sábado, 6 de julho de 2013

Calor

Leituras de sábado
 
José Tolentino Mendonça no Expresso ("que coisa são as nuvens: o elogio da pequena história", Revista, 06/07/2013)
 
"A vida é sempre mais. Sobra sempre vida à história que contámos dela."
 
"Talvez um dia nos preocupemos definitivamente mais com a pessoa que com a estrutura, com a singularidade mais do que com a afiliação. Talvez um dia uma palavra, um rosto ou um destino quaisquer, eleitos assim ao acaso, sirvam para revelar tudo: para nomear o entusiasmo e a dor, o vislumbre e o combate, a razão e o enigma que existir significou e significa."
 
"Restam as marcas de que estivemos aqui, de que habitámos estações diferentes com a mesma mansidão ou o mesmo furor, de que tentámos sobreviver ao amor, ao desamparo e à morte com tudo o que tínhamos à mão, de que partilhámos, de que cremos e negámos coisas diferentes e até a mesma coisa, de que coexistimos nos nossos encontros e na nossa irredutível solidão. Restam de nós vestígios, monumentos de vário tipo, pegadas. Resta o pó e o silêncio dos ossos. Mas não só: de uma forma que não sabemos, o escasso lume que fomos perdura e serve a outros para continuar."
 
 
[A História destes dias registará a infâmia, mas a vida revela-se nas pequenas pedrinhas do quotidiano: a praia, as reuniões e partilhas familiares, o telefonema da amiga, este sol esplendoroso derramado sobre a terra, a pele...]

sábado, 15 de junho de 2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

tempos de servidão


 
dos trabalhos do mundo corrompida
que servidões carrega a minha vida
 
 
Herberto Helder, Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013. 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

estes míseros ofícios

Ainda há pouco, a A.G. citava Herberto Helder. Que palavras tão lindas e tão conformes:

e com estes míseros ofícios
morrerei do meu muito terror e da nenhuma salvação da minha vida


Herberto Helder, Servidões, Lisboa, Assírio, 2013.


 
uma pausa nos tristes ofícios

As palavras têm honra


Crónica das Palavras
 
Há muito se perdeu a noção de que as palavras têm honra. Políticos servem-se delas para mentir, ocultar, dissimular a verdade dos factos e as evidências da realidade. Mas também escritores e jornalistas as debilitam e as entregam às suas pessoais negligências. Não é, somente, uma questão de gramática e de estilo; mas é, também, uma questão de gramática e de estilo. Há escritores e jornalistas que o não são à força de o querer ser. A confusão instalou-se, com a cumplicidade leviana de uma crítica pedânea e de um noticiário predisposto a perdoar a mediocridade e a fraude.
 
As palavras possuem cores secretas, odores subtis, densidades ignoradas. O discurso político conduz-nos ao nojo da frase. Pessoalmente, tento limpar o reiterado registo da aldrabice e da ignorância com a releitura dos nossos clássicos. Recomendo o paliativo. Eis-me às voltas com as Viagens na Minha Terra. Garrett não era, propriamente, uma flor imaculada. Mas foi um mestre inigualável na arte da escrita. Lembro-o porque, a seguir, revisitei o terceiro volume de As Farpas, onde Ramalho reproduz uma conversa com Herculano. O historiador retratou assim o seu companheiro de lutas liberais: “Por cem ou 200 moedas, num dia de apuro, o Garrett seria capaz de todas as porcarias que quiserem, menos de pôr num papel, a troco de todo o ouro do mundo, uma linha mal escrita.”
 
Desaprendeu-se (se é que, vez alguma, foi seriamente aprendido) o vocabulário da língua. Lê-se o por aí publicado e a pobreza lexical chega a ser confrangedora. Não se trata de simplicidade; antes, desconhecimento, incultura, ausência de estudo. “Foge de palavras velhas; mas não receies o uso de palavras antigas.” Recomendava Garrett. Palavras velhas, travestidas de “modernidade”, são, por exemplo: expectável, incontornável, enfatizar, implementar, recorrente, elencar, factível, plafonamento, exequível, checar, fraturante, imperdível, abrangente, atempadamente, alavancar, empolamento – e há mais.
 
Reconheço o meu verdete por certas palavras e expressões. Não é embirração de caturra, nem rabugice de um reta-pronúncia. Será o gosto da palavra, a alegria de com elas trabalhar há longuíssimos anos, a circunstância de ser um leitor com fôlego, o facto de ter tido professores como o gramático e linguista Emílio Menezes, goês paciente, sábio e afável; e de haver frequentado alguns dos maiores escritores do século passado, para os quais o ato de escrever representava moral em ação. Lembro, com emoção e orgulho, Aquilino, José Gomes Ferreira, Miguéis, Sena, Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Abelaira.
 
Esta crónica foi, também, um pretexto para os lembrar. 
 
