sábado, 31 de maio de 2014

Casas

 O livro que está em cima da mesinha é a Granta: Portugal, nº 3, dedicado ao tema Casa. A revista é muito boa, e este número é especialmente interessante. Os textos são óptimos e as fotografias também, até a fotonovela seduz. Este género é, para mim, uma reminiscência da infância e das misteriosas leituras de primas e vizinhas mais velhas, que suspiravam com heróis chamados Dário, Sérgio ou outros que tais. Só a Simplesmente Maria (radionovela) suplantava estes melodramas em espanto.

As recordações do passado não se ficaram por aqui, pois o tema é propício à interrogação sobre a identidade e às buscas pelo "sótão da casa de família", ou por outros cómodos igualmente depositários dos objectos memoráveis. Neste canto, por exemplo, está a mesinha do tio E., sobre a qual costumava estar a televisão, na casa do avô e da tia; a cadeira é de desconhecida proveniência, mas foi restaurada pelo marido da prima M. A., que talvez lesse Corin Tellado, quando jovem.

Gosto de objectos com história, minha ou de outros, não só de móveis antigos, como também de elementos de decoração que transportem memórias de pequenas alegrias. É o caso dos ovos que fotografei para este blogue, comprados na Hungria, numa cidade cujo nome esqueci há muito, só me lembro de ser uma cidade de artistas, onde se vendiam muitas peças de artesanato. Os ovos pintados ou esculpidos estavam por todo o lado e eram muito bonitos. Trouxe vários, mas só estes sobreviveram, talvez porque tivessem ficado guardados numa caixa durante alguns anos, até agora, quando uma prateleira de uma nova estante pediu a sua presença. Ficam bem. Conferem ao espaço um tom de alegria e delicadeza apaziguadoras, para além de incitarem à viagem. Aliás, as viagens estão bem assinaladas nessa estante, com diversos guias e livros alusivos, adquiridos ao longo do tempo e que um dia lerei. Convites à evasão, seja no espaço, seja no tempo.

Na Granta, diferentes autores procuram ou mostram (as suas) casas, todavia a fugacidade dessa imagem identitária e de intimidade é o traço que me parece mais constante. Também eu busco a minha casa. Já vivi em vários lugares, mas aquele que aparece como A Minha Casa é essa casa da infância da qual não guardo qualquer objecto. 

Cada lembrança é um  memento mori.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Afrontamento

Paulo Nazolino in http://cineteratura.blogs.sapo.pt/fotografia-9-9004

Partia de Cesário Verde para refletir sobre a estesia da cidade, que preferia à do campo. Mas uma passagem do blogue Horas Extraordinárias impôs-se. Conta Maria do Rosário Pedreira sobre Einstein:

"Interrogado sobre se achava mais importante a imaginação ou o conhecimento, o genial cientista respondeu que, sem qualquer dúvida, a imaginação. E, quando o entrevistador quis saber porquê, explicou esta maravilha: «É que o conhecimento leva-nos de A para B, mas a imaginação leva-nos de A para todo o lado.»"

Vem muito a propósito este relevo dado à imaginação, não só por causa do Poeta em estudo, mas também devido aos tempos correntes, pois é ela que permite a liberdade e a fuga aos grilhões do real, tão necessárias. Se a razão diz que A conduz a B, inexoravelmente, a vitalidade precisa de saber que o caminho é constituído por múltiplas possibilidades, sob pena de definhamento. 

Assim, nas horas velozes do dever, uma mulher pode evadir-se numa qualquer paisagem citadina pela imaginação, pela leitura, pela beleza fulgurante destes versos:


Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

(...)

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés de fel como um sinistro mar!


Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde e poesias dispersas, Lisboa, Europa-América, s.d.
(primeira e última estrofe do poema "O Sentimento dum Ocidental", constituído por quatro secções)




domingo, 27 de abril de 2014

"A liberdade até pode ser uma coisa boa, eu é que não tenho serventia para ela." ("Melhor que falecer" - Ricardo Araújo Pereira - TVI)

Maria Helena Vieira da Silva (cartaz)
Sophia de Mello Breyner Andresen (frase)
Esta foi talvez a frase mais triste que ouvi nos últimos tempos. Será humor negro; seja o que for, é genial. Foi o 10º episódio de "Melhor que falecer", programa de Ricardo Araújo Pereira na TVI, que passou no dia 25 de Abril. Excelente Maria do Céu Guerra. Este Portugal continua aí, está no meio de nós, está dentro de nós. 

Ainda a propósito dos 40 anos do 25 de Abril, assinalo a edição especial do Jornal de Letras e dois artigos: "A Revolução revisitada", de Eduardo Lourenço, e "Lembrar o momento perfeito", de Lídia Jorge. 

Cito, do primeiro, o final, que vem ao encontro de algumas leituras sobre a identidade nacional realizadas noutro contexto:

"A grande questão, a que merece ainda ser colocada, hoje em dia, em tempo de crise, nacional e europeia, é esta: adquirimos, para além das aparências, esse rosto novo que a memorável Revolução nos teria dado? Durante séculos, ser português significava implicitamente sentir-se filho de um país colonizador e, por essa razão, dotado de uma espécie de identidade universal imaginária. Agora, que com excelentes motivos, não nos podemos prevalecer deste rosto imaginário, em que é que nos convertemos? Estamos na Europa, mas custa-nos, a nível simbólico, definir-nos como europeus. O "europeísmo" não acrescenta nada - por enquanto - àquilo que nos sentimos ser. Sobretudo, não substituiu a inscrição no espaço, ao mesmo tempo onírico e real, que nos fez sonhar durante 500 anos.
E isto leva, para terminar, ao único tipo de carência que, ao fim destes 40 anos de pós-revolução de Abril, se pode assimilar a uma certa desilusão que toca o coração mesmo da Revolução e da histórica Revolução. A democracia foi legitimada; os seus efeitos na vida política e quotidiana dos cidadãos são inegáveis, por mais que a crise atual o ensombre. Vivemos num país livre e só aqueles que não conheceram nunca o custo de ter passado largos anos - ou toda uma vida - numa não-democracia, podem considerar estas regalias como formais ou desprezíveis. Todavia, de certo modo, a nossa democracia é ainda ao cabo de 40 anos uma espécie de regime sem nome.
Queremos dizer com isto que a Revolução - a de todos nós que ela restituiu ao gozo de uma cidadania adulta e, naturalmente, aqueles que historicamente foram os seus atores por a terem desejado e sonhado - não suscitou ainda um verdadeiro imaginário, como outrora o da primeira República e, mesmo, o Estado Novo.
Só o seu momento inaugural permanece vivo e recebeu na véspera da sua celebração, a primeira das suas evocações fictícias apta a converter, ou ser já, uma memória viva e realmente "memorável" [Eduardo Lourenço refere-se ao romance Os Memoráveis, de Lídia Jorge, conforme é indicado em nota de rodapé.]. Esperamos que esse retrato mitificado desse momento, para nós sempre presente, nos abra a porta para esse imaginário ausente que até hoje nos faltava para enterrarmos dignamente o imaginário de séculos que a mesma Revolução, em nome de exigências agora universais, sepultou para sempre."

Eduardo Lourenço, "A Revolução revisitada", Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1136, de 16 a 29 de abril de 2014.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

So awesome!

André Carrilho
Jon Hamm as Don Draper
Cover illustration for the Arts&Books supplement of the Independent on Sunday
andrecarrilho.tumblr.com



sábado, 12 de abril de 2014

A escola pública e a comunicação social


Fotografia retirada do site da Escola Secundária Passos Manuel

"Se na Saúde tivéssemos esta performance significava que metade dos doentes morria ou ficava gravemente doente e que a outra metade ficava bem. Seria intolerável, do ponto de vista social. Mas na Educação convive-se bem com isto. Há uma marca cultural pesadíssima, em que se aceita que a fronteira do sucesso está na linha de corte: quando tenho 10 não estou a ter sucesso, estou na fronteira do insucesso e muito longe do que seria desejável. Esta perceção das famílias é particularmente grave no ensino básico. [...]"

