domingo, 15 de maio de 2016
quinta-feira, 12 de maio de 2016
Fugas
Aos amigos doentes
SAÚL DIAS
A alegria do poeta doente
O Poeta doente
escreve versos na enfermaria.
Mesmo na dor
a sua alma é contente
se uma rima fugace
poalha de harmonia
um verso recortado...
(O que diria
quem o encontrasse
agora
a rir perdidamente?!...)
Perdido no oriente!...
tanta, tanta alegria!...
MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA
Carreirismo
Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua.
Voltou passados vinte e dois anos, com chofér fardado.
Era Director Geral das Polícias. Seu pai teve o enfarte.
LUÍS MIGUEL NAVA
Teatro
Na selva dos meus órgãos, sobre a qual foi desde sempre a pele o firmamento, ao coração coube o papel de rei da criação.
Ignoro de que peça é todo este meu corpo a encenação perversa, onde se vê o sangue a rebentar contra os rochedos.
Do inferno, aonde às vezes o sol vai buscar as chamas, sobre ele impiedosamente jorram os projectores.
Clara Crabbé Rocha (org), A caneta que escreve e a que prescreve: doença e medicina na literatura portuguesa - Antologia, Lisboa, Verbo, 2011.
quarta-feira, 11 de maio de 2016
A terra remexe
«A terra remexe. Sinto um esforço e revive o suor da desgraça; um arranco na profundidade, e todas as primaveras dispersas não tardam, uma atrás da outra, a reflorir.»
Raul Brandão, Húmus, Lisboa, Frenesi, 2000, p.41 (1ª ed.: 1917).
domingo, 8 de maio de 2016
She walks in poetry
She Walks in Beauty
Related Poem Content Details
She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that’s best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes;
Thus mellowed to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.
One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens o’er her face;
Where thoughts serenely sweet express,
How pure, how dear their dwelling-place.
And on that cheek, and o’er that brow,
So soft, so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent!
Lord Byron
(daqui)
sábado, 7 de maio de 2016
Comecei a ler o romance Passos Perdidos, de Paulo Varela Gomes, e não consigo deixar de pensar na ilha de Böcklin, seja pela paisagem, seja pela ideia de exílio (a ilha de Santa Helena foi o lugar de exílio e morte de Napoleão), seja pela aproximação de Anna W., a protagonista que o narrador imagina "com a aparência, a voz e as maneiras da actriz sueca Alicia Vikander" (p. 19).
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| Arnold Böcklin, A ilha dos mortos, 1880. |
Eis algumas referências a Santa Helena, para já muito informativas e sugestivas:
"[...] Mas, como não sabe quase nada de Santa Helena, é-lhe impossível relacionar aquilo que vai sentindo com os sentimentos de todos os viajantes que a antecederam e deixaram disso registo escrito.
Anna W. sabe que a ilha foi descoberta pelo navegador português João da Nova em 1502, que os portugueses a utilizaram durante muito tempo como ponto de aguada ou reparações na viagem da Índia, e que o primeiro habitante de Santa Helena - e, ao mesmo tempo, o primeiro Robinson Crusoe da história da expansão europeia - foi um português, Fernão Lopes, cuja história extraordinária, contada por fontes portuguesas do século XVI, daria um filme esplêndido, assim houvesse um realizador com capacidade para enfrentar o horros e a solidão de algumas vidas, os seus momentos de alívio e desespero, a maldade e a bondade dos seres humanos.
[...]
Atente a leitora ainda em fontes de outro género: as imagens e gravuras datadas do final do século XVIII ou do princípio do século XIX. Existem dezenas de gravuras e desenhos de Santa Helena vista do mar. Têm um aspecto em comum, a representação da ilha como um conjunto de falésias como que mergulhada no oceano em diagonal, camadas e mais camadas de lajes de um tamanho sobre-humano, paralelas e inclinadas, separadas umas das outras por veios ou enclaves profundos e virados ao céu com a expressividade agressiva de uma dentadura de crocodilo."
Paulo Varela Gomes, Passos Perdidos, Lisboa, Tinta da China, 2016, pp. 22-24.
sexta-feira, 6 de maio de 2016
Café com letras: revista de literatura
Sempre atrasada, só agora consegui ler o primeiro número da revista Café com letras: revista de literatura (abril, 2016), surpreendente e oportuna publicação mensal. Estão de parabéns a sua diretora, Maria João Cantinho, e a equipa que com ela colabora. A revista não segue o Acordo Ortográfico de 1990.
Como o título e o subtítulo indicam, dedica-se às letras, à literatura, à crítica literária e à filosofia, incluindo nas suas páginas entrevistas, ensaios / recensões e crónicas. O «dossier» do mês de abril é dedicado à «Literatura portuguesa e resistência». De todos os textos, destaco o excelente ensaio de Vítor Viçoso, «Ler hoje o neo-realismo português» e a entrevista a Manuel Gusmão (por Maria João Cantinho e João Oliveira Duarte). Relevo desta última o carácter dialógico da poesia e a sua inscrição no mundo: «Nós nascemos como um diálogo, ou seja, a capacidade da linguagem é em nós inata, estamos preparados para a linguagem e, por isso, a linguagem faz-nos e, ao fazer-nos, nada impede que aquilo que eu faço seja partilhável. E, nesse aspecto, se nós existimos nesta dupla condição de esperados sobre esta terra e de preparados para uma linguagem, como diz Benjamin, está encontrado o quadro para pensar a relação da poesia com o mundo.».O número dois, de maio, já está nas bancas.
quarta-feira, 4 de maio de 2016
Quarta-feira de sol nos cabelos
Leituras.
Poema à mulher triste
Levanta-te.
Levanta-te.
Do fundo de ti, ergue-te
e um arquipélago de milagres
erguer-se-á contigo,
à tua esquerda e à tua direita,
ilhas súbitas.
E todas as coisas naturais
voltarão a jorrar de secretas fontes ocultas,
voltarão:
a composição harmónica do riso,
a melodia do sol nos cabelos,
e a violência das estrelas
explodirá de novo entre a erva e o orvalho
atravessando o vento
e as duas línguas de fogo.
A mulher dorme
esculpida sobre o túmulo de pedra,
e as mãos postas sobre o peito. Repete:
é a nascente
é a nascente
é a nascente.
E jorra um arquipélagos de milagres.
Ilhas súbitas
erguem-te.
Eugénia de Vasconcellos, o quotidiano a secar em verso, Lisboa, Guerra e Paz, 2016.
Uma descoberta: Eugénia de Vasconcellos. Poesia surpreendente, de que estou a gostar muito.
Fica um poema de Eugénia Vasconcellos e uma imagem de outras compras: Ana Cássia Rebelo, Ana de Amesterdam, Lisboa, Quetzal, 2015; Paulo Varela Gomes, Passos Perdidos, Lisboa, Tinta da China, 2016 (mais um livro lindíssimo da Tinta da China); José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira, Alfragide, Leya/Livros RTP, 2016 (excelente iniciativa da RTP, em pareceria com a Leya, de louvar e colecionar).
Poema à mulher triste
Levanta-te.
Levanta-te.
Do fundo de ti, ergue-te
e um arquipélago de milagres
erguer-se-á contigo,
à tua esquerda e à tua direita,
ilhas súbitas.
E todas as coisas naturais
voltarão a jorrar de secretas fontes ocultas,
voltarão:
a composição harmónica do riso,
a melodia do sol nos cabelos,
e a violência das estrelas
explodirá de novo entre a erva e o orvalho
atravessando o vento
e as duas línguas de fogo.
A mulher dorme
esculpida sobre o túmulo de pedra,
e as mãos postas sobre o peito. Repete:
é a nascente
é a nascente
é a nascente.
E jorra um arquipélagos de milagres.
Ilhas súbitas
erguem-te.
Eugénia de Vasconcellos, o quotidiano a secar em verso, Lisboa, Guerra e Paz, 2016.
terça-feira, 26 de abril de 2016
"Um grande, grande adeus do seu poeta, Mário de Sá-carneiro."
Suicidou-se a 26 de abril de 1916 - Mário de Sá-Carneiro.
Fim
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!
Mário de Sá-Carneiro, Poesias, Ática, 1989.
terça-feira, 12 de abril de 2016
"história da literatura com caracóis e uma imperial"
O título desta entrada é de J.D, a propósito de uma fotografia no Facebook, de uma história da literatura antiga e de Ana Hatherly, autora do poema citado:
os caracóis e as carpas têm cornos
vês, eu não te dizia?as carpas e os caracóis não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracoias e os carpos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os carapoicos e os parcos não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carapaias e os porcos têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracoicos e as parras não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as carassaias e os parcas têm cornos
vês, eu não te dizia?
os caracorpos e as praias não têm cornos
vês, eu não te dizia?
as caracaias e os poicos têm
vês
Ana Hatherly
um calculador de improbabilidades
Quimera
1ª edição 2001
segunda-feira, 11 de abril de 2016
A sala de aula é absurda
sexta-feira, 8 de abril de 2016
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
O sofrimento e a vida
![]() |
| Rui Chafes, Burning in the forbidden sea, 2011 (Gulbenkian/CAM, 2014) |
Para ajudar à reflexão, deixo estas sábias palavras de José Tolentino Mendonça:
«Porque o sofrimento é uma estranha boca sem lábios, uma estranha língua sem palavras, um ininterrupto zumbido que se solta do próprio som, mas nunca mais nos solta. Invade-nos com o poderio e a frieza de uma colossal máquina de guerra. E abala tudo: das mínimas articulações do corpo às dobras imensas da alma.
Contudo, mesmo o sofrimento mais intolerável pede ainda para ser interpretado, e para sê-lo com a chave da vida. Desistir de escutá-lo até ao fim, e para lá do fim, é desistir de amparar a vida como ela é, na sua nua e vulnerabilíssima manifestação. É preferir uma qualquer idealização (ou fuga) que diz o que a vida deveria ser, como se fôssemos nós a decidir o que a vida é. E não somos. Pois quem pode, com verdade, considerar-se dono da vida? Não seremos antes guardadores, e apenas isso, apenas guardadores desse mistério que é maior do que nós?»
Contudo, mesmo o sofrimento mais intolerável pede ainda para ser interpretado, e para sê-lo com a chave da vida. Desistir de escutá-lo até ao fim, e para lá do fim, é desistir de amparar a vida como ela é, na sua nua e vulnerabilíssima manifestação. É preferir uma qualquer idealização (ou fuga) que diz o que a vida deveria ser, como se fôssemos nós a decidir o que a vida é. E não somos. Pois quem pode, com verdade, considerar-se dono da vida? Não seremos antes guardadores, e apenas isso, apenas guardadores desse mistério que é maior do que nós?»
José Tolentino Mendonça, «Que coisa são as coisa: Não matarás», Expresso: Única, 27/02/2016.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
Laços de família
Os escritores, de vez em quando, esboçam as suas "árvores bibliográficas", as suas genealogias literárias. Na Visão online (03.12.2015), foi a vez de António Lobo Antunes, em mais uma das suas belíssimas crónicas:
http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/2015-12-03-E-no-entanto-vendo.
Gosto muito destas indicações, de reconhecer ligações, laços de família entre textos, palavras, autores... Cheguei a iniciar uma lista dos nomes referidos por Luísa Dacosta, procurando seguir as vozes daqueles poetas e prosadores portugueses e o seu eco na maravilhosa obra da escritora.
Aqui fica o princípio desse colar de afetos: Fernão Lopes, Gil Vicente, Sá de Miranda, Luís de Camões, Fernão Mendes Pinto, Diogo do Couto, Samuel Usque, Frei Luís de Sousa, António Ferreira, António José da Silva, António Vieira, Nicolau Tolentino, Bocage, Almeida Garrett, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, António Nobre, Camilo Pessanha, Raúl Brandão. Aquilino Ribeiro, Tomaz de Figueiredo, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Cassiano Ricardo, Irene Lisboa, Vitorino Nemésio, Sophia de Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Saúl Dias, Renata Pallotini ... (cont)
A propósito da árvore bibliográfica que Pedro Mexia delineou para si, na revista Ler*, também esta leitora quis encontrar a sua:
http://amateriadoslivros.blogspot.pt/2013/01/arvore-bibliografica.html
*Pedro Mexia, "Ler é Maçada: Árvore bibliográfica", Ler, Janeiro de 2013.
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