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| Paulo Nazolino in http://cineteratura.blogs.sapo.pt/fotografia-9-9004 |
Partia de Cesário Verde para refletir sobre a estesia da cidade, que preferia à do campo. Mas uma passagem do blogue Horas Extraordinárias impôs-se. Conta Maria do Rosário Pedreira sobre Einstein:
"Interrogado sobre se achava mais importante a imaginação ou o conhecimento, o genial cientista respondeu que, sem qualquer dúvida, a imaginação. E, quando o entrevistador quis saber porquê, explicou esta maravilha: «É que o conhecimento leva-nos de A para B, mas a imaginação leva-nos de A para todo o lado.»"
Vem muito a propósito este relevo dado à imaginação, não só por causa do Poeta em estudo, mas também devido aos tempos correntes, pois é ela que permite a liberdade e a fuga aos grilhões do real, tão necessárias. Se a razão diz que A conduz a B, inexoravelmente, a vitalidade precisa de saber que o caminho é constituído por múltiplas possibilidades, sob pena de definhamento.
Assim, nas horas velozes do dever, uma mulher pode evadir-se numa qualquer paisagem citadina pela imaginação, pela leitura, pela beleza fulgurante destes versos:
Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
(...)
E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés de fel como um sinistro mar!
Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde e poesias dispersas, Lisboa, Europa-América, s.d.
(primeira e última estrofe do poema "O Sentimento dum Ocidental", constituído por quatro secções)