domingo, 23 de março de 2014

Primaverar




SO-NETO JORGE, Luiza

A silabar que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu deslizo:
sismos, orgasmos, tremem-lhe no olhar
enquanto eu, quase a rimar, exulto.

Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos, um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.

Nos desertos - íntimos, insuspeitos -
já caem com a calma as avestruzes
- ou a distância, com os oásis, finda; 

à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego, e à vinda.

Luiza Neto Jorge, Poesia 1960-1989, Lisboa, Assírio e Alvim, 2001.

[Um dia as estantes estarão arrumadas; a vida arrumadinha.]

sábado, 22 de março de 2014

Leituras de Sábado

Folhear os jornais de Sábado é um acto de estupefacção. As páginas passam e pasma-se para a evidência das malfeitorias e dos seus propósitos. 

José Rentes de Carvalho dá uma entrevista ao Expresso (Atual), sobre o seu livro Portugal, a Flor, e a Foice, de 1975, editado agora em Portugal, pela primeira vez, porque antes ninguém o quis fazer. Muito interessante, como o livro também será. A ler, portanto. 

A páginas tantas, refere:

"Era tudo a mesma massa. Não conheciam o povo. Mesmo os neorrealistas e adjacentes. O que mais tinham em comum era o facto de frequentarem todos os mesmo cafés de Lisboa. Há muita gente que ainda diz: «Ah, eu ia muito ao café Gelo». Eu também passei pelo café Gelo, era um puto, tinha uns 19 ou 20 anos. Olhei e fui-me embora. Fui à minha vida." (p. 9)

Quem não ouviu já este discurso ou estas referências? Pois. José Rentes de Carvalho foi à sua vida e, talvez por isso, a sua obra levou tempo a chegar às livrarias portuguesas. Recordo um programa de televisão, cultural, em que a apresentadora e o seu convidado, o mesmo José Rentes de Carvalho, seguiam veredas mentais muito diversas. O pretexto para a conversa fora a publicação de La Coca, mas a entrevistadora não conheceria muito do "bom" povo retratado no romance, enquanto o entrevistado não estaria muito envolvido no discurso habitual de tais lugares televisivos. 

Lá para o fim do Atual, é Maria Filomena Mónica a entrevistada. É a segunda entrevista sobre o tema, esta semana, a primeira foi ao Diário de Notícias, salvo erro. A socióloga pronuncia-se sobre o estudo que fez da escola pública portuguesa e dá a sua perspectiva, em estilo provocador e exuberante, como lhe é próprio. No terreno, já se ouviram algumas observações defensivas sobre o assunto, sem que ninguém tenha lido o livro. Nesta casa, também não se leu, mas das entrevistas não veio matéria para surpresas. As palavras de MFM retratam alguma realidade, ainda que aqui ou ali se saliente aquilo que é apenas o extremado. Mas, antes de outras considerações, é melhor ler o dito livro e fundamentar a opinião.   

Ressalva-se apenas estas passagens, para as cotejar com uma outra de Rentes de Carvalho:

"(...) As classes médias devem manter os filhos nas escolas públicas não só pelas escolas como por eles. Se uma escola pública tiver um terço das crianças das classes médias melhora, porque os pais das classes médias são mais articulados e reivindicativos. Por outro lado, manter os meninos dentro de um aquário onde só conhecem meninos iguais a eles castra-os. A diversidade da natureza humana é benéfica." (p. 44)

"(...) pela primeira vez desde Afonso Henriques há mobilidade social descendente. Muitos dos que hoje vão para Angola, há 40 anos teriam sido colocados nas empresas dos «tios» pelos pais. Esta mobilidade descendente é um fenómeno totalmente novo. Não está estudado, mas pela minha evidência empírica está de facto a acontecer. E é bom que aconteça: primeiro, porque as classes altas portuguesas não davam muito valor à cultura; segundo, porque estes meninos não tinham de competir ou apenas competiam entre «primos» e «primos». Portugal continua a ser o país mais desigual da União Europeia, mas já começa a ver alguns filhos das classes trabalhadoras a ascenderem. Isso é bom." (p. 44) 

E, agora, o escritor transmontano:

"(...) As elites portuguesas nunca foram consistentes. Ou só foram num aspecto: o do ganho pessoal. Eu vivo na Holanda, um país rico, mas com um sentimento social muito desenvolvido. As pessoas que têm fortuna sentir-se-iam envergonhadas se não contribuíssem de alguma maneira para a sociedade, apoiando um museu, uma orquestra, uma escola, seja o que for. Há uma solidariedade, mesmo em relação ao anónimo que sofre em qualquer parte de África, que eu nunca vi em Portugal. Costumo dizer que no Museu das Janelas Verdes só há arte que foi roubada dos conventos, mas não há nada oferecido pelas famílias ricas, que, podendo contribuir para o bem comum, nunca o fizeram. (...)" (pp. 8-9)

Que tristeza! Só Tolentino Mendonça para elevar o ânimo:

"(...) a primavera faz de nós testemunhas da revitalização do mundo. Desde o fio de erva à vegetação mais grandiosa, tudo passa por um processo de rejuvenescimento." Revista (p. 6)

Citações do Expresso de 22/03/2014, as primeiras do suplemento Atual, a última da Revista (J. Rentes de Carvalho: "Voltar a Abril" - entrevista de José Mário Silva; Maria Filomena Mónica: "Má escola" - entrevista de Cristina Margato. J. Tolentino Mendonça, "Que coisa são as nuvens: primaverar").

quinta-feira, 20 de março de 2014

A Primavera chega hoje às 16:57, dizem.

Dirk Stoop, Terreiro do Paço no Século XVII - 1662 
(Museu da Cidade)

A esta hora entre os blocos de prédios enevoados
          a bela mancha diurna dos calceteiros na praça
e os dois amantes que hoje não dormiram vão partir nos
          braços da sua estrela
à beira do caminho ladeado de sebes de espinheiro
uma carta
uma letra muito fina             extremamente caligráfica
onde a aventura do homem que devolve as palavras que
          lhe são remetidas
deixou a sua marca
e o duque da terceira levanta o braço
comentado de seguida pelas aves que acordam a duzentos e
          mais metros de altura
o que não é ainda grande altura
sim sim
                        não não
                                                     quem sabe

[...]

Mário Cesariny, o primeiro livro de Mário Cesariny - Corpo Visível: Poema - Assírio e Alvim e Fundação Cupertino de Miranda, 2010.


Intervenção de Cruzeiro Seixas no seu exemplar dedicado de Corpo Visível.
Este postal foi publicado por ocasião de:
Mário Cesariny - Encontros IV
Fundação Cupertino de Miranda, Famalicão, 25 a 27 de Novembro de 2010.

terça-feira, 18 de março de 2014

Diário de Maria Amélia XII

= «Castigo», pesado e monótono = «Agonia» (S.)

S., a propósito de TTIs, envelopes, pedregulhos, pérolas + reacção/comentário de MA.

Maria Amélia não compreende seu castigo, por isso folheia dicionários; procura estabelecer os contornos da patologia ou, tão-só, evadir-se.

Agonia é uma palavra bonita, assim como agónico, já agoniado desgosta, lembra vómito e outras náuseas.

O que dizem os dicionários?

Dicionário de Sinónimos (Porto Editora:1999)

Agonia: açodamento; aflição; agoniação: angústia; ânsia; ansiedade; arrancos; desfalecimento; desfecho; desgosto; discussão; enjoo; estertor; fim; final; inquietação; matírio; náusea; perigo; pressa; ralho; temor; transe; vascas; zanga

Agoniado: aflito; afrontado; ansioso; exaltado; indisposto; insofrido; triste

Agónico: merencório; triste

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (Círculo de Leitores: 2007) 
[só se retiraram algumas informações dos verbetes]

Agonia: (s. XV) 1. estertor; 2. Mús toque especial do sino para anunciar aos fiéis a morte de laguém; 3. fig declínio que precede o fim; últimos momentos; 4. fig forma de aflição ou sofrimento agudo, de origem física ou moral; 5. inf ânsia provocada por enjoo ou náusea; desejo veemente; ansiedade; ânsia; 7. B inf pressa; açodamento; 8. B inf incapacidade de tomar decisão; indecisão. ETIM gr "agonia, as luta nos jogos, exercício em geral, combate, agitação da alma, angústia, aflição", pelo lat agonia, ae, "vítima sagrada, ansiedade, dor, perturbação

Agoniado: 1. que sente agonia, estertores de aflição e morte; ansiado, agonizado; 4. fig dominado por amargura, por tristeza. mortificado

Agónico: 1. que se encontra na agonia; 2. Med relativo ou próprio da agonia

(E para piorar, todos os dicionários desta casa empapelada seguem a ortografia não oficial! É um caso agudo de humor merencório, digo eu.)


Imagem retirada do Facebook: Sr. Teste

domingo, 16 de março de 2014

Poesia

Hoje, o sol esplendecia, abriam-se as janelas, abriam-se as flores nos raminhos, abriam-se as simpatias. Até o Facebook foi invadido por fotografias solares: as pessoas saíram das suas casas para passear na praia, no campo, nos jardins das cidades ou para praticarem desporto, com destaque para as caminhadas e as voltas de bicicleta. Nessa ágora digital, a meteorologia também acordou a veia poética dos amigos da Primavera, que criaram correntes de poesia. A esta leitora chegaram palavras de Régio, enquanto dos seus dígitos voaram versos de Sophia...

Já ontem, na Revista do Expresso, José Tolentino Mendonça se demorava na casa da poesia, particularmente em Adélia Prado, Manoel de Barros e Ferreira Gullar. Cita, de Manoel de Barros, estas palavras:

"parece que o poeta serve para desacomodar as palavras . Não deixar que as palavras se viciem no mesmo contexto... Usar as palavras para ampliar o mundo há de ser outro milagre da poesia. Uma das regras importantes da poesia é não ser demonstrativa. Poesia não presta para demonstrar nada. Ela só presta para dar néctar."

"Que coisa são as nuvens: Não sabíamos que está dentro de nós", Expresso: Revista, 15/03/2014. 

(Não me canso de ler estas crónicas do poeta português. Às vezes, é mesmo a única razão que me leva a comprar o Expresso. Que beleza e que sabedoria!) 

Termina esta entrada do blogue com Joaquim Manuel Magalhães, e um poema solar, ainda que sob o signo da melancolia:

E chamo à juventude a melancolia
a beira-rio, o barco de muitos mastros
que ninguém navega, a deriva
na prisão dos olhares. Uma vez,
saí da cidade para a aldeia costeira.
Cantavam. Perguntou
o que era o jantar, apanhou canas,
com um golpe de rins soltou um ramo
da macieira. A luz recebe a luz
do seu corpo deitado. O clarão do mar
move-se na sua voz,
à distância, seu.

Joaquim Manuel Magalhães, uma luz com um toldo vermelho, Lisboa, Presença, coleção Foma, 1990.

Belas palavras. Com elas vou, e fico com o golpe de rins no olhar.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Paisagem matinal

O Jardim do Museu Nacional de Arte Antiga é um lugar lindíssimo. Hoje, de manhã, estava resplandecente; este sol primaveril, súbito, inundava-o de luz e convidava a estar, apreciar e fotografar. 


Não era só o restrito espaço do Jardim que agradava. A paisagem, com o porto, o Tejo e a Outra Banda, estava deslumbrante, está sempre, mas hoje especialmente.


A exposição - Rubens, Brueghel, Lorrain: A Paisagem Nórdica do Museu do Prado - completou-se com a vista lisboeta, linda e luminosa. Se procurasse um traço unificador destas diferentes paisagens que, simultaneamente, as distinguisse, escolhia a luz, sim, a luz. 

A paisagem nórdica ou a paisagem ao modo italiano (última sala, à parte) apresentam uma luminosidade muito diversa: os últimos quadros, tons mais intensos, marcados pela luz mediterrânica; as paisagens dos Países Baixos, uma luz fininha, que só se pode entender naquelas paragens. Recordo-me, a este propósito, da emoção que senti a primeira vez que visitei a Holanda, via, ou sentia, nem sei, como nunca, as cores e a luz de Vermeer, pintor da minha predilecção. Aqui, para além desta diferença, entre a luz nórdica e a mediterrânica, evidenciava-se, também, a singularidade da luz de Lisboa, tão atlântica, tão acolhedora, tão bela.


Não é o lugar ideal para um café e um queque de maçã? Fica o convite.

Paisagens - uma belíssima exposição no MNAA, quase a terminar - três pinturas e um poema

Rubens, Breughel, Lorrain: A paisagem Nórdica do Museu do Prado - Museu Nacional de Arte Antiga (3 de Dezembro a 20 de Março)


1. PETER PAUL RUBENS
Atalanta e Meleagro Caçando o Javali de Cálidon 
c. 1635-1636
Óleo sobre tela 160 x 260 cm
© Madrid, Museu Nacional do Prado



2. PETER PAUL RUBENS 
e JAN BRUEGHEL, O VELHO 
Visão de Santo Huberto
c. 1617-1620
Óleo sobre madeira 63 x 100 cm
© Madrid, Museu Nacional do Prado


3. JAN BRUEGHEL, O VELHO
Boda Campestre
c. 1621-1623
Óleo sobre tela 84 x 126 cm
© Madrid, Museu Nacional do Prado



The Wedding Dance in the Open Air
William Carlos Williams

Disciplined by the artist
to go round
& round

in holiday gear
a riotously gay rabble of
peasants and their

ample-bottomed doxies
fills
the market square

featured by the women in
their starched
white headgear

they prance or go openly
toward the wood's
edges

round and around in
rough shoes and
farm breeches

mouths agape
Oya !
kicking up their heels

William Carlos Williams, "Pictures from Brueghel"

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Diário de Maria Amélia XI



Às voltas com os pedregulhos, olho para o lado, e que vejo eu? Um aforismo, desses que se encontram nos centros comerciais, mais precisamente, à venda na Loja do Gato Preto. Apetece largar tudo e correr para o sol, se os dias fossem propícios, mas não. O dever doma as pulsões e o corpo permanece fixo na cadeira, os olhos vagueiam, as mãos nem sei. Ficamos, é certo. Se não for esmagada pelo número, chegarei ao fim dos trabalhos.  

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Má raça

Tiro os brincos, dispo as vestes pudicas e burras, fico com as botas altas. E leio livros negros.




escrevo-te em vidro
por assim achar que
desenho
o cálculo efémero das possíveis transparências mas
o pé descalço sobre a linha sofre
as cócegas das hastes cegas da
palavra
correndo destinos que desaguam no
soalho atapetado pelos jornais
do dia pudico e burro


João Paulo Cotrim (poemas) e Alex Gozblau (ilustrações, design e logótipo convidado), má raça: 22 canções, Lisboa, Abysmo, 2012.

Na fotografia vê-se parte da capa do livro: João Paulo Cotrim e António Cabrita, O branco das sombras chinesas: divertimento, Lisboa, Abysmo, 2011 (ilustracões de João Fazenda).


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Do ferro e outras escapadelas

Rui Chafes no CAM - Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian - O Peso do Paraíso - 13 de Fevereiro a 18 de Maio.


O dia estava soalheiro, ao contrário do habitual, óptimo para uma corrida ao CAM. Queria ver esta exposição e não me arrependi, mesmo que tivesse de fintar o tempo. Rui Chafes apresenta uma mostra antológica, com várias peças surpreendentes pela sua singularidade e pela leveza. De facto, não esperava que o ferro pudesse expressar tanta delicadeza, nas suas curvas e redondas formas; ainda assim, a sugestão da violência, geralmente associada a esta matéria, não estava ausente: penso nas pernas-botas suspensas, nos objectos longos, a lembrar alfaias agrícolas ou de guerra, nas argolas (de prisioneiros?), no que pareciam ser cintos de castidade...


Enquanto passava pela nave central do CAM, onde está a parte principal da exposição, antevia as esculturas que estão no jardim, espaço pelo qual a mostra se prolonga. Parece-me que estas peças ganham em estar fora do museu, ganham outra vida e têm uma intensidade maior em diálogo com a natureza e outras formas de vivência humana.




Para além de Rui Chafes, João Tabarra também expõe no CAM - Narrativa Interior - 13 de Fevereiro a 18 de Maio.

Não conhecia. Gostei, pelo humor, pela auto-ironia, pelo olhar crítica sobre si próprio e o mundo. Aqui ficam duas fotografias que o revelam:



No final, um café no bar, à sombra destas duas esculturas de Rui Chafes; em primeiro plano vê-se a peça "A minha vida que acabará no dia em que principiar" (Ferro, col. do Artista, 2013). Belo título, não é?