Entrevista de Hélder Sousa, diretor do Instituto de Avaliação Educativa, ao Expresso de hoje (nº 2163, 12 de abril de 2014); a jornalista foi Isabel Leiria e a parte a negrito foi destacada numa caixa.


Não nego que a frase assinalada a negrito tenha impacto junto dos potenciais leitores do jornal, mas este destaque dá que pensar, tanto como a citada afirmação. Colocar metade dos alunos portugueses a par dos defuntos e dos estropiados ou moribundos parece-me um pouco hiperbólico, digamos assim. Afinal, por muito importante que seja a escolarização dos filhos de cada qual, já descontando as famílias que desvalorizam a educação, esta não se compara ao valor da saúde e da vida. Neste sentido, é compreensível que seja mais fácil convencer uma pessoa a tomar um comprimido ou uma colher de xarope, por mais intragável que seja, e a obrigar o respectivo filho a fazer o mesmo do que persuadi-la a ler um livro e a incutir tal hábito no seu delfim, ainda que isso pudesse beneficiar a sua educação. Se a diferença na aceitação do "remédio" específico não fosse elucidativa, poderíamos questionar a disponibilidade para o procurar, isto é, para ir ao médico ou à escola e logo concluiríamos que a Saúde e a Educação são realidades diversas.

Reconhecendo esta disparidade, por que motivo são tantas vezes comparadas e, geralmente, para se inferir que a Saúde é um caso de sucesso, enquanto a Educação é um fracasso de quarenta anos? Não digo que Hélder Sousa o tenha afirmado, muito menos pensado, mas a sua frase e o destaque que lhe foi dado podem sugerir tal ideia. Ora, os dados de avaliações externas, segundo tem sido divulgado, não o demonstram, nem a observação empírica o confirma. Quem está no terreno sabe que a Escola não está bem, mas estava melhor há quarenta anos? Não, decerto. Há menos de quarenta anos fui eu e outros meninos da minha aldeia e da aldeia vizinha para a primeira classe e, de todos, só eu fui para a Universidade, outros foram trabalhar aos doze anos, concluído o segundo ano do ciclo preparatório, ou nem isso. Entretanto, já fui professora de alguns filhos deles, que tinham planos inquestionáveis de prosseguir estudos e fizeram-no. Os casos particulares valem o que valem, mas são também sinais da realidade e estes evidenciam que ela não será tão má como quererão fazer crer.

A quem interessa, então, se é que interessa a alguém, negar a evolução social positiva que ocorreu em Portugal e, consequentemente, nos níveis de escolaridade da sua população? A quem interessa convencer as famílias e os jovens de que a sua escola não é boa e de que eles só seriam bons se estivessem noutro lugar, no fantástico colégio, por exemplo? A quem interessa que não acabe o rumor de que a Educação em Portugal é um desastre? Ainda não é, mas para lá caminhamos se as condições de trabalho se deteriorarem mais e a população deixar de acreditar nela.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Escárnio e maldizer


Procurava uma cantiga de escárnio e maldizer apresentável, isto é, que pudesse ser dita em qualquer salão requintado, mas as dificuldades foram grandes, pois as obscenidades, a virulência e até a violência são frequentes. Encontrei duas: uma paródia ao amor cortês e "um malicioso quadro de amores campestres" (Graça Videira Lopes, p. 446). De qualquer modo, são lindas, estas e as outras, cuja leitura recomendo.


Quer-mi a mi ũa dona mal
como se lhi quisess'eu bem, 
por que houvesse por mi mal 
ou eu por ela algum bem; 
pois lh'eu nom quero mal nem bem, 
por que mi há ela querer mal? 

Colheu comigo desamor 
como se lh'houvess'amor eu, 
por que houvesse desamor 
d'alguém por mi ou amor eu; 
Non'a desamo nem am'eu; 
ela por que mi há desamor?


Gil Peres Conde 

Esta cantiga é o que poderemos designar por escárnio de amor, paródia ao universo do amor cortês, a partir de alguns dos seus clichés. Aqui a tradicional má-vontade da senhor em relação ao trovador não passa de um equívoco, uma vez que ela, neste caso, lhe é totalmente indiferente. [...]
3 per que - como se. 6 = há-de. 9-10 Os versos não são totalmente claros. Deverão ser, de qualquer forma, paralelos aos vv. 3-4 e o seu sentido será: como se, por causa de mm, alguém não gostasse dela, ou como se eu a amasse.



- Maria Genta, Maria Genta da saia cintada, 
u masestes esta noit'ou quem pôs cevada?
Alva, abríades-m'alá!

- Albergámos eu e outra [e]na carreira,
e rapazes com amores furtam ceveira.
Alva, abríades-m'alá! 

- U eu maj'aquesta noite, houv'i gram cea,
e rapazes com amores furtam avea.
Alva, abríades-m'alá! 


Rui Pais de Ribela

Notável cantiga dialogada que transforma subtilmente uma alba num malicioso quadro de amores campestres. É muito provável que se tratasse novamnete de uma cantiga de seguir. Repare-se que o lindíssimo refrâo («abria-se-me a alva ao longe»), na sequência do corpo das estrofes que descrevem a orgia nocturna, ganha um sentido irónico (e erótico), totalmente diferente do que teria na cantiga original.
1 É possível que Genta não seja um apelido, mas esteja no sentido de «gentil», como aparece, por exemplo, no Lais de Leonoreta Senhor genta...»). 2 masestes - pernoitaste. 2 ou quem pôs cevada - a expressão não é evidente. A cevada era um alimento para os criados e os animais. O sentido talvez seja, pois, «quem pagou a festa?», vindo a resposta na segunda estrofe (foram os rapazes com os seus roubos). Sigo a interpretação de Barbieri, o editor mais recente do trovador. 4 carreira - caminho. 5 ceveira - espécie de cevada para a alimentação do gado.

Os textos e as notas foram retirados do seguinte livro:

Graça Videira Lopes (ed.), Cantigas de Escárnio e Maldizer dos Trovadores e Jograis Galego-Portugueses, Lisboa, Editorial Estampa, 2002.


quarta-feira, 9 de abril de 2014

Alfabetos

Claudio Magris, Alfabetos: Ensaios de Literatura,
Lisboa, Quetzal, 2013 (trad. António Sabler)

Terminados que estão os trabalhos burocráticos, por agora, é possível o regresso à leitura: Claudio Magris, Alfabetos: Ensaios de Literatura (recolha de vários textos publicados, maioritariamente, no Corriere della Sera). Há bastante tempo que não lia um livro tão interessante e que, a cada página, tanto ensina. A volúpia da leitura impele à escrita ou ao amor, em múltiplos sentidos. São diálogos possíveis, hipótese de transcendência das tarefas e do seu linguajar exceliano-doméstico. Felicidade e melancolia.

Felicidade e melancolia, temas contemplados, a propósito dos quais cito estas passagens:

"A deusa faz morrer Cléobis e Bíton porque, depois de um dia absoluto, teriam sofrido demasiado a viver dias diversos daquele, mas também porque não teriam sequer podido suportar muitos dias como aquele. Na verdade, naquele dia não ocorreu nada de excepcional, nenhuma extraordinária aventura, nenhum êxtase particular; só horas serenas, jogos, amizade, alegre abandono. Mas Sólon - ou Heródoto por ele - sabe que nessas coisas aparentemente pequenas e banais é que consiste a felicidade [...]"

"Para Sólon, no entanto, Cléobis e Bíton ficam em segundo lugar: o primeiro cabe a Telo, ou seja, a quem é capaz de inserir na continuidade da vida também todas as mortes, as separações, as perdas, as desagregações, que a desfazem incessantemente."

"Felicidade" (Corriere della Sera, 15 de agosto de 1999), pp. 46 e 47.