 
Baptista-Bastos, Diário de Notícias, 04/02/2009.
 
(Texto publicado inicialmente noutro contexto de acordo com o AO, por dever de ofício)
 


sábado, 1 de junho de 2013

Herbero Helder

 
Herbero Helder, Servidões,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2013.
 
 
já não tenho mão com que escreva nem lâmpada,
pois se me fundiu a alma,
já nada em mim sabe quanto não sei
da noite através da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede
 
minha turva eternidade
e o tempo da terra monstruosa,
já nada tenho com que morrer depressa,
excepto
tanta hora somada  a nada:
acautela a tua dor que se não torne académica

 
Herbero Helder, Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Pedras e flores





Voz do meu amado   ei-lo que chega
corre pelos montes   salta nas colinas
o meu amado é semelhante a um gamo   ou a uma cria de gazela
ei-lo por detrás dos nossos muros
olha pelas janelas  espreita pelas frinchas
fala o meu amado e diz-me
levanta-te minha amada   minha bela vem para mim
pois o inverno já acabou   a chuva passou de vez
despontam flores na terra   chegou o tempo das canções
ouve-se na nossa terra   a voz da rola
a figueira brota seus frutos   e a vinha florida exala perfume
levanta-te minha amada   minha bela vem para mim.


Cântico dos Cânticos, Lisboa, Cotovia, 1999 (tradução do hebraico, introdução e notas de José Tolentino Mendonça; desenhos de Ilda David).

Sete rosas mais tarde



COM A PALAVRA-SEIXO na mão fechada,
esqueces que esqueces,

do pulso irrompem,
refulgentes, os sinais de pontuação,

pela terra fendida
como um pente
vêm as pausas a cavalo,

ali, junto
ao cacho de oferendas,
onde se extingue o fogo da memória,
apanha-vos O
Sopro.


DIZEM-ME QUE O MACHADO FLORIU,
dizem-me que não se pode nomear o lugar,

dizem-me que o pão que o olha
salva o enforcado,
o pão que  a mulher lhe cozeu,

dizem-me que chamam à vida 
o único refúgio.



Paul  Celan, Sete rosas mais tarde - Antologia poética, Lisboa, Cotovia, 1993 (selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno).



quarta-feira, 15 de maio de 2013

Morituri salutant

 ... vamos fugir de lugares mal frequentados e de palavras inacreditáveis, primeiro a rir e depois a recitar belas orações...


1- Um livro da 1ª classe que não frequentei


2- Uma estampinha da infância

Google images - Nossa Senhora de Fátima


3- Uma oração muito bela
Salve Rainha
Salve, Rainha, mãe de misericórdia,
vida, doçura, esperança nossa, salve.
A vós bradamos os degredados filhos de Eva.
A vós suspiramos, gemendo e chorando
neste vale de lágrimas.
Eia, pois, advogada nossa,
esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei,
e depois deste desterro mostrai-nos Jesus,
bendito fruto do vosso ventre,
Ó clemente, ó piedosa,
ó doce sempre Virgem Maria
V.: Rogai por nós Santa Mãe de Deus
R.: Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.


4- Um hino belíssimo

Hino Órfico à Noite
(Grécia)
Cantarei a criadora dos homens e deuses - cantarei a Noite.
Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,
ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.
A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do
mundo.



Herberto Helder, "O bebedouro nocturno", in Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Happy Days - Emily Dickinson

 
 
On a vintage shelf...

 
 

 
Emily Dickinson, poeta (poetisa) norte-americana, nascida a 10 de Dezembro de 1830, em Amherst, Massachusetts, e falecida na mesma cidade, a 15 de Maio de 1886. Entre estas duas datas poucos factos houve a registar, só os seus poemas brilham , esplendorosos.
 
O livro que agora se lê é de Jorge de Sena, que traduziu magistralmente 80 dos poemas de Dickinson, mas os originais, em inglês, resplandecem mais intensamente. Por exemplo:
 
 
 
A sepal, petal, anda a thorn
Upon a common summer's morn -
A flask of Dew - A Bee or two -
A Breeze - a caper in the trees -
And I'm a Rose!


Sépala, pétala, espinho,
Na vulgar manhã de Verão -
Brilho de orvalho - um abelha ou duas -
Brisa saltando nas árvores -
- E sou uma rosa!


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Some Days retired from the rest
In soft distinction lie
The Day that a Companion came
Or was obliged to die
 
 
Alguns Dias dos outros se separaram
Para com distinção adormecer -
O Dia em que um Companheiro chegou
Ou foi forçado a morrer.
 
 
Jorge de Sena, 80 poemas de Emily Dickinson (Tradução e apresentação), Obras Completas de Jorge de Sena, Lisboa, Edições 70, 1979.

segunda-feira, 13 de maio de 2013