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sábado, 16 de setembro de 2017

Mário de Sá-Carneiro

Algures na net...
Fim
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!


Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Ática, 1989.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Outono e melancolia II












"A peça", explicou [Edward Albee, a propósito da sua peça Equilíbrio invisível] , "trata (...) da rigidez e da paralisia que aflige aqueles que (...) um dia acordam e descobrem que todas as escolhas que evitaram já não lhes dão liberdade de escolha e que as escolhas que ainda estão disponíveis são irrelevantes."

Edward Albee citado por Pedro Mexia na sua crónica do Expresso desta semana - "Fraco consolo: o tempo acontece", E - a revista do Expresso, 3/12/2016.




quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Trabalho colaborativo













Este é o conceito do momento. Mas como pode o dito passar à prática quando as sensibilidades se ressentem se uma vírgula se altera sem consentimento prévio, solicitado e dado através de meios indiretos, metáforas e outras cornucópias estilísticas? Tomamos chá ou seguimos em frente? A vida está lá fora à minha espera. Tardo.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Fugas

Aos amigos doentes

SAÚL DIAS

A alegria do poeta doente

O Poeta doente
escreve versos na enfermaria.

Mesmo na dor
a sua alma é contente
se uma rima fugace 
poalha de harmonia
um verso recortado...

(O que diria
quem o encontrasse
agora
a rir perdidamente?!...)

Perdido no oriente!...

tanta, tanta alegria!...


MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA

Carreirismo

Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua. 
Voltou passados vinte e dois anos, com chofér fardado.
Era Director Geral das Polícias. Seu pai teve o enfarte.


LUÍS MIGUEL NAVA

Teatro

Na selva dos meus órgãos, sobre a qual foi desde sempre a pele o firmamento, ao coração coube o papel de rei da criação.
Ignoro de que peça é todo este meu corpo a encenação perversa, onde se vê o sangue a rebentar contra os rochedos.
Do inferno, aonde às vezes o sol vai buscar as chamas, sobre ele impiedosamente jorram os projectores.

Clara Crabbé Rocha (org), A caneta que escreve e a que prescreve: doença e medicina na literatura portuguesa - Antologia, Lisboa, Verbo, 2011.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Lamentação

O rei deitou-se e não tornará a erguer-se,
O senhor de Kullab não tornará a erguer-se;
Ele dominou o mal, não regressará;
Era forte de braço, mas não tornará a erguer-se;
Ele tinha sabedoria e atraente rosto, e não regressará;
Foi até à montanha, e não regressará;
No leito do destino está deitado, e não tornará a erguer-se,
Da cama de muitas cores não regressará.


Gilgamesh. Lisboa: Vega, 2007.
Versão de Pedro Tamen.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sexta-feira Santa

Niccollò dell' Arca. Pranto sobre Cristo Morto [pormenor]
(1463-1490)
DAQUI

Epitáfio

Querida vida,
pobre pó.
Tão pó a pó.
Após, a pó.

Luiza Neto Jorge. A Lume. Lisboa: Assírio e Alvim, 1989.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Máquina voadora


Odilon Redon (1840-1916)
L'Oeil, comme un ballon bizarre se dirige vers l'infini
(Daqui)

[Só a mim ninguém me leva... Tantas banalidades, e o Verão longe, longe.]



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Má raça

Tiro os brincos, dispo as vestes pudicas e burras, fico com as botas altas. E leio livros negros.




escrevo-te em vidro
por assim achar que
desenho
o cálculo efémero das possíveis transparências mas
o pé descalço sobre a linha sofre
as cócegas das hastes cegas da
palavra
correndo destinos que desaguam no
soalho atapetado pelos jornais
do dia pudico e burro


João Paulo Cotrim (poemas) e Alex Gozblau (ilustrações, design e logótipo convidado), má raça: 22 canções, Lisboa, Abysmo, 2012.

Na fotografia vê-se parte da capa do livro: João Paulo Cotrim e António Cabrita, O branco das sombras chinesas: divertimento, Lisboa, Abysmo, 2011 (ilustracões de João Fazenda).


quinta-feira, 11 de abril de 2013

Tristitia


Sou o silêncio que ficou
uma cidade igual às outras
onde os gritos se esvaem
 e a tua morte se tornou minha.

Em tuas asas
quebradas
tudo se desintegra
menos a memória.

Ana Marques Gastão, Terra sem Mãe, Lisboa, Gótica, 2001.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Imagem

...

