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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Escárnio e maldizer


Nestes tempos de cinzentismo e retrógrada mentalidade, de boçalidades várias, lembrou-se a leitora dessa mulher exuberante que foi Natália Correia, e do seu famoso poema a um deputado do CDS. (Que bom seria ouvirmos, hoje, no Parlamento alguém com, pelo menos, metade da inteligência e da verve de Natália!)



Natália Correia, O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II, Lisboa, Projornal, 1993.

(transcrição da página 195)

«O acto sexual é para fazer filhos»
__ disse ele

Um poema de Natália Correia
a João Morgado (CDS)

«O acto sexual é para ter filhos» - disse, com toda a boçalidade, o deputado do CDS no debate anteontem sobre legalização do aborto. A resposta em poema, que ontem fazia rir todas as bancadas parlamentares, veio de Natália Correia. Aqui fica:

«Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! -
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado -
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.»

in Diário de Lisboa, 5 de Abril de 1982


Continuemos com Natália Correia e com o seu humor, inteligência e cultura, tão necessários à política. Agora um poema a Marcelo Rebelo de Sousa, candidato à Câmara Municipal de Lisboa, nos idos de 1989:

(página 316)

Marcelo e as Tágides

Marcelo, em cupidez municipal
de coroar-se com louros alfacinhas,
atira-se valoroso - ó bacanal! -
ao leito húmido das Tágides daninhas.

Para conquistar as Musas de Camões
lança a este, Marcelo, um desafio:
jogou-se ao verso o épico? Ilusões!...
Bate-o Marcelo que se joga ao rio.

E em eleitorais estrofes destemidas,
do autárquico sonho, o nadador
diz que curara as ninfas poluídas
com o milagre do seu corpo em flor.

Outros prodígios - dizem - congemina:
ir aos bairros da lata e ali, sem medo,
dormir para os limpar da vil vérmina
e triunfal ficar cheio de pulguedo.

Por fim, rumo ao céu, novo Gusmão
de asa delta a fazer      de passarola,
sobrevoa Lisboa o passarão
e perde a pena que é de galinhola.


(op. cit.)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Os homens mais velhos são assim, dizem

"Fora de Jogo
Ter cinquenta anos


A miopia era leve, inconsequente quase. Agrava-se dum dia para o outro, e torna-se um empecilho de todos os instantes. Vai-se, por piada, ao otorrino, que é um amigo, e descobre-se, meio a brincar também, que a audição é perfeitamente normal para um homem de cinquenta anos!
É tudo assim: um nunca mais acabar de insignificantes pequeninas coisas de súbito intransponíveis. Correm-se cem metros para apanhar o comboio, perde-se o comboio e fica-se dobrado em dois, esgazeado, com os bofes de fora e ambas as mãos agarradas ao nó da gravata. Uma constipação leva uma semana a passar, uma dor de cabeça mete-nos na cama, uma sopa de peixe deixa-nos mal dispostos para o resto do dia, e de há muito que as noites deixaram de ser o que eram. Aliás, no vasto capítulo, tão vasto quanto imprevisto, que vai da gastrite à insónia, da cólica renal ao enfarte do miocárdio, para nos atermos apenas ao trivial, não há abrigos que valham e a ameaça é sempre totalmente invisível. A própria caligrafia, que nunca foi grande mostra, piora sem que se perceba porquê, como se também estivesse doente." (p. 328)

"As mulheres, por exemplo, que eram a coisa mais fácil e próxima deste mundo (quem é este gajo aqui, ao meu lado, que tem trinta anos, o sacana, e não tem barriga!), passaram, num abrir e fechar de olhos, para o lado de lá do cais ou da rua ou da vida, já não sei, depende dos dias, deixo-me ficar aqui sem razão nem proveito, sorriso reprimido e cara de parvo, a acenar-lhes adeus e boa viagem... Deixá-lo, há pior, e daí talvez não." (p. 329)


Marcello Duarte Mathias, "Fora de Jogo" in A Memória dos Outros: Ensaios e Crónicas, Lisboa, Gótica, 2001.


