quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Diário de Maria Amélia XI



Às voltas com os pedregulhos, olho para o lado, e que vejo eu? Um aforismo, desses que se encontram nos centros comerciais, mais precisamente, à venda na Loja do Gato Preto. Apetece largar tudo e correr para o sol, se os dias fossem propícios, mas não. O dever doma as pulsões e o corpo permanece fixo na cadeira, os olhos vagueiam, as mãos nem sei. Ficamos, é certo. Se não for esmagada pelo número, chegarei ao fim dos trabalhos.  

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Má raça

Tiro os brincos, dispo as vestes pudicas e burras, fico com as botas altas. E leio livros negros.




escrevo-te em vidro
por assim achar que
desenho
o cálculo efémero das possíveis transparências mas
o pé descalço sobre a linha sofre
as cócegas das hastes cegas da
palavra
correndo destinos que desaguam no
soalho atapetado pelos jornais
do dia pudico e burro


João Paulo Cotrim (poemas) e Alex Gozblau (ilustrações, design e logótipo convidado), má raça: 22 canções, Lisboa, Abysmo, 2012.

Na fotografia vê-se parte da capa do livro: João Paulo Cotrim e António Cabrita, O branco das sombras chinesas: divertimento, Lisboa, Abysmo, 2011 (ilustracões de João Fazenda).


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Do ferro e outras escapadelas

Rui Chafes no CAM - Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian - O Peso do Paraíso - 13 de Fevereiro a 18 de Maio.


O dia estava soalheiro, ao contrário do habitual, óptimo para uma corrida ao CAM. Queria ver esta exposição e não me arrependi, mesmo que tivesse de fintar o tempo. Rui Chafes apresenta uma mostra antológica, com várias peças surpreendentes pela sua singularidade e pela leveza. De facto, não esperava que o ferro pudesse expressar tanta delicadeza, nas suas curvas e redondas formas; ainda assim, a sugestão da violência, geralmente associada a esta matéria, não estava ausente: penso nas pernas-botas suspensas, nos objectos longos, a lembrar alfaias agrícolas ou de guerra, nas argolas (de prisioneiros?), no que pareciam ser cintos de castidade...


Enquanto passava pela nave central do CAM, onde está a parte principal da exposição, antevia as esculturas que estão no jardim, espaço pelo qual a mostra se prolonga. Parece-me que estas peças ganham em estar fora do museu, ganham outra vida e têm uma intensidade maior em diálogo com a natureza e outras formas de vivência humana.




Para além de Rui Chafes, João Tabarra também expõe no CAM - Narrativa Interior - 13 de Fevereiro a 18 de Maio.

Não conhecia. Gostei, pelo humor, pela auto-ironia, pelo olhar crítica sobre si próprio e o mundo. Aqui ficam duas fotografias que o revelam:



No final, um café no bar, à sombra destas duas esculturas de Rui Chafes; em primeiro plano vê-se a peça "A minha vida que acabará no dia em que principiar" (Ferro, col. do Artista, 2013). Belo título, não é?


Palavras de Rui Chafes sobre a sua obra, no Público: 


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Gramáticas de Português

 
 
Gosto de gramáticas. Hoje vieram os dois volumes da Gramática do Português, editada pela Fundação Calouste Gulbenkian, em outubro de 2013:
 
 
RAPOSO, Eduardo Buzagalo Paiva et alii (2013). Gramática do Português. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian (Vol. I e II).
 
 
A capa é bastante original: capa preta e sobrecapa também preta, dobrada e deixando ver parte de uma reprodução do quadro Alfabeto I, de João Vieira, de 1981.
 
Quanto à conceção da obra, os seus organizadores são claros, como se lê na contracapa:
 
"A Gramática do Português é uma obra em que se descreve o português europeu culto contemporâneo. Inclui igualmente informação sobre variedades regionais portuguesas e sobre o português do Brasil, de Angola e de Moçambique, assim como sobre a origem e evolução da língua.
Beneficiando dos resultados mais recentes da investigação em linguística, é acessível a não especialistas e destina-se a um público que pretende dispor de uma obra de referência sobre as principais questões da gramática do português, bem articuladas entre si e claramente expostas. Será de particular utilidade para estudantes do ensino superior, professores de português, autores de manuais e gramáticas escolares, jornalistas e tradutores, que nela poderão encontrar uma descrição dos fenómenos gramaticais e uma explicação clara dos conceitos e termos mais importantes usados na descrição linguística. Esta Gramática vem colmatar a ausência de uma obra de referência de descrição do português que satisfaça as necessidades de públicos diferenciados, já que as gramáticas existentes ou são excessivamente técnicas ou são demasiado simples e breves, pensadas com o objetivo restrito de acompanharem os currículos escolares. [...]"
 
 Muito bem; já tardava.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Leituras - janelas de liberdade


A situação das bibliotecas escolares em Portugal é muito diversa. Algumas ainda estão à procura das condições físicas e de recursos, outras, apesar de constrangimentos específicos, já procuram ser mais ativas. Ao professor bibliotecário, elemento crucial neste espaço, muito é pedido: "competências em biblioteconomia, tecnologias e em gestão da informação, outros conhecimentos muito diversificados nas áreas da pedagogia, psicologia, economia, sociologia, ética", e, acrescentaria, política, lato sensu.

Se considerarmos que o conhecimento, hoje, já não está fechado em recônditos edifícios acessíveis só a alguns e que a sociedade exige que os cidadãos interajam e acedam rapidamente a informação relevante para resolverem problemas, parece evidente que as escolas têm de responder às necessidades emergentes. Neste sentido, é muito pertinente que integrem as potencialidades das tecnologias da informação e comunicação e da web 2.0, desde logo adaptando as suas bibliotecas a esta realidade. Como? O artigo de Natividade Santos, Angélica Monteiro e Paula Carqueja apresenta exemplos do uso das ferramentas disponíveis: blogues, wikis, RSS, FEEDS, Bookmarking Social, partilha de imagem, som e vídeo em sites grátis de fácil gestão, redes sociais, ambientes virtuis, QR Code. É um mundo fascinante! Creio que o futuro passa por aqui, que é irrecusável e desafiante, que as escolas serão muito mais interessantes e eficazes quando conseguirem mover-se fluentemente nesta forma de comunicação, nesta linguagem.
 
Referências bibliográficas:
Natividade Santos et alii., "A Integração da Web 2.0 nas Bibliotecas Escolares" in MOREIRA, J. A. & MONTEIRO, A. (Orgs.) (2012). Ensinar e Aprender Online com Tecnologias Digitais: Abordagens Teóricas e Metodológicas. Porto: Porto Editora.


Do que acima se escreveu, não se infira que a leitora abandonou o pó dos livros, para se entregar aos tácteis ecrãs! O amor aos livros nunca acaba e não é incompatível com outras tecnologias; simplesmente as maneiras de ler são diversas, assim como diversas são as intenções de quem se acerca da palavra escrita. De facto, se a leitura online se adequa à rapidez do trabalho, que requer informação imediata ou consulta digital de obras guardadas em bibliotecas distantes (não raro, fisicamente inacessíveis aos comuns dos mortais), já a reflexão ou o prazer requerem outras demoras, mais compatíveis com a materialidade do livro e do movimento das suas folhas. 

As bibliotecas do futuro - da escola primária à universidade, até à vida futura