Palavras de negação, mas não de cobardia.
Nos seus olhos a aceitação triste;
dentro da casa, um corpo caído,
exangue.

quarta-feira, 20 de março de 2013

domingo, 10 de fevereiro de 2013

"Chegaste depressa ao outono"*


John William Waterhouse, Vanity


A secretária também pode servir de suporte ao espelho. Lia tranquilamente João Luís Barreto Guimarães, até ser interpelada por este poema: "Auto-retrato (aos quarenta e cinco)". Os versos "Chegaste depressa ao outono", "os ramos nus e incertos da árvore sob a janela/são ossos que reconheces sob a pele", "(dentro da sala de banho escutas o/estalar de ossos ao enrodilhares o corpo/na vastidão da banheira)." provocaram estranheza e inquietação.
Sim, quarenta e cinco (quatro, mais precisamente), mas tão longe de um sentimento de outono ou de ossos a estalarem. Terá andado distraída? Já no outro dia, a propósito de doenças, se assustara com a idade de todos os males, insidiosos horrores em que nunca pensara.
O corpo mostra a incrição do tempo, porém, a idade não será, em grande medida, cosa mentale? Estará a chegar, agora que as palavras dos outros afectam a imagem que de si tinha?


*João Luís Barreto Guimarães, você está aqui, Lisboa, Quetzal, 2013.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

para sempre, isto

 
Max Klinger, Sísifo (1914)


[Não compreendera os motivos da partida. "Pensava que era outra coisa; isto, não." -  dissera, como se a explicação fosse clara. Hoje o absurdo da circunstância e do seu futuro é evidente. Montanhas de "envelopes", rochedo contínuo, pedra, pedras infinitas, brita - tantas metáforas, quando "isto" bastaria.]
 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Poemas de amor


CANTIGA

Sozinha no bosque
Com meus pensamentos,
Calei as saudades,
Fiz trégua a tormentos.

Olhei para a lua
Que as sombras rasgava,
Nas trémulas águas
Seus raios soltava.

Naquela torrente
Que vai despedida
Encontro assustada
A imagem da vida.

Do peito em que as dores
Já iam cessar,
Revoa a tristeza
E torno a penar.

Marquesa de Alorna
 
Vasco Graça Moura (org.), 366 poemas que falam de amor, Lisboa, Quetzal, 2003.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Doença


"Este relato comoveu Rossetti. Troçou de Lizzie e ela sorriu para o chão. Revelava os primeiros sintomas da doença, a paixão pela arte."


Hélia Correia, Adoecer, Lisboa, Relógio d'Água, 2010.
 


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Temperamentos



Albrecht Durer, Melancolia (1514)


Às vezes não é uma questão de a vida ser boa ou má, é somente uma questão de temperamento. Uns são mais introspectivos e pessimistas, outros mais alegres e abertos ao exterior. Não temos de ser todos positivos, dinâmicos, sociáveis, pelo menos não sempre. A uns quantos coube em sorte esticarem o sofrimento para lá do razoável e gostarem de contemplar o lado escuro dos dias. Que fazer? Esperemos que também possam ver a plena luz do sol e deliciarem-se com isso, mesmo que precisem de um empurrãozinho ou de umas palavras amigas.


Os antigos, que reconheciam a continuidade existente entre o espírito e a matéria, o corpo, a natureza e o cosmos, desenvolveram a doutrina dos quatro humores, que evoluiu para doutrina dos quatro temperamentos, de que se apresenta uma brevíssima síntese nos dois quadros seguintes. Assinale-se que desde cedo as várias designações de temperamentos conheceram significações distintas, pois tanto podiam indicar estados patológicos, como meras aptidões constitutivas dos indivíduos.


   
Temperamento

 Elemento

 Temperatura

 Fluído

 Corpo

 Estação

 Colérico

 fogo

 quente e seco

 bílis amarela

 fígado

 Verão

 Sanguíneo

 ar

 quente e húmido

 sangue

 coração

 Primavera

 Fleumático

 água

 frio e húmido

 fleuma (linfa)

 vasos linfáticos e gânglios

 Inverno

 Melancólico

 terra

 frio e seco

 bílis negra

 baço

 Outono



Temperamento

Planeta

Características

Colérico

Marte

Irascível e impetuoso, ardente, rápido

Sanguíneo

Júpiter

Dado ao convívio e à sociabilidade, sedutor, alegre

Fleumático

Vénus (lua)

