Tirem-me deste filme.
sexta-feira, 19 de julho de 2013
quarta-feira, 10 de julho de 2013
sábado, 6 de julho de 2013
Calor
Leituras de sábado
José Tolentino Mendonça no Expresso ("que coisa são as nuvens: o elogio da pequena história", Revista, 06/07/2013)
"A vida é sempre mais. Sobra sempre vida à história que contámos dela."
"Talvez um dia nos preocupemos definitivamente mais com a pessoa que com a estrutura, com a singularidade mais do que com a afiliação. Talvez um dia uma palavra, um rosto ou um destino quaisquer, eleitos assim ao acaso, sirvam para revelar tudo: para nomear o entusiasmo e a dor, o vislumbre e o combate, a razão e o enigma que existir significou e significa."
"Restam as marcas de que estivemos aqui, de que habitámos estações diferentes com a mesma mansidão ou o mesmo furor, de que tentámos sobreviver ao amor, ao desamparo e à morte com tudo o que tínhamos à mão, de que partilhámos, de que cremos e negámos coisas diferentes e até a mesma coisa, de que coexistimos nos nossos encontros e na nossa irredutível solidão. Restam de nós vestígios, monumentos de vário tipo, pegadas. Resta o pó e o silêncio dos ossos. Mas não só: de uma forma que não sabemos, o escasso lume que fomos perdura e serve a outros para continuar."
[A História destes dias registará a infâmia, mas a vida revela-se nas pequenas pedrinhas do quotidiano: a praia, as reuniões e partilhas familiares, o telefonema da amiga, este sol esplendoroso derramado sobre a terra, a pele...]
segunda-feira, 24 de junho de 2013
sábado, 15 de junho de 2013
quinta-feira, 13 de junho de 2013
tempos de servidão
dos trabalhos do mundo corrompida
que servidões carrega a minha vida
Herberto Helder, Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013.
quarta-feira, 5 de junho de 2013
estes míseros ofícios
Ainda há pouco, a A.G. citava Herberto Helder. Que palavras tão lindas e tão conformes:
e com estes míseros ofícios
morrerei do meu muito terror e da nenhuma salvação da minha vida
Herberto Helder, Servidões, Lisboa, Assírio, 2013.
uma pausa nos tristes ofícios
As palavras têm honra
Crónica das
Palavras
Há
muito se perdeu a noção de que as palavras têm honra. Políticos servem-se
delas para mentir, ocultar, dissimular a verdade dos factos e as evidências
da realidade. Mas também escritores e jornalistas as debilitam e as entregam
às suas pessoais negligências. Não é, somente, uma questão de gramática e de
estilo; mas é, também, uma questão de gramática e de estilo. Há escritores e
jornalistas que o não são à força de o querer ser. A confusão instalou-se,
com a cumplicidade leviana de uma crítica pedânea
e de um noticiário predisposto a perdoar a mediocridade e a fraude.
As
palavras possuem cores secretas, odores subtis, densidades ignoradas. O
discurso político conduz-nos ao nojo da frase. Pessoalmente, tento limpar o
reiterado registo da aldrabice e da ignorância com a releitura dos nossos
clássicos. Recomendo o paliativo.
Eis-me às voltas com as Viagens na
Minha Terra. Garrett não era, propriamente, uma flor imaculada. Mas foi
um mestre inigualável na arte da escrita. Lembro-o porque, a seguir,
revisitei o terceiro volume de As
Farpas, onde Ramalho reproduz uma conversa com Herculano.
O historiador retratou assim o seu companheiro de lutas liberais: “Por cem ou
200 moedas, num dia de apuro, o Garrett seria capaz de todas as porcarias que
quiserem, menos de pôr num papel, a troco de todo o ouro do mundo, uma linha
mal escrita.”
Desaprendeu-se
(se é que, vez alguma, foi seriamente aprendido) o vocabulário da língua.
Lê-se o por aí publicado e a pobreza lexical chega a ser confrangedora. Não
se trata de simplicidade; antes, desconhecimento, incultura, ausência de
estudo. “Foge de palavras velhas; mas não receies o uso de palavras antigas.”
Recomendava Garrett. Palavras velhas, travestidas de “modernidade”, são, por
exemplo: expectável, incontornável, enfatizar, implementar, recorrente,
elencar, factível, plafonamento, exequível, checar, fraturante, imperdível,
abrangente, atempadamente, alavancar, empolamento – e há mais.
Reconheço
o meu verdete por certas palavras e expressões. Não é embirração de caturra,
nem rabugice de um reta-pronúncia. Será o gosto da palavra, a alegria de com
elas trabalhar há longuíssimos anos, a circunstância de ser um leitor com
fôlego, o facto de ter tido professores como o gramático e linguista Emílio
Menezes, goês paciente, sábio e afável; e de haver frequentado alguns dos
maiores escritores do século passado, para os quais o ato de escrever
representava moral em ação. Lembro, com emoção e orgulho, Aquilino, José
Gomes Ferreira, Miguéis, Sena, Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, Manuel da
Fonseca, Abelaira.
Esta
crónica foi, também, um pretexto para os lembrar.
Baptista-Bastos, Diário de Notícias, 04/02/2009.
(Texto publicado inicialmente noutro contexto de acordo com o AO, por dever de ofício)
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sábado, 1 de junho de 2013
Herbero Helder
Herbero Helder, Servidões,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2013.
já não tenho mão com que escreva nem lâmpada,
pois se me fundiu a alma,
já nada em mim sabe quanto não sei
da noite através da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede
minha turva eternidade
e o tempo da terra monstruosa,
já nada tenho com que morrer depressa,
excepto
tanta hora somada a nada:
acautela a tua dor que se não torne académica
Herbero Helder, Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013.
quarta-feira, 22 de maio de 2013
segunda-feira, 20 de maio de 2013
Pedras e flores
Voz do meu amado ei-lo que chega
corre pelos montes salta nas colinas
o meu amado é semelhante a um gamo ou a uma cria de gazela
ei-lo por detrás dos nossos muros
olha pelas janelas espreita pelas frinchas
fala o meu amado e diz-me
levanta-te minha amada minha bela vem para mim
pois o inverno já acabou a chuva passou de vez
despontam flores na terra chegou o tempo das canções
ouve-se na nossa terra a voz da rola
a figueira brota seus frutos e a vinha florida exala perfume
levanta-te minha amada minha bela vem para mim.
Cântico dos Cânticos, Lisboa, Cotovia, 1999 (tradução do hebraico, introdução e notas de José Tolentino Mendonça; desenhos de Ilda David).
Sete rosas mais tarde
COM A PALAVRA-SEIXO na mão fechada,
esqueces que esqueces,
do pulso irrompem,
refulgentes, os sinais de pontuação,
pela terra fendida
como um pente
vêm as pausas a cavalo,
ali, junto
ao cacho de oferendas,
onde se extingue o fogo da memória,
apanha-vos O
Sopro.
DIZEM-ME QUE O MACHADO FLORIU,
dizem-me que não se pode nomear o lugar,
dizem-me que o pão que o olha
salva o enforcado,
o pão que a mulher lhe cozeu,
dizem-me que chamam à vida
o único refúgio.
Paul Celan, Sete rosas mais tarde - Antologia poética, Lisboa, Cotovia, 1993 (selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno).
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Morituri salutant
... vamos fugir de lugares mal frequentados e de palavras inacreditáveis, primeiro a rir e depois a recitar belas orações...
1- Um livro da 1ª classe que não frequentei
2- Uma estampinha da infância
Google images - Nossa Senhora de Fátima
3- Uma oração muito bela
Salve Rainha
- Salve, Rainha, mãe de misericórdia,
- vida, doçura, esperança nossa, salve.
- A vós bradamos os degredados filhos de Eva.
- A vós suspiramos, gemendo e chorando
- neste vale de lágrimas.
- Eia, pois, advogada nossa,
- esses vossos olhos misericordiosos a nós volvei,
- e depois deste desterro mostrai-nos Jesus,
- bendito fruto do vosso ventre,
- Ó clemente, ó piedosa,
- ó doce sempre Virgem Maria
- V.: Rogai por nós Santa Mãe de Deus
- R.: Para que sejamos dignos das promessas de Cristo.
4- Um hino belíssimo
Hino Órfico à Noite
(Grécia)
Cantarei a criadora dos homens e deuses - cantarei a Noite.
Noite, fonte universal.
Ó forte divindade ardendo com as estrelas, Sol negro,
invadida pela paz e o tranquilo e múltiplo sono,
ó Felicidade e Encantamento, Rainha das vigílias, Mãe do sonho,
e Consoladora, onde as misérias repousam as campânulas de sangue,
ó Embaladora, Cavaleira, Luz Negra, Amiga Geral,
ó Incompleta, alternadamente terrestre e celeste,
ó Arredondada no meio das forças tenebrosas,
leve afastando a luz da casa dos mortos e de novo te afastando tu própria.
A terrível Fatalidade é a mãe de todas as coisas,
ó Noite Maravilhosa, Constelação Calma, Ternura Secreta do Tempo,
escuta, ó Indulgente Antiga, a imploração terrena,
e aparece com teu rosto obscuro e lento no meio dos vivos terrores do
mundo.
Herberto Helder, "O bebedouro nocturno", in Poesia Toda, Lisboa, Assírio & Alvim, 1990.
terça-feira, 14 de maio de 2013
Happy Days - Emily Dickinson
On a vintage shelf...
Emily Dickinson, poeta (poetisa) norte-americana, nascida a 10 de Dezembro de 1830, em Amherst, Massachusetts, e falecida na mesma cidade, a 15 de Maio de 1886. Entre estas duas datas poucos factos houve a registar, só os seus poemas brilham , esplendorosos.
O livro que agora se lê é de Jorge de Sena, que traduziu magistralmente 80 dos poemas de Dickinson, mas os originais, em inglês, resplandecem mais intensamente. Por exemplo:
A sepal, petal, anda a thorn
Upon a common summer's morn -
A flask of Dew - A Bee or two -
A Breeze - a caper in the trees -
And I'm a Rose!
Sépala, pétala, espinho,
Na vulgar manhã de Verão -
Brilho de orvalho - um abelha ou duas -
Brisa saltando nas árvores -
- E sou uma rosa!
.................
Some Days retired from the rest
Upon a common summer's morn -
A flask of Dew - A Bee or two -
A Breeze - a caper in the trees -
And I'm a Rose!
Sépala, pétala, espinho,
Na vulgar manhã de Verão -
Brilho de orvalho - um abelha ou duas -
Brisa saltando nas árvores -
- E sou uma rosa!
.................
Some Days retired from the rest
In soft distinction lie
The Day that a Companion came
Or was obliged to die
Alguns Dias dos outros se separaram
Para com distinção adormecer -
O Dia em que um Companheiro chegou
Ou foi forçado a morrer.
Jorge de Sena, 80 poemas de Emily Dickinson (Tradução e apresentação), Obras Completas de Jorge de Sena, Lisboa, Edições 70, 1979.
segunda-feira, 13 de maio de 2013
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