"A melancolia não é só depressão psíquica ou tristeza tortuosa e morbidamente acalentada. [...] Nenhuma vida e nenhuma poesia de vida podem ignorar a melancolia, a caducidade do tempo que passa, aquilo que sempre falta em toda a felicidade e em todo o amor, mesmo feliz, o corromper das coisas e dos sentimentos, mesmo os mais puros, o desencanto, o incessante alterar-se e esvanecer-se."

"Melancolia e Modernidade" (Corriere della Sera, 22 de maio de 2007), p. 71.

segunda-feira, 31 de março de 2014

Testes (pobre Eça)

Revista in Expresso (2000)


“Somente Afonso sentia que sua mulher não era feliz. Pensativa e triste, tossia sempre pelas salas. À noite sentava-se ao fogão, suspirava e ficava calada…

Pobre senhora! A nostalgia do País, da parentela, das igrejas, ia-a minando. Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e sorrindo palidamente, tinha vivido desde que chegara num ódio surdo àquela terra de hereges e ao seu idioma bárbaro: sempre arrepiada, abafada em peles, olhando com pavor os céus fuscos ou a neve nas árvores, o seu coração não estivera nunca ali, mas longe, em Lisboa, nos adros, nos bairros batidos do sol. A sua devoção (a devoção dos Runas!) sempre grande, exaltara-se, exacerbara-se àquela hostilidade ambiente que ela sentia em redor contra “os papistas”. E só se satisfazia à noite, indo refugiar-se no sótão com as criadas portuguesas, para rezar o terço agachada numa esteira – gozando ali, nesse murmúrio de ave-marias em país protestante, o encanto de uma conjuração católica!

Odiando tudo o que era inglês, não consentira que o seu filho, o Pedrinho, fosse estudar ao colégio de Richmond. Debalde Afonso lhe provou que era um colégio católico. Não queria: aquele catolicismo sem romarias, sem fogueiras pelo S. João, sem imagens do Senhor dos Passos, sem frades nas ruas – não lhe parecia a religião. A alma do seu Pedrinho não abandonaria ela à heresia; – e para o educar mandou vir de Lisboa o padre Vasques, capelão do conde de Runa.

O Vasques ensinava-lhe as declinações latinas, sobretudo a cartilha: e a face de Afonso da Maia cobria-se de tristeza, quando ao voltar de alguma caçada ou das ruas de Londres, de entre o forte rumor da vida livre – ouvia no quarto dos estudos a voz dormente do reverendo, perguntando como do fundo de uma treva:

- Quantos são os inimigos da alma?

E o pequeno, mais dormente, lá ia murmurando:

- Três. Mundo, Diabo e Carne…

Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma só havia ali o reverendo Vasques, obeso e sórdido, arrotando do fundo da sua poltrona, com o lenço de rapé sobre o joelho…

Às vezes Afonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia a doutrina, agarrava a mão do Pedrinho – para o levar, correr com ele sob as árvores do Tamisa, dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume crasso da cartilha. Mas a mamã acudia de dentro, em terror, a abafá-lo numa grande manta: depois, lá fora, o menino, acostumado ao colo das criadas e aos recantos estofados, tinha medo do vento e das árvores: e pouco a pouco, num passo desconsolado, os dois iam pisando em silêncio as folhas secas – o filho todo acobardado das sombras do bosque vivo, o pai vergando os ombros, pensativo, triste daquela fraqueza do filho…

Mas o menor esforço dele para arrancar o rapaz àqueles braços da mãe que o amoleciam, àquela cartilha mortal do padre Vasques – trazia logo à delicada senhora acessos de febre. E Afonso não se atrevia já a contrariar a pobre doente, tão virtuosa, e que o amava tanto! Ia então lamentar-se para o pé da tia Fanny: a sábia irlandesa metia os óculos entre as folhas do seu livro, tratado de Adison ou poema de Pope, e encolhia melancolicamente os ombros. Que podia ela fazer!...” (…)

