domingo, 15 de março de 2015

Caminhos novos

Chegou o sol, e com ele novos projetos. Inicia-se aqui o registo de uma nova etapa, que se quer soalheira. Portugal, a sua cultura, a sua língua, os seus lugares, tanta beleza!

(Évora)



 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

na morte de Luísa Dacosta

Luísa Dacosta (16/02/1927 - 15/02/2015)

Nestes dias, que fazer senão folhear a obra esplendorosa de Luísa Dacosta e ler?

[Sem título]
Desenho de Tiago Manuel
incluído no início de Um Olhar Naufragado: Diário II. 2008

[...] a Língua foi a última mitologia que habitei, descrente já dos mitos que me tinham habitado: o de Tristão e Isolda, o de Narciso, um Narciso que não se procurou na sua própria imagem, mas na do outro, o de Penélope, o de Ceres, e os que tinha criado para «A-Ver-o-Mar» e «Morrer a Ocidente» a partir dos nomes das praias e da sereiazinha da igreja de Rates, o de Amor e Morte, que criei para o prefácio de «Corpo Recusado». A Língua foi, por razões várias, a minha última mitologia, graças a raízes longínquas. [...]

Que maior mitologia do que a Língua?
Corriam-se colinas de ilusão e realidade com ela, capaz de nos permitir jogar ao chinclimpé com o tempo. Tão depressa na eternidade do ser, onde tudo é e nada passa - «Era um pássaro e era uma menina.» - como no desgaste de estar (ex) fora do paraíso, onde o tempo foge e se esgota. Mas ainda (tão amigo!) devagar, devagarinho, onde não se fazia, mas se podia prolongar a acção com a perifrástica e estar-se a fazer ou ir-se fazendo. Depois havia os verbos incoativos, que também travavam o passo ao desgaste do tempo, porque só davam o começo da acção, como um «amanhecer» de esperança. E ainda os frequentativos, os da continuidade, sem fim, como se não estivesse em causa a vida, mas duma torneira mal vedada se tratasse. Podia ainda prolongar-se o tempo do desgaste com aquelas palavras, longas, os advérbios de modo - tão minhamente queridas! - e que tão bem serviram o traço, impressionista, de Cesário: «amareladamente, os cães parecem lobos». Língua com uma concepção agostiniana do tempo, já que o presente era capaz de dar, embora com bracinho, curto, o passado próximo, e o futuro próximo e longínquo, como se o desejo os tornasse presentes na nossa mão. Quando se recuava para o passado, logo com o imperfeito, podia-se não apenas trazê-lo de volta, mas torná-lo presente, enquanto quiséssemos, visto que a acção se suspendia. Ou recuar ainda mais com o mais-que perfeito, que tanto lhe servira, já que se «sonhara», desde sempre. Oh! Língua amada que até o particípio passado, quando regular, não estava morto, mas englobava o tempo, durativo, da acção, já que «emurchecido» era muito mais expressivo do que «murcho»! Língua mítica, mítica, mítica!
Capaz de englobar o tu na respiração do desejo e torná-lo posse do eu na forma mesoclítica do futuro:

(eu) amar-te(tu)-ei(eu)

E esse futuro nem sequer era inalcançável já a Língua admite (e deve ser a única) a conjugação pessoal no infinito, por definição fora do espaço, do tempo e da circunstancialidade. Que haverá de mais mitológico? Do que amar e ser amada, na passagem do estar ao ser. Tristão e Isolda eram, afinal, possíveis! A Língua era a certeza de uma utopia, que a vida lhe tinha negado: uma amor durativo, de sempre e para sempre, liberto do desgaste do tempo e da circunstancialidade. [...]

Luísa Dacosta. Um Olhar Naufragado: Diário II. Alfragide: Asa, 2008.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Pessoa e a heteronimia

«No quadro dos heterónimos, bem como de toda a escrita ficcional ou ensaística que assinam os nomes de Pessoa, a arquictetura da dissolução ou da multiplicação ou do vácuo do "eu" constitui um dos fios que sempre se encontram. Excepto em Caeiro, e é isso que o torna capaz de ocupar o lugar de Mestre. Ao passo que a consciência de não existir, ou de existir a si mesmo se opondo, atormenta todos os outros, desesperados reflexos sem corpo, em Caeiro encontramos a paz de dizer "eu" e de isso significar, de facto, "eu", sem ambiguidades, sem sonhos e sem fantasmas. É isto que Eduardo Lourenço mostra, aliás, em Pessoa Revisitado, ao referir a vontade que anima Caeiro de regressar "àquele ponto anterior à cisão (2ª ed., 1981: 40).»

Fernando Cabral Martins. «A ciência das imagens». Pessoa's Alberto Caeiro. Portuguese Literary & Cultural Studies 3. Center for Portuguese Studies and Culture. University of Massachusetts Dartmouth: 2000. p. 137.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

T.P.C. - A representação da natureza e a experiência amorosa num soneto de Camões

Giorgione
Concerto Pastoral
c. 1509-1510
(pormenor)

A fermosura desta fresca serra
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;

enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos of'rece,
me está, se não te vejo, magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me avorrece;
sem ti, perpetuamente estou passando, 
nas mores alegrias, mór tristeza.

Luís de Camões. Lírica Completa II. Prefácio e notas de Maria de Lourdes Saraiva. Lisboa: INCM, 1994.

Tópicos de análise:

Natureza: brandura; idealização.

Experiência amorosa: dureza; mágoa.

Sugestões bucólicas 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

EM DIA DE CINZAS, SOBRE AS PALAVRAS - QUIA PLUVIS ES

Melhor há de mil anos que me grita
Um voz, que me diz: És pó da terra!
Melhor há de mil anos que me desterra
Um sono, que esta voz desacredita.

Diz-me o pó que sou pó, e a crer me incita
Que é vento quanto nesse pó se encerra;
Diz-me outro vento que esse pó vil erra.
Qual destes a verdade solicita?

Pois, se mente este pó, que foi do mundo?
Que é do gosto? que é do ócio? que é da idade?
Que é do vigor constante e amor jocundo?

Que é da velhice? que é da mocidade?
Tragou-me a vida inteira o mar profundo!
Ora quem diz sou pó, falou verdade.

D. Francisco Manuel de Melo

In Natália Correia, Antologia da poesia do período barroco, Lisboa, Morais Editores, 1982.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Boogie woogie



Piet Mondrian. Broadway Boogie Woogie. 1942-43
(MoMa)
Lia uma reportagem sobre a apetência por jogos eletrónicos (Rui Pelejão. "O comando é delas". Notícias Magazine, 09/11/2014) e sentia-me a ajuizar. E se suspendêssemos os juízos e antes nos abríssemos à infinita variedade humana? 

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Literatura e ensino do português


Um livro interessante seguido de debate:


José Augusto Bernardes e Rui Afonso Mateus.
 
Literatura e Ensino do Português.
 Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013.
«Está, portanto, em debate o papel das Belas Letras nas Letras Nacionais. Os autores defendem, com argumentos sabiamente pensados e expostos, que, no quadro educativo, não há nem pode haver Letras sem Belas Letras. Que não se pode ensinar Português sem se ensinar também, obviamente na medida certa, Literatura: Camões, Gil Vicente, o Padre António Vieira, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e outros não podem deixar de estar nas nossas escolas. E também defendem que a medida actual está aquém da medida certa. Por medida não se deve entender apenas a quantidade mas também e sobretudo a qualidade. Neste domínio, segundo eles, interessa o “quanto” e interessa o “quê” e o “como”. Será necessário, nesta como noutras áreas, que, na busca da medida certa, sejamos mais exigentes para connosco próprios.»

Carlos Fiolhais, «Prefácio» in João Augusto Bernardes e Rui Afonso Mateus. Literatura e Ensino do Português. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013.

«Frequentar glossários, escandir versos, identificar figuras de retórica e outros processos técnico-formais, conhecer a história factual e os pressupostos ideológicos de um texto ou de um autor, integrar uma obra num determinado movimento ou escola, relacionando-a com um quadro, um filme ou uma peça musical, eis as atividades que defendemos para balizar a cultura literária de um professor de Literatura no século XXI. Não nos parece que essas atividades possam encontrar correspondência, no passado, num só tempo de formação e de exercício da docência. Julgamos, aliás, que a novidade da proposta que aqui se deixa consiste, tão-só, na conjugação de componentes que antes prevaleciam com exclusão de outras. Trata-se, bem o sabemos, de um modelo de caráter superlativo; mas, pelos motivos já enumerados, cremos que não pode deixar de ser assim. Justifica-o a necessidade de reagir contra um estado de crise, não com desespero, mas com lucidez e algum sentido prático. Todos sabemos como a resposta a uma situação deste tipo se revela infrutífera se não vier acompanhada de alguma contrição e de suficiente veemência. A alternativa, neste caso, é só uma: a de o saber literário continuar a ser tomado por aleatório, diletante ou mesmo ocioso.

 [...]

O maior desígnio do novo modelo formativo que aqui advogamos, porém, é o de formar professores mais humildes. Esperamos que esta palavra de profundo significado moral (e até teológico) não surpreenda, nesta ocasião. Na verdade, a circunstância provada de se ensinar tão pouco a partir de textos literários pode facilmente criar nos professores a sensação de que sabem muito mais do que necessitariam para cumprir o que os programas estabelecem. E não é assim, de facto. A verdadeira humildade só se robustece com a tentativa de conhecer. Só perseverando nessa gostosa escalada nos apercebemos do muito caminho que sempre nos faltará percorrer. Permanecendo num nível baixo de conhecimento mas, ainda assim, inevitavelmente acima do dos alunos, pode assaltar-nos a tentação de acreditar que estamos no alto de alguma coisa, quando, afinal, não passámos dos primeiros degraus de uma imensa escada. Cada novo patamar que se conseguir alcançar (através da leitura de livros e da participação em atividades de formação) constituirá um ganho para o profissional do ensino. Sabendo um pouco mais, ensinará sempre um pouco melhor e, sobretudo, estará em muito melhores condições para servir de exemplo aos seus alunos, os quais são, sobretudo, leitores a conquistar.»

José Augusto Bernardes e Rui Afonso Mateus. Literatura e Ensino do Português. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2013.