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sábado, 31 de outubro de 2015

Cemitério dos Prazeres

A próxima «Visita Guida» leva-nos ao Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, apresentado como um museu de arte funerária, a assinalar a importância dos rituais da morte, não só para os defuntos, como também para os vivos.




No próximo episódio vamos levá-lo a um "museu" inesperado.O Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, é um dos maiores (mais de 7000 jazigos) e o mais elitista dos cemitérios portugueses: de aristocratas a políticos, de heróis militares a artistas, grandes vultos da história do país estão ali sepultados. Consolidado em meados do séc. XIX, expoente do romantismo em Portugal, o Cemitério dos Prazeres é um repositório de escultura que hoje vale como museu. O historiador de arte Francisco Queiroz é o nosso guia nesta visita surpreendente.RTP2, 2ª feira, 2 novembro, pelas 23h; sábado, 7 novembro, pelas 19h40 (repetição)Antena 1, 5as feiras, pelas 21h10facebook.com/paulamourapinheiro
Posted by Visita Guiada on Sexta-feira, 30 de Outubro de 2015



Por coincidência, José Tolentino Mendonça, na sua crónica semanal no Expresso, reflete também sobre o funeral e o valor humano dos rituais devidos aos finados:

«No dia em que o mandamento de «sepultar dignamente os mortos» for removido dos deveres dos filhos, dos companheiros, dos irmãos, dos amigos e antecipado para as obrigações que cada um deve prever em relação a si mesmo, a nossa humanidade ficará irremediavelmente mais pobre.»
José Tolentino Mendonça, «Funeral em vida». Expresso: 31/10/2015

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Quo vadis, Portugal?


A identidade nacional e a consciência coletiva são temas do novo programa de Português do ensino secundário. Aqui ficam alguns excertos retirados do projeto escolar Intertextos 10 (Plátano Editora: 2015). Servem para reflexão, ainda que melancólica.


A presença de um herói coletivo - o povo português - e a narração dos seus feitos, nomeadamente no que diz respeito à consolidação da identidade portuguesa e da memória coletiva nacional, aproximam a Crónica de D. João I do género épico [...]. Na verdade, esta crónica inaugura o sentimento nacionalista na literatura portuguesa; [...] marca a verdadeira independência da nacionalidade, baseada na vontade coletiva de um povo, como fica atestado nas Cortes de Coimbra, em 1385.
Não é, pois, de estranhar que esta crónica tenha posteriormente servido intuitos nacionalistas, nomeadamente em épocas de imperiosa necessidade de afirmação da independência nacional: em 1642, o Santo Ofício dá o parecer positivo para a sua edição; em 1897, Luciano Cordeiro vê a edição da crónica como uma arma contra as pretensões unionistas da Federação Ibérica. Rodrigues Lapa considera a Crónica de D. João I, a par de Os Lusíadas, um “breviário de portuguesismo”, um “alimento de energias cívicas” (Lapa, 1956: 352). Todavia, existem claras diferenças entre estas duas epopeias: enquanto o texto de Fernão Lopes constitui um momento inaugural do nacionalismo português e tem, portanto, um caráter mais prospetivo, Os Lusíadas é uma obra de feição mais retrospetiva, uma glorificação desencantada ou, no dizer de A. J. Saraiva e Óscar Lopes, uma “epopeia póstuma, inspirada pelo sentimento de uma deceção que quer negar-se, e vibrando de inquietações acerca do destino nacional (social e humano)” (Lopes e Saraiva, [1982]: 136).

Ana Cristina Correia Gil. A Identidade Nacional na Literatura Portuguesa: de Fernão Lopes ao fim do Século XIX, dissertação de doutoramento, apresentada à Universidade dos Açores em 2005.

