sábado, 27 de setembro de 2014

Os Maias (João Botelho)


Hoje foi dia de «Os Maias», de Eça de Queirós, lido e realizado por João Botelho. Recomendo, é um belíssimo filme. Porém, quem for ao cinema tenha em conta que o livro e as imagens que criou quando leu o romance não estão no ecrã. É outra coisa. Mesmo que o texto seja dito, filmado, recriado, nunca é o nosso livro, especialmente quando é um dos preferidos, lido e relido, por gosto e/ou por dever de ofício. Mas vale a pena. Em família, para além de uma reflexão sobre a «portugalidade», pode proporcionar uma revisitação da adolescência e a descoberta de que alguém faltou a algumas aulas de Português!





Fotografias retiradas de Ar de Filmes.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

"Fermosa Ilha, alegre e deleitosa" (IX, 54)

52

De longe a Ilha viram, fresca e bela,
Que Vénus pelas ondas lha levava
(Bem como o vento leva branca vela)
Pera onde a forte armada se enxergava;
Que, por que não passassem, sem que nela
Tomassem porto, como desejava,
Pera onde as naus navegam, a movia
A Acidália, que tudo, enfim, podia.

Luís De camões, Os Lusíadas, Porto, Figueirinhas, 1988. 

[Acabam-se as férias, é hora de dizer adeus à Ilha.  Lá vou eu, lá vamos nós, todos a remos nesta barca bamba até onde calhar.]

quinta-feira, 17 de julho de 2014

E com o calor vêm excelentes leituras

Belíssimo Livro!
(1ª edição francesa: 2010;
 edição portuguesa de 2013)

"O teu braço é duro. O teu corpo é duro. A tua alma é dura. É claro que estás a dormir. Sei que estavas à minha espera. Há pouco reparei nos teus olhares. Sabias que eu ia chegar. Tudo acaba sempre por acontecer. Desejaste a minha presença, e aqui estou. Muitos, deitados no escuro, desejariam ter-me junto deles; tu viras-me as costas. Sinto os teus músculos tensos, os teus músculos de bárbaro ou de guerreiro. Só com o manejo da espada se conseguem braços tão fortes. Da espada ou da foice. No entanto, não te imagino camponês, nem soldado, senão não estarias aqui. És áspero demais para seres poeta como o teu amigo turco. Serás então marinheiro, capitão, mercador? Não sei. Não me olhavas como coisa que se pode comprar ou possuir." (p.29)

Mathias Énard, Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes, Lisboa, D. Quixote, 2013.






Artemisia Gentileschi, Judite decapitando Holofernes
 
(google Images)


"Deseja-se muitas vezes a repetição das coisas; deseja-se reviver um momento fugaz, voltar a um gesto falhado ou a uma palavra não pronunciada; esforçamo-nos por recuperar os sons que ficaram na garganta, a carícia que não ousámos fazer, o aperto no peito para sempre desaparecido
Deitado de lado no escuro, Miguel Ângelo sente-se perturbado pela sua própria frieza, como se a beleza o evitasse sempre. [...]" (p. 126)

Mathias Énard, Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes, Lisboa, D. Quixote, 2013.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

assim é difícil

Quatro horas da tarde, uma leitora sai de casa, entra no carro e faz-se ao asfalto; sai da vila, entra na cidade mais próxima, procura dois livros necessários para o  trabalho que está a realizar. Eis que, chegada à porta da biblioteca, fica a saber que esta está fechada até setembro, devido a mudanças de espaço; eis que, ao chegar à porta da livraria, se depara com o aviso de que esta mudou de sítio. No dito, em vez de livraria lia-se papelaria, nas ruas em redor, que a cidade não é grande, também só papelarias e tabacarias. Regresso a casa, sem livros, só cansaço e calor, e ainda uma terrível dor de garganta por causa do ar condicionado. Seis horas da tarde.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

A literatura ensina a viver


A literatura ensina  a viver.
A textualidade faz-se de representações e de olhares que se adensam, ora pela vida vivida, ora pelas leituras e reflexões que abrem as palavras e espalham sementes. Assim, compreende-se facilmente que um livro possa ser fonte de riso em todas as idades, mas que só à luz da maturidade seja claro.

Giorgia O'Keeffe (Google Imges)

sexta-feira, 11 de julho de 2014

O bom povo



"O antigo embaixador inclinou-se para a bandeja do copeiro, ajustou o casaco de seda em cuja algibeira havia canetas douradas, e falou em português - «Pode crer, miss Machado, que nunca encontrei ao longo do meu percurso um povo tão sensato como aquele a que você pertence. Um povo pobre, sem álgebra, sem letras, cinquenta anos de ditadura sobre as costas, o pé amarrado à terra, e de repente acontece um golpe de Estado, todos vêm para a rua gritar, cada um com sua alucinação, seu projecto e seu interesse, uns ameaçando os outros, corpo a corpo, cara a cara, muitos têm armas na mão, e ao fim e ao cabo insultam-se, batem-se, prendem-se, e não se matam. Eu vi, eu assisti. É esta realidade que é preciso contar antes que seja tarde. Compreende o que estou a dizer?» (p.17)

Lídia Jorge, Os Memoráveis, Lisboa, D. Quixote, 2014. 

Comecei agora mesmo esta leitura, vou já na página 20, e não me parece um livro heroico, como certos comentários me fizeram crer. A tristeza é o que desliza destas páginas iniciais. Este povo tão sensato continua amarrado à terra, à pobreza, à falta de letras. Perseguem-se laços, ramificações, amordaçam-se raivas contidas de há séculos...

Luiza Neto Jorge