domingo, 12 de abril de 2015

Intertextos 10


Ana Eustáquio, Gisela Peixoto, Paulo Mendes.
Intertextos 10. Lisboa: Plátano, 2015.

Para C. / Dio., «desasado».




MAR

Bebo-o a colherinhas de olhos
na taça da manhã.
E nem ele se esgota,
nem eu me sacio.


Luísa Dacosta. A Maresia e o Sargaço dos Dias
(uma das epígrafes do manual)

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sexta-feira Santa

Niccollò dell' Arca. Pranto sobre Cristo Morto [pormenor]
(1463-1490)
DAQUI

Epitáfio

Querida vida,
pobre pó.
Tão pó a pó.
Após, a pó.

Luiza Neto Jorge. A Lume. Lisboa: Assírio e Alvim, 1989.

domingo, 15 de março de 2015

Caminhos novos

Chegou o sol, e com ele novos projetos. Inicia-se aqui o registo de uma nova etapa, que se quer soalheira. Portugal, a sua cultura, a sua língua, os seus lugares, tanta beleza!

(Évora)



 

sábado, 21 de fevereiro de 2015

na morte de Luísa Dacosta

Luísa Dacosta (16/02/1927 - 15/02/2015)

Nestes dias, que fazer senão folhear a obra esplendorosa de Luísa Dacosta e ler?

[Sem título]
Desenho de Tiago Manuel
incluído no início de Um Olhar Naufragado: Diário II. 2008

[...] a Língua foi a última mitologia que habitei, descrente já dos mitos que me tinham habitado: o de Tristão e Isolda, o de Narciso, um Narciso que não se procurou na sua própria imagem, mas na do outro, o de Penélope, o de Ceres, e os que tinha criado para «A-Ver-o-Mar» e «Morrer a Ocidente» a partir dos nomes das praias e da sereiazinha da igreja de Rates, o de Amor e Morte, que criei para o prefácio de «Corpo Recusado». A Língua foi, por razões várias, a minha última mitologia, graças a raízes longínquas. [...]

Que maior mitologia do que a Língua?
Corriam-se colinas de ilusão e realidade com ela, capaz de nos permitir jogar ao chinclimpé com o tempo. Tão depressa na eternidade do ser, onde tudo é e nada passa - «Era um pássaro e era uma menina.» - como no desgaste de estar (ex) fora do paraíso, onde o tempo foge e se esgota. Mas ainda (tão amigo!) devagar, devagarinho, onde não se fazia, mas se podia prolongar a acção com a perifrástica e estar-se a fazer ou ir-se fazendo. Depois havia os verbos incoativos, que também travavam o passo ao desgaste do tempo, porque só davam o começo da acção, como um «amanhecer» de esperança. E ainda os frequentativos, os da continuidade, sem fim, como se não estivesse em causa a vida, mas duma torneira mal vedada se tratasse. Podia ainda prolongar-se o tempo do desgaste com aquelas palavras, longas, os advérbios de modo - tão minhamente queridas! - e que tão bem serviram o traço, impressionista, de Cesário: «amareladamente, os cães parecem lobos». Língua com uma concepção agostiniana do tempo, já que o presente era capaz de dar, embora com bracinho, curto, o passado próximo, e o futuro próximo e longínquo, como se o desejo os tornasse presentes na nossa mão. Quando se recuava para o passado, logo com o imperfeito, podia-se não apenas trazê-lo de volta, mas torná-lo presente, enquanto quiséssemos, visto que a acção se suspendia. Ou recuar ainda mais com o mais-que perfeito, que tanto lhe servira, já que se «sonhara», desde sempre. Oh! Língua amada que até o particípio passado, quando regular, não estava morto, mas englobava o tempo, durativo, da acção, já que «emurchecido» era muito mais expressivo do que «murcho»! Língua mítica, mítica, mítica!
Capaz de englobar o tu na respiração do desejo e torná-lo posse do eu na forma mesoclítica do futuro:

(eu) amar-te(tu)-ei(eu)

E esse futuro nem sequer era inalcançável já a Língua admite (e deve ser a única) a conjugação pessoal no infinito, por definição fora do espaço, do tempo e da circunstancialidade. Que haverá de mais mitológico? Do que amar e ser amada, na passagem do estar ao ser. Tristão e Isolda eram, afinal, possíveis! A Língua era a certeza de uma utopia, que a vida lhe tinha negado: uma amor durativo, de sempre e para sempre, liberto do desgaste do tempo e da circunstancialidade. [...]

Luísa Dacosta. Um Olhar Naufragado: Diário II. Alfragide: Asa, 2008.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Pessoa e a heteronimia

«No quadro dos heterónimos, bem como de toda a escrita ficcional ou ensaística que assinam os nomes de Pessoa, a arquictetura da dissolução ou da multiplicação ou do vácuo do "eu" constitui um dos fios que sempre se encontram. Excepto em Caeiro, e é isso que o torna capaz de ocupar o lugar de Mestre. Ao passo que a consciência de não existir, ou de existir a si mesmo se opondo, atormenta todos os outros, desesperados reflexos sem corpo, em Caeiro encontramos a paz de dizer "eu" e de isso significar, de facto, "eu", sem ambiguidades, sem sonhos e sem fantasmas. É isto que Eduardo Lourenço mostra, aliás, em Pessoa Revisitado, ao referir a vontade que anima Caeiro de regressar "àquele ponto anterior à cisão (2ª ed., 1981: 40).»

Fernando Cabral Martins. «A ciência das imagens». Pessoa's Alberto Caeiro. Portuguese Literary & Cultural Studies 3. Center for Portuguese Studies and Culture. University of Massachusetts Dartmouth: 2000. p. 137.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

T.P.C. - A representação da natureza e a experiência amorosa num soneto de Camões

Giorgione
Concerto Pastoral
c. 1509-1510
(pormenor)

A fermosura desta fresca serra
e a sombra dos verdes castanheiros,
o manso caminhar destes ribeiros,
donde toda a tristeza se desterra;

o rouco som do mar, a estranha terra,
o esconder do sol pelos outeiros,
o recolher dos gados derradeiros,
das nuvens pelo ar a branda guerra;

enfim, tudo o que a rara natureza
com tanta variedade nos of'rece,
me está, se não te vejo, magoando.

Sem ti, tudo me enoja e me avorrece;
sem ti, perpetuamente estou passando, 
nas mores alegrias, mór tristeza.

Luís de Camões. Lírica Completa II. Prefácio e notas de Maria de Lourdes Saraiva. Lisboa: INCM, 1994.

Tópicos de análise:

Natureza: brandura; idealização.

Experiência amorosa: dureza; mágoa.

Sugestões bucólicas