sexta-feira, 6 de maio de 2016

Café com letras: revista de literatura

Sempre atrasada, só agora consegui ler o primeiro número da revista Café com letras: revista de literatura (abril, 2016), surpreendente e oportuna publicação mensal. Estão de parabéns a sua diretora, Maria João Cantinho, e a equipa que com ela colabora. A revista não segue o Acordo Ortográfico de 1990.
Como o título e o subtítulo indicam, dedica-se às letras, à literatura, à crítica literária e à filosofia, incluindo nas suas páginas entrevistas, ensaios / recensões  e crónicas. O «dossier» do mês de abril é dedicado à «Literatura portuguesa e resistência». De todos os textos, destaco o excelente ensaio de Vítor Viçoso, «Ler hoje o neo-realismo português» e a entrevista a Manuel Gusmão (por Maria João Cantinho e João Oliveira Duarte). Relevo desta última o carácter dialógico da poesia e a sua inscrição no mundo: «Nós nascemos como um diálogo, ou seja, a capacidade da linguagem é em nós inata, estamos preparados para a linguagem e, por isso, a linguagem faz-nos e, ao fazer-nos, nada impede que aquilo que eu faço seja partilhável. E, nesse aspecto, se nós existimos nesta dupla condição de esperados sobre esta terra e de preparados para uma linguagem, como diz Benjamin, está encontrado o quadro para pensar a relação da poesia com o mundo.».


O número dois, de maio, já está nas bancas. 


quarta-feira, 4 de maio de 2016

Quarta-feira de sol nos cabelos

Leituras.

Uma descoberta: Eugénia de Vasconcellos. Poesia surpreendente, de que estou a gostar muito. 

Fica um poema de Eugénia Vasconcellos e uma imagem de outras compras: Ana Cássia Rebelo, Ana de Amesterdam, Lisboa, Quetzal, 2015; Paulo Varela Gomes, Passos Perdidos, Lisboa, Tinta da China, 2016 (mais um livro lindíssimo da Tinta da China); José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, Alfragide, Leya/Livros RTP, 2016 (excelente iniciativa da RTP, em pareceria com a Leya, de louvar e colecionar).




Poema à mulher triste

Levanta-te.
Levanta-te.
Do fundo de ti, ergue-te
e um arquipélago de milagres
erguer-se-á contigo,
à tua esquerda e à tua direita,
ilhas súbitas.
E todas as coisas naturais
voltarão a jorrar de secretas fontes ocultas,
voltarão:
a composição harmónica do riso,
a melodia do sol nos cabelos,
e a violência das estrelas
explodirá de novo entre a erva e o orvalho
atravessando o vento
e as duas línguas de fogo.
A mulher dorme
esculpida sobre o túmulo de pedra,
e as mãos postas sobre o peito. Repete:
é a nascente
é a nascente
é a nascente.
E jorra um arquipélagos de milagres.
Ilhas súbitas
erguem-te.

Eugénia de Vasconcellos, o quotidiano a secar em verso, Lisboa, Guerra e Paz, 2016.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Sombras


"Um grande, grande adeus do seu poeta, Mário de Sá-carneiro."

Suicidou-se a 26 de abril de 1916 - Mário de Sá-Carneiro.

Fim
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!


Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Ática, 1989.

Richard Zenith, Fotobiografias do Século XX: Fernando Pessoa, Círculo de leitores, 2008, p. 119 -
a despedida enviada a Pessoa, por Mário de Sá-Carneiro, em 3 de abril de 1916,
e a derradeira nota de despedida, no dia do seu suicídio.


terça-feira, 12 de abril de 2016

"história da literatura com caracóis e uma imperial"

O título desta entrada é de J.D, a propósito de uma fotografia no Facebook, de uma história da literatura antiga e de Ana Hatherly, autora do poema citado:


os caracóis e as carpas têm cornos

os caracóis e as carpas têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carpas e os caracóis não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracoias e os carpos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os carapoicos e os parcos não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carapaias e os porcos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracoicos e as parras não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carassaias e os parcas têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracorpos e as praias não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracaias e os poicos têm
vês

Ana Hatherly
um calculador de improbabilidades
Quimera
1ª edição 2001

segunda-feira, 11 de abril de 2016

A sala de aula é absurda

William Holbrook Beard, School Rules, 1887
 É verdade. Precisa de uma transformação, transfiguração, metamorfose, qualquer coisa...

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O sofrimento e a vida

Rui Chafes, Burning in the forbidden sea2011 
(Gulbenkian/CAM, 2014)
Decorre o debate sobre a morte assistida ou a eutanásia. Ainda não compreendi bem as posições de uns e de outros, o que me parece é que estão por definir ou clarificar os conceitos em discussão ou práticas disponíveis, tais como: eutanásia, distanásia, morte assistida, recusa de cuidados de saúde, testamento vital, cuidados paliativos... Mas a indefinição não se fica por aqui, desde logo, é preciso esclarecer o que se quer dizer quando se fala de sofrimento intolerável, de desejo de morrer ou de dignidade e de vida digna; enfim, quando o tema é a vida abrem-se muitas portas, cada uma para uma ponta do mistério. 

Para ajudar à reflexão, deixo estas sábias palavras de José Tolentino Mendonça:

«Porque o sofrimento é uma estranha boca sem lábios, uma estranha língua sem palavras, um ininterrupto zumbido que se solta do próprio som, mas nunca mais nos solta. Invade-nos com o poderio e a frieza de uma colossal máquina de guerra. E abala tudo: das mínimas articulações do corpo às dobras imensas da alma.
Contudo, mesmo o sofrimento mais intolerável pede ainda para ser interpretado, e para sê-lo com a chave da vida. Desistir de escutá-lo até ao fim, e para lá do fim, é desistir de amparar a vida como ela é, na sua nua e vulnerabilíssima manifestação. É preferir uma qualquer idealização (ou fuga) que diz o que a vida deveria ser, como se fôssemos nós a decidir o que a vida é. E não somos. Pois quem pode, com verdade, considerar-se dono da vida? Não seremos antes guardadores, e apenas isso, apenas guardadores desse mistério que é maior do que nós?»

José Tolentino Mendonça, «Que coisa são as coisa: Não matarás», Expresso: Única, 27/02/2016.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Laços de família

Os escritores, de vez em quando, esboçam as suas "árvores bibliográficas", as suas genealogias literárias. Na Visão online (03.12.2015), foi a vez de António Lobo Antunes, em mais uma das suas belíssimas crónicas: 

http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/2015-12-03-E-no-entanto-vendo.

Gosto muito destas indicações, de reconhecer ligações, laços de família entre textos, palavras, autores... Cheguei a iniciar uma lista dos nomes referidos por Luísa Dacosta, procurando seguir as vozes daqueles poetas e prosadores portugueses e o seu eco na maravilhosa obra da escritora.

Aqui fica o princípio desse colar de afetos: Fernão Lopes, Gil Vicente, Sá de Miranda, Luís de Camões, Fernão Mendes Pinto, Diogo do Couto, Samuel Usque, Frei Luís de Sousa, António Ferreira, António José da Silva, António Vieira, Nicolau Tolentino, Bocage, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, António Nobre, Camilo Pessanha, Raúl Brandão. Aquilino Ribeiro, Tomaz de Figueiredo, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Cassiano Ricardo, Irene Lisboa, Vitorino Nemésio, Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Saúl Dias, Renata Pallotini ... (cont)

A propósito da árvore bibliográfica que Pedro Mexia delineou para si, na revista Ler*, também esta leitora quis encontrar a sua:

http://amateriadoslivros.blogspot.pt/2013/01/arvore-bibliografica.html

*Pedro Mexia, "Ler é Maçada: Árvore bibliográfica", Ler, Janeiro de 2013.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

João Lobo Antunes

Ler os ensaios de João Lobo Antunes, um prazer e uma aprendizagem.

João Lobo Antunes, Ouvir com Outros Olhos,
Lisboa, Gradiva, 2015.

De todas as experiências que marcam a nossa jornada por este mundo, é a experiência da doença que nos ameaça a vida que grava incisão mais profunda na essência do que somos, na «fraternelle jointure» da alma e do corpo de que fala Montaigne. Não o faz com o gume de uma lâmina, mas como se um monstruoso insecto de múltiplos ferrões injectasse em nós, por cada um deles, um veneno diferente que ataca uma parte específica do todo.

João Lobo Antunes, "O consolo das Humanidades" In Ouvir com Outros Olhos, Lisboa, Gradiva, 2015, p. 35.

sábado, 21 de novembro de 2015

Lisboa, a Bela

Regresso à cidade uma vez por outra. Compro sapatos, um ou outro livro. Reencontro ou descubro lugares, iluminados. As conversas, a vida, acompanham os passos, os temperos suaves e a luz. É tão bom haver sol.


Chez De Groote
O mesmo lugar, outro ângulo

Príncipe Real 

Para além da praça

sábado, 31 de outubro de 2015

Cemitério dos Prazeres

A próxima «Visita Guida» leva-nos ao Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, apresentado como um museu de arte funerária, a assinalar a importância dos rituais da morte, não só para os defuntos, como também para os vivos.




No próximo episódio vamos levá-lo a um "museu" inesperado.O Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, é um dos maiores (mais de 7000 jazigos) e o mais elitista dos cemitérios portugueses: de aristocratas a políticos, de heróis militares a artistas, grandes vultos da história do país estão ali sepultados. Consolidado em meados do séc. XIX, expoente do romantismo em Portugal, o Cemitério dos Prazeres é um repositório de escultura que hoje vale como museu. O historiador de arte Francisco Queiroz é o nosso guia nesta visita surpreendente.RTP2, 2ª feira, 2 novembro, pelas 23h; sábado, 7 novembro, pelas 19h40 (repetição)Antena 1, 5as feiras, pelas 21h10facebook.com/paulamourapinheiro
Posted by Visita Guiada on Sexta-feira, 30 de Outubro de 2015



Por coincidência, José Tolentino Mendonça, na sua crónica semanal no Expresso, reflete também sobre o funeral e o valor humano dos rituais devidos aos finados:

«No dia em que o mandamento de «sepultar dignamente os mortos» for removido dos deveres dos filhos, dos companheiros, dos irmãos, dos amigos e antecipado para as obrigações que cada um deve prever em relação a si mesmo, a nossa humanidade ficará irremediavelmente mais pobre.»
José Tolentino Mendonça, «Funeral em vida». Expresso: 31/10/2015

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Lamentação

O rei deitou-se e não tornará a erguer-se,
O senhor de Kullab não tornará a erguer-se;
Ele dominou o mal, não regressará;
Era forte de braço, mas não tornará a erguer-se;
Ele tinha sabedoria e atraente rosto, e não regressará;
Foi até à montanha, e não regressará;
No leito do destino está deitado, e não tornará a erguer-se,
Da cama de muitas cores não regressará.


Gilgamesh. Lisboa: Vega, 2007.
Versão de Pedro Tamen.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A propósito de "selfies" e autorrepresentação online


Rubens. A Cabeça de Medusa. 1617.
"Haverá melhor auto-retrato do que aquilo que se vai publicando, bom ou mau, muito ou pouco, já que escrever é sempre uma forma imprudente de identificação e autobiografia?"
Marcello Duarte Mathias . "Auto-retrato" In A Memória dos Outros: Ensaios e Crónicas. Lisboa: Gótica, 2001. p. 325.

Andava esta leitora a pensar em selfies, após leitura de uma publicação de V. G. no Facebook / no blogue Enfermaria 6, sem chegar a conclusões, até porque não pratica a "modalidade", quando é surpreendida pela última página do Jornal de Letras (05 a 18 de agosto de 2015). Aqui, na secção de "Diário", o escritor Mário Cláudio publica "16 entradas do Facebook"! Surpresa! Surpresa! Então a escrita na famosa rede social também pode ser vista como escrita diarística?
As relações entre o blogue e o diário há muito que são óbvias, como já se pensou nestas páginas, verificando-se mesmo a transformação de alguns blogues em livros, como acontece com outros diários clássicos que chegam às livrarias, todos com qualidade literária variável, digamos. Já a assunção das publicações rápidas no Facebook como "entradas" diarísticas parece menos óbvia, parece que lhe falta o trabalho de representação do Eu que se evidencia no diário ou em blogues tão conhecidos como, por exemplo, o ana de amesterdam, também ele já com um duplo em livro. De facto, o imediatismo e a brevidade da escrita nas redes sociais parecem contrários ao labor e ao rigor da escrita que busca conhecer e conhecer-se e... revelar-se através da representação desse Eu enigmático e movente que atrai e atormenta o diarista. Acresce que a massificação característica das redes sociais parece mais propícia à reflexão sociológica sobre as formas de comunicar do homem desenvolvido (tecnológico) do que à reflexão literária ou ontológica. Ainda mais que lhes falta tempo, i.e., nem as publicações requerem grandes demoras, bastando, por vezes, um mero clique, quando se trata de "partilhar" vídeos, fotografias ou "posts" alheios, nem a sua visualização permite atrasos, uma vez que são constantemente sobrepostas ou substituídas por outras; podem voltar, é certo, mas, nesse caso, vêm desprovidas de cronologia pois o tempo das redes sociais é o eterno presente, não obstante as tentativas da rede de lembrar o que o utilizador publicou "há cinco anos". O efémero e o perene entrelaçam-se desta maneira, anulando essa dimensão essencial do humano que é o tempo. Que Eu, então, se vislumbra? Um ser liberto do mal de Cronos ou um ser prisioneiro do presente sem fim nem princípio?
A estranheza das selfies e a dificuldade em entendê-las como sucedâneos do autorretrato resultam precisamente destas duas dimensões: a massificação e o imediatismo. A falta. Falta de quê? De tempo, claro. E da terrível face da Medusa. Mais do que de Narciso, arquétipo do sujeito autobiográfico ou do utilizador da rede, apaixonado pela sua belíssima imagem, admitindo que estas representações de si, tão iguais e repetitivas, sejam percorridas pelo amor, mesmo que louco. E o amor, não é feito de tempo e imaginação?
[E a leitora não conseguiu fugir ao juízo moral, pois não? Está mal.]