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domingo, 16 de março de 2014

Poesia

Hoje, o sol esplendecia, abriam-se as janelas, abriam-se as flores nos raminhos, abriam-se as simpatias. Até o Facebook foi invadido por fotografias solares: as pessoas saíram das suas casas para passear na praia, no campo, nos jardins das cidades ou para praticarem desporto, com destaque para as caminhadas e as voltas de bicicleta. Nessa ágora digital, a meteorologia também acordou a veia poética dos amigos da Primavera, que criaram correntes de poesia. A esta leitora chegaram palavras de Régio, enquanto dos seus dígitos voaram versos de Sophia...

Já ontem, na Revista do Expresso, José Tolentino Mendonça se demorava na casa da poesia, particularmente em Adélia Prado, Manoel de Barros e Ferreira Gullar. Cita, de Manoel de Barros, estas palavras:

"parece que o poeta serve para desacomodar as palavras . Não deixar que as palavras se viciem no mesmo contexto... Usar as palavras para ampliar o mundo há de ser outro milagre da poesia. Uma das regras importantes da poesia é não ser demonstrativa. Poesia não presta para demonstrar nada. Ela só presta para dar néctar."

"Que coisa são as nuvens: Não sabíamos que está dentro de nós", Expresso: Revista, 15/03/2014. 

(Não me canso de ler estas crónicas do poeta português. Às vezes, é mesmo a única razão que me leva a comprar o Expresso. Que beleza e que sabedoria!) 

Termina esta entrada do blogue com Joaquim Manuel Magalhães, e um poema solar, ainda que sob o signo da melancolia:

E chamo à juventude a melancolia
a beira-rio, o barco de muitos mastros
que ninguém navega, a deriva
na prisão dos olhares. Uma vez,
saí da cidade para a aldeia costeira.
Cantavam. Perguntou
o que era o jantar, apanhou canas,
com um golpe de rins soltou um ramo
da macieira. A luz recebe a luz
do seu corpo deitado. O clarão do mar
move-se na sua voz,
à distância, seu.

Joaquim Manuel Magalhães, uma luz com um toldo vermelho, Lisboa, Presença, coleção Foma, 1990.

Belas palavras. Com elas vou, e fico com o golpe de rins no olhar.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Ciberpoesia - poesia combinatória

Um poema (aleatório) a partir de uma cantiga medieval, ou melhor, de uma versão de Salette Tavares (?), degenerada espontaneamente, só com um clique!

amigo castigo amigo, por Ana E.

December 1st, 2013
Conhecido
ai mal comigo
meu tigo amigo vivo
tão moço nosso posse
apodrecido comovido.

Podrido
ai sem comigo
que o vento corta cerce,
contigo em cada passo
espaço abre e cresce.

Comigo
além amigo
castigo tecido tigo
da flor que digo e deste
o fresco me repete.
 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Ei-las, que estão de volta

 
A Poesia Trovadoresca regressou ao Programa de Português. Ainda bem, pois a sua falta constitui um empobrecimento dos jovens, desde 2004 privados do convívio com esta preciosidade. Aqui fica um registo de uma das mais belas cantigas de amigo - "Ondas do mar de Vigo", de Martim Codax, jogral galego, provavelmente de Vigo. Para além do texto, indicam-se versões musicais e uma fotografia da folha do Pergaminho Vindel* em que se encontra. 
 

Ondas do mar de Vigo,
se vistes meu amigo?
       e ai Deus, se verrá cedo?
Ondas do mar levado,
se vistes meu amado?
       e ai Deus, se verrá cedo?
Se vistes meu amigo,
o por que eu sospiro?
       e ai Deus, se verrá cedo?
Se vistes meu amado,
o por que hei gram coidado?
       e ai Deus, se verrá cedo?

Martim Codax
 
 
 
 
 
As fotografias foram retiradas da base de dados Cantigas Medievais Galego Portugueses, que é um excelente recurso para trabalho, estudo ou, tão-só, tomada de conhecimento deste tesouro nacional.
 (Lopes, Graça Videira; Ferreira, Manuel Pedro et al. (2011-), Cantigas Medievais Galego Portuguesas [base de dados online]. Lisboa: Instituto de Estudos Medievais, FCSH/NOVA. [Consulta em (indicar data da consulta)] Disponível em: http://cantigas.fcsh.unl.pt. )
 
*Conjunto de folhas volantes manuscritas com cantigas, incluindo a respetiva notação musical.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

a palavra poética, poetas e tradutores


[Poema retirado da colecção Poetas em Mateus, resultante de um encontro de poetas -  "seminário de tradução colectiva", cujo princípio é simples: dois poetas estrangeiros são convidados da Fundação da Casa de Mateus durante cinco dias e, com eles, poetas e tradutores portugueses. O encontro realiza-se a partir da tradução colectiva de um conjunto de textos, cuja versão se publica, revista e, por vezes, completada por um dos participantes." (da contracapa)]

Poeta, dizem do apaixonado,
poeta dizem de quem chora ao anoitecer
e de manhã se levanta em desespero.
Mas também se diz poeta quem alegra,
quem sabe falar bem, beber, comer,
e o que canta as mulheres, poeta ainda,
a juventude extasiada.
Mas os que matam nos outros a poesia
fechada à chave, e os afogam
no grande livro da vida... paciência!
Não são poetas, homens de bem não são.
São massa informe, e pronto, e assim seja.

Franco Loi, Memória, Lisboa, Quetzal Editores, 1993 (tradução colectiva, revista e apresentada por António Osório - Mateus, Março de 1992).

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

poesia 61 - a voz dos poetas

Hoje, a ouvir Gastão Cruz e Casimiro de Brito sobre a poesia 61, e a lembrar tantos poemas lidos com tanto gosto!

poesia 61: Casimiro de Brito, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Luiza Neto Jorge, Maria Teresa Horta.

O primeiro encontro, em 91 - Gastão Cruz, As Leis do Caos:

I'm far from being a pessimist. I see life
as a gorgeously-ironical, beautifully-indifferent,
splendidly suffering bit of chaos.

Eugene O'Neill (carta; 1923)

[Epígrafe do livro]


O ADJECTIVO

Na superfície o adjectivo brilha
O seu rosto reflecte a luz do dia
e cobre os nomes com um céu proibido


Gastão Cruz, As Leis do Caos, Lisboa, Assírio e Alvim, 1990.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Dispo-me e vou dormir lá fora com as aves.

Chegou a casa acompanhada de um tom desarmonioso. A crise lá fora, o desconforto dentro da sua alma, um gosto amargo a quotidiano a rasgar a boca. Mas, felizmente, há palavras que oferecem bálsamos - as sugestões e partilhas de Um jeito manso, a vivência da poesia, alma e corpo, duas faces da mesma vida.

Foi assim que se lembrou de Maria do Rosário Pedreira e das mais belas palavras: casa, livros, perfume, amante, silêncio, noite, aves, corpo, genciana, flor de laranjeira, o teu nome suave, voo...


A Clean Miss
(imagem retirada de aqui)



Contam que as sombras permanecem agora mais tempo sobre
as dunas e que a flor de laranjeira rebentou pelos caminhos,
encantando as viagens; que os morangos crescem, se os dedos
se aproximam, e que já se ouve, ao longe, um rumor de asas
contrário a qualquer vento. Falam de um perfume estranho
que paira pela cidade e das palavras soltas que os rapazes
andaram a escrever pelos muros em segredo. E eu não sei nada

disto que me contam, nem me aquece a luz quente que,
como dizem, afaga de manhã os ombros de quem passa e vai
a outro lugar sentir o mesmo lume. E eu também já não sinto

a primavera: os dedos doem-me nos livros, sento-me de noite
à janela. Olho a lua que já não posso ter. Escondo-me
dos gatos. Dispo-me e vou dormir lá fora com as aves.


Maria do Rosário Pedreira, A Casa e o Cheiro dos Livros, Lisboa, Gótica, 2002.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Poesia...

 (Índios Comanches, EUA)

Djá i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i ná ê nê ná
i djá i nai ni ná
i dju nibá u
i dju nibá i dju nibá u
djá i dju nibá i djá ê nê ná


Herberto Helder, "Magias", in Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Ler com muito gosto

Ler os poetas, amar as palavras: António Nobre, Camilo Pessanha, Ruy Belo, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade...

Interessante depoimento de Paula Morão sobre a leitura, e em especial sobre a leitura em voz alta, no PNL TV (Plano Nacional de Leitura):

http://www.planonacionaldeleitura.gov.pt/pnltv/index.php?idVideo=52

domingo, 28 de agosto de 2011

Aprender; a obra de Deus

A FLOR

[...]

Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor! 


José de Almada Negreiros, A Invenção do Dia Claro, Lisboa, Guimarães, 2010.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Outra raiz da poesia amorosa - "Cântico dos Cânticos"


Marc Chagall



O Esposo - Como és formosa, amiga minha!
Como és bela!
Os teus olhos são como pombas.

A Esposa - Como és belo, meu amor! Como és encantador!
O nosso leito é um leito verdejante, as vigias da nossa casa são de cedro, os nossos artesonados são de cipreste.

Eu sou o narciso de Saron,
o lírio dos vales.

O Esposo - Como o lírio entre os espinhos,
assim é a minha amiga entre as donzelas.

A Esposa - Como a macieira entre as árvores da floresta,
assim é o meu amado entre os jovens;
anelo sentar-me à sua sombra,
e o seu fruto é doce à minha boca.
Ele introduziu-me na sala do festim,
e o estandarte que desfraldou sobre mim, é estandarte de amor.
Confortai-me com uvas passas,
fortalecei-me com maçãs,
porque desfaleço de amor.
A sua mão esquerda descansa sobre
a minha cabeça,
e a sua direira abraça-me.

O Esposo - Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém,
pelas gazelas e corças dos campos
que não acordeis nem perturbeis a minha amada,
antes que ela queira.

[...]

A Esposa - Durante a noite, no meu leito,
busquei aquele que a  minha alma ama;
procurei-o mas não o achei.
Levantei-me e percorri a cidade,
as ruas e as praças,
em busca daquele a quem a minha alma ama;
procurei-o e não o achei.
Encontraram-me os guardas
que faziam a ronda na cidade.
«Vistes, acaso, aquele a que a minha alma ama?»
Mal passara por eles,
encontrei aquele a quem a minha alma ama.
Agarrei-me a ele e não largarei mais,
até que o tenha introduzido na casa de minha mãe,
no quarto daquela que me concebeu.

O Esposo - Conjuro-vos, ó filhas de jerusalém,
pelas gazelas e corças dos campos,
não desperteis nem perturbeis a minha amada;
antes que ela o queira.


"Cântico dos Cânticos", in Bíblia Sagrada, Lisboa, Difusora Bíblica, 1981 (excerto).

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O princípio da poesia - dois fragmentos de Safo

O BELO E O BOM

Quem é belo
é belo aos olhos
- e basta.

Mas quem é bom
é subitamente belo.



INTERDIÇÃO

Vedado
é o choro
na casa
de um poeta:
nunca
tal pesar
pesará
de nós.


Safo, Líricas em Fragmentos, Lisboa, Vega, 1991 (Tradução e apresentação de Pedro Alvim; Desenhos de Luís Alves da Costa). 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Dizer Poesia

Esta semana, a Andante Associação Artística apresentou um poema de Luísa Dacosta, no seu desafio poético semanal "Poema escrito por Quem?":

Entardecer





Já não há perfumes de vida na taça do meu sexo.
Se quisesses conhecer, agora, o meu sabor mais íntimo,
terias de beber, com os teus lábios,
a água das minhas lágrimas.



LUÍSA DACOSTA
A maresia e o sargaço dos dias
Ed. Asa

voz - Cristina Paiva

sonoplastia - Fernando Ladeira

(Ver aqui)


A Andante desenvolve uma acção interessantíssima em prol da divulgação da poesia, que pode ser acompanhada através da sua página.

terça-feira, 19 de abril de 2011

De visita a uma exposição


Exposição: Sophia, na Biblioteca Nacional

Desta exposição, destaco estas palavras:

"A poesia não é um acto gratuito mas sim um acto vital. Sabemos que um poema é justo quando ele é necessário àquele que o escreve e necessário ao mundo. O peso das sílabas do poema entrará em equlíbrio com o peso das estrelas. Pois a poesia é um acto de criação integrado em todo o processo criador do universo. Não é uma contemplação exterior às coisas mas uma participação no destino do universo." ("Arte Poética III" - inédito)