sexta-feira, 27 de junho de 2014

A língua portuguesa escrita já tem mais de 800 anos

Comemoram-se hoje os 800 anos do Testamento de D. Afonso II, escrito em português antigo, precisamente no dia 27 de Junho de 1214. Mas este não foi o primeiro documento oficial escrito em Português, esse foi uma Notícia de Fiadores, de 1175. Os documentos mais antigos escritos nesta nossa formosa língua são:

 Notícia de Fiadores (1175) - notícia de fiadores, discriminando dívidas de Pelágio Romeu


 Notícia do Torto (1211-1216, c. 1214?) - notícia das malfeitorias de que foi injustamente vítima Lourenço Fernandes da Cunha


 Testamento de Afonso II (1214)



Ver: http://cvc.instituto-camoes.pt/tempolingua/07.html

terça-feira, 24 de junho de 2014

Máquina voadora


Odilon Redon (1840-1916)
L'Oeil, comme un ballon bizarre se dirige vers l'infini
(Daqui)

[Só a mim ninguém me leva... Tantas banalidades, e o Verão longe, longe.]



quarta-feira, 18 de junho de 2014

Em Lisboa ouvem-se todas as línguas

Para DClem, ausente no paraíso

Está cada vez mais bela esta nossa cidade! Diversa, cheia de gente de várias proveniências, com as suas línguas, ritmos e cores. Moderniza-se, retoma universalidade.

Muitos dirigiam-se às margens do Tejo, convidativas, cada vez mais um espaço para os lisboetas e os seus visitantes.

Terreiro do Paço
Praça do Comércio

Cais das Colunas

Ribeira das Naus
E este barquito? O que é, de onde vem, para onde vai? Uma falua não é, e uma caravela não repousa assim...

"Trafaria Praia", de Joana Vasconcelos


domingo, 15 de junho de 2014

Apetece o Mar



Carta ao Mar

Ó ondas fugitivas...

Camões

Deixa escrever-te, verde mar antigo,
Largo Oceano, velho deus limoso,
Coração sempre lírico, choroso,
E terno visionário, meu amigo!

Das bandas do poente lamentoso
Quando o vermelho sol vai ter contigo,
- Nada é mais grande, nobre e doloroso,
Do que tu, - vasto e húmido jazigo!

Nada é mais triste, trágico e profundo!
Ninguém te vence ou te venceu no mundo!...
Mas também, quem te pôde consolar?!

Tu és Força, Arte, Amor, por excelência! –
E, contudo, ouve-o aqui, em confidência:
- A Música é mais triste inda que o Mar!

Gomes Leal, Antologia Poética: entre a diferença e o excesso, Lisboa, Rolim, col. Ilhas, s. d. (estudo e selecção de textos de Cecília Barreira).

sábado, 31 de maio de 2014

Casas

 O livro que está em cima da mesinha é a Granta: Portugal, nº 3, dedicado ao tema Casa. A revista é muito boa, e este número é especialmente interessante. Os textos são óptimos e as fotografias também, até a fotonovela seduz. Este género é, para mim, uma reminiscência da infância e das misteriosas leituras de primas e vizinhas mais velhas, que suspiravam com heróis chamados Dário, Sérgio ou outros que tais. Só a Simplesmente Maria (radionovela) suplantava estes melodramas em espanto.

As recordações do passado não se ficaram por aqui, pois o tema é propício à interrogação sobre a identidade e às buscas pelo "sótão da casa de família", ou por outros cómodos igualmente depositários dos objectos memoráveis. Neste canto, por exemplo, está a mesinha do tio E., sobre a qual costumava estar a televisão, na casa do avô e da tia; a cadeira é de desconhecida proveniência, mas foi restaurada pelo marido da prima M. A., que talvez lesse Corin Tellado, quando jovem.

Gosto de objectos com história, minha ou de outros, não só de móveis antigos, como também de elementos de decoração que transportem memórias de pequenas alegrias. É o caso dos ovos que fotografei para este blogue, comprados na Hungria, numa cidade cujo nome esqueci há muito, só me lembro de ser uma cidade de artistas, onde se vendiam muitas peças de artesanato. Os ovos pintados ou esculpidos estavam por todo o lado e eram muito bonitos. Trouxe vários, mas só estes sobreviveram, talvez porque tivessem ficado guardados numa caixa durante alguns anos, até agora, quando uma prateleira de uma nova estante pediu a sua presença. Ficam bem. Conferem ao espaço um tom de alegria e delicadeza apaziguadoras, para além de incitarem à viagem. Aliás, as viagens estão bem assinaladas nessa estante, com diversos guias e livros alusivos, adquiridos ao longo do tempo e que um dia lerei. Convites à evasão, seja no espaço, seja no tempo.

Na Granta, diferentes autores procuram ou mostram (as suas) casas, todavia a fugacidade dessa imagem identitária e de intimidade é o traço que me parece mais constante. Também eu busco a minha casa. Já vivi em vários lugares, mas aquele que aparece como A Minha Casa é essa casa da infância da qual não guardo qualquer objecto. 