“O Pedrinho no entanto estava quase um homem. Ficara pequenino e nervoso como Maria Eduarda, tendo pouco da raça, da força dos Maias; a sua linda face oval de um trigueiro cálido, dois olhos maravilhosos e irresistíveis, prontos sempre a humedecer-se, faziam-no assemelhar a um belo árabe. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades, indiferente a brinquedos, a animais, a flores, a livros. Nenhum desejo forte parecera jamais vibrar naquela alma meio adormecida e passiva: só às vezes dizia que gostaria muito de voltar para a Itália. Tomara birra ao padre Vasques, mas não ousava desobedecer-lhe. Era em tudo um fraco; e esse abatimento contínuo de todo o seu ser revolvia-se a espaços em crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo, murcho, amarelo, com as olheiras fundas e já velho. O seu único sentimento vivo, intenso, até aí, fora a paixão pela mãe.”
Eça de Queirós, Os Maias, Lisboa, Livros de Brasil, s.d. 

quarta-feira, 26 de março de 2014

Graça Morais - A atenção ao mundo

Série A Caminhada do Medo II, 2011,
Carvão e pastel sobre papel, 111 x 150 cm

"A série produzida em 2011 (…) manifesta com total clareza a quantidade e a intensidade das imagens que permanentemente nos rodeiam e assaltam. Todos conhecemos o que é estar sob o impacto da avalanche de imagens de reportagem jornalística que invadem todos os meios de comunicação social e as novas plataformas de divulgação, internet, telemóveis, generalizadas através de um jornalismo popular que capta e difunde no mesmo momento. 

Foi sob o efeito das fotografias publicadas em jornais e em revistas que os desenhos foram realizados. O uso dos recortes de jornais que ainda hoje subsiste vem da infância e da juventude, vem da tradição popular de forrar prateleiras com jornais decorativamente recortados, em padrões geométricos básicos e do hábito de os ler nessa circunstância. Os bicos talhados na extremidade do papel de jornal inscrevem-se delicadamente nos desenhos de figura dos anos iniciais da sua carreira. O gosto pela utilização dos jornais manter-se-ia, não apenas nesse registo ornamental, mas como fonte insubstituível de imagens e como uma das vias de levar o quotidiano à pintura.

É uma temática antiga a que se vislumbra nestes trabalhos, do sofrimento, do caos e do medo, de personagens condicionadas por acontecimentos históricos, os mais diversos. Já não peregrinações, mas migrações a caminho de um exílio incerto. Quem melhor do que a artista em retiro para perceber estas deslocações?

Estas podem ser as migrações provocadas pelos dramas humanos das acostagens nocturnas no sul de Itália, dos africanos sedentos de um lugar na Europa, das lutas religiosas e tribais dispersas pela África e pela Ásia, das revoltas nos países árabes, dos massacres fanáticos disseminados um pouco por todo o mundo, dos conflitos urbanos mal identificados."

Laura Castro in Ordem e Desordem do Mundo, Graça Morais: Prémio de Artes Casino da Póvoa 2011; Porto: Cooperativa Árvore, 2011, p. 136

(Excerto retirado de gracamorais.blogspot.com)

domingo, 23 de março de 2014

Primaverar




SO-NETO JORGE, Luiza

A silabar que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu deslizo:
sismos, orgasmos, tremem-lhe no olhar
enquanto eu, quase a rimar, exulto.

Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos, um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.

Nos desertos - íntimos, insuspeitos -
já caem com a calma as avestruzes
- ou a distância, com os oásis, finda; 

à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego, e à vinda.

Luiza Neto Jorge, Poesia 1960-1989, Lisboa, Assírio e Alvim, 2001.

[Um dia as estantes estarão arrumadas; a vida arrumadinha.]

sábado, 22 de março de 2014

Leituras de Sábado

Folhear os jornais de Sábado é um acto de estupefacção. As páginas passam e pasma-se para a evidência das malfeitorias e dos seus propósitos. 

José Rentes de Carvalho dá uma entrevista ao Expresso (Atual), sobre o seu livro Portugal, a Flor, e a Foice, de 1975, editado agora em Portugal, pela primeira vez, porque antes ninguém o quis fazer. Muito interessante, como o livro também será. A ler, portanto. 

