Lindo!
(Também quero...)
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
sábado, 26 de novembro de 2016
A equipa e os atacadores novos
"É claro que a equipa dos «pára-quedistas» nem tinha hipótese de combinar a mínima jogada antes de o torneio principiar. O que saísse, saía. Mas a esperança tarda em murchar nos peitos de oito anos e essa mesma tarde lavei muito bem lavadas as minhas sapatilhas, às quais juntei atacadores novos.
[...]
Chegara, enfim, o momento de mostrar aos tutti quanti que o craque não nascera para figuras tristes. Equipados os Rochas de camisas e os pára-quedistas com o peito à mostra, o Zé Costa Grilo agarrou o apito de madeira, rectificou a distância entre os postes (calhaus grossos) das balizas e deu início ao prélio. Durante toda a primeira parte estudámo-nos mutuamente, o Rocha mais velho a marcar-me o homem a homem, o mais novo bruto com o Camané, que o pisava a torto e a direito e nem pedia desculpa. Zero a zero ao intervalo. Foi, pois, na segunda parte que o craque exibiu à luz do sol a sua última habilidade: o chuto à Correia Dias, homenagem muito séria ao avançado-centro do Futebol Clube do Porto. O chuto à Correia Dias constituía apenas em caçar a bola de qualquer maneira e dar-lhe com toda a força, tipo coice (o Correia Dias que me desculpe). O um a zero consegui-o assim, deixando boquiabertos Rochas, Grilos, primos e penduras. Aos dez minutos papei o Rocha mais novo em corrida, fintei o mais velho por fora e bumba, coice para a baliza. Viria ainda o três a zero, já com os Rochas sem saber se eu era o miúdo da Rua Guerra Junqueiro, o jeitoso do quintal do Luís Marques, ou se por debaixo da minha pele se escondia um internacional inglês." (pp. 25-26)
Fernando Assis Pacheco, Memórias de um Craque, Lisboa, Assírio e Alvim, 2005.
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
Trabalho colaborativo
Este é o conceito do momento. Mas como pode o dito passar à prática quando as sensibilidades se ressentem se uma vírgula se altera sem consentimento prévio, solicitado e dado através de meios indiretos, metáforas e outras cornucópias estilísticas? Tomamos chá ou seguimos em frente? A vida está lá fora à minha espera. Tardo.
quarta-feira, 23 de novembro de 2016
Literatura tradicional oral
Cito, a
propósito do caráter formativo da literatura e do valor seminal da literatura
tradicional, esta passagem de Fernando J. Fraga de Azevedo (2004)*:
De
facto, à literatura tradicional oral, a escrita literária para a infância foi
buscar, entre outros aspectos, o acreditar na possibilidade da superação dos
limites, quaisquer que eles sejam, por meio de processos que, afirmando
conceptualmente o direito à imaginação, o concretizam ora pela faculdade de simbolização,
ora pela subtração da palavra a usos exclusivamente utilitários e imediatos.
Nesta perspectiva, lendas, mitos, fábulas e
contos […] permitem presentificar o Outro e mostrar que, graças à natureza
simbólico-conotativa do mundo possível criado pelo texto, o Outro mantém uma
comunhão íntima e dialógica com o Eu.” (14)
domingo, 23 de outubro de 2016
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
Biblioteca
Por razões profissionais, preparava uma atividade na biblioteca, quando a atenção se desviou para dois títulos: Pedro Mexia, Biblioteca, Lisboa, Tinta da China, 2016 e Libório Manuel Silva, Bibliotecas: Maravilhas de Portugal, Famalicão, Centro Altântico, 2013, ambos com prefácio de Eduardo Lourenço.
São livros diferentes, é claro; o primeiro reúne crónicas que Pedro Mexia publicou no Público e no Expresso de março de 2008 a março de 2015, o segundo fotografias do autor de 22 bibliotecas históricas de Portugal. O que têm em comum, então, para que a memória os tenha convocado ao mesmo tempo? O fascínio pela leitura, pelo saber e pelo livro.
O fascínio pelo livro, pela sua arrumação nas estantes, forrando paredes, sublimando os lugares, não tem medida. Nem essa estranha sedução dos dicionários, das listas, dos compêndios, das enciclopédias, das coleções... O que faz o encanto dos objetos e da sua acumulação? Será o sentido da permanência? Será a materialidade do conhecimento, do prazer da leitura? A matéria dos livros?...
Pedro Mexia refere o sentimento de orfandade ligado ao fim das enciclopédias antigas: "O fim da Britannica, e das enciclopédias à moda antiga, é para mim quase uma orfandade." (p. 20) De facto, por mais louvável e democrático que seja esse expoente de enciclopédia viva que é a Wikipédia, não escapa à falta. Falta de quê? Falta de especialistas, sim, mas principalmente de um corpo, matéria palpável, pronta a desfazer-se em pó e, simultaneamente, prometendo escapar a Cronos. Parece-me... qualquer coisa... se não é de amor que se fala, do que será, então?...
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quinta-feira, 25 de agosto de 2016
Férias (fim)
Últimas leituras?
É o reencontro com a literatura norte-americana (gosto tanto, tanto), a revisitação de Adriano Moreira e do seu lúcido pensamento, que transporta esperança, por fim, uma passagem por Herman Hesse. Por agora, fico com Philip Roth, A Mancha Humana.
É o reencontro com a literatura norte-americana (gosto tanto, tanto), a revisitação de Adriano Moreira e do seu lúcido pensamento, que transporta esperança, por fim, uma passagem por Herman Hesse. Por agora, fico com Philip Roth, A Mancha Humana.
domingo, 21 de agosto de 2016
Regresso a casa
domingo, 14 de agosto de 2016
Excelente - Lucia Berlin
Primeira leitura de férias - Lucia Berlin. Excelente.
Stephen Emersen reuniu neste volume os melhores contos (short stories) de Lucia Berlin; são textos de extensão variável, mas geralmente curtos, inesperados e empolgantes, de uma grande vivacidade e riqueza humana.
Lucia Berlin, Manual para mulheres da limpeza,
Lisboa, Alfaguara, 2016.
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Ressalve-se, ainda, que estes contos têm uma grande unidade entre si, seja pela recorrência de personagens, seja pelo espaço físico e social, seja pela evolução de algumas situações, seja, principalmente, pela narradora/protagonista e pelo ponto de vista. O livro poderia mesmo ser lido como uma espécie de autobiografia romanceada em fragmentos, se é que a classificação quanto ao género é possível ou pertinente.
A ler. Recomendo.
quinta-feira, 19 de maio de 2016
Eu sou o zé das couves
«Eu já não sou tropa viva - nem morta sequer: tenho aqui umas couves galegas que vou depenando para o caldo de todos os dias com que Deus ainda acode à gente. Em a décima mo levando... a décima e o quinto, e o subsídio literário (oh meu comandante, subsídio literário para esta gente que aborrece e persegue as letras!) e a câmara municipal, e o administrador do concelho, e os enjeitados, e a côngrua do pároco, e o cruzado para as estradas... Paciência, morrerei aqui a um canto, mas não lhes hei-de pedir nada a eles: hei-de seguir o nobre exemplo do meu comandante.»
Almeida Garrett, O Arco de Santana, Porto, Lello, s.d, p. 25.
domingo, 15 de maio de 2016
quinta-feira, 12 de maio de 2016
Fugas
Aos amigos doentes
SAÚL DIAS
A alegria do poeta doente
O Poeta doente
escreve versos na enfermaria.
Mesmo na dor
a sua alma é contente
se uma rima fugace
poalha de harmonia
um verso recortado...
(O que diria
quem o encontrasse
agora
a rir perdidamente?!...)
Perdido no oriente!...
tanta, tanta alegria!...
MÁRIO-HENRIQUE LEIRIA
Carreirismo
Após ter surripiado por três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua.
Voltou passados vinte e dois anos, com chofér fardado.
Era Director Geral das Polícias. Seu pai teve o enfarte.
LUÍS MIGUEL NAVA
Teatro
Na selva dos meus órgãos, sobre a qual foi desde sempre a pele o firmamento, ao coração coube o papel de rei da criação.
Ignoro de que peça é todo este meu corpo a encenação perversa, onde se vê o sangue a rebentar contra os rochedos.
Do inferno, aonde às vezes o sol vai buscar as chamas, sobre ele impiedosamente jorram os projectores.
Clara Crabbé Rocha (org), A caneta que escreve e a que prescreve: doença e medicina na literatura portuguesa - Antologia, Lisboa, Verbo, 2011.
quarta-feira, 11 de maio de 2016
A terra remexe
«A terra remexe. Sinto um esforço e revive o suor da desgraça; um arranco na profundidade, e todas as primaveras dispersas não tardam, uma atrás da outra, a reflorir.»
Raul Brandão, Húmus, Lisboa, Frenesi, 2000, p.41 (1ª ed.: 1917).
domingo, 8 de maio de 2016
She walks in poetry
She Walks in Beauty
Related Poem Content Details
She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that’s best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes;
Thus mellowed to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.
One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens o’er her face;
Where thoughts serenely sweet express,
How pure, how dear their dwelling-place.
And on that cheek, and o’er that brow,
So soft, so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent!
Lord Byron
(daqui)
sábado, 7 de maio de 2016
Comecei a ler o romance Passos Perdidos, de Paulo Varela Gomes, e não consigo deixar de pensar na ilha de Böcklin, seja pela paisagem, seja pela ideia de exílio (a ilha de Santa Helena foi o lugar de exílio e morte de Napoleão), seja pela aproximação de Anna W., a protagonista que o narrador imagina "com a aparência, a voz e as maneiras da actriz sueca Alicia Vikander" (p. 19).
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| Arnold Böcklin, A ilha dos mortos, 1880. |
Eis algumas referências a Santa Helena, para já muito informativas e sugestivas:
"[...] Mas, como não sabe quase nada de Santa Helena, é-lhe impossível relacionar aquilo que vai sentindo com os sentimentos de todos os viajantes que a antecederam e deixaram disso registo escrito.
Anna W. sabe que a ilha foi descoberta pelo navegador português João da Nova em 1502, que os portugueses a utilizaram durante muito tempo como ponto de aguada ou reparações na viagem da Índia, e que o primeiro habitante de Santa Helena - e, ao mesmo tempo, o primeiro Robinson Crusoe da história da expansão europeia - foi um português, Fernão Lopes, cuja história extraordinária, contada por fontes portuguesas do século XVI, daria um filme esplêndido, assim houvesse um realizador com capacidade para enfrentar o horros e a solidão de algumas vidas, os seus momentos de alívio e desespero, a maldade e a bondade dos seres humanos.
[...]
Atente a leitora ainda em fontes de outro género: as imagens e gravuras datadas do final do século XVIII ou do princípio do século XIX. Existem dezenas de gravuras e desenhos de Santa Helena vista do mar. Têm um aspecto em comum, a representação da ilha como um conjunto de falésias como que mergulhada no oceano em diagonal, camadas e mais camadas de lajes de um tamanho sobre-humano, paralelas e inclinadas, separadas umas das outras por veios ou enclaves profundos e virados ao céu com a expressividade agressiva de uma dentadura de crocodilo."
Paulo Varela Gomes, Passos Perdidos, Lisboa, Tinta da China, 2016, pp. 22-24.
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