Cada lembrança é um  memento mori.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Afrontamento

Paulo Nazolino in http://cineteratura.blogs.sapo.pt/fotografia-9-9004

Partia de Cesário Verde para refletir sobre a estesia da cidade, que preferia à do campo. Mas uma passagem do blogue Horas Extraordinárias impôs-se. Conta Maria do Rosário Pedreira sobre Einstein:

"Interrogado sobre se achava mais importante a imaginação ou o conhecimento, o genial cientista respondeu que, sem qualquer dúvida, a imaginação. E, quando o entrevistador quis saber porquê, explicou esta maravilha: «É que o conhecimento leva-nos de A para B, mas a imaginação leva-nos de A para todo o lado.»"

Vem muito a propósito este relevo dado à imaginação, não só por causa do Poeta em estudo, mas também devido aos tempos correntes, pois é ela que permite a liberdade e a fuga aos grilhões do real, tão necessárias. Se a razão diz que A conduz a B, inexoravelmente, a vitalidade precisa de saber que o caminho é constituído por múltiplas possibilidades, sob pena de definhamento. 

Assim, nas horas velozes do dever, uma mulher pode evadir-se numa qualquer paisagem citadina pela imaginação, pela leitura, pela beleza fulgurante destes versos:


Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

(...)

E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés de fel como um sinistro mar!


Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde e poesias dispersas, Lisboa, Europa-América, s.d.
(primeira e última estrofe do poema "O Sentimento dum Ocidental", constituído por quatro secções)




domingo, 27 de abril de 2014

"A liberdade até pode ser uma coisa boa, eu é que não tenho serventia para ela." ("Melhor que falecer" - Ricardo Araújo Pereira - TVI)

Maria Helena Vieira da Silva (cartaz)
Sophia de Mello Breyner Andresen (frase)
Esta foi talvez a frase mais triste que ouvi nos últimos tempos. Será humor negro; seja o que for, é genial. Foi o 10º episódio de "Melhor que falecer", programa de Ricardo Araújo Pereira na TVI, que passou no dia 25 de Abril. Excelente Maria do Céu Guerra. Este Portugal continua aí, está no meio de nós, está dentro de nós. 

Ainda a propósito dos 40 anos do 25 de Abril, assinalo a edição especial do Jornal de Letras e dois artigos: "A Revolução revisitada", de Eduardo Lourenço, e "Lembrar o momento perfeito", de Lídia Jorge. 

Cito, do primeiro, o final, que vem ao encontro de algumas leituras sobre a identidade nacional realizadas noutro contexto:

"A grande questão, a que merece ainda ser colocada, hoje em dia, em tempo de crise, nacional e europeia, é esta: adquirimos, para além das aparências, esse rosto novo que a memorável Revolução nos teria dado? Durante séculos, ser português significava implicitamente sentir-se filho de um país colonizador e, por essa razão, dotado de uma espécie de identidade universal imaginária. Agora, que com excelentes motivos, não nos podemos prevalecer deste rosto imaginário, em que é que nos convertemos? Estamos na Europa, mas custa-nos, a nível simbólico, definir-nos como europeus. O "europeísmo" não acrescenta nada - por enquanto - àquilo que nos sentimos ser. Sobretudo, não substituiu a inscrição no espaço, ao mesmo tempo onírico e real, que nos fez sonhar durante 500 anos.
E isto leva, para terminar, ao único tipo de carência que, ao fim destes 40 anos de pós-revolução de Abril, se pode assimilar a uma certa desilusão que toca o coração mesmo da Revolução e da histórica Revolução. A democracia foi legitimada; os seus efeitos na vida política e quotidiana dos cidadãos são inegáveis, por mais que a crise atual o ensombre. Vivemos num país livre e só aqueles que não conheceram nunca o custo de ter passado largos anos - ou toda uma vida - numa não-democracia, podem considerar estas regalias como formais ou desprezíveis. Todavia, de certo modo, a nossa democracia é ainda ao cabo de 40 anos uma espécie de regime sem nome.
Queremos dizer com isto que a Revolução - a de todos nós que ela restituiu ao gozo de uma cidadania adulta e, naturalmente, aqueles que historicamente foram os seus atores por a terem desejado e sonhado - não suscitou ainda um verdadeiro imaginário, como outrora o da primeira República e, mesmo, o Estado Novo.
Só o seu momento inaugural permanece vivo e recebeu na véspera da sua celebração, a primeira das suas evocações fictícias apta a converter, ou ser já, uma memória viva e realmente "memorável" [Eduardo Lourenço refere-se ao romance Os Memoráveis, de Lídia Jorge, conforme é indicado em nota de rodapé.]. Esperamos que esse retrato mitificado desse momento, para nós sempre presente, nos abra a porta para esse imaginário ausente que até hoje nos faltava para enterrarmos dignamente o imaginário de séculos que a mesma Revolução, em nome de exigências agora universais, sepultou para sempre."

Eduardo Lourenço, "A Revolução revisitada", Jornal de Letras, Artes e Ideias, nº 1136, de 16 a 29 de abril de 2014.