Nestes tempos de cinzentismo e retrógrada mentalidade, de boçalidades várias, lembrou-se a leitora dessa mulher exuberante que foi Natália Correia, e do seu famoso poema a um deputado do CDS. (Que bom seria ouvirmos, hoje, no Parlamento alguém com, pelo menos, metade da inteligência e da verve de Natália!)
Natália Correia, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II, Lisboa, Projornal, 1993.
(transcrição da página 195)
«O acto sexual é para fazer filhos»
__ disse ele
Um poema de Natália Correia
a João Morgado (CDS)
«O acto sexual é para ter filhos» - disse, com toda a boçalidade, o deputado do CDS no debate anteontem sobre legalização do aborto. A resposta em poema, que ontem fazia rir todas as bancadas parlamentares, veio de Natália Correia. Aqui fica:
«Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.»
in Diário de Lisboa, 5 de Abril de 1982
Continuemos com Natália Correia e com o seu humor, inteligência e cultura, tão necessários à política. Agora um poema a Marcelo Rebelo de Sousa, candidato à Câmara Municipal de Lisboa, nos idos de 1989:
(página 316)
Marcelo e as Tágides
Marcelo, em cupidez municipal
de coroar-se com louros alfacinhas,
atira-se valoroso - ó bacanal! -
ao leito húmido das Tágides daninhas.
Para conquistar as Musas de Camões
lança a este, Marcelo, um desafio:
jogou-se ao verso o épico? Ilusões!...
Bate-o Marcelo que se joga ao rio.
E em eleitorais estrofes destemidas,
do autárquico sonho, o nadador
diz que curara as ninfas poluídas
com o milagre do seu corpo em flor.
Outros prodígios - dizem - congemina:
ir aos bairros da lata e ali, sem medo,
dormir para os limpar da vil vérmina
e triunfal ficar cheio de pulguedo.
Por fim, rumo ao céu, novo Gusmão
de asa delta a fazer de passarola,
sobrevoa Lisboa o passarão
e perde a pena que é de galinhola.
(op. cit.)



