Um livro interessante seguido de debate:
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| José Augusto Bernardes e Rui Afonso Mateus. Literatura e Ensino do Português. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013. |
Carlos
Fiolhais, «Prefácio» in João Augusto Bernardes e Rui Afonso Mateus. Literatura e Ensino do Português.
Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013.
«Frequentar glossários, escandir versos, identificar figuras de
retórica e outros processos técnico-formais, conhecer a história factual e os
pressupostos ideológicos de um texto ou de um autor, integrar uma obra num
determinado movimento ou escola, relacionando-a com um quadro, um filme ou uma
peça musical, eis as atividades que defendemos para balizar a cultura literária
de um professor de Literatura no século XXI. Não nos parece que essas atividades possam encontrar
correspondência, no passado, num só tempo de formação e de exercício da
docência. Julgamos, aliás, que a novidade da proposta que aqui se deixa
consiste, tão-só, na conjugação de componentes que antes prevaleciam com
exclusão de outras. Trata-se, bem o sabemos, de um modelo de caráter
superlativo; mas, pelos motivos já enumerados, cremos que não pode deixar de
ser assim. Justifica-o a necessidade de reagir contra um estado de crise, não
com desespero, mas com lucidez e algum sentido prático. Todos sabemos como a
resposta a uma situação deste tipo se revela infrutífera se não vier
acompanhada de alguma contrição e de suficiente veemência. A alternativa, neste
caso, é só uma: a de o saber literário continuar a ser tomado por aleatório, diletante ou mesmo ocioso.
[...]
O
maior desígnio do novo modelo formativo que aqui advogamos, porém, é o de
formar professores mais humildes.
Esperamos que esta palavra de profundo significado moral (e até teológico) não
surpreenda, nesta ocasião. Na verdade, a circunstância provada de se ensinar
tão pouco a partir de textos literários pode facilmente criar nos professores a
sensação de que sabem muito mais do que necessitariam para cumprir o que os
programas estabelecem. E não é assim, de facto. A verdadeira humildade só se
robustece com a tentativa de conhecer. Só perseverando nessa gostosa escalada
nos apercebemos do muito caminho que sempre nos faltará percorrer. Permanecendo
num nível baixo de conhecimento mas, ainda assim, inevitavelmente acima do dos
alunos, pode assaltar-nos a tentação de acreditar que estamos no alto de alguma
coisa, quando, afinal, não passámos dos primeiros degraus de uma imensa escada.
Cada novo patamar que se conseguir alcançar (através da leitura de livros e da
participação em atividades de formação) constituirá um ganho para o
profissional do ensino. Sabendo um pouco mais, ensinará sempre um pouco melhor
e, sobretudo, estará em muito melhores condições para servir de exemplo aos
seus alunos, os quais são, sobretudo, leitores a conquistar.»
José Augusto Bernardes e Rui Afonso Mateus. Literatura
e Ensino do Português. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013.







