terça-feira, 13 de agosto de 2013

Letters of Note

"My husband is not a common man"

Interessante carta de George Bernard Shaw a uma admiradora insistente, simulando ser a sua mulher. Muito interessante.
 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Novas leituras

 
 

... arrumam-se estantes, e são mais os livros que ficaram por ler do que aqueles que alegraram os dias. Este, por exemplo. Belíssimo primeiro parágrafo (já está sobre a mesa de leitura):

"As palavras, como os seres vivos, nascem de vocábulos anteriores, desenvolvem-se e fatalmente morrem. As mais afortunadas reproduzem-se. Há-as de índole agreste, cuja simples presença fere e degrada, e outras que de tão amoráveis tudo à sua volta suavizam. Estas iluminam, aquelas confundem. Umas são selvagens, irascíveis, cheiram mal dos pés, fungam e cospem no chão. Outras, logo ao lado, parecem altivas e delicadas orquídeas."

José Eduardo Agualusa, Milagrário Pessoal: romance, Lisboa, D. Quixote, 2010.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O filme já é outro ...

A leitora foi à praia, para lá do Tejo. Foram dias muito bem passados, a costa vicentina é mesmo linda; não se enganaram Rui Veloso e Carlos Tê. 




"Porto Côvo" (1986)
 
Rui Veloso e Carlos Tê

Roendo uma laranja na falésia
Olhando o mundo azul à minha frente,
Ouvindo um rouxinol na redondeza,
No calmo improviso do poente

Em baixo fogos trémulos nas tendas
Ao largo as aguas brilham como pratas
E a brisa vai contando velhas lendas
De portos e baías de piratas

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo

A lua já desceu sobre esta paz
E reina sobre todo este luzeiro
À volta toda a vida se compraz
Enquanto um sargo assa no braseiro

Ao longe a cidadela de um navio
Acende-se no mar como um desejo
Por trás de mim o bafo do destino
Devolve-me à lembrança do Alentejo

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo

Roendo uma laranja na falésia
Olhando à minha frente o azul escuro
Podia ser um peixe na maré
Nadando sem passado nem futuro

Havia um pessegueiro na ilha
Plantado por um Vizir de Odemira
Que dizem que por amor se matou novo
Aqui, no lugar de Porto Côvo
 

sábado, 6 de julho de 2013

Calor

Leituras de sábado
 
José Tolentino Mendonça no Expresso ("que coisa são as nuvens: o elogio da pequena história", Revista, 06/07/2013)
 
"A vida é sempre mais. Sobra sempre vida à história que contámos dela."
 
"Talvez um dia nos preocupemos definitivamente mais com a pessoa que com a estrutura, com a singularidade mais do que com a afiliação. Talvez um dia uma palavra, um rosto ou um destino quaisquer, eleitos assim ao acaso, sirvam para revelar tudo: para nomear o entusiasmo e a dor, o vislumbre e o combate, a razão e o enigma que existir significou e significa."
 
"Restam as marcas de que estivemos aqui, de que habitámos estações diferentes com a mesma mansidão ou o mesmo furor, de que tentámos sobreviver ao amor, ao desamparo e à morte com tudo o que tínhamos à mão, de que partilhámos, de que cremos e negámos coisas diferentes e até a mesma coisa, de que coexistimos nos nossos encontros e na nossa irredutível solidão. Restam de nós vestígios, monumentos de vário tipo, pegadas. Resta o pó e o silêncio dos ossos. Mas não só: de uma forma que não sabemos, o escasso lume que fomos perdura e serve a outros para continuar."
 
 
[A História destes dias registará a infâmia, mas a vida revela-se nas pequenas pedrinhas do quotidiano: a praia, as reuniões e partilhas familiares, o telefonema da amiga, este sol esplendoroso derramado sobre a terra, a pele...]

sábado, 15 de junho de 2013

quinta-feira, 13 de junho de 2013

tempos de servidão


 
dos trabalhos do mundo corrompida
que servidões carrega a minha vida
 
 
Herberto Helder, Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013. 

quarta-feira, 5 de junho de 2013

estes míseros ofícios

Ainda há pouco, a A.G. citava Herberto Helder. Que palavras tão lindas e tão conformes:

e com estes míseros ofícios
morrerei do meu muito terror e da nenhuma salvação da minha vida


Herberto Helder, Servidões, Lisboa, Assírio, 2013.


 
uma pausa nos tristes ofícios

As palavras têm honra


Crónica das Palavras
 
Há muito se perdeu a noção de que as palavras têm honra. Políticos servem-se delas para mentir, ocultar, dissimular a verdade dos factos e as evidências da realidade. Mas também escritores e jornalistas as debilitam e as entregam às suas pessoais negligências. Não é, somente, uma questão de gramática e de estilo; mas é, também, uma questão de gramática e de estilo. Há escritores e jornalistas que o não são à força de o querer ser. A confusão instalou-se, com a cumplicidade leviana de uma crítica pedânea e de um noticiário predisposto a perdoar a mediocridade e a fraude.
 