Crónica de D. João i, de Fernão Lopes

Toda a cidade era dada a nojo, cheia de mezquinhas querelas, sem neuũ prazer que i houvesse: uũs com gram mingua do que padeciam; outros havendo doo dos atribulados; e isto nom sem razom, ca, se é triste e mezquinho o coraçom cuidoso nas cousas contrairas que lhe aviinr podem, veede que fariam aqueles que as continuadamente tam presentes tiinham? Pero, com todo esto, quando repicavom, nenhum nom mostrava que era faminto, mas forte e rijo contra seus ĕmigos. Esforçavom-se uũs por consolar os outros, por dar remedio a seu grande nojo, mas nom prestava conforto de palavras, nem podia tal dor ser amansada com neũas doces razões; e assi como é natural cousa a mão ir ameúde onde é a dor, assi uũs homĕes, falando com outros, nom podiam em al departir senom em na mingua que cada uũ padecia. […]
Ora esguardae, como se fossees presente, ũa tal cidade assi desconfortada e sem neũa certa feúza de seu livramento, como veviriam em desvairados cuidados quem sofria ondas de taes aflições? Ó geeraçom que depois veo, poboo bem aventuirado, que nom soube parte de tantos males nem foi quinhoeiro de taes padecimentos! Os quaes Deos por Sua mercee prougue de cedo abreviar doutra guisa, como acerca ouvirees.

Fernão Lopes. Crónica de D. João I. Lisboa: Comunicação, 1992. Edição crítica de Teresa Amado.


145    No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Frontispício de Os Lusíadas
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dhũa austera, apagada e vil tristeza.

146    E não sei por que influxo do Destino
Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
Que os ânimos levanta de contino
A ter pera trabalhos ledo o rosto.
Por isso vós, ó Rei, que por divino
Conselho estais no régio sólio posto,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes.

Luís de Camões. Os Lusíadas. Porto: Porto Editora, 1990. Edição crítica de Emanuel Paulo Ramos.


quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O filme já é outro ...

A leitora foi à praia, para lá do Tejo. Foram dias muito bem passados, a costa vicentina é mesmo linda; não se enganaram Rui Veloso e Carlos Tê. 




"Porto Côvo" (1986)
 
Rui Veloso e Carlos Tê

Roendo uma laranja na falésia
Olhando o mundo azul à minha frente,
Ouvindo um rouxinol na redondeza,
No calmo improviso do poente

Em baixo fogos trémulos nas tendas
Ao largo as aguas brilham como pratas
E a brisa vai contando velhas lendas
De portos e baías de piratas

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo

A lua já desceu sobre esta paz
E reina sobre todo este luzeiro
À volta toda a vida se compraz
Enquanto um sargo assa no braseiro

Ao longe a cidadela de um navio
Acende-se no mar como um desejo
Por trás de mim o bafo do destino
Devolve-me à lembrança do Alentejo

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo

Roendo uma laranja na falésia
Olhando à minha frente o azul escuro
Podia ser um peixe na maré
Nadando sem passado nem futuro

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo
 

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Morituri salutant

 ... vamos fugir de lugares mal frequentados e de palavras inacreditáveis, primeiro a rir e depois a recitar belas orações...


1- Um livro da 1ª classe que não frequentei


2- Uma estampinha da infância

Google images - Nossa Senhora de Fátima


3- Uma oração muito bela
Salve Rainha
Salve, Rainha, mãe de misericórdia,
vida, doçura, esperança nossa, salve.
A vós bradamos os degredados filhos de Eva.
A vós suspiramos, gemendo e chorando
neste vale de lágrimas.
Eia, pois, advogada nossa,
esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei,
e depois deste desterro mostrai-nos Jesus,
bendito fruto do vosso ventre,
Ó clemente, ó piedosa,
ó doce sempre Virgem Maria
V.: Rogai por nós Santa Mãe de Deus
R.: Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.


4- Um hino belíssimo

Hino Órfico à Noite
(Grécia)
Cantarei a criadora dos homens e deuses - cantarei a Noite.
Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,
ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.
A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do
mundo.



Herberto Helder, "O bebedouro nocturno", in Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Comemorar a liberdade

Luísa Alvim publica hoje, no Facebook, um trabalho que fez sobre livros: Os livros portugueses proibidos no regime fascista: Bibliografia. São estes estudos que nos permitem ver o que ganhámos com a revolução e o fim da censura. Ganhámos liberdade de conhecer e, consequentemente, de escolha, o que não é pouco. A seguir transcrevo um poema de Natália Correia incluído numa famosa antologia poética organizada pela poetisa - Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica (dos cancioneiros medievais à actualidade) . Escusado será dizer que a obra, editada pela Afrodite* (Lisboa) em 1965, foi proibida e a sua autora alvo de perseguição, tendo mesmo respondido em tribunal pelo feito**. O poema, para além de mostrar a coragem e espírito subversivo da grande mulher que foi Natália, revela, também, a possibilidade de libertação erótica e da palavra, talvez a mais difícil, mormente se colocada no feminino.
 
Ei-lo:
 
COSMOCÓPULA
 
I
 
Membro a pino
dia é macho
submarino
é entre coxas
teu mergulho
vício de ostras.
 
II
 
O corpo é praia a boca é nascente
e é na vulva que a areia é mais sedenta
poro a poro vou sendo o curso de água
da tua língua demasiada e lenta
dentes e unhas rebentam como pinhas
de carnívoras plantas te é meu ventre
abro-te as coxas e deixo-te crescer
duro e cheiroso como o aloendro.
 
 
 
Natália Correia
 
 
Natália Correia (selecção, prefácio e notas), Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica (dos cancioneiros medievais à actualidade), Lisboa, Antígona e Frenesi, 1999.

 
*Esta editora - Edições Afrodite - foi criada em 1965, por Fernando Ribeiro Bento de Mello, tendo provocado escândalo com a publicação de obras polémicas e proibidas, que originaram processos judiciais por ultraje aos bons costumes. Mais informações podem ser consultadas no blogue sobre a editora Aqui.

**Leio que Natália Correia foi condenada a três anos de prisão com pena suspensa. Trsite Portugal.



quinta-feira, 11 de abril de 2013

Expansão portuguesa: novas doenças e novas curas

 
 
Germano de Sousa, História da Medicina Portuguesa durante a Expansão,
Lisboa, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2013.
 
"Sou de opinião que a chamada pequena história, a história do quotidiano, a história de uma ciência ou de um determinado sector da sociedade, torna mais percetível e esclarece melhor a grande História. Sou também dos que se honram da sua profissão e, como tal, gosto de investigar e divulgar o seu passado, seguindo aliás, e com humildade, o exemplo maior de notáveis médicos historiadores que desde o século XIX têm abordado aspetos diversos da história da medicina portuguesa ao tempo da Expansão, como Maximiano de Lemos, Luís de Pina, Augusto Silva Carvalho, Ferreira de Mira, Mário Carmona, José de Vasconcelos e Menezes e outros.

Com este livro procurei fazer uma reflexão sobre o que foi a história da atividade médica e assistencial em Portugal e nas terras descobertas durante um período tão intenso e extraordinário da sua história e da história do mundo, época única na qual o nosso país foi um dos principais atores. Por um lado, saber como era ser médico nessa altura, quais eram a sua formação, os seus conhecimentos e a sua prática. Depois, lembrar como foram e como funcionaram os dois principais hospitais reais de então, o Hospital Real de Todos os Santos e o Hospital Real de Goa, e pôr em relevo a visão de governantes como D. João II, D. Manuel I e D. João III e dos seus conselheiros, que precocemente perceberam a necessidade de criar mecanismos de assistência sanitária que acompanhassem o esforço dos Descobrimentos. Por outro lado, dar um panorama do que foi a «medicina e a doença embarcada» e do sofrimento que isso significou para milhares de portugueses que tiveram a coragem de demandar as Índias, o Japão ou os Brasis. Por fim, descobrir e investigar de que forma participaram os médicos e os boticários na Expansão, e relatar as novas doenças existentes ou vindas das novas terras descobertas e em especial o impacte social de uma delas, a sífilis, a mais terrível de todas." (Da Introdução - Contra-capa)
 
 
Gosto de ler o que escrevem os médicos, sejam eles poetas, prosadores ou ensaístas, como é o caso de Germano de Sousa, que nos oferece este livro sobre a medicina portuguesa durante a expansão. São muitos os ensinamentos recolhidos: sobre a vida portuguesa dos séculos XV e XVI, sobre as vicissitudes das viagens e da vida além-mar, sobre os males de que padeciam a população e os mareantes, sobre a descoberta de novas plantas e de outros modos de aliviar o sofrimento, e também sobre as doenças trazidas do novo mundo, com destaque para a Sífilis. É interessante verificar que, ontem como hoje, duas das razões para a desgraça das gentes têm sido a ganância e a incompetência (amiúde resultado do nepotismo e da falta de organização).
É um livro que aprofunda as informações patenteadas na exposição "360º Ciência Descoberta", que contempla igualmente esta área do saber. Destaco, neste sentido, a referência a Garcia da Horta, insigne médico de Goa, autor do livro Coloquios dos Simples e Drogas he Cousas Medicinais da India, e assi Dalgumas Frutas Achadas Nella onde Se Tratam Algumas Cousas Tocantes a Medicina Pratica, e Outras Cousas Boas, pera Saber Compostos pelo Doutor Garcia Dorta: Físico del Rey Nosso Senhor, Vistos pelo Muyto Reverendo Senhr, ho Licenciado Alexos Diaz: Falcam Desembargador da Casa da Supricaçã Inquisidor Nestas Partes.
 

domingo, 7 de abril de 2013

360º Ciência Descoberta

Outra exposição interessantíssima, a não perder. Está na Fundação Calouste Gulbenkian até 2 de Junho; surpreende, ensina, alegra (e de tanta alegria precisamos nestes dias de chumbo). Aqui fica o vídeo promocional, protoganizado pelo comissário desta mostra, Henrique Leitão.
 
 

segunda-feira, 25 de março de 2013

A política, em Portugal!

(...)

Já quase em desespero, Galvão Telles [Ministro da Educação] convida Ulisses Cortês [Ministro das Finanças] para um almoço a dois - num bom restaurante do Chiado - e defende de viva voz o seu projecto, com toda a verve e poder argumentativo de alguém que, além de professor de Direito, é um excelente advogado.
O seu colega das Finanças, já na sobremesa, diz-lhe que não é possível: a guerra do Ultramar é a prioridade da política financeira, e não se lhe pode cortar uma fatia tão importante.
Já durante o café, o Prof. Galvão Telles tem então a chamada «inspiração divina», e diz ao seu colega:
- Ó Ulisses, esqueça por uns instantes que somos Ministros. O que lhe peço é um gesto pessoal, de amigo a amigo. Faça-me lá esse favor!
Resposta imediata de Ulisses Cortês:
- Ó meu caro Amigo: mas isso muda o caso de figura. Se me põe o problema dessa forma, o seu projecto será imediatamente aprovado!
 
Parafraseando Júlio Dantas, como é diferente a política, em Portugal!
 
 
Diogo Freitas do Amaral, Ao correr da memória: Pequenas histórias da minha vida, Lisboa, Bertrand, 2003.
 
 
 
 
Aí está a biografia de Mário Soares, em 851 páginas, da autoria do jornalista Joaquim Vieira, da esfera dos livros (2013). Depois do ensaio autobiográfico do político português, algures pelas estantes familiares, é um bom livro para a compreensão da figura e da época histórica que viveu e marcou.
Da leitura de memórias, autobiografias, entrevistas, biografias ou outros textos deste género, constrói-se uma imagem de um tempo já passado muito interessante, em que sobressai a componente humana e, até, casual dos acontecimentos que ganharam lugar nos registos da História. Outro aspecto, para já evidente, em casos tão diversos como os de Adriano Moreira ou Mário Soares, por exemplo, para além da qualidade intelectual, é a importância das ligações pessoais para a acção política.
Pergunto: será mesmo essa a natureza da política ou é uma particularidade da situação portuguesa? Nas leituras em curso, ressalta uma certa coerência de classe, isto é, não obstante as diferenças ideológicas e as singulares histórias de vida, em que os vários protagonistas estiveram tantas vezes em lados opostos da barricada, parece evidenciar-se uma certa linguagem e maneiras que designaria como sendo próprias da classe média, ou melhor, da burguesia. As formas de tratamento, aquilo que se dizia e o modo como se dizia, o que se calava, as solidariedades estabelecidas, as incompreensões, as concepções de vida, as circunstâncias das amizades e dos contactos criados no liceu, na universidade e noutras instituições, até mesmo, em alguns casos, as referências, ou ausência delas, a figuras populares ou pequenos episódios vividos com as massas, todos estes aspectos parecem constituir sinais de uma certa identidade de classe.



quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Injustiça

Em vez de ficar em casa enredada em papéis ou deprimente/depressiva (des)arrumação, um passeio. Trânsito entre paisagens aparentemente incomunicáveis: uma, urbana, serena, com elegantes em cultural cafetaria; outra, movel, atormentada, atravessada por gente batida em busca de transporte para o subúrbio ou mais além. Uns, harmoniosos, dando bom nome ao estilo casual; outros, retorcidos, lembrando que até o traje pode ser um grito ou feio esgar.

sábado, 7 de janeiro de 2012

A Ilha dos Amores

Para reflectir, com vista à compreensão de Os Lusíadas, estes recortes de um excelente texto de Vítor Manuel de Aguiar e Silva:

"[...] Na Ilha dos Amores, nos seus esponsais simbólicos com as ninfas e com Tétis, alcançam o apogeu da sua ascensão divinificatória os «barões assinalados» que acabavam de perfazer um dos grandes ciclos - não o ciclo supremo, como adiante diremos - da missão ecuménica do povo português. [...]"

