quinta-feira, 13 de novembro de 2014

EM DIA DE CINZAS, SOBRE AS PALAVRAS - QUIA PLUVIS ES

Melhor há de mil anos que me grita
Um voz, que me diz: És pó da terra!
Melhor há de mil anos que me desterra
Um sono, que esta voz desacredita.

Diz-me o pó que sou pó, e a crer me incita
Que é vento quanto nesse pó se encerra;
Diz-me outro vento que esse pó vil erra.
Qual destes a verdade solicita?

Pois, se mente este pó, que foi do mundo?
Que é do gosto? que é do ócio? que é da idade?
Que é do vigor constante e amor jocundo?

Que é da velhice? que é da mocidade?
Tragou-me a vida inteira o mar profundo!
Ora quem diz sou pó, falou verdade.

D. Francisco Manuel de Melo

In Natália Correia, Antologia da poesia do período barroco, Lisboa, Morais Editores, 1982.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Boogie woogie



Piet Mondrian. Broadway Boogie Woogie. 1942-43
(MoMa)
Lia uma reportagem sobre a apetência por jogos eletrónicos (Rui Pelejão. "O comando é delas". Notícias Magazine, 09/11/2014) e sentia-me a ajuizar. E se suspendêssemos os juízos e antes nos abríssemos à infinita variedade humana? 

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Literatura e ensino do português


Um livro interessante seguido de debate:


José Augusto Bernardes e Rui Afonso Mateus.
 
Literatura e Ensino do Português.
 Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013.
«Está, portanto, em debate o papel das Belas Letras nas Letras Nacionais. Os autores defendem, com argumentos sabiamente pensados e expostos, que, no quadro educativo, não há nem pode haver Letras sem Belas Letras. Que não se pode ensinar Português sem se ensinar também, obviamente na medida certa, Literatura: Camões, Gil Vicente, o Padre António Vieira, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e outros não podem deixar de estar nas nossas escolas. E também defendem que a medida actual está aquém da medida certa. Por medida não se deve entender apenas a quantidade mas também e sobretudo a qualidade. Neste domínio, segundo eles, interessa o “quanto” e interessa o “quê” e o “como”. Será necessário, nesta como noutras áreas, que, na busca da medida certa, sejamos mais exigentes para connosco próprios.»

Carlos Fiolhais, «Prefácio» in João Augusto Bernardes e Rui Afonso Mateus. Literatura e Ensino do Português. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013.

«Frequentar glossários, escandir versos, identificar figuras de retórica e outros processos técnico-formais, conhecer a história factual e os pressupostos ideológicos de um texto ou de um autor, integrar uma obra num determinado movimento ou escola, relacionando-a com um quadro, um filme ou uma peça musical, eis as atividades que defendemos para balizar a cultura literária de um professor de Literatura no século XXI. Não nos parece que essas atividades possam encontrar correspondência, no passado, num só tempo de formação e de exercício da docência. Julgamos, aliás, que a novidade da proposta que aqui se deixa consiste, tão-só, na conjugação de componentes que antes prevaleciam com exclusão de outras. Trata-se, bem o sabemos, de um modelo de caráter superlativo; mas, pelos motivos já enumerados, cremos que não pode deixar de ser assim. Justifica-o a necessidade de reagir contra um estado de crise, não com desespero, mas com lucidez e algum sentido prático. Todos sabemos como a resposta a uma situação deste tipo se revela infrutífera se não vier acompanhada de alguma contrição e de suficiente veemência. A alternativa, neste caso, é só uma: a de o saber literário continuar a ser tomado por aleatório, diletante ou mesmo ocioso.

 [...]

O maior desígnio do novo modelo formativo que aqui advogamos, porém, é o de formar professores mais humildes. Esperamos que esta palavra de profundo significado moral (e até teológico) não surpreenda, nesta ocasião. Na verdade, a circunstância provada de se ensinar tão pouco a partir de textos literários pode facilmente criar nos professores a sensação de que sabem muito mais do que necessitariam para cumprir o que os programas estabelecem. E não é assim, de facto. A verdadeira humildade só se robustece com a tentativa de conhecer. Só perseverando nessa gostosa escalada nos apercebemos do muito caminho que sempre nos faltará percorrer. Permanecendo num nível baixo de conhecimento mas, ainda assim, inevitavelmente acima do dos alunos, pode assaltar-nos a tentação de acreditar que estamos no alto de alguma coisa, quando, afinal, não passámos dos primeiros degraus de uma imensa escada. Cada novo patamar que se conseguir alcançar (através da leitura de livros e da participação em atividades de formação) constituirá um ganho para o profissional do ensino. Sabendo um pouco mais, ensinará sempre um pouco melhor e, sobretudo, estará em muito melhores condições para servir de exemplo aos seus alunos, os quais são, sobretudo, leitores a conquistar.»

José Augusto Bernardes e Rui Afonso Mateus. Literatura e Ensino do Português. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013.

domingo, 12 de outubro de 2014

WC

Textos engraçados... textos engraçados... para exercícios gramaticais... folhear livros... este... aquele...


Não resisti a partilhar estas informações para viajantes audaciosos, aqueles para quem a comida ou a ida à casa de banho não constituem embaraços:

W.C. - Instruções de uso

Agora é que vais passar pelo verdadeiro teste das tuas capacidades de viajante: as casas de banho públicas do Terceiro Mundo. Pensa positivo: cresceste em Portugal, onde, até há bem pouco tempo, não havia grande diferença entre as nossas retretes e as da Nigéria. E ainda podes ir parar a um desses «poços de m...» nigerianos se não tens cuidado. Assim, estás mais bem preparado do que os teus colegas mochileiros da Noruega, da Suíça ou do Canadá. A seguir, todas as cábulas que te podem ajudar a passar com distinção neste autêntico «teste psicotécnico» para descobrires se tens ou não aptidão para viajar pelos W.C. do mundo.

Tipo de instalações

Habitua-te à ideia de não haver divisões entre as retretes, ou seja, entre os utentes. [...]

Tipo de retrete

Quase sempre do género «buraco no chão». Aliás, a sanita tipo «trono» nem sequer é conhecida para lá de Istambul. Acredita, o teu metabolismo funciona muito melhor nesta posição, em que todos os músculos das tuas pernas e torso estão contraídos. [...]

Papel higiénico

Não há. Sais fora do mundo ocidental e habituas-te a usar outras formas de asseio. Na Ásia, é a tua mão esquerda. Por isso é que é mesmo muito má educação tocares em alguém com a tua mão esquerda. Tens água ao lado da retrete para te limpares; nos W.C. mais sofisticados, até tens uma mangueira com uma pressão razoável: é só apontares para o «castanho» residual e... boa pontaria, para não saíres com a nuca molhada e as tuas roupas encharcadas.

Gonçalo Cadilhe, O mundo é fácil: aprenda a viajar, Alfragide, Oficina do livro, 2010.


sábado, 27 de setembro de 2014

Os Maias (João Botelho)


Hoje foi dia de «Os Maias», de Eça de Queirós, lido e realizado por João Botelho. Recomendo, é um belíssimo filme. Porém, quem for ao cinema tenha em conta que o livro e as imagens que criou quando leu o romance não estão no ecrã. É outra coisa. Mesmo que o texto seja dito, filmado, recriado, nunca é o nosso livro, especialmente quando é um dos preferidos, lido e relido, por gosto e/ou por dever de ofício. Mas vale a pena. Em família, para além de uma reflexão sobre a «portugalidade», pode proporcionar uma revisitação da adolescência e a descoberta de que alguém faltou a algumas aulas de Português!





Fotografias retiradas de Ar de Filmes.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

"Fermosa Ilha, alegre e deleitosa" (IX, 54)

52

De longe a Ilha viram, fresca e bela,
Que Vénus pelas ondas lha levava
(Bem como o vento leva branca vela)
Pera onde a forte armada se enxergava;
Que, por que não passassem, sem que nela
Tomassem porto, como desejava,
Pera onde as naus navegam, a movia
A Acidália, que tudo, enfim, podia.

Luís De camões, Os Lusíadas, Porto, Figueirinhas, 1988. 

[Acabam-se as férias, é hora de dizer adeus à Ilha.  Lá vou eu, lá vamos nós, todos a remos nesta barca bamba até onde calhar.]

quinta-feira, 17 de julho de 2014

E com o calor vêm excelentes leituras

Belíssimo Livro!
(1ª edição francesa: 2010;
 edição portuguesa de 2013)

"O teu braço é duro. O teu corpo é duro. A tua alma é dura. É claro que estás a dormir. Sei que estavas à minha espera. Há pouco reparei nos teus olhares. Sabias que eu ia chegar. Tudo acaba sempre por acontecer. Desejaste a minha presença, e aqui estou. Muitos, deitados no escuro, desejariam ter-me junto deles; tu viras-me as costas. Sinto os teus músculos tensos, os teus músculos de bárbaro ou de guerreiro. Só com o manejo da espada se conseguem braços tão fortes. Da espada ou da foice. No entanto, não te imagino camponês, nem soldado, senão não estarias aqui. És áspero demais para seres poeta como o teu amigo turco. Serás então marinheiro, capitão, mercador? Não sei. Não me olhavas como coisa que se pode comprar ou possuir." (p.29)

Mathias Énard, Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes, Lisboa, D. Quixote, 2013.






Artemisia Gentileschi, Judite decapitando Holofernes
 
(google Images)


"Deseja-se muitas vezes a repetição das coisas; deseja-se reviver um momento fugaz, voltar a um gesto falhado ou a uma palavra não pronunciada; esforçamo-nos por recuperar os sons que ficaram na garganta, a carícia que não ousámos fazer, o aperto no peito para sempre desaparecido
Deitado de lado no escuro, Miguel Ângelo sente-se perturbado pela sua própria frieza, como se a beleza o evitasse sempre. [...]" (p. 126)

Mathias Énard, Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes, Lisboa, D. Quixote, 2013.