Antigamente os homens iam fazer 37 anos, hoje têm cinquenta ou assim, o que não é inconsequente. De facto, a acreditar no sujeito do texto de Marcello Duarte Mathias, esta parece ser uma idade fatídica, assombrada, o umbral de todas as insuficiências masculinas, de que a mais grave, vista de aqui, será a metamorfose da relação com as mulheres, colocadas à distância, do "lado de lá do cais ou da rua ou da vida", merecedoras só de um "sorriso reprimido", de uma "cara de parvo", de um insípido "adeus", e nada mais. Já não bastavam o rosário das doenças e a multiplicação das lamúrias, a tibieza tinha de vir cogular a medida.
O que pode uma mulher fazer com tal afastamento dos sedutores jogos da vida, senão estranhar-se? Ainda mais quando uma educação marcada pela diferença de género fez acreditar que a timidez e a insegurança, relativa a coisas parvas, eram apanágio do feminino. Estranhar-se ou, em alternativa, ter saudades do passado, do tempo dos sorrisos convidativos, das conversas ora provocadoras, ora cariciosas, atraentes sempre, dos olhares acesos, e incendiários, porque não? Ou então reinventar súbitas mãos andantes e jogos de palavras, de mui prazerosa memória.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Vozes e Paisagens

Assim, a modos que recolhida, ouve vozes: dos poetas e prosadores, das gentes que cruzam as ruas do quotidiano, dos vizinhos, da televisão (desligada em nome da sanidade mental), vocalizações de agora e de outrora, ecos das profundezas ou de ailleures; tudo desenhando paisagens abertas às letras e ao sonho.


Paisagem onírica

Paisagem exótica, com flash

Não termina esta entrada sem a erudição de umas palavras francesas, inspiradoras deste cenário tão catita:

"Il y a donc, d'après nous, dans l'activité poétique une sorte de réflexe conditionné, réflexe étrange, car il a trois racine: il réunit les impressions visuelles, les impressions auditives et les impressions vocales."

Gaston Bachelard, L'eau et les rêves: essai sur l'imagination de la matière, Paris, José Corti, 1997 (1ª ed. 1942).

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Diário de Maria Amélia III

Chianca de Garcia, Aldeia da Roupa Branca


Dedicava-se ao ofício de lavadeira. Com pouco gosto, diga-se, mas cumprindo as tarefas esperadas e conformes: cantarolava vagas insinuações brejeiras, esborrachava o sabão azul e branco nos alvos panos, esfregava com zelo, batia as fronhas na pedra e enxaguava, diligentemente enxaguava a sua trouxa nas águas comuns; de vez em quando, também subia a voz, para chamar outra camarada de tanque ou, então, para fazer valer a sua opinião, que, assim, se destacava em expressividade. Estes dizeres guinchados, todavia, não lhe saíam com naturalidade, era preciso acordar os músculos do aparelho fonador, arranhar as cordas vocais, inspirar com convicção e, de seguida, com toda a força, lançar a palavra mole. Com tanto esforço, nem sempre conseguia entrar no bulício no momento certo, tropeçava, demorava-se, desarmonizava-se; enfim, estava sempre um pouco fora do ritmo. Era estranha, ou melhor, deste modo a poderia considerar o gaiteiro rancho. Por isso, acautelava-se. Estava sempre vigilante, recompunha o traje e a cantoria logo à mínima desafinação, de maneira a passar despercebida. Sabia que o seu destino dependia da invisibilidade e que o equilíbrio estava por um fio.
Só as noites eram suas. Entregava os trapos ao luar, recolhia-se e partia na sua barca. Buscava a cidade, demandava sonhos, procurava a palavra, a de sílabas de luz. Sim, só essa palavra mágica a poderia libertar, sabia-o bem, agora e desde menina. Sempre fora sensível ao seu chamado, sempre o seu eco fizera ninho no seu coração. Deslizava na sua corrente sanguínea, caldeava-se com os seus fluxos mais íntimos, era parte de si. Mas, ultimamente, sentia-se exangue, ensurdecida. As noites transmudavam-se em frio e sobressalto, em arrecadação de trouxas de alienígena freguesia. Qualquer coisa tinha tomado conta do sono e impedia a viagem. Perto, perto ainda um murmurinho de alegria, resistente. 



quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Diário de Maria Amélia II



Jacek Yerka, Boudoir


Vêm chegando, uma a uma, em pequenos grupos, todas envoltas nos seus cachecóis de lã, ora lisos, ora de múltiplas cores, nos seus sobretudos aprumados, nas suas calças de mulher ou saias de andar. Vêm chegando, na sua nuvem de perfume e cinzentismo. Vêm chegando e sentam-se a esmo, trocando dizeres, até que o burburinho se desvie para a sala combinada.
Aí, perfilam-se, canetas em riste, cadernos abertos, a prontidão para o apontamento, para a palavra conveniente. Como perder a necessária orientação para o movimento do espanador? Limpar o pó é uma tarefa assaz complexa e importante. Dela depende a harmonia da casa, o uniforme semear de ácaros, o competente brilho, o justo entendimento da escrita na areia, frases em letra de imprensa a duas colunas, o mistério a abrir-se. Mas nem só de poeira se faz a lida. É preciso compor as jarras com as flores que cada uma trará do seu jardim, assegurar que condizem com o lavrado do tapete, garantir que a natureza está no seu devido lugar e na medida certa, q.b. Ah! e as cores, não esquecer o cromatismo e o jogo de contrastes! E o ritmo? Como marcar o ritmo? Foi muito pertinente a intervenção. Máquina de costura, máquina de lavar, passos de chinelo, o crepitar das chamas, nada é esquecido, nada será deixado ao acaso. Até o cantar de galo e o carrinho de linhas têm o seu sítio exacto.
Só a pequena trupe esquipática destoa de tão concertado ambiente. Querem almofadas para espalhar suas cabeleiras, águas horizontais para licenciosos banhos, querem espelhos de fixar medusas e outras excentricidades. No entanto, seja qual for a sua vontade, a tarefa futura já lhes está destinada - contar os espinhos do cacto.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Diário de Maria Amélia


(Eduardo Mãos-de-Tesoura - imagem retirada da internet)


É tão bom rapaz, tão bonito! Aquele olhar carente, a necessitar da nossa ajuda. Sim, pois, só nós ambas e duas o podemos compreender, se o aguardamos de há tanto tempo, desde que, meninas ainda, bordávamos sonhos, às escondidas. Quem mais? Temos de ver o que está para além, sim, de considerar todo o contexto, para o ajudarmos a ter sucesso. Tão jovem, tão promissor, tão querido, basta-lhe o nosso auxílio generoso, é evidente. A ausência de diálogo, a escassez de afecto. Ai, coitadinho!

Diz-me, espelho meu, estou linda, não estou? Este corte fica-me mesmo bem, não fica? Sou mais bonita do que ela, não sou? Hã?... Vejam bem isto, quer uma pessoa ajudar, ser boa, e depois, zás, ISTO! 

[Foge, foge, Menino, que te querem matar!]

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O tempo está estranho

... já de há muito... mas nos últimos dias... bizarro...

Que tempos são estes?

Leitora à chuva
Incrédula

(Imagem retirada de aqui)

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Desacordo

Acabada de chegar de uma sessão de esclarecimento sobre o novo acordo ortográfico.
O locutor, mui sabedor das regras de falar em público: a graçola inicial, warming, a referência ao lugar, o sumário do percurso, o suspense, o envolvimento do auditório, e as regras interactivas, com seu powerpoint, a conclusão, com nova graçola, a nuancezita semi-brejeira a fechar! Que lindo! O acordo ortográfico é lindo, as novas regras são muito mais simples, as excepções não têm explicação, o melhor é decorá-las. Para colmatar tanta lindeza só falta a facultatividade e a consagração pelo uso, que, em caso de dúvida, se resolve com o vocabulário publicado no dito site oficial, e o que faltar logo se verá.

Alguém saberá da necessidade do novo acordo ortográfico? E, já agora, dos seus custos? Haja paciência!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Como?

O alter ego da leitora está a ressequir. De manhã suores, a partir do almoço, a pele a estalar, o cabelo a estranhar-se, longe, longe do viço habitual. Agora, ao abrir o computador, o inacreditável!

[O melhor é esquecer e ir ali à procura de cremes hidratantes, paliativos...]

domingo, 4 de setembro de 2011

A persistência de certos amigos

A amiga Cunha

A propósito de uma entrevista lida entretanto, lembrou-se a leitora de uma adivinha de antanho:

- Qual é a coisa, qual é ela,
que cai no chão e fica amarela?... e tem um pêlo?
- Sei... Um pêlo?... Não sei.  O que é, o que é?
- É o ovo; o pêlo está lá só para disfarçar!