As palavras possuem cores secretas, odores subtis, densidades ignoradas. O discurso político conduz-nos ao nojo da frase. Pessoalmente, tento limpar o reiterado registo da aldrabice e da ignorância com a releitura dos nossos clássicos. Recomendo o paliativo. Eis-me às voltas com as Viagens na Minha Terra. Garrett não era, propriamente, uma flor imaculada. Mas foi um mestre inigualável na arte da escrita. Lembro-o porque, a seguir, revisitei o terceiro volume de As Farpas, onde Ramalho reproduz uma conversa com Herculano. O historiador retratou assim o seu companheiro de lutas liberais: “Por cem ou 200 moedas, num dia de apuro, o Garrett seria capaz de todas as porcarias que quiserem, menos de pôr num papel, a troco de todo o ouro do mundo, uma linha mal escrita.”
 
Desaprendeu-se (se é que, vez alguma, foi seriamente aprendido) o vocabulário da língua. Lê-se o por aí publicado e a pobreza lexical chega a ser confrangedora. Não se trata de simplicidade; antes, desconhecimento, incultura, ausência de estudo. “Foge de palavras velhas; mas não receies o uso de palavras antigas.” Recomendava Garrett. Palavras velhas, travestidas de “modernidade”, são, por exemplo: expectável, incontornável, enfatizar, implementar, recorrente, elencar, factível, plafonamento, exequível, checar, fraturante, imperdível, abrangente, atempadamente, alavancar, empolamento – e há mais.
 
Reconheço o meu verdete por certas palavras e expressões. Não é embirração de caturra, nem rabugice de um reta-pronúncia. Será o gosto da palavra, a alegria de com elas trabalhar há longuíssimos anos, a circunstância de ser um leitor com fôlego, o facto de ter tido professores como o gramático e linguista Emílio Menezes, goês paciente, sábio e afável; e de haver frequentado alguns dos maiores escritores do século passado, para os quais o ato de escrever representava moral em ação. Lembro, com emoção e orgulho, Aquilino, José Gomes Ferreira, Miguéis, Sena, Mário Dionísio, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Abelaira.
 
Esta crónica foi, também, um pretexto para os lembrar. 
 
 
Baptista-Bastos, Diário de Notícias, 04/02/2009.
 
(Texto publicado inicialmente noutro contexto de acordo com o AO, por dever de ofício)
 


sábado, 1 de junho de 2013

Herbero Helder

 
Herbero Helder, Servidões,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2013.
 
 
já não tenho mão com que escreva nem lâmpada,
pois se me fundiu a alma,
já nada em mim sabe quanto não sei
da noite através da luz: livros, frutas na mesa, o relógio que mede
 
minha turva eternidade
e o tempo da terra monstruosa,
já nada tenho com que morrer depressa,
excepto
tanta hora somada  a nada:
acautela a tua dor que se não torne académica

 
Herbero Helder, Servidões, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013.

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Pedras e flores





Voz do meu amado   ei-lo que chega
corre pelos montes   salta nas colinas
o meu amado é semelhante a um gamo   ou a uma cria de gazela
ei-lo por detrás dos nossos muros
olha pelas janelas  espreita pelas frinchas
fala o meu amado e diz-me
levanta-te minha amada   minha bela vem para mim
pois o inverno já acabou   a chuva passou de vez
despontam flores na terra   chegou o tempo das canções
ouve-se na nossa terra   a voz da rola
a figueira brota seus frutos   e a vinha florida exala perfume
levanta-te minha amada   minha bela vem para mim.


Cântico dos Cânticos, Lisboa, Cotovia, 1999 (tradução do hebraico, introdução e notas de José Tolentino Mendonça; desenhos de Ilda David).

Sete rosas mais tarde



COM A PALAVRA-SEIXO na mão fechada,
esqueces que esqueces,

do pulso irrompem,
refulgentes, os sinais de pontuação,

pela terra fendida
como um pente
vêm as pausas a cavalo,

ali, junto
ao cacho de oferendas,
onde se extingue o fogo da memória,
apanha-vos O
Sopro.


DIZEM-ME QUE O MACHADO FLORIU,
dizem-me que não se pode nomear o lugar,

dizem-me que o pão que o olha
salva o enforcado,
o pão que  a mulher lhe cozeu,

dizem-me que chamam à vida 
o único refúgio.



Paul  Celan, Sete rosas mais tarde - Antologia poética, Lisboa, Cotovia, 1993 (selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno).