V
ESTREIA PARLAMENTAR DE CALISTO
Antes de apresentar-se na sala das sessões, Calisto Elói de Barbuda leu o Regimento Interno da Camara dos Deputados, juntamente com um colega transmontano, o abade Estevães, sujeito de anos e doutrinas monárquico-absolutas.
O morgado de Agra embicou logo na forma do juramento, e disse que não jurava sem aspar as palavras que o obrigavam a ser inviolavelmente fiel à carta constitucional. O abade quis amaciar-lhe a rigidez de espíritos, absolvendo-o do perjúrio, que não era sério, porque já de si o juramento era irrisório e mera brincadeira de nenhum peso na balança da justiça divina.
E alegava o clérigo esclarecido que os representantes da nação, conquanto jurassem fidelidade à religião católica-apostólica-romana, eram aliás ateus; jurando fidelidade ao rei, injuriavam-no nas gazetas; jurando fidelidade à nação, avexavam-na de tribunos, e alguns a queriam fundir na Espanha. [...]
Camilo Castelo Branco, A Queda dum Anjo, Editores Reunidos/RBA/Público, 1995.