Preguiçoso, tímido, sem rancores, calmo

Melancólico

Saturno

Triste, solitário, controlado, capacidade de entrega e dedicação



O termo Melancolia tanto designava uma doença como uma maneira de ser, actualmente prefere-se falar de Depressão quando se trata de uma situação patológica, mas o significado ambíguo não mudou. Ontem como hoje, aconselhava-se o médico a lutar contra a natureza desconfiada do melancólico, a moderar o seu furor e a lembrá-lo das coisas que amava; sugeria-se um discurso sensato e agradável; o consumo de vinhos perfumados, claros e leves, o convívio com a música e outras artes, a companhia dos amigos eram igualmente considerados benéficos; o melancólico devia, também, evitar as tensões mentais, mas a actividade sexual era recomendada, ainda que com moderação. Claro está que a linha agressiva não esteve ausente das tentativas de curar estes seres; de facto, os medicamentos, as purgas, sangrias e flagelações não foram esquecidos. Nos alvores do século XXI, continuamos a ver receituários de ansiolíticos e antidepressivos ou prescrições de actividade física e deleitosa, a par do aconselhamento de acções com vista ao conhecimento e aceitação de si e do mundo. Ler e escrever blogues será também um remédio...

Tendo em vista o tratamento da depressão e da ansiedade, ou tão só do cansaço de viver, recordam-se dois livros de medicina, que não se incluem nos ditos "livros de auto-ajuda":

- Frida Ergas, Viver sem stress, com o método sofrológico, Lisboa, Europa América, 2001.

- David Servan-Schreiber, Guérir le stress, l'anxiété et la dépression sans médicaments ni psychanalyse, Paris, Robert Laffont, 2003.

domingo, 12 de agosto de 2012

Corpo e tempo / O tempo, esse grande escultor


José Rodrigues, O sentimento trágico da vida, Porto, Asa, 2003
(textos de vários artistas e intelectuais e desenhos de José Rodrigues)


Em época estival, mas já não ao sol, eis que surge a reflexão sobre o tempo e o corpo. É um dos veios da melancolia, um tópico literário por excelência, mas é também uma preocupação quotidiana, seja a nível pessoal e íntimo, seja a nível da adequação aos códigos sociais. Haverá algum aspecto da vida mais marcado estética e socialmente do que o modo como o corpo de cada um se apresenta ao próprio e aos outros, nas várias circunstâncias e idades? De facto, o mais pequeno desvio às regras estabelecidas introduz, de imediato, o sentido de ridículo e de subversão, acompanhado de censura ou de condescendência, que serão formas de resistir à mudança, isto é, à morte.
Vejamos, por exemplo, o que se vai observando nas familiares praias portuguesas; penso sobretudo nas praias do Oeste. Se há trinta ou quarenta anos a maior parte das senhoras ainda só usava fato de banho, para não falar daquelas que não se despiam, limitando-se a um pudico levantar de saias à beira-mar, hoje vemos a generalizada afirmação do bikini. Não importa a idade nem a forma dos corpos, sejam as peles flácidas ou firmes, sejam as cinturas esbeltas ou envoltas em camadas de gordura, sejam os ventres proeminentes, lisos ou rasgados por cicatrizes de cesarianas ou de histerectomias, sejam os seios harmoniosos ou em farta queda, as mulheres estendem-se sobre a areia, caminham pela praia, banham-se, indiferentes à vergonha do passado. Por vezes, podemos pensar que o gosto deveria ser um pouco mais requintado, mas o sentimento predominante é de que a mulher portuguesa está em processo de libertação, o que, naturalmente, significa a morte de um certo mundo ancestral, de matriz rural, acompanhada de alguma estranheza.
Primeiro foram os emigrantes a trazerem os novos hábitos, agora as netas das recatadas aldeãs já não se distinguem das estrangeiras, a não ser pelas cores morenas, resplandecentes ao sol de Agosto. Talvez o topless seja a última fronteira...
E as avós? Olharão com tolerância para estes corpos jovens e esplendorosos, sentindo-os como um prolongamento de si e do seu próprio viço? Ou desnudar-se-ão para lá das suas filhas, entregando-se sem reservas ao Sol e à beleza que há em estarem, estarmos, vivas, apesar dos golpes do tempo?

[Queria desenvolver o meu texto a partir da conhecida passagem da primeira epístola de S. Pedro, mas o tempo levou-me para a praia. Todavia, aqui fica a citação bíblica: "porque toda a carne é como erva e toda a sua glória como flor de erva, erva que seca e flor que cai"]

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Eu não nasci aqui




Eu não nasci aqui, tu não nasceste aqui, ele não nasceu aqui; nascemos longe e viemos no rasto da promessa. Agora não sabemos o que fazer: o vento tudo revolveu, a neve tudo cobriu; já não são visíveis os sinais.