de Sá-Carneiro (a quem ela tanto admira)."
"[...] Judith Teixeira, o único nome feminino a integrar a vanguarda portuguesa - responde pela maldição de ter-se inscrito literariamente como mulher num ingrato tempo de marcada transição política, literária e moral."

in Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português (coord. Fernando Cabral Martins) Lisboa, Caminho, 2008.


Leiamos, então, três poemas da intrigante mulher vanguardista, dois poemas com o sol no horizonte, outro centrado na noite:


Minha Vida!

Tu estás doente meu amor, porquê?
Falta-te o sol, a luz, o meu sabor?
Ou queres tu, que ainda eu te dê,
nos meus braços, mais ânsia, mais calor?

Se és tu o sol, a graça, essa mercê
divina que Deus trouxe à minha dor,
exige tudo, a minha vida e crê
que ta darei com alegria, amor!

Se perdes a alegria, a minha vida,
perco-me eu a procurar a causa:
minha alegria é também perdida!

Beijemo-nos, meu bem, ardentemente...
que venha a morte numa doce pausa
e que nos leve se não és contente!

Manhã de Outono nublada e fria
1925


Rosas Pálidas

Ó anémicas! Ó pálidas!
ausentou-se o sangue
das vossas veias delicadas...
Ó sombras vagas
duma vida exangue!
Ó virgens aladas!...

Nunca pôde encantar-me essa candura
da vossa serena brancura.
E jamais eu tive
um amplexo de amor
em que no meu peito
se esmagasse
a vossa carne de chorosa Madalena
sem gritos e sem cor...

Ó flébeis, doentias!
- O meu olhar procura a ardência
forte e colorida
das vossas irmãs
rubras e sadias!...
A vida é beijada pelo sol
e ungida pela dor!

Deixai que o sol fecunde o vosso seio...
e que o vento vos beije
em convulsões brutais,
em convulsões pagãs!
A luxúria, ó pálidas irmãs,
é a maior força da vida!
Sensualisai pois! a vossa carne
arrefecida...
Ó brancas, imaculadas!
Ó virgens inúteis
e decepadas...

Agosto - Sol. Meio-dia
1925


A Minha Colcha Encarnada


Perfumes estonteantes,
atiram-me embriagada
sobre os cetins roçagantes
da minha colcha encarnada!

Em espasmos delirantes,
numa posse insaciada -
rasgo as sedas provocantes
em que me sinto enrolada!

Tomo o cetim às mãos-cheias...
Sinto latejar as veias
na minha carne abrasada!

Torcem-me o corpo desejos...
mordendo o cetim com beijos
numa ânsia desgrenhada!

Noite de Dezembro - Horas de Febre
1922

Judith Teixeira, Poemas: Decadência, Castelo de Sombras, NVA, Conferência DE MIM, Lisboa, & etc, 1996. 

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Prazeres contemplativos

Aos Meninos e Meninas de outrora, e de sempre


Foi este blogue acusado de excesso de peso. Como quem escreve procura a harmonia, a elegância suave, o reparo não lhe foi indiferente. Assim, desvia, por momentos, o olhar da doce lua, para contemplar o sol - recorda este poema de João Miguel Fernandes Jorge, há muitos anos lido em conjunto com queridos Meninos e Meninas: 


SUNBAKER

Nadara longas braçadas e o mar estava
revolto. Veio, sobre a areia,
até onde esta se tornava o domínio do sol.

Deixou-se cair de bruços, lentamente
deixou os membros a maior amplidão.
Respirava. Os cabelos negros

eram uma fina película brilhante e as
gotas de água do mar corriam p'las
espáduas e ombros, p'los graves músculos

dos braços. A cabeça poisava-a sobre
uma das mãos e entrava no invisível
escuro do rosto.

A outra mão descansava à frente, recebia
plena luz as horas nascentes que
prudentemente componho para uma viva,

nova amizade.
E que queres tu? Que vais querer ó novo
amigo, irmão da minha alma futura?

João Miguel Fernandes Jorge, Um Nome Distante, Lisboa, Contexto, 1984.