terça-feira, 26 de abril de 2016
"Um grande, grande adeus do seu poeta, Mário de Sá-carneiro."
Suicidou-se a 26 de abril de 1916 - Mário de Sá-Carneiro.
Fim
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!
Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Ática, 1989.
terça-feira, 12 de abril de 2016
"história da literatura com caracóis e uma imperial"
O título desta entrada é de J.D, a propósito de uma fotografia no Facebook, de uma história da literatura antiga e de Ana Hatherly, autora do poema citado:
os caracóis e as carpas têm cornos
vês, eu não te dizia?as carpas e os caracóis não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracoias e os carpos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os carapoicos e os parcos não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carapaias e os porcos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracoicos e as parras não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carassaias e os parcas têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracorpos e as praias não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracaias e os poicos têm
vês
Ana Hatherly
um calculador de improbabilidades
Quimera
1ª edição 2001
segunda-feira, 11 de abril de 2016
A sala de aula é absurda
sexta-feira, 8 de abril de 2016
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
O sofrimento e a vida
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| Rui Chafes, Burning in the forbidden sea, 2011 (Gulbenkian/CAM, 2014) |
Para ajudar à reflexão, deixo estas sábias palavras de José Tolentino Mendonça:
«Porque o sofrimento é uma estranha boca sem lábios, uma estranha língua sem palavras, um ininterrupto zumbido que se solta do próprio som, mas nunca mais nos solta. Invade-nos com o poderio e a frieza de uma colossal máquina de guerra. E abala tudo: das mínimas articulações do corpo às dobras imensas da alma.
Contudo, mesmo o sofrimento mais intolerável pede ainda para ser interpretado, e para sê-lo com a chave da vida. Desistir de escutá-lo até ao fim, e para lá do fim, é desistir de amparar a vida como ela é, na sua nua e vulnerabilíssima manifestação. É preferir uma qualquer idealização (ou fuga) que diz o que a vida deveria ser, como se fôssemos nós a decidir o que a vida é. E não somos. Pois quem pode, com verdade, considerar-se dono da vida? Não seremos antes guardadores, e apenas isso, apenas guardadores desse mistério que é maior do que nós?»
Contudo, mesmo o sofrimento mais intolerável pede ainda para ser interpretado, e para sê-lo com a chave da vida. Desistir de escutá-lo até ao fim, e para lá do fim, é desistir de amparar a vida como ela é, na sua nua e vulnerabilíssima manifestação. É preferir uma qualquer idealização (ou fuga) que diz o que a vida deveria ser, como se fôssemos nós a decidir o que a vida é. E não somos. Pois quem pode, com verdade, considerar-se dono da vida? Não seremos antes guardadores, e apenas isso, apenas guardadores desse mistério que é maior do que nós?»
José Tolentino Mendonça, «Que coisa são as coisa: Não matarás», Expresso: Única, 27/02/2016.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
Laços de família
Os escritores, de vez em quando, esboçam as suas "árvores bibliográficas", as suas genealogias literárias. Na Visão online (03.12.2015), foi a vez de António Lobo Antunes, em mais uma das suas belíssimas crónicas:
http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/2015-12-03-E-no-entanto-vendo.
Gosto muito destas indicações, de reconhecer ligações, laços de família entre textos, palavras, autores... Cheguei a iniciar uma lista dos nomes referidos por Luísa Dacosta, procurando seguir as vozes daqueles poetas e prosadores portugueses e o seu eco na maravilhosa obra da escritora.
Aqui fica o princípio desse colar de afetos: Fernão Lopes, Gil Vicente, Sá de Miranda, Luís de Camões, Fernão Mendes Pinto, Diogo do Couto, Samuel Usque, Frei Luís de Sousa, António Ferreira, António José da Silva, António Vieira, Nicolau Tolentino, Bocage, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, António Nobre, Camilo Pessanha, Raúl Brandão. Aquilino Ribeiro, Tomaz de Figueiredo, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Cassiano Ricardo, Irene Lisboa, Vitorino Nemésio, Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Saúl Dias, Renata Pallotini ... (cont)
A propósito da árvore bibliográfica que Pedro Mexia delineou para si, na revista Ler*, também esta leitora quis encontrar a sua:
http://amateriadoslivros.blogspot.pt/2013/01/arvore-bibliografica.html
*Pedro Mexia, "Ler é Maçada: Árvore bibliográfica", Ler, Janeiro de 2013.
terça-feira, 24 de novembro de 2015
João Lobo Antunes
Ler os ensaios de João Lobo Antunes, um prazer e uma aprendizagem.
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| João Lobo Antunes, Ouvir com Outros Olhos, Lisboa, Gradiva, 2015. |
De todas as experiências que marcam a nossa jornada por este mundo, é a experiência da doença que nos ameaça a vida que grava incisão mais profunda na essência do que somos, na «fraternelle jointure» da alma e do corpo de que fala Montaigne. Não o faz com o gume de uma lâmina, mas como se um monstruoso insecto de múltiplos ferrões injectasse em nós, por cada um deles, um veneno diferente que ataca uma parte específica do todo.