A páginas tantas, refere:

"Era tudo a mesma massa. Não conheciam o povo. Mesmo os neorrealistas e adjacentes. O que mais tinham em comum era o facto de frequentarem todos os mesmo cafés de Lisboa. Há muita gente que ainda diz: «Ah, eu ia muito ao café Gelo». Eu também passei pelo café Gelo, era um puto, tinha uns 19 ou 20 anos. Olhei e fui-me embora. Fui à minha vida." (p. 9)

Quem não ouviu já este discurso ou estas referências? Pois. José Rentes de Carvalho foi à sua vida e, talvez por isso, a sua obra levou tempo a chegar às livrarias portuguesas. Recordo um programa de televisão, cultural, em que a apresentadora e o seu convidado, o mesmo José Rentes de Carvalho, seguiam veredas mentais muito diversas. O pretexto para a conversa fora a publicação de La Coca, mas a entrevistadora não conheceria muito do "bom" povo retratado no romance, enquanto o entrevistado não estaria muito envolvido no discurso habitual de tais lugares televisivos. 

Lá para o fim do Atual, é Maria Filomena Mónica a entrevistada. É a segunda entrevista sobre o tema, esta semana, a primeira foi ao Diário de Notícias, salvo erro. A socióloga pronuncia-se sobre o estudo que fez da escola pública portuguesa e dá a sua perspectiva, em estilo provocador e exuberante, como lhe é próprio. No terreno, já se ouviram algumas observações defensivas sobre o assunto, sem que ninguém tenha lido o livro. Nesta casa, também não se leu, mas das entrevistas não veio matéria para surpresas. As palavras de MFM retratam alguma realidade, ainda que aqui ou ali se saliente aquilo que é apenas o extremado. Mas, antes de outras considerações, é melhor ler o dito livro e fundamentar a opinião.   

Ressalva-se apenas estas passagens, para as cotejar com uma outra de Rentes de Carvalho:

"(...) As classes médias devem manter os filhos nas escolas públicas não só pelas escolas como por eles. Se uma escola pública tiver um terço das crianças das classes médias melhora, porque os pais das classes médias são mais articulados e reivindicativos. Por outro lado, manter os meninos dentro de um aquário onde só conhecem meninos iguais a eles castra-os. A diversidade da natureza humana é benéfica." (p. 44)

"(...) pela primeira vez desde Afonso Henriques há mobilidade social descendente. Muitos dos que hoje vão para Angola, há 40 anos teriam sido colocados nas empresas dos «tios» pelos pais. Esta mobilidade descendente é um fenómeno totalmente novo. Não está estudado, mas pela minha evidência empírica está de facto a acontecer. E é bom que aconteça: primeiro, porque as classes altas portuguesas não davam muito valor à cultura; segundo, porque estes meninos não tinham de competir ou apenas competiam entre «primos» e «primos». Portugal continua a ser o país mais desigual da União Europeia, mas já começa a ver alguns filhos das classes trabalhadoras a ascenderem. Isso é bom." (p. 44) 

E, agora, o escritor transmontano:

"(...) As elites portuguesas nunca foram consistentes. Ou só foram num aspecto: o do ganho pessoal. Eu vivo na Holanda, um país rico, mas com um sentimento social muito desenvolvido. As pessoas que têm fortuna sentir-se-iam envergonhadas se não contribuíssem de alguma maneira para a sociedade, apoiando um museu, uma orquestra, uma escola, seja o que for. Há uma solidariedade, mesmo em relação ao anónimo que sofre em qualquer parte de África, que eu nunca vi em Portugal. Costumo dizer que no Museu das Janelas Verdes só há arte que foi roubada dos conventos, mas não há nada oferecido pelas famílias ricas, que, podendo contribuir para o bem comum, nunca o fizeram. (...)" (pp. 8-9)

Que tristeza! Só Tolentino Mendonça para elevar o ânimo:

"(...) a primavera faz de nós testemunhas da revitalização do mundo. Desde o fio de erva à vegetação mais grandiosa, tudo passa por um processo de rejuvenescimento." Revista (p. 6)

Citações do Expresso de 22/03/2014, as primeiras do suplemento Atual, a última da Revista (J. Rentes de Carvalho: "Voltar a Abril" - entrevista de José Mário Silva; Maria Filomena Mónica: "Má escola" - entrevista de Cristina Margato. J. Tolentino Mendonça, "Que coisa são as nuvens: primaverar").

quinta-feira, 20 de março de 2014

A Primavera chega hoje às 16:57, dizem.

Dirk Stoop, Terreiro do Paço no Século XVII - 1662 
(Museu da Cidade)

A esta hora entre os blocos de prédios enevoados
          a bela mancha diurna dos calceteiros na praça
e os dois amantes que hoje não dormiram vão partir nos
          braços da sua estrela
à beira do caminho ladeado de sebes de espinheiro
uma carta
uma letra muito fina             extremamente caligráfica
onde a aventura do homem que devolve as palavras que
          lhe são remetidas
deixou a sua marca
e o duque da terceira levanta o braço
comentado de seguida pelas aves que acordam a duzentos e
          mais metros de altura
o que não é ainda grande altura
sim sim
                        não não
                                                     quem sabe

[...]

Mário Cesariny, o primeiro livro de Mário Cesariny - Corpo Visível: Poema - Assírio e Alvim e Fundação Cupertino de Miranda, 2010.


Intervenção de Cruzeiro Seixas no seu exemplar dedicado de Corpo Visível.
Este postal foi publicado por ocasião de:
Mário Cesariny - Encontros IV
Fundação Cupertino de Miranda, Famalicão, 25 a 27 de Novembro de 2010.

terça-feira, 18 de março de 2014

Diário de Maria Amélia XII

= «Castigo», pesado e monótono = «Agonia» (S.)

S., a propósito de TTIs, envelopes, pedregulhos, pérolas + reacção/comentário de MA.

Maria Amélia não compreende seu castigo, por isso folheia dicionários; procura estabelecer os contornos da patologia ou, tão-só, evadir-se.

Agonia é uma palavra bonita, assim como agónico, já agoniado desgosta, lembra vómito e outras náuseas.

O que dizem os dicionários?

Dicionário de Sinónimos (Porto Editora:1999)

Agonia: açodamento; aflição; agoniação: angústia; ânsia; ansiedade; arrancos; desfalecimento; desfecho; desgosto; discussão; enjoo; estertor; fim; final; inquietação; matírio; náusea; perigo; pressa; ralho; temor; transe; vascas; zanga

Agoniado: aflito; afrontado; ansioso; exaltado; indisposto; insofrido; triste

Agónico: merencório; triste

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (Círculo de Leitores: 2007) 
[só se retiraram algumas informações dos verbetes]

Agonia: (s. XV) 1. estertor; 2. Mús toque especial do sino para anunciar aos fiéis a morte de laguém; 3. fig declínio que precede o fim; últimos momentos; 4. fig forma de aflição ou sofrimento agudo, de origem física ou moral; 5. inf ânsia provocada por enjoo ou náusea; desejo veemente; ansiedade; ânsia; 7. B inf pressa; açodamento; 8. B inf incapacidade de tomar decisão; indecisão. ETIM gr "agonia, as luta nos jogos, exercício em geral, combate, agitação da alma, angústia, aflição", pelo lat agonia, ae, "vítima sagrada, ansiedade, dor, perturbação

Agoniado: 1. que sente agonia, estertores de aflição e morte; ansiado, agonizado; 4. fig dominado por amargura, por tristeza. mortificado

Agónico: 1. que se encontra na agonia; 2. Med relativo ou próprio da agonia

(E para piorar, todos os dicionários desta casa empapelada seguem a ortografia não oficial! É um caso agudo de humor merencório, digo eu.)


Imagem retirada do Facebook: Sr. Teste