Palavras de Rui Chafes sobre a sua obra, no Público: 


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Gramáticas de Português

 
 
Gosto de gramáticas. Hoje vieram os dois volumes da Gramática do Português, editada pela Fundação Calouste Gulbenkian, em outubro de 2013:
 
 
RAPOSO, Eduardo Buzagalo Paiva et alii (2013). Gramática do Português. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian (Vol. I e II).
 
 
A capa é bastante original: capa preta e sobrecapa também preta, dobrada e deixando ver parte de uma reprodução do quadro Alfabeto I, de João Vieira, de 1981.
 
Quanto à conceção da obra, os seus organizadores são claros, como se lê na contracapa:
 
"A Gramática do Português é uma obra em que se descreve o português europeu culto contemporâneo. Inclui igualmente informação sobre variedades regionais portuguesas e sobre o português do Brasil, de Angola e de Moçambique, assim como sobre a origem e evolução da língua.
Beneficiando dos resultados mais recentes da investigação em linguística, é acessível a não especialistas e destina-se a um público que pretende dispor de uma obra de referência sobre as principais questões da gramática do português, bem articuladas entre si e claramente expostas. Será de particular utilidade para estudantes do ensino superior, professores de português, autores de manuais e gramáticas escolares, jornalistas e tradutores, que nela poderão encontrar uma descrição dos fenómenos gramaticais e uma explicação clara dos conceitos e termos mais importantes usados na descrição linguística. Esta Gramática vem colmatar a ausência de uma obra de referência de descrição do português que satisfaça as necessidades de públicos diferenciados, já que as gramáticas existentes ou são excessivamente técnicas ou são demasiado simples e breves, pensadas com o objetivo restrito de acompanharem os currículos escolares. [...]"
 
 Muito bem; já tardava.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Leituras - janelas de liberdade


A situação das bibliotecas escolares em Portugal é muito diversa. Algumas ainda estão à procura das condições físicas e de recursos, outras, apesar de constrangimentos específicos, já procuram ser mais ativas. Ao professor bibliotecário, elemento crucial neste espaço, muito é pedido: "competências em biblioteconomia, tecnologias e em gestão da informação, outros conhecimentos muito diversificados nas áreas da pedagogia, psicologia, economia, sociologia, ética", e, acrescentaria, política, lato sensu.

Se considerarmos que o conhecimento, hoje, já não está fechado em recônditos edifícios acessíveis só a alguns e que a sociedade exige que os cidadãos interajam e acedam rapidamente a informação relevante para resolverem problemas, parece evidente que as escolas têm de responder às necessidades emergentes. Neste sentido, é muito pertinente que integrem as potencialidades das tecnologias da informação e comunicação e da web 2.0, desde logo adaptando as suas bibliotecas a esta realidade. Como? O artigo de Natividade Santos, Angélica Monteiro e Paula Carqueja apresenta exemplos do uso das ferramentas disponíveis: blogues, wikis, RSS, FEEDS, Bookmarking Social, partilha de imagem, som e vídeo em sites grátis de fácil gestão, redes sociais, ambientes virtuis, QR Code. É um mundo fascinante! Creio que o futuro passa por aqui, que é irrecusável e desafiante, que as escolas serão muito mais interessantes e eficazes quando conseguirem mover-se fluentemente nesta forma de comunicação, nesta linguagem.
 
Referências bibliográficas:
Natividade Santos et alii., "A Integração da Web 2.0 nas Bibliotecas Escolares" in MOREIRA, J. A. & MONTEIRO, A. (Orgs.) (2012). Ensinar e Aprender Online com Tecnologias Digitais: Abordagens Teóricas e Metodológicas. Porto: Porto Editora.


Do que acima se escreveu, não se infira que a leitora abandonou o pó dos livros, para se entregar aos tácteis ecrãs! O amor aos livros nunca acaba e não é incompatível com outras tecnologias; simplesmente as maneiras de ler são diversas, assim como diversas são as intenções de quem se acerca da palavra escrita. De facto, se a leitura online se adequa à rapidez do trabalho, que requer informação imediata ou consulta digital de obras guardadas em bibliotecas distantes (não raro, fisicamente inacessíveis aos comuns dos mortais), já a reflexão ou o prazer requerem outras demoras, mais compatíveis com a materialidade do livro e do movimento das suas folhas. 

As bibliotecas do futuro - da escola primária à universidade, até à vida futura