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domingo, 31 de março de 2013

Por um grão de romã


Dante Gabriel Rossetti, Proserpine, 1874, Tate Gallery
 
Os mortais desesperam com este Inverno tão longo. Por que tarda Perséfone?
 
Diz a narrativa mítica que, após Hades ter raptado Cora, Deméter se recusou a ocupar o seu lugar no Olimpo e na ordem do mundo, a fim de carpir a sua dor e de procurar a sua amada filha, provocando, assim, um interminável Inverno, agreste e carente. Só a intervenção de Zeus apaziguou o desespero da deusa, prometendo-lhe a restituição da jovem, caso esta não tivesse provado qualquer alimento dos territórios infernais. Mas como resistir à tentação da sombra? Perséfone ingerira um grão de romã, o que para sempre a ligaria ao tenebroso mundo subterrâneo; seria restituída à luz e ao mundo florido da superficie, sim, mas só sazonalmente. Desta forma, Deméter teria de esperar o regresso da rainha dos Infernos a cada Primavera e, só nessa altura, libertaria as energias vitais necessárias à regeneração e reprodução da natureza e dos homens.
 
Este ano a espera parece infindável. O que retém a bela rainha? Dizem que se demora em inusitados preparos, que Hades hesita em deixá-la partir, dizem que outro deus a levou. Tantos dizeres, e a terra ansiando pela sua chegada vivificante!
 
 
(da internet, de autor desconhecido)
Dizem que esta é a deusa, em seu recato...


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Estesia

Está patente na Gulbenkian uma exposição lindíssima - As Idades do Mar (só até 27 de Janeiro!).

Organiza-se em cinco núcleos temáticos: A Idade dos Mitos, A Idade do Poder, A Idade das Tormentas, A Idade Efémera e A Idade Infinita. São todos óptimos, mas, nesta nota breve, saliento o primeiro - A Idade dos Mitos - e este quadro surpreendente:
 
 
Sirenes, 1875 - Arnold Böcklin (1827-1901) | Foto: Andres Kilger ©2012. Photo Scala, Florence/BPK, Bildagentur für Kunst, Kultur und Geschichte, Berlin
Têmpera sobre tela 46 x 31 cm Staatliche Museen zu Berlin, Nationalgalerie - Inv. A I 754Arnold B
 
 
É conhecida a riquíssima simbologia do mar, alicerçada nos mitos, com destaque para os greco-latinos (deuses, semideuses e outros semelhantes que habitam as águas ou a costa). Todos sabemos que esta simbologia tanto pode ser masculina, como feminina, basta pensarmos nas inúmeras representações de Vénus/Afrodite ou de Neptuno/Poseidon, por exemplo, bem patentes na exposição, principalmente as representações dos mitos femininos. Agora, ver nas sedutoras e belas sereias estas galinhas é que não esperava!


quinta-feira, 10 de maio de 2012

Tristão e Isolda

G. considera MC mais adequado às «Massas» e a leitora não pode deixar de concordar, embora lhe custe. Transige na clareza da luta de classes, bem como na inequívoca «verdade» do amor, sem dúvidas, sem culpa, sem sombra de remorso ou amargura... tão longe desse extraordinário mito que ilumina os amores no Ocidente: o romance de Tristão e Isolda.

A narrativa de Bédier inicia-se assim:

"Quereis ouvir, senhores, um belo conto de amor e de morte? É de Tristão e Isolda, a rainha. Ouvi como em alegria plena e em grande aflição eles se amaram, depois morreram no mesmo dia, ele por ela, ela por ele."

Joseph Bédier, O Romance de Tristão e Isolda, S. Paulo, Martins Fortes, 1998 (trad. Luís Cláudio de Castro e Costa).

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Narciso e outros espelhos

James Waterhouse, "Eco e Narciso" 

É conhecida a história de Narciso e da ninfa Eco, ambos perdidos por amores nefastos: ele apaixona-se pela própria imagem, reflectida nas águas límpidas; ela ama aquele que a repudia, ao reconhecer a alteridade da sua voz. O destino dos dois é a morte, pois se da jovem restará apenas os ossos e a voz (a voz intacta, os ossos transformados em rochedo), do belo filho de Liríope e de Cefiso restará tão somente uma flor branca de corola vermelha, conhecida como narciso ou como flor-de-lis.
Eco e Narciso representam, respectivamente, o paralelismo da imagem vocal e da imagem visual e a duplicidade que estas evocam. O mito congrega ainda o amor, a beleza e a morte, pois se a beleza suscita o desejo e afecta tanto rapazes como raparigas, é ela que seca e devora Eco, primeiro, e depois o próprio Narciso. É a beleza que, inflamando os jovens de desejo e amor, provoca a sua destruição.
O espelho das águas ou o seu similar espelho de vozes constituem lugares de perigo e perdição amorosa.

A propósito deste objecto, ressalve-se que para os gregos ele era um lugar de atracção, de fascínio e de captura. Por esta razão, o espelho estava interdito aos homens, havia que os salvaguardar do perigo de fechamento sobre si e da consequente alienação. Estava, então, reservado às mulheres, cuja condição se definia precisamente pelo fechamento e pela alienação, pois que era o outro por excelência.
Todavia, se o espelho separava, também unia, uma vez que era um elemento essencial nos preparativos nupciais, deste modo constituindo-se como um símbolo erótico. É ao espelho que a mulher se prepara para suscitar o desejo masculino, sendo que antes de ser vista ela deverá ver-se, reconhecer-se sujeito e objecto do olhar, do desejo, do amor. O espelho acompanhará a mulher até que, já velha e desistente de Eros, o deposite no templo, tal como antes fizera com a sua boneca, no adeus à infância.

Sobre esta relação dos gregos com o espelho, e da mulher em particular, escrevem Jean Pierre Vernant e Françoise Frontisi-Ducroux:

"[...] Le sentiment premier qui l'anime est le soucis de sa beauté. Son désir est tourné vers elle-même. D'où la fonction du miroir, précieuse prothése visuelle, troisième oeil artificiel. La chance de l'amant est de pouvoir prendre la place de se fidèle compagnon. Et, en se faisant miroir pour offrir à sa belle um reflet rassurant et conforme d'elle-même, de l'inciter à devenir à son tour un miroir qui lui retourne docilmente son amour... et qui, un peu plus tard, pourra le dupliquer en reproduisant les images qu'il aura imprimées en son sein.
Voilá pourquoi Écho est une femme. Vivant miroir vocal. Désir voué à n'être que réponse. Voilá pourquoi Narcisse est un garçon. Narcisse étranger au désir, qui refuse de se faire miroir d'autrui, et que les dieux condamnent, pour ce refus, au désir vain de soi, qui n'est erreur et faute que parce qu'il est un homme. Quelle femme d'ailleurs s'y serait laissé prendre?"

 Françoise Frontisi-Ducroux e Jean Pierre Vernant, Dans L'Oeil du Miroir, Paris, Editions Odile Jacob, 1997.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Contemplatio mortis

... um dos dias da semana recebe a felicidade, que vem de mansinho, senta-se e fica ali, muito quietinha, a embalar as horas do dizer e do calar. Trouxe uma prendinha. Vamos, então, desembrulhá-la e saboreá-la - um exercício:

Caravaggio, Medusa

"Escrever o quê? Pensar o quê?" (Vergílio Ferreira, Escrever)

Qualquer diarista, por menos reflexivo que seja, já se defrontou com estas interrogações. A introspecção é tanto mais inquietante quanto a matéria da escrita e do pensamento se revela ser o próprio "eu", desde logo pela dificuldade em dizer, ou "explicar", o que seja esse "eu". A linguagem oferece casas: eu, me, mim, comigo, pronomes que instituem a  pessoa como sujeito e objecto, em simultâneo.
A fragmentação, todavia, não se fica por aqui, também o tempo e o corpo, ou a sua percepção, desdobram esse incerto "eu". De facto, olhando-se no espelho das palavras, quem vê vê-se a ver-se e a ver-se outro, perdido nas curvas do tempo, descontínuo, retalhado! Confuso? Inquietante? Freud chamou-lhe "estranheza inquietante", especialmente despoletada pela contemplação do desmembramento do corpo, sistematizou o narcisismo; Jean Clair refere o mal do espelho, que oferece à Bela não o prazer da contemplação, mas o terror da visão da velhice e da morte, em suma, da petrificante Medusa.
Assim, da escrita do diário facilmente se ausenta a contemplatio voluptatis para se instalar a contemplatio mortis - Narciso transformado em Medusa!


Edward Burne-Jones, The Baleful Head


(Mas que as representações desta monstruosidade são belas, sedutoras, irresistíveis, é inegável! Atracção masoquista?)

Não termina esta entrada sem um conforto - estas palavras de Marcello Duarte Mathias:

"[O diário] Substituto ao mesmo tempo do divã do psicanalista e do confessionário, é o lugar do conflito e da reconciliação, da imobilidade e do desafio." (MDM, A Memória dos Outros: Ensaios e Crónicas, Lisboa, Gótica, 2001, p. 211.)

domingo, 24 de julho de 2011

Uma ideia de Europa

A leitora diria antes "um sentimento de Europa", que se intensifica num país estranho, à mesa de um café, quando o olhar se perde nas ruas, no rasto de transeuntes vários, outros europeus levados pelas suas diversas urgências ou simples prazeres deambulatórios. As vozes... Nós. 


George Steiner sobre a Ideia de Europa:


"Cinco axiomas para definir a Europa: o café; a paisagem humana que possibilita a sua travessia; as ruas e praças nomeadas segundo estadistas, cientistas, artistas e escritores do passado - em Dublin, até nos terminais rodoviários se indica o caminho para as casas de poetas; a nossa descendência de Atenas e Jerusalém; e, por fim, a apreensão de um capítulo derradeiro, daquele famoso ocaso hegeliano que ensombra a ideia e a substância da Europa mesmo nas suas horas mais luminosas"


George Steiner, A Ideia de Europa, Lisboa, Gradiva, 2004 (trad. Maria de Fátima St. Aubyn).



Rememorações: os grandes trágicos - Eurípides, Ifigénia em Áulide



Michael Cocoyannis, Iphigeneia at Aulis

quarta-feira, 13 de julho de 2011

A permanência dos mitos

Afrodite e Vénus - perspectivas

Sabemos da deusa que que era filha de Zeus e de Dione ou, então, que não nasceu da união do masculino e do feminino, mas apenas de Úrano, cujos orgãos sexuais, cortados por Crono, cairam no mar e a geraram. A etimologia reforça esta segunda tradição, pois a raiz do seu nome -  aphros - significa espuma. Sabemos também que esta divindade grega estava ligada à vegetação e aos jardins, pelo que os Romanos não tiveram dificuldade em associá-la a Vénus, deusa itálica próxima do mesmo mundo natural. A raiz do nome latino é uanah, que significa desejo. Deste modo, facilmente podemos concluir que a deusa (ou a reunião das duas divindades) traz consigo, desde cedo, a graça e a sedução, ingredientes importantes para a fertilidade e a continuidade da vida e que, portanto, se incluia no culto da fecundidade. Assim se compreende que as festas de Vénus, que se realizavam na Primavera, em Roma, incluissem banhos purificatórios e preparassem tanto para o casamento como para o acto sexual. Os episódios vividos por Afrodite reforçam a sua força amorosa e o valor tutelar que adquiriu na nossa memória: o casamento forçado com Hefesto, os amores vividos com Ares, Anquises e Adónis; ficaram igualmente célebres as cóleras e as maldições da deusa, bem como as terríveis consequências dos seus favores.

Aqui se fez  uma breve síntese da narrativa que podemos encontrar nos dicionários. Todavia quem é a deusa? Que atracção exerce sobre nós? O que mostra aos milhares de olhos que a procuram na clausura do museu? É o seu mistério que continua a seduzir-nos. É dentro de nós que os seus braços decepados regressam à plenitude do corpo. É dentro de nós que o esplendor da vida irrompe e floresce, com a promessa de completude e de reencontro, e, simultaneamente, com a certeza de que a navalha do tempo virá, para cortar a alegria pela raiz. Mas continuamos às voltas, de cabeça levantada, buscando o melhor ângulo.