João Lobo Antunes, "O consolo das Humanidades" In Ouvir com Outros Olhos, Lisboa, Gradiva, 2015, p. 35.
sábado, 21 de novembro de 2015
Lisboa, a Bela
sábado, 31 de outubro de 2015
Cemitério dos Prazeres
A próxima «Visita Guida» leva-nos ao Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, apresentado como um museu de arte funerária, a assinalar a importância dos rituais da morte, não só para os defuntos, como também para os vivos.
No próximo episódio vamos levá-lo a um "museu" inesperado.O Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, é um dos maiores (mais de 7000 jazigos) e o mais elitista dos cemitérios portugueses: de aristocratas a políticos, de heróis militares a artistas, grandes vultos da história do país estão ali sepultados. Consolidado em meados do séc. XIX, expoente do romantismo em Portugal, o Cemitério dos Prazeres é um repositório de escultura que hoje vale como museu. O historiador de arte Francisco Queiroz é o nosso guia nesta visita surpreendente.RTP2, 2ª feira, 2 novembro, pelas 23h; sábado, 7 novembro, pelas 19h40 (repetição)Antena 1, 5as feiras, pelas 21h10facebook.com/paulamourapinheiro
Posted by Visita Guiada on Sexta-feira, 30 de Outubro de 2015
Por coincidência, José Tolentino Mendonça, na sua crónica semanal no Expresso, reflete também sobre o funeral e o valor humano dos rituais devidos aos finados:
«No dia em que o mandamento de «sepultar dignamente os mortos» for removido dos deveres dos filhos, dos companheiros, dos irmãos, dos amigos e antecipado para as obrigações que cada um deve prever em relação a si mesmo, a nossa humanidade ficará irremediavelmente mais pobre.»
José Tolentino Mendonça, «Funeral em vida». Expresso: 31/10/2015
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
Lamentação
O rei deitou-se e não tornará a erguer-se,
O senhor de Kullab não tornará a erguer-se;
Ele dominou o mal, não regressará;
Era forte de braço, mas não tornará a erguer-se;
Ele tinha sabedoria e atraente rosto, e não regressará;
Foi até à montanha, e não regressará;
No leito do destino está deitado, e não tornará a erguer-se,
Da cama de muitas cores não regressará.
O senhor de Kullab não tornará a erguer-se;
Ele dominou o mal, não regressará;
Era forte de braço, mas não tornará a erguer-se;
Ele tinha sabedoria e atraente rosto, e não regressará;
Foi até à montanha, e não regressará;
No leito do destino está deitado, e não tornará a erguer-se,
Da cama de muitas cores não regressará.
Gilgamesh. Lisboa: Vega, 2007.
Versão de Pedro Tamen.
quarta-feira, 12 de agosto de 2015
A propósito de "selfies" e autorrepresentação online
"Haverá melhor auto-retrato do que aquilo que se vai publicando, bom ou mau, muito ou pouco, já que escrever é sempre uma forma imprudente de identificação e autobiografia?"
Marcello Duarte Mathias . "Auto-retrato" In A Memória dos Outros: Ensaios e Crónicas. Lisboa: Gótica, 2001. p. 325.
Andava esta leitora a pensar em selfies, após leitura de uma publicação de V. G. no Facebook / no blogue Enfermaria 6, sem chegar a conclusões, até porque não pratica a "modalidade", quando é surpreendida pela última página do Jornal de Letras (05 a 18 de agosto de 2015). Aqui, na secção de "Diário", o escritor Mário Cláudio publica "16 entradas do Facebook"! Surpresa! Surpresa! Então a escrita na famosa rede social também pode ser vista como escrita diarística?
As relações entre o blogue e o diário há muito que são óbvias, como já se pensou nestas páginas, verificando-se mesmo a transformação de alguns blogues em livros, como acontece com outros diários clássicos que chegam às livrarias, todos com qualidade literária variável, digamos. Já a assunção das publicações rápidas no Facebook como "entradas" diarísticas parece menos óbvia, parece que lhe falta o trabalho de representação do Eu que se evidencia no diário ou em blogues tão conhecidos como, por exemplo, o ana de amesterdam, também ele já com um duplo em livro. De facto, o imediatismo e a brevidade da escrita nas redes sociais parecem contrários ao labor e ao rigor da escrita que busca conhecer e conhecer-se e... revelar-se através da representação desse Eu enigmático e movente que atrai e atormenta o diarista. Acresce que a massificação característica das redes sociais parece mais propícia à reflexão sociológica sobre as formas de comunicar do homem desenvolvido (tecnológico) do que à reflexão literária ou ontológica. Ainda mais que lhes falta tempo, i.e., nem as publicações requerem grandes demoras, bastando, por vezes, um mero clique, quando se trata de "partilhar" vídeos, fotografias ou "posts" alheios, nem a sua visualização permite atrasos, uma vez que são constantemente sobrepostas ou substituídas por outras; podem voltar, é certo, mas, nesse caso, vêm desprovidas de cronologia pois o tempo das redes sociais é o eterno presente, não obstante as tentativas da rede de lembrar o que o utilizador publicou "há cinco anos". O efémero e o perene entrelaçam-se desta maneira, anulando essa dimensão essencial do humano que é o tempo. Que Eu, então, se vislumbra? Um ser liberto do mal de Cronos ou um ser prisioneiro do presente sem fim nem princípio?
A estranheza das selfies e a dificuldade em entendê-las como sucedâneos do autorretrato resultam precisamente destas duas dimensões: a massificação e o imediatismo. A falta. Falta de quê? De tempo, claro. E da terrível face da Medusa. Mais do que de Narciso, arquétipo do sujeito autobiográfico ou do utilizador da rede, apaixonado pela sua belíssima imagem, admitindo que estas representações de si, tão iguais e repetitivas, sejam percorridas pelo amor, mesmo que louco. E o amor, não é feito de tempo e imaginação?
[E a leitora não conseguiu fugir ao juízo moral, pois não? Está mal.]
quarta-feira, 8 de julho de 2015
Quo vadis, Portugal?
A identidade nacional e a consciência coletiva são temas do novo programa de Português do ensino secundário. Aqui ficam alguns excertos retirados do projeto escolar Intertextos 10 (Plátano Editora: 2015). Servem para reflexão, ainda que melancólica.
A
presença de um herói coletivo - o povo português - e a narração dos seus feitos,
nomeadamente no que diz respeito à consolidação da identidade portuguesa e da
memória coletiva nacional, aproximam a Crónica de D. João I do género épico
[...]. Na verdade, esta crónica inaugura o sentimento nacionalista na
literatura portuguesa; [...] marca a verdadeira independência da nacionalidade,
baseada na vontade coletiva de um povo, como fica atestado nas Cortes de
Coimbra, em 1385.
Não
é, pois, de estranhar que esta crónica tenha posteriormente servido intuitos
nacionalistas, nomeadamente em épocas de imperiosa necessidade de afirmação da
independência nacional: em 1642, o Santo Ofício dá o parecer positivo para a
sua edição; em 1897, Luciano Cordeiro vê a edição da crónica como uma arma
contra as pretensões unionistas da Federação Ibérica. Rodrigues Lapa considera
a Crónica de D. João I, a par de Os Lusíadas, um “breviário de
portuguesismo”, um “alimento de energias cívicas” (Lapa, 1956: 352). Todavia,
existem claras diferenças entre estas duas epopeias: enquanto o texto de Fernão
Lopes constitui um momento inaugural do nacionalismo português e tem, portanto,
um caráter mais prospetivo, Os Lusíadas é uma obra de feição mais
retrospetiva, uma glorificação desencantada ou, no dizer de A. J. Saraiva e
Óscar Lopes, uma “epopeia póstuma, inspirada pelo sentimento de uma deceção que
quer negar-se, e vibrando de inquietações acerca do destino nacional (social e
humano)” (Lopes e Saraiva, [1982]: 136).
Ana Cristina Correia
Gil. A Identidade Nacional na Literatura Portuguesa: de Fernão Lopes ao fim do
Século XIX, dissertação de doutoramento, apresentada à Universidade dos
Açores em 2005.
![]() |
| Crónica de D. João i, de Fernão Lopes |
Toda
a cidade era dada a nojo, cheia de mezquinhas querelas, sem neuũ prazer que i
houvesse: uũs com gram mingua do que padeciam; outros havendo doo dos
atribulados; e isto nom sem razom, ca, se é triste e mezquinho o coraçom
cuidoso nas cousas contrairas que lhe aviinr podem, veede que fariam aqueles
que as continuadamente tam presentes tiinham? Pero, com todo esto, quando
repicavom, nenhum nom mostrava que era faminto, mas forte e rijo contra seus ĕmigos.
Esforçavom-se uũs por consolar os outros, por dar remedio a seu grande nojo,
mas nom prestava conforto de palavras, nem podia tal dor ser amansada com neũas
doces razões; e assi como é natural cousa a mão ir ameúde onde é a dor, assi uũs
homĕes, falando com outros, nom podiam em al departir senom em na mingua que
cada uũ padecia. […]
Ora
esguardae, como se fossees presente, ũa tal cidade assi desconfortada e sem neũa
certa feúza de seu livramento, como veviriam em desvairados cuidados quem
sofria ondas de taes aflições? Ó geeraçom que depois veo, poboo bem aventuirado,
que nom soube parte de tantos males nem foi quinhoeiro de taes padecimentos! Os
quaes Deos por Sua mercee prougue de cedo abreviar doutra guisa, como acerca ouvirees.
Fernão Lopes. Crónica de D.
João I. Lisboa: Comunicação, 1992. Edição crítica de Teresa Amado.
145 No mais,
Musa, no mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dhũa
austera, apagada e vil tristeza.
146 E não sei por que
influxo do Destino
Não tem um ledo orgulho e geral gosto,
Que os ânimos levanta de contino
A ter pera trabalhos ledo o rosto.
Por isso vós, ó Rei, que por divino
Conselho estais no régio sólio posto,
Olhai que sois (e vede as outras gentes)
Senhor só de vassalos excelentes.
Luís de Camões. Os Lusíadas. Porto: Porto Editora, 1990. Edição crítica de Emanuel
Paulo Ramos.
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