"Nesta perspectiva, a empresa dos descobrimentos e o seu clímax, a viagem de Vasco da Gama em demanda da Índia, constituem a continuação, o prolongamento e a glorificação de uma hsitória que, desde há muito, vinha sendo urdida e de que tinham sido, eram e seriam agentes os guerreiros, os nautas, os missionários, os mártires e os sábios cujas figuras perpassam, quer sob a forma de narrativa, quer sob a forma de profecia, nos cantos de Os Lusíadas. E assim recobra plenitude de significado o próprio título do poema, pois o herói exaltado é efectivamente a totalidade concreta e orgânica de uma comunidade, visionada e glorificada na inconsútil urdidura do seu destino histórico, e não tão-somente cantada na crónica avulsa dos seus heróis e dos seus feitos. "  [Esta passagem foi retirada de uma citação mais longa que Aguiar e Silva faz de um estudo seu anterior a este - "Significado e estrutura de Os Lusíadas", Lisboa, 1972.]

"A missão ecuménica deste povo eleito, cumprida ao longo dos séculos por obscuros obreiros e por claros heróis, não culmina nem se esgota com a glorificação proporcionada aos mareantes lusitanos na Ilha dos Amores. O ciclo supremo dessa missão, coroamento e revelação cabal do sentido da história da comunidade lusíada, realizar-se-ia, segundo vaticina e anela Camões, num futuro próximo, quando el-rei D. Sebastião efectivasse enfim, em plenitude, o ideal cruzadístico que animou e guiou, como autêntica superestrutura ideológica, o Estado e o escol intelectual da Nação portuguesa no século de Quinhentos:"

"No texto de Os Lusíadas, este ciclo supremo do destino de Portugal apenas poderia figurar como desejo e profecia; no texto do acontecer histórico, escrito seis anos após a publicação da edição príncipe da epopeia, ficou assinalado como uma tragédia nacional... Os germes da decadência vinham corroendo desde há muito a grandeza material e moral da Pátria lusíada. Camões, embora comungando ardorosamente nesse sonho de cruzada e de império que soçobrou nos areais de Alcácer-Quibir, permanecia de mente bem lúcida para se dar conta, angustiosamente, dos sinais de decadência que estigmatizavam já o corpo e a alma da Nação."

Vítor Manuel de Aguiar e Silva, "Função e Significado do Episódio da «Ilha dos Amores» na Estrutura de Os Lusíadas" in Camões: Labirintos e Fascínios, Lisboa, Cotovia, 1994.

da identidade portuguesa

Leitura do Jornal de Letras. A figura central desta edição é Eduardo Lourenço, Prémio Pessoa. Sobre ele, e sobre o seu pensamento relativamente à identidade portuguesa, escreve Guilherme d'Oliveira Martins:

"No fundo, para o português uma identidade confinada não faz sentido. Ganhamos sempre que recebemos e dessa hospitalidade resultam perenidade e riqueza. Por isso mesmo, Eduardo Lourenço compreendeu melhor do que ninguém que em 1578-80 a figura central não foi D. Sebastião, mas Camões (com toda a sua riqueza épica e lírica), e que, ao modo de Vieira, o Desejado nunca poderia ser um morto ou um vencido, mas teria de ser alguém vivo - e, mais do que D. João IV, deveria ser o povo heterogéneo e difícil de interpretar, que deseja viver livre, com apego às viagens pelas Sete Partidas (talvez uma nova diáspora), à imagem e semelhança do Infante D. Pedro, duque de Coimbra (exemplo europeu e universalista), com uma alma pelo mundo repartida. Assim, a heterodoxia inconformista do escritor (discípulo à sua maneira, mas indiscutível, de Montaigne) considera a saudade fora da clausura do saudosismo, partindo das raízes antigas (D. Duarte, Nunes do Leão, Francisco Manuel e os românticos) e de Pascoaes (cujo talento enaltece) e chegando à fulgurante heteronomia de Fernando Pessoa."


Guilherme d'Oliveira Martins, "A Paixão das Ideias: Interrogador de Labirintos...", Jornal de Letras Artes e Ideias, 28/12/2011.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Um espelho no caminho

"A conversa recai sobre algumas figuras nacionais muito em voga. Num país como o nosso - rico de sentimentos, escasso de convicções -, todo aquele ou aquela que afirme opiniões de forma peremptória passa logo ao estatuto superior de personalidade. Invejável condição que confere, a quem dela beneficie, consideração e impunidade.
Quanto às ditas opiniões, pouco interessa averiguar do seu bom fundamento, tudo está no tom com que se enunciam. É quanto basta.
De facto, entre nós, o elogio ou, o seu contrário, a maledicência, raras vezes exprimem espírito crítico."


Marcello Duarte Mathias, Diário de Paris: 2001-2003, Lisboa, Oceanos, 2006, p. 261.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

O caminho da imortalidade

Janeiro inicia-se com Os Lusíadas. Não podíamos começar melhor, no ano dito da máxima crise. Assim, aqui fica um excerto das reflexões do poeta, no final do Canto IX, quando os marinheiros aportam à Ilha dos Amores e recebem o amoroso Prémio, reflexões estas que indicam o caminho a seguir, com vista à grandeza dos Homens e do Reino. Depois, esse excelente filme de Manoel de Oliveira que é Non ou a Vã Glória de Mandar (1990), de que se ressalva a cena inicial, com aquela árvore antiga e imponente (símbolo de Portugal?).

Mas a Fama, trombeta de obras tais,
Llhe deu no mundo nomes tão estranhos
De Deuses, Semideuses imortais,
Indígetes, Heróis e de Magnos.
Por isso, ó vós que as famas estimais,
Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
Despertai já do sono do ócio ignavo,
Que o ânimo, de livre, faz escravo.

E ponde na cobiça um freio duro,
E na ambição também, que indignamente
Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
Vício da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro puro,
Verdadeiro valor não dão à gente.
Milhor é merecê-lo sem o ter,
Que possuí-los sem os merecer.

Ou dai na paz as leis iguais, constantes,
Que aos grandes não dem o dos pequenos,
Ou vos vesti nas armas rutilantes,
Contra a lei dos imigos Sarracenos:
Fareis os Reinos grandes e possantes,
E todos tereis mais e nenhum menos:
Possuireis riquezas merecidas,
Com as honras que ilustram tanto as vidas.

E fareis claro o Rei que tanto amais,
Agora c'os conselhos bem cuidados,
Agora co'as espadas, que imortais
Vos farão, como os vossos já passados:
Impossibilidades não façais,
Que quem quis, sempre pôde; e numerados
Sereis entre os Heróis esclarecidos
E nesta Ilha de Vénus recebidos.

Luís de Camões, Os Lusíadas, Porto, Figueirinhas, 1978, Canto IX, estrofes 92-95 (edição de António José Saraiva).



Manoel de Oliveira, Non ou a Vã Glória de Mandar

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Leituras em tempos contrários

De regresso aos bons livros

Início da leitura de um livro interessante e consolador, nestes tempos tão contrários a qualquer esperança, consolador pela inteligência, pela cultura e pela coerência de uma vida conturbada.

Mário Soares, Um político assume-se: ensaio autobiográfico, político e ideológico, Lisboa, Temas e Debates/Círculo de Leitores, 2011.

Do Prefácio:

"De momento, e no seguimento do último livro que publiquei, Elogio da Política, vou apenas descrever-vos o meu itinerário político e ideológico - que vale o que vale; pouco, provavelmente - sujeito às circunstâncias do lugar e do tempo, nesta terra que sempre amei apaixonadamente, Portugal. O mar, a terra, a História, as pessoas, nas suas qualidades e defeitos, a luz e as paisagens, tudo isso me influenciou. Para além dos grandes eventos nacionais e mundiais, que segui com atenção - e em alguns participei - e me marcaram, a língua portuguesa, a única que falo corretamente, e a importância da Lusofonia."

"É uma reflexão sobre esse longo e conturbado caminho, com altos e baixos, acertos e desacertos, vitórias e derrotas, ao serviço do Povo Português, a que me honro de pertencer, que vos ofereço neste livro: uma espécie de autobiografia política e ideológica, orientada por valores humanistas e princípios éticos e políticos, que nunca abandonei."