segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

sábado, 28 de janeiro de 2017

Voz

ANJO ASSUMPTO

Chamar-Te é um sopro. O assobio
dos pássaros na enseada.
Baixa a colina agora e segue
o fio da minha voz. O azul do mar
assimila-nos a si. O Teu
nome vai perder-se no estuário
que nós víamos no cimo da
 muralha. Desprezo o eco. Nada
Te chegará de tudo isto
que é o real. Ventos, sons, o mar,
a voz são uma mancha inconsis-
tente no único espaço que nos une.

Fiama Hasse Pais Brandão, Obra Breve, Lisboa, Assírio e Alvim, 2006, p. 355.

domingo, 25 de dezembro de 2016

Noite de Natal

«Pai, dizem que ainda te chamo, às vezes, durante
o sono – a ausência não te apaga como a bruma
sossega, ao entardecer, o gume das esquinas. Há nos
meus sonhos um território suspenso de toda a dor,
um país de verão aonde não chegam as guinadas da
morte e todas as conchas da praia trazem pérola. Aí

nos encontramos, para dizermos um ao outro aquilo
que pensámos ter, afinal, a vida toda para dizer; aí te
chamo, quando a luz me cega na lâmina do mar, com
lábios que se movem como serpentes, mas sem nenhum
ruído que envenene as palavras: pai, pai. Contam-me

depois que é deste lado da noite que me ouvem gritar
e que por isso me libertam bruscamente do cativeiro
escuro desse sonho. Não sabem

que o pesadelo é a vida onde já não posso dizer o teu
nome – porque a memória é uma fogueira dentro
das mãos e tu onde estás também não me respondes.»

Maria do Rosário Pedreira, Nenhum nome depois, Lisboa, Gótica, 2004.


Um jeito manso

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

O homem da cidade, camponês

"Na arrecadação das obras havia um telheiro e no telheiro um homem sentado à sombra, a comer. Esse homem, embora trabalhasse há muitos anos na cidade e a tivesse ajudado a construir, era no fundo um camponês. Tinha a pele escura dos cavadores de sol a sol e, como veremos, a voz demorada de quem foi criado longe de máquinas e confusões.
[...] 
Comia lentamente, sem gosto, apenas para sustentar o corpo, e também nisso se parecia com os camponeses, que se alimentam, não comem. Um cavador mastigando em pleno descampado comeria decerto assim - com aquela mesma solidão; talhando à navalha na palma da mão, poupando o conduto, bebendo pela garrafa em goladas pensativas."

José Cardoso Pires, "O conto dos chineses" In O Burro-em-pé, Lisboa, D. Quixote, 1999.

Deste livro fazem parte cinco contos: "Os reis mandados", "O conto dos chineses", "Nós, aqui por entre o fumo", "Dinossauro excelentíssimo", e "Celeste e Làlinha: Por cima de toda a folha". A primeira edição é da Morais, de 1979, com ilustrações de Júlio Pomar; a segunda é da D. Quixote.




segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Outono e melancolia II












"A peça", explicou [Edward Albee, a propósito da sua peça Equilíbrio invisível] , "trata (...) da rigidez e da paralisia que aflige aqueles que (...) um dia acordam e descobrem que todas as escolhas que evitaram já não lhes dão liberdade de escolha e que as escolhas que ainda estão disponíveis são irrelevantes."

Edward Albee citado por Pedro Mexia na sua crónica do Expresso desta semana - "Fraco consolo: o tempo acontece", E - a revista do Expresso, 3/12/2016.




sábado, 26 de novembro de 2016

A equipa e os atacadores novos

"É claro que a equipa dos «pára-quedistas» nem tinha hipótese de combinar a mínima jogada antes de o torneio principiar. O que saísse, saía. Mas a esperança tarda em murchar nos peitos de oito anos e essa mesma tarde lavei muito bem lavadas as minhas sapatilhas, às quais juntei atacadores novos.
[...]
Chegara, enfim, o momento de mostrar aos tutti quanti que o craque não nascera para figuras tristes. Equipados os Rochas de camisas e os pára-quedistas com o peito à mostra, o Zé Costa Grilo agarrou o apito de madeira, rectificou a distância entre os postes (calhaus grossos) das balizas e deu início ao prélio. Durante toda a primeira parte estudámo-nos mutuamente, o Rocha mais velho a marcar-me o homem a homem, o mais novo bruto com o Camané, que o pisava a torto e a direito e nem pedia desculpa. Zero a zero ao intervalo. Foi, pois, na segunda parte que o craque exibiu à luz do sol a sua última habilidade: o chuto à Correia Dias, homenagem muito séria ao avançado-centro do Futebol Clube do Porto. O chuto à Correia Dias constituía apenas em caçar a bola de qualquer maneira e dar-lhe com toda a força, tipo coice (o Correia Dias que me desculpe). O um a zero consegui-o assim, deixando boquiabertos Rochas, Grilos, primos e penduras. Aos dez minutos papei o Rocha mais novo em corrida, fintei o mais velho por fora e bumba, coice para a baliza. Viria ainda o três a zero, já com os Rochas sem saber se eu era o miúdo da Rua Guerra Junqueiro, o jeitoso do quintal do Luís Marques, ou se por debaixo da minha pele se escondia um internacional inglês." (pp. 25-26)

Fernando Assis Pacheco, Memórias de um Craque, Lisboa, Assírio e Alvim, 2005.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Trabalho colaborativo













Este é o conceito do momento. Mas como pode o dito passar à prática quando as sensibilidades se ressentem se uma vírgula se altera sem consentimento prévio, solicitado e dado através de meios indiretos, metáforas e outras cornucópias estilísticas? Tomamos chá ou seguimos em frente? A vida está lá fora à minha espera. Tardo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Literatura tradicional oral

Cito, a propósito do caráter formativo da literatura e do valor seminal da literatura tradicional, esta passagem de Fernando J. Fraga de Azevedo (2004)*:

De facto, à literatura tradicional oral, a escrita literária para a infância foi buscar, entre outros aspectos, o acreditar na possibilidade da superação dos limites, quaisquer que eles sejam, por meio de processos que, afirmando conceptualmente o direito à imaginação, o concretizam ora pela faculdade de simbolização, ora pela subtração da palavra a usos exclusivamente utilitários e imediatos.
Nesta perspectiva, lendas, mitos, fábulas e contos […] permitem presentificar o Outro e mostrar que, graças à natureza simbólico-conotativa do mundo possível criado pelo texto, o Outro mantém uma comunhão íntima e dialógica com o Eu.” (14) 

*Fernando J. Fraga de Azevedo (2004). Intertextos fundamentais na constituição de um cânone literário para a infância. Malasartes [cadernos de literatura para a infância e juventude]. Porto: Campo das letras.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Biblioteca

Por razões profissionais, preparava uma atividade na biblioteca, quando a atenção se desviou para dois títulos: Pedro Mexia, Biblioteca, Lisboa, Tinta da China, 2016 e Libório Manuel Silva, Bibliotecas: Maravilhas de Portugal, Famalicão, Centro Altântico, 2013, ambos com prefácio de Eduardo Lourenço.

São livros diferentes, é claro; o primeiro reúne crónicas que Pedro Mexia publicou no Público e no Expresso de março de 2008 a março de 2015, o segundo fotografias do autor de 22 bibliotecas históricas de Portugal. O que têm em comum, então, para que a memória os tenha convocado ao mesmo tempo? O fascínio pela leitura, pelo saber e pelo livro. 

O fascínio pelo livro, pela sua arrumação nas estantes, forrando paredes, sublimando os lugares, não tem medida. Nem essa estranha sedução dos dicionários, das listas, dos compêndios, das enciclopédias, das coleções... O que faz o encanto dos objetos e da sua acumulação? Será o sentido da permanência? Será a materialidade do conhecimento, do prazer da leitura? A matéria dos livros?...
Pedro Mexia refere o sentimento de orfandade ligado ao fim das enciclopédias antigas: "O fim da Britannica, e das enciclopédias à moda antiga, é para mim quase uma orfandade." (p. 20) De facto, por mais louvável e democrático que seja esse expoente de enciclopédia viva que é a Wikipédia, não escapa à falta. Falta de quê? Falta de especialistas, sim, mas principalmente de um corpo, matéria palpável, pronta a desfazer-se em pó e, simultaneamente, prometendo escapar a Cronos. Parece-me... qualquer coisa... se não é de amor que se fala, do que será, então?...

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Férias (fim)

Últimas leituras?

É o reencontro com a literatura norte-americana (gosto tanto, tanto), a revisitação de Adriano Moreira e do seu lúcido pensamento, que transporta esperança, por fim, uma passagem por Herman Hesse. Por agora, fico com  Philip Roth, A Mancha Humana.




domingo, 21 de agosto de 2016

Regresso a casa

Vista panorâmica da exposição "As casas na coleção do CAM",
no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian.

Vista não panorâmica de uma